Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas

Part 6

Chapter 64,230 wordsPublic domain

186 Quando se tira a argilla da terra, leva-se para casa do obreiro, põe-se em pequenos pedaços, lança-se em huma cova com agua, para ella se penetrar, e fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, e entaõ se tira em massa; o obreiro a corta, e a torna a pôr em camadas na mesma cova de donde a tirou, para a amassar, e misturalla com huma pouca de area, ligeiramente salpicada de cal: finalmente amassa-se como fazem os oleiros de París; depois de se ter amassado, e tornado a ajuntar por quatro vezes, se fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, para o amassar, e trabalhar bem, como fica já explicado a fundo. Trabalha-se depois sobre huma roda de ferro _est. II_, _fig. 4_, e _5_. ou de páo que se faz mover com o pé _fig. 18_, _est. I_; porque os oleiros de Savignier se servem de humas, e outras, segundo as obras, que elles tem de fazer. Em huma palavra o trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe essencialmente, do que acima disse tanto para a factura das obras, como para dar-lhe o verniz.

187 As louças de greda se cozem a grande fogo; os fornos estaõ postos em pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ de terra; differem pouco dos fornos dos oleiros dos suburbios de S. Marçal _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. só com a differença, que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, se caminha sempre subindo desde a entrada até o fundo do forno, e isto facilita a distribuiçaõ do ar quente. Na parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo de chaminé _C D_, _fig. 3_. _est. I_; mas na parte baixa _C_, se formaõ pequenas arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por este lugar he que se metem as obras no forno, depois se fecha com huma parede de tijolos. Estes fornos ordinariamente tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, ou doze de largo no meio, e huma altura igual debaixo da abobada; porém na sua embocadura só tem quasi seis pés de alto.

188 O fogo se faz diante da embocadura do forno em huma fornalha de abobada, que tem quasi quatro pés de largo, e cinco de comprido, e outro tanto de alto. Começa-se com hum pequeno fogo, depois se augmenta, e se acaba com hum fogo de lenha miuda, que se inflama muito, e se continúa oito dias, e oito noutes sem interrupçaõ.

189 As louças, que devem servir no fogo, ou que haõ de ser envernizadas, naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se quasi como as louças de París; mas para cozer as louças de greda se gastaõ 16, ou 18 cordas (_cada corda tem 4 pés d’alto, e 8 de comprido_) de páos grossos, e quatro centos feixes de lenha mais fina para o ultimo fogo.

190 A manteiga de Prevalais, vem em potes de huma greda azulada, que he muito boa; mas eu naõ sei exactamente o modo de trabalhar esta pequena louça, e por isso naõ entro em grandes individuações a este respeito.

191 Em _Zimmeren_, quatro legoas de Treveris, e em muitos lugares na provincia de Luxembourg, se faz huma especie de louça que he muito boa, de huma greda muito fina, e branca, cuja superficie he luzente sem se cubrir de verniz; este brilhante he formado pelo mesmo barro, que passou por huma vitrificaçaõ superficial; eu penso que ella se forma pelo vapor do sal marinho, que se lança no forno, como nas obras de barros brancos, que se tem feito em Montereau.

192 Os que vem da provincia de Luxembourg, trazem todos os annos desta louça a París ao Armazem de louça fina, aonde vaõ comprar os que contrataõ neste genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos sobre o modo trabalhar nestas louças.

193 Julgo, que os barros, que fazem boas louças de greda, se preparaõ de argilla, de hum bocado de area vitrificavel, e de area muito refractaria; porque em todas as fabricas, onde se fazem boas louças, e ainda mesmo nas de porcelana, se fazem entrar com successo na composiçaõ pedaços de louças quebradas, reduzidas a pó, depois de se conhecer, que saõ de qualidade capaz de resistir a hum grande gráo de fogo.

_Das Louças de S. Fargeau._

194 Além das louças de greda, que se fazem em Bretanha, Normandia, e Picardia, se fazem muito boas em S. Fargeau. Como esta cidade, que he huma das mais antigas de França, está distante de Briara quatro legoas. O Loire serve para se transportar esta louça a muitos lugares. Leva-se pelo Loire por exemplo a Chateauneuf, de donde se destribue por terra a muitos lugares. Como daqui vem a Pithiviers, cidade muito visinha ás nossas terras, tive occasiaõ de a comprar, e conhecer a bondade desta louça; cheguei mesmo a prover-me de vasos de Chymica, que mandei fazer em S. Fargeau por modelos, que enviei. Ha ahi louças, que saõ cubertas de hum verniz escuro muito duro, e que resistem muito bem a acçaõ dos acidos mais concentrados; tive cucurbitas, e capiteis de lambiques, em que ajustei grandes refrigerantes de cobre; estes vasos saõ taõ impenetraveis aos vapores os mais subtís, como o melhor vidro, e resistem muito melhor a acçaõ do fogo.

195 Como quiz adquirir conhecimentos sobre a natureza desta louça, procurei com confiança a Mr. o Presidente de S. Fargeau, por conhecer o seu zelo para tudo, o que tem relaçaõ com o progresso das artes, e que pode utilisar ao bem público. Elle mesmo quiz responder em huma Memoria as perguntas que lhe fiz por instruçaõ sua, e isto me põe em estado de dar huma idéa bem exacta dos methodos, que seguem os oleiros deste lugar. Ainda que estas louças saõ conhecidas pelo nome de greda de S. Farjeau, com tudo ellas se naõ fazem nesta cidade mas sim em huma pequena povoaçaõ que dista huma, ou duas legoas da cidade.

196 Em geral a argilla, que se emprega para a louça que nos occupa, he cinzenta; mas della se distinguem duas qualidades; huma mais branca, que a outra, tem huma area fina; com este barro se fazem vasos de huma greda mais compacta, e fina, do que com a outra, e se coze mais forte. Ellas naõ vaõ ao fogo; e por isso desta greda se fazem potes de manteiga, quartas, e botelhas etc. Este barro, depois de cozido, toma huma côr amarella clara; com tudo, fazendo se passar por hum grande fogo, toma a côr cinzenta. Com elle se fazem vasos, que se envernizaõ, e outros naõ: para distinguir este barro do outro, eu o chamarei barro branco.

197 A outra especie de barro tambem he côr de cinza, porém mais escura, que a precedente; e por isso o chamarei escuro. Os oleiros achaõ esta argilla mais forte, e mais pura, que a branca: com este barro he que elles fazem os utensis do uso que devem ir ao fogo; naõ o cozem taõ forte, como o outro, e huns vasos vaõ envernizados, e outros naõ. Estes dous barros, sendo cozidos, tomaõ a mesma côr pouco mais, ou menos, e os vasos, feitos de hum, ou outro barro destes, nos lugares, aonde ficaõ mais expostos a acçaõ do fogo, se tornaõ brilhantes na superficie, como se fossem envernizados.

198 Os oleiros fazem muitas obras de cada hum destes barros separados, e puros, sem mistura alguma; tambem as fazem de ambos os barros branco, e escuro misturados, sem lhe ajuntarem outro barro, ou area.

199 Ambos estes barros se achaõ mais, ou menos fundo em camadas de dous pés, até seis de grosso. Estes bancos de argilla se cavaõ facilmente com o enxadaõ, ou enxada.

200 Estes barros saõ bem finos; e moem-se entre os dedos; com tudo entre elles se encontraõ calháos, e pedras, e se lançaõ fóra quando se achaõ nas maõs, ou debaixo dos pés.

201 Este barro se reduz a pequenos pedaços com qualquer instrumento, que corte; depois, humedecendo-se com agua, se amassa até tres vezes, e depois se trabalha com as maõs, como fazem os oleiros de París.

202 Muitas vezes o amassaõ, logo que o tiraõ; com tudo os oleiros convem, que elle se trabalha melhor, depois de passar hum inverno ao ar; e este sentimento he geral em todas as olarias.

203 Como disse acima, que se humedecia para o pôr em estado de ser amassado, devo advertir, que o naõ lançaõ na agua, como fazem os oleiros de París; porém deitaõ de doze, até quinze baldes de agua em huma carrada de barro.

204 Os vasos se trabalhaõ em huma roda, que se faz andar com hum páo, como se vê representado na _est. II_, _fig. 4_, e _5_.

205 Põe-se as azas, e se aperfeiçoa a obra, do mesmo modo que fazem os oleiros de París, como fica dito.

206 O forno dos oleiros de S. Fargeau, com pouca differença, he o mesmo que fica representado na _est. I_, porém he hum pouco metido pela terra; de modo que para meter a lenha, se precisa descer a huma cova, que tem quasi nove pés de largo, quatro de fundo, e quatro de vaõ. O corpo do forno, aonde se arrumaõ os vasos, tem dezenove pés de comprido, dez de largo, onde ha maior largura, e seis de alto.

207 Para huma fornada se gastaõ vinte cordas de lenha miuda, ou nove de lenha grossa; daqui se vê que estes fornos se esquentaõ por hum modo muito differente dos de París.

208 O fogo dura quatro dias, e tres noites sem parar; por doze horas he o fogo brando para esquentar, e todo o mais tempo he com muito fogo para cozer perfeitamente: quando se para com o fogo, se fecha o forno, e fica assim tres dias, e tres noites, de sorte que, quando se tira a louça, já ella está fria. Se a louça se tirasse logo huma parte quebraria derrepente, e o resto seria muito fragil; e desta sorte o tempo, que a louça fica no forno depois de cozida, equivale ao recozimento dos vidraceiros, sem o qual tudo se quebraria, principalmente passando do quente para o frio.

209 Põe-se no mesmo forno os vasos de barro branco, que naõ se destinaõ para servir no fogo, os de barro cinzento, que haõ-de ir ao fogo, e os da mistura destes dous barros. Toda a differença, que se observa no cozer, he pôr os vasos de barro branco perto da entrada do forno, no lugar aonde ha maior calor, e os de barro misturado no meio do forno, e os de barro cinzento na extremidade do forno, onde ha menos calor.

210 Os oleiros de S. Fargeau fazem o seu verniz com duas materias mais, ou menos vitrificaveis, a que chamaõ _Latier_; este _Latter_ vem das fornalhas, em que se trabalha a mina de ferro. Hum he escuro, e em parte vitrificado; o outro he verde, e he hum verdadeiro vidro muito duro.

211 Achaõ-se estas substancias espalhadas sobre a terra; ainda que junto a S. Fargeau naõ hajaõ fornalhas de ferro; presume-se que as houveraõ antigamente. Reduzem a pó por meio de huma maquina de dous pilões que se faz mover por huma manivela, e de huma roda; estes pilões na ponta debaixo levaõ huma chapa de ferro, como a dos pilões de socar casca de curtume. Quando se precisa pouca quantidade de verniz, se pulverisaõ as materias, de que acabo de fallar em hum gral com maõ de ferro; passaõ-se por huma peneira de cabello; este pó entaõ está da côr de cinza, e os oleiros o chamaõ _Latier en laquet_, (escoria para verniz).

212 Applica-se este verniz ao barro crú, porém bem secco; para o pó se pegar, se humedecem os vasos em agua, e se pulverisaõ exactamente com este pó, que fica muito adherente, quando se derrete pela acçaõ de hum grande fogo, e se encorpora a superficie do barro.

213 Como se applica sobre estes vasos crús, o mesmo fogo, que coze o vaso, faz derreter o verniz, que se torna escuro côr de castanha, e muito duro.

214 Para os vasos de barro branco mais expostos ao fogo se mistura com a escoria huma pouca de cinza fresca passada por peneira. Dizem os oleiros, que sem isto, o verniz se queimaria. No meio do comprimento do forno se põe simplesmente as escorias; e na ponta, aonde ha menos fogo, se ajunta ás escorias hum bocado de cal de chumbo para ajudar a fusaõ.

215 Este verniz, como já disse, toma huma côr da castanha muito unida, e brilhante, e he taõ bom como o dos oleiros de París; mas he preciso hum grande fogo para o fazer derreter: e nisto convem com louças que se cozem em greda e todas as de S. Fargeau saõ desta qualidade.

_Modo de procurar as louças huma côr negra, que de algum modo supre o verniz._

216 Eu tirei do Calendario Limousino, algumas individuações sobre as louças de S. Eutropio em Angoumes especialmente sobre as que chamaõ panellas, e destas humas saõ envernizadas, e outras naõ; estas vaõ huma só vez ao forno, as outras vaõ duas vezes, e nelle se deixaõ tres dias para ficarem perfeitamente cozidas. Seu verniz nada tem de particular: porém he justo referir huma industria, com que os oleiros de algum modo suprem o verniz, tingindo de preto os vasos, que em muitas serventias saõ preferiveis aos envernizados. Consiste pois nisto sua industria.

217 Assim que se põe a louça no forno, se lhe lança, por cima cinza de Estevas, ou urzes, e se cobrem com ella o mais que póde ser. Põe-se depois seis, ou sete feixes deste arbusto no fogo. Depois de se inflammarem bem estes feixes se tapaõ as bocas superiores do forno, e se sufoca o fogo: a louça deste modo recebe a fumaça, que a penetra, quando ella está ainda humida (a que chamaõ suar a louça) quando se começa a esquentar, ou a dar a tempera. Esta fumaça ajuntando-se com a cinza faz huma côr negra, e muito solida ás louças. Depois desta fumigaçaõ, se abrem os buracos superiores do forno, e se continua a cozer a louça.

_Louça de Inglaterra._

218 Mr. Jars, correspondente da Academia, sabendo, que eu me occupava em fazer a arte de oleiro teve prazer em me communicar algumas memorias sobre a louça de Inglaterra, que elle tinha achado entre os papeis do falecido seu irmaõ da Academia das Sciencias. Naõ deve haver duvida, que se Mr. Jars as tinha publicado, teria ajuntado muitas individuações, que as fizessem mais claras; mas julguei devellas dar taes, quaes elle me remetteo, persuadido que as pessoas já instruidas no trabalho da louça poderaõ nellas achar algumas praticas, que cooperem para a perfeiçaõ desta arte.

219 _Comté de Nordhumberlane._ Nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle se estabeleceraõ differentes fabricas de louça; onde se fazem de toda a qualidade, a excepçaõ só da branca, que em França chamamos de barro de Inglaterra.

220 Neuwcastle está situada com a maior vantagem para este commercio: o carvaõ de pedra he muito, e barato, porque o do gasto do paiz naõ paga direito algum.

221 Em quanto aos materiaes proprios para fazer a louça estes tambem lhes vem baratos, porque os Navios que vaõ levar o carvaõ a Londres, na volta lhos trazem; visto deverem trazer lastro. A materia propria para fazer a pederneira, ou pedras de tirar fogo: sabe-se que dellas ha grande abundancia na parte Meridional de Inglaterra; pois de Douvres até Londres, quasi todo o terreno he huma mistura de greda, e pederneiras.

222 Destas materias fazem o lastro os mais dos Navios, que muitas vezes voltaõ de Londres vazios; deves-se suppôr, que tornando a Neuwcastle ellas se vendem baratas; os que tomaõ os fornos de cal de empreitada, que saõ muitos na visinhança do rio, as compraõ; elles fazem huma mistura de greda, pederneira, e pedra de cal sem distinçaõ alguma, e cozem tudo acamado, huma cousa por cima de outra. Depois da calcinaçaõ he muito facil distinguir a pederneira, ainda que se torna muito branca de escura que era dantes; põe se de parte esta pederneira para se vender aos oleiros, a razaõ de oito, ou nove xelins a tonelada; e cada huma tem vinte quintaes de cento, e doze libras de pezo de Inglaterra.

223 Em geral saõ semilhantes todos os fornos, de que se servem para cozer a louça; só differem na construçaõ em serem maiores, ou mais pequenos.

224 A louça ordinaria, que se chama louça fina, para a distinguir de huma mais, commum, do que adiante se fallará, se faz de huma argila de côr cinzenta, tirando mais a branca, e da pederneira calcinada, que entra na composiçaõ de quasi todas as louças. Antes de misturar, ou preparar, como se segue.

225 Cada fabrica tem huma especie de moinho, para moer a pederneira, que he tocado por agua, ou por hum cavallo; alguns donos destes moinhos compraõ a pederneira, e a vendem, depois de moida aos oleiros. Este moinho consiste em huma especie de pia de páo de cinco, ou seis pés de diametro, cujo fundo se faz de humas grandes pederneiras naõ calcinadas, postas humas ao pé das outras de modo, que deixaõ entre si vacuos bem consideraveis; no meio deste fundo ha hum mancal, que recebe o piaõ de hum páo vertical com hum braço em que se prende o cavallo, ou bois que o tocao (no Brazil se chama atafona;) em roda deste páo estaõ muitas pederneiras grandes encaixadas, e seguras com gatos de ferro, que servem de mós. Mr. Jars, vio destes moinhos, aonde em lugares de pederneiras, se servem de marmores durissimos, de que fazem a mó superior, unindo quatro pedras grossas com gatos de ferro ao páo vertical.

226 Nestes moinhos, e entre estas pedras, se moe a dita pederneira calcinada, lançando-lhe sempre agua; quando a agua está já bem carregada, se tira huma cavilha de páo, que está na pia, para cahir agua em huma peneira de cabello, e desta em huma celha: lança-se nova agua no moinho, e se procede do mesmo modo, que fica dito, lançando outra vez na pia, o que naõ póde passar pela peneira; depois disto, se passa por huma peneira de seda muito fina, quando se quer misturar com a argilla, que se prepara do modo seguinte.

227 A argilla, de que se faz a louça, se tira do condado de Devonshire, de donde vem por mar, e serve de fazer lastro aos Navios de volta, como a pederneira; tambem se servem della para fazer pitos: posta em Neuwcastle custa sete, ou oito xelins a tonelada. He côr de cinza, tirando mais o branco; tem a grã muito fina; dilue-se com agua em tanques grandes, agitando-a bem para se dividir melhor; depois se passa esta argilla desfeita n’agua por huma peneira de cabello taõ fina, como aquella, em que se passou a pederneira, e depois em huma de seda taõ fina, como a da pederneira; e entaõ se vai logo fazer a mistura.

228 Misturaõ se dez partes de agua carregada de argilla com huma parte da agua da pederneira: estando tudo bem misturado, se trata da evaporaçaõ da humidade, e reduzir tudo a consistencia de massa, o mais breve que for possivel, para que a pedra naõ tenha tempo de se separar da argilla, e precipitar-se, o que faria a mistura desigual. Tem-se experimentado o calor do sol, mas sem fruto; servem-se de humas especies de fornos para esta opperaçaõ.

229 Estes fornos consistem em huma caixa comprida, ou especie de bacia formada de tijolos, sustida por cima com barras de ferro: tem huma grelha para se fazer ahi fogo de carvaõ de terra, e na extremidade da caixa huma chaminé para receber a fumaça. Esta mistura carregada de agua se põe nestas para evaporar-lhe a humidade, até huma consistencia conveniente para ser amassada; depois disto se tira este barro, e se põe em hum lar liso, feito de pedras chatas, ou com taboas: aqui se trata de amassar tudo, e pôr a massa em ponto de ser trabalhada.

230 Formaõ-se logo obras a maõ na roda orisontal, quando ellas estaõ já meias seccas, se acabaõ na roda vertical com os instrumentos; outras finalmente se formaõ em moldes de gesso: para preparar estes moldes, o melhor modo de queimar o gesso he o seguinte.

231 O do uso ordinario, que se chama alabastro, parece ser hum gesso branco semilhante ao que se tira nas visinhanças de Salins em _Franche Comté_; reduz-se a pó que se passa por huma peneira muito fina; depois se põe ao fogo dentro em hum vaso de barro; move-se bem com hum páo de espaço em espaço; e logo que elle se agita pelos globulos de ar, que delle sahem, se chama a isto _fazello ferver_. Continua-se até se julgar bem calcinado, depois se humedece com agua para fazerem moldes do modo que se quer.

232 Mr. Jars vio preparar bules para chá, cujo corpo se fez com as duas differentes rodas; mas a aza, e o bico se fazem em moldes de gesso; estes moldes estaõ perto do fogo para estarem seccos. Quando se quer formar a aza de hum bule de chá que está feito ordinariamente, se tem hum molde que consiste de duas peças de gesso, se applica huma sobre a outra, e que saõ ocas com a figura que deve ter a aza; faz-se hum rolo do barro, e se estende no molde de maneira, que o encha perfeitamente; applica-se por cima a outra a metade do molde; depois se põe tudo ao pé do fogo hum bocado de tempo; tira-se a peça do molde, e se ajusta no corpo do bule humedecendo o barro com agua no lugar aonde se soldar.

233 Os bicos se fazem por modo alguma cousa differente, tem-se moldes semelhantes aos precedentes, bem seccos, e applicados hum sobre outro: em huma das extremidades, que communica na capacidade interior, tem hum buraco, por onde se lança a massa muito clara, porém de modo, que fica huma abertura no interior da peça formada, que vem a fazer o bico do bule. O molde de gesso bem secco sem duvida, he o que ajuda a fazer este vacuo, embebendo com a sua porozidade a agua da massa do barro, assim que esta toca nas paredes do molde. Este molde se põe por algum tempo ao pé do fogo, como o outro de que já fallei, antes de se tirar a peça, que depois se solda no bule, do mesmo modo que se solda a aza.

234 Mr. Jars, vio em differentes fabricas muitos moldes de gesso para fazer pratos, e tigellas recortadas, e com differentes feitios: vantagem consideravel, para diminuir o preço da maõ de obra. Toda a louça, feita deste modo, se põe sobre taboas debaixo dos telheiros, ou alpendres aonde secca; ha caixas redondas feitas de barro ordinario, peneirado grosseiramente, porém amassado com muito cuidado; commummente tem duas pollegadas de grosso, quatro, ou cinco de fundo, e hum pé de diametro; nesta caixa se arruma de ordinario a louça; no forno, se põe huma sobre outra; fazem-se muitas ordens no fundo: isto fórma differentes pilhas, conforme o tamanho da fornalha.

235 Assim que está quasi cheio se fecha a porta falsa com tijolos, e barro, e se lança carvaõ nas cinco fornalhas de vento distribuidas em roda da fornalha grande. Quando se accende, entra a chama naõ só pelas cinco chaminés, mas tambem pelas pequenas aberturas, que vaõ ter a cada huma dellas; assim o calor se introduz igualmente por todo o interior da fornalha: este calor deve continuar trinta horas, depois que pára o fogo; logo que esfria a fornalha, se tira a louça para a envernizar.

236 Todos os vernizes, de que se usaõ, tem por base o chumbo; tambem se servem da pedra, ou mina de chumbo, o zarcaõ, e o alvaiade, conforme a qualidade da louça; accrescenta-se-lhe alguma outra materia para variar a côr. Para diminuir o preço do verniz se lhe ajunta huma certa quantidade de pederneira calcinada, e a mesma argilla, de que se faz a louça; assim que secca o verniz, com que se cubrio a louça, se põe de novo nas caixas, e depois na fornalha, como se fez d’antes, e ao cabo de trinta horas está em termos de ser vendida.

237 Pode-se usar de toda a qualidade de carvaõ para a cozer.

238 A louça assim preparada, e cozida, como fica dito, naõ está subjeita ao perigo de se quebrar pelo calor da agua fervendo, ou pelo fogo, com tanto que se naõ ponha de repente em hum fogo muito ardente. Esta louça serve para cozer no forno toda a qualidade de manjares, mas principalmente a louça branca, que se fabríca no Condado de _Stafford_. A sua descripçaõ tambem se ha de dar.

239 O interior da louça cozida he muito branco, e de huma grà muito compacta. Ainda que se lhe naõ percebe apparencia de vitrificaçaõ, se pode dizer, que se avisinha muito a ella.

240 Fabrica-se outra especie de louça no mesmo lugar, e fornalha, que se faz com outra argilla escura, como a precedente: nesta naõ entra a pederneira; mas a sessenta partes deste barro se ajunta huma parte de magnesia reduzida a pó muito fino: depois desta mistura, se evapora a maior parte da humidade em hum forno semelhante ao precedente; cobre-se de hum verniz negro, em cuja composiçaõ entra tambem a magnesia; esta louça passa pelas mesmas operações, que a primeira, e resiste igualmente ao calor.