Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas
Part 5
134 A abobada _F_ _fig. 4._ que cobre a parte superior da fornalha tem os buracos _aaa_, etc. Por estes buracos, que tambem se pódem vêr em _F_ _fig. 2._ se representa o fundo, ou pavimento do forno, que está por cima de abobada, que cobre a fornalha; por estes buracos _aaa_, he que passa o ar quente da fornalha, _A_, _fig. 4._ para o corpo do forno _G_, que está por cima, e no qual se arruma a obra que se quer cozer vidrada. Este corpo do forno he fechado por cima, com huma abobada _H_, _fig. 4._ a qual tem os buracos _bbb_, do mesmo modo que a abobada _F_; e isto mesmo se vê tambem na _fig. 5._ em _H_; e por estes buracos he, que o ar quente passa do corpo _G_, _fig. 4._ ao corpo _I_, aonde se põe as louças, que se querem cozer em branco. Como o ar quente sempre sobe, logo que o forno se esquente, no corpo _I_, he maior o calor do que no corpo _G_, que ao principio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto.
135 Na parte mais alta de abobada, que cobre este corpo superior, ha hum buraco _K_, _fig. 4_. de seis ou oito pollegadas em quadra, e de mais quatro buracos _K_, _fig. 1_. e _5_. Estes cinco buracos servem para dar sahida ao ar que entra pela boca da fornalha, para obrigar ao calor a sobir até ao alto do forno.
136 Enche-se a camera _G_, _fig. 4_. por huma porta _L_, _fig. 1_, e _4_. que se fecha com huma parede de tijolos, ou pedaços de louça, logo que se acabou de encher o forno, antes de accender o fogo: deixa se só huma pequena abertura em _M_, _fig. 1_. para dar sahida a huma parte da fumaça, que poderia enfraquecer a marcha do ar quente necessario para cozer a obra. Por cima desta pequena abertura _M_, ha huma parede como de huma chaminé de cozinha, e hum tubo _N_ _N_, _fig. 1_, e _4_. para conduzir a fumaça por senaõ espalhar na officina.
137 A camera ou o corpo superior _I_, _fig. 4_. se enche de louça, que se quer cozer em branco, por huma porta que está em _O_, e que se fecha, quando o corpo está cheio, fazendo no alto desta porta huma abertura semilhante á que fica notada em _M_, _fig. 1_, e, como se naõ receia incommodo de fumaça por ser esta abertura muito alta, se lhe naõ faz cuberta, nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo do forno _I_, por huma escada _P_. _fig. 1_.
138 Por fim se gradua o fogo como acima fica dito; começando por hum fogo pequeno para esquentar a obra, e acabando por hum fogo muito activo de lenha rachada.
ARTIGO X.
_Do verniz ou vidrado, que se põe na louça._
139 A maior parte das obras de barro ordinarias deixaõ transpirar a agua por seus poros, maiormente quando se mistura muita area no barro: misturando-se pouca area, os vasos conservaõ bem a agua; mas naõ pódem sofrer o fogo: ora, como a maior parte da louça, para os utensilios de huma casa deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe poupaõ a area; porém dando-lhe esta faculdade de rezistir ao fogo, se tornaõ penetraveis a agua, como se acaba de dizer. Quasi todos estes utensis com tudo a devem conter; para lhe dar esta propriedade, se cobrem de huma camada de verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa a agua passar. E assim para os alguidares, e vasos do uso das leiterias, os oleiros se servem de hum barro puro, que toma corpo, e naõ deixa transpirar a agua; porém estes vasos se quebrariaõ, se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ muita area no barro, de que haõ-de fazer os vasos, que servem para o fogo; e depois os vidraõ, para poderem reter a agua.
140 Aqui só se fallará em resumo do verniz das louças, que he muito grosseiro; porque o verdadeiro lugar de tratar disto a fundo, he quando se tratar da louça fina.
141 Os oleiros para vidrarem as suas obras, se servem da mina do chumbo; e a isto he que se chama pedra de chumbo no commercio, e os oleiros chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, ou chumbo vermelho, que impropriamente chamaõ mina de chumbo; que he huma cal de chumbo com huma côr vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars, nas memorias da Academia, deo o modo de o fazer tomar esta côr vermelha pela calcinaçaõ. Tambem se servem ainda do lithargirio, isto he, do chumbo calcinado, que perdeo huma parte do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e que está em hum estado de vitrificaçaõ imperfeita. Elles se servem destas substancias por dous modos, como agora vou a explicar.
_Primeiro methodo._
142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre huma peça de cobre para senaõ perder cousa alguma; passa-se por huma peneira de cabello, e o resto se piza em gral de ferro, e se torna a passar, até que tudo se passe pela peneira.
143 Alguns oleiros compraõ o chumbo em chapa, e elles mesmos o reduzem a cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, ou chumbo vermelho.[20]
144 Prepara-se o lithargirio como a pedra de chumbo; elle se reduz a pó muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; ajunta-se a hum, ou a outro destes pós por medida outra tanta quantidade de area como ha dos pós de lithargirio, zarcaõ ou da pedra de chumbo; deve-se notar, que todas as preparações de chumbo, se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ das substancias terreas; A area faz huma parte consideravel do verniz, por meio de chumbo, que serve de fundente: como o chumbo he caro, e a area naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ muito, misturando a area com o chumbo e eu creio, que esta liga da area naõ altera a bondade do vidrado. O chumbo só sobre o barro faz huma côr amarella, querendo-se que este esmalte, ou verniz seja verde, em duzentas libras de lithargirio, ou cal de chumbo se lançaõ sete, ou oito libras de limalha de cobre.[21] Querendo-se, que tenha huma côr escura, mistura-se-lhe manganesia, que he huma mina de ferro pobre e refractaria; ella he de hum azul denegrido granulado. Della se servem os vidraceiros; mas quando lançaõ muita, faz o vidro roxo. Acha-se em Piemonte, em Toscana, Bohemia, e Inglaterra. A pedra, que se vende com o nome de marcassita differe della pouco, ou nada. Estas materias, sendo pulverisadas, formaõ verdadeiramente o verniz dos oleiros, que só falta applica-lo sobre os vasos, que naõ foraõ ainda cozidos, porém que estaõ já seccos, e promptos para se cozerem. Para o pó se pegar aos vasos se humedecem na agua chamada gorda, que he a agua, em que se dissolveo a argilla; depois antes que esta agua se seque, se espalha por cima os pós de que acabamos de fallar, virando a peça por todos os lados, a fim de ficarem cobertos todos os lugares, que se querem envernizar; e como ha muitas peças, que só se querem esmaltar por dentro, nestas se naõ põe os pós pela parte de fóra.
145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, depois se arrumaõ no forno do modo, que já expliquei; de sorte que com huma só operaçaõ se coze o barro, e se derrete o verniz, que vitrifica na superficie. Por este methodo economiza-se a lenha; porém gasta muito chumbo: e tambem porque o pó senaõ póde espalhar igualmente, em alguns lugares fica muito, e quando se derrete, espalha se pelos outros vasos. Naõ he só este o inconveniente: como he preciso meter muita lenha para cozer as obras com grande fogo, ha tambem o inconveniente, de que, queimando-se esta, levanta muita cinza, que vem a offender o esmalte, quando se está derretendo.
146 O outro methodo consiste em pôr o verniz nos vasos, que já estaõ cozidos; gasta se mais lenha; porque as obras vaõ duas vezes a cozer ao forno; porém evitaõ-se entaõ os inconvenientes de que acabo de fallar; além do que, como os oleiros só depois das obras cozidas he que conhecem a perfeiçaõ dellas, ha huma grande vantagem em pôr o verniz nas peças depois de cozidas; pois em todas as fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ algumas peças, e assim só se põe o verniz ou esmalte nas que sahem do forno perfeitas. Daqui resulta ser menos o gasto do chumbo, naõ levando verniz, as peças que quebraraõ; este methodo tambem contribue muito a economisar o chumbo; porque os que o seguem livigaõ o lithargirio, e a pedra de chumbo com agua em huma mó representada separadamente _est. II_, _fig. 11_, e _12_. Elles livigaõ estas differentes substancias separadas, e com agua de sorte, que correm á maneira de caldo, pelos vasos, que lhe ficaõ por baixo, e põe o verniz liquido na louça, cozida, lançando esta especie de caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro nelle as peças, que se querem envernizar por dentro, e por fóra; e isto he melhor, e de mais economia. Applica-se o verniz com hum pincel, que o põe mais lizo, e só se põe nos lugares onde se julga conveniente. Finalmente estas substancias bem livigadas se applicaõ aos vasos em corpo o mais delgado, que he possivel e se julga conveniente.
147 Deixaõ-se seccar as peças, o que se faz em pouco tempo, porque a louça que vem do forno atrahe promptamente a humidade.
148 Põe-se no forno, onde se lhe dá hum fogo pouco mais ou menos igual áquelle com que se coziaõ; mas naõ se deve meter lenha entre as peças, e sobre a obra; por evitar, que a cinza senaõ espalhe sobre o verniz, quando está derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente, em pôr lenha dos lados, principalmente quando ha a precauçaõ de se pôr perto alguns vasos, que naõ sejaõ envernizados, ou que se cozem a primeira vez; e he melhor conservar o fogo por mais tempo no forno, do que meter lenha entre a louça. Huma das vantagens do forno, que imita o dos louceiros de obra fina, he naõ estar exposto ao inconveniente das cinzas.
149 Os oleiros naõ concordaõ em dar a preferencia a hum destes methodos; cada hum se encosta áquelle que pratíca. Os que applicaõ o verniz em pó sobre o barro crú confessaõ, que gastaõ mais chumbo; porém dizem, que o seu verniz ou esmalte penetra melhor o barro, e se pega mais intimamente. Os outros sustentaõ que o verniz pega muito bem no barro cozido, e allegaõ a favor do seu methodo o menor consummo do chumbo, e o aceio da sua obra, sendo o verniz distribuido em huma grossura mais uniforme; mas os que seguem este methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer sobre hum ponto, que me parece bem importante. Huns dizem que só basta cozer medianamente a obra, antes de a meter no verniz, para que o verniz se possa introduzir pelos poros do barro, e que ao depois he preciso dar hum grande fogo para cozer as obras cubertas de verniz.
150 Outros dizem, que da primeira vez, que se cozem, he preciso fazer hum grande fogo, e da segunda quanto baste para derreter bem o verniz: a favor desta pratica podem dizer, que, como o chumbo vitrifica a area, produz este effeito naquella, que está na superficie dos vasos cozidos, o que o faz muito adherente a estas qualidades de obras; em segundo lugar; que naõ sendo preciso hum grande fogo para o cozimento, se evita o meter lenha entre a louça, e por cima della, e isto a izenta dos maõs effeitos da cinza.
151 Eu me inclino á primeira pratica, porque se precisa hum fogo violento, para fundir bem o esmalte, e este mesmo fogo acaba de cozer o barro: preciza o verniz estar bem derretido, para o chumbo poder vitrificar a area, que está na superficie da louça. Este sentimento he conforme ao uso de quasi todos os oleiros; com tudo naõ me proponho a decidir qual seja o methodo; porque naõ tive occaziaõ de fazer sobre isto experiencias decisivas.
152 Parece-me que o artigo do verniz se poderia aperfeiçoar, sem obrigar os oleiros ás despezas consideraveis; julgo por exemplo, que elles deveriaõ, misturar com o seu chumbo huma area, ou hum _quartz_ fusivel[22] que se vitrifica facilmente com o chumbo, e deste modo poderia economisar este metal; talvez mesmo, que achassem elles huma vantajem em frittar[23] sua area antes de a misturar com o chumbo; e o moido poderia ser melhor que a area. Por hora, saõ idéas, que se devem olhar como simples conjecturas, até que se experimentem, e conbinem por differentes modos.
153 Todas as vezes, que se coze, se fecha exactamente o forno, logo que cessa o fogo; para que conserve o calor, e as peças, esfriem pouco a pouco: porque huma parte da louça quebraria se ao sahir quente do forno, se expozessem ao ar frio. Quando o forno está já bem frio, e se quer tirar a louça, se abre a parede, ou porta falsa, para por ella se tirarem as obras que estaõ cozidas; porém muitas vezes succede, que, o verniz derretendo-se, corre de hum vaso para outro, e se achaõ muitos vasos pegados. Quando a adherencia he pouco consideravel, se separa facilmente; mas algumas vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar, e este inconveniente succede mais vezes áquelles que põe o verniz em pó, do que os que usaõ delle diluido em agua, porque a camada do verniz he mais delgada, e por isso menos sujeita a correr.
154 Já disse, que o verniz naõ pegava sobre as manchas negras semilhantes a escoria do ferro, que fazem os pyrites, que se queimaõ ao cozer. Quando as peças valem o trabalho, os oleiros reparaõ em parte estes defeitos, pondo muito verniz sobre as manchas negras; porém estas obras precizaõ tornar outra vez ao forno, e causaõ grande incómmodo ao oleiro. Quando se tiraõ do forno as peças, as mulheres com facas grossas tiraõ os pedaços de barro, que se prendem aos vasos.
155 Como sobre as louças de Lyones vi obras, e louças fabricadas nas provincias vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer tambem alguma cousa a respeito dellas; e para isto procurei a Mr. de la Tourrette da Academia de Liaõ, e correspondente da Academia das Sciencias de Pariz, que tem hum zelo admiravel em ajudar com suas luzes todos, que emprendem indagações uteis.
156 As memorias, que me procurou Mr. de la Tourrette, dizem respeito a tres qualidades de louças; que saõ a de Prá em Forez, a de Franche ville em Liones, e a de S. Valerio no Delphinado. Agora só me servirei das excellentes memorias, que recebi sobre a louça de S. Valerio, porque, como as obras, que ahi se fazem, saõ de louça fina, he justo fallar dellas, quando se tratar da arte de louça fina, que ao depois se publicará.
_Da louça de Prá em Forez._[24]
157 Prá he huma aldea junto á freguezia, e termo de S. Bonnet-Les-Oules em Forez distante duas boas legoas de S. Estevaõ, e huma de S. Galmier.
158 Dizem, que o estabelecimento desta fabrica de louças tem perto de quatrocentos annos: em outro tempo haviaõ neste lugar quarenta olarias, e cada huma tinha seu forno; agora só tem cinco, por causa das muitas olarias, que se tem estabelecido na mesma provincia.
159 Nestas louças se empregaõ duas qualidades de barro, que se misturaõ, hum vermelho, e outro escuro, ambas se achaõ em abundancia perto de Prá nos confins da freguezia de S. Bonnet, e nos das freguezias de Bauthcon, e Vanche.
160 Achaõ-se na terra em bancos mais, ou menos extensos, os do barro escuro tem quasi dez pollegadas de alto, e os de barro vermelho saõ mais grossos; o barro escuro he mais gordo que o vermelho.
161 As louças de Prá soffrem melhor o fogo, do que outras muitas.
162 Amassaõ-se estes barros com hum masso de ferro sobre huma prancha, ou mesa forte, e depois se trabalhaõ na roda.
163 Os fornos saõ redondos, tem cinco, ou seis pés de diametro, e sete, ou oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de tijolos grossos juntos com barro gordo, e levaõ huma contra parede, feita de pedra de edificios com argamassa de cal, e area.
164 Estes fornos, que se assemelhaõ bem aos de telheiros se esquentaõ com lenha por tempo de dez, ou doze horas, e mais segundo a estaçaõ: nas primeiras quatro, ou cinco horas só se faz hum pequeno fogo; depois se augmenta, e se faz muito activo.
165 O verniz se faz da pedra de chumbo, ou do mesmo chumbo que se tira em pedra das minas vizinhas: pizaõ se, e passaõ se por huma peneira, e se livigaõ com pedras muito duras _Est. II_, _fig. 11_, e _12_. _G_, _H_.
166 Tendo-se preparado assim o verniz se usa delle liquido; lança-se nos vasos, e se voltaõ para todos os lados, como se os lavassem. Estando o corpo da peça cuberto de verniz, se lança o resto em huma celha, para servir para outros vasos.
167 Applica-se o verniz sobre vasos côr de cinza, mas muito seccos; e quando o verniz está secco, se põe as louças no forno.
168 Querendo-se, que o verniz seja verde, mistura-se limalha de cobre com o chumbo, como acima se disse.
169 Os vasos desta qualidade de louça rezistem muito ao fogo, como tambem os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes; tem se feito muitas experiencias em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous barros misturados, e amassados juntos, como já fica dito.
170 Fazem-se nestas olarias, tijellas, pratos grandes, e pequenos.
_Louça de Franche ville em Lyones._
171 Julga-se em Lyones que esta olaria já existia no tempo dos Romanos.
172 Usaõ ahi de duas sortes de barros, hum amarello, e outro côr de cinza, e ha alguns, que tem mistura destas duas côres. O amarello se acha ordinariamente em hum terreno magro, e areento, em lugares muitos elevados; o côr de cinza em valles por bancos maiores, ou menores, e mais, ou menos espessos; mas estes barros saõ muito abundantes, porque neste lugar se fabríca muita louça, desde hum tempo immemoravel.
173 O barro amarello he mais aspero ao toque, e mais grosseiro, do que o côr de cinza, que he muito macio, e nelle senaõ encontraõ area.
174 O amarello soffre melhor o fogo, do que o côr de cinza.
175 Em Franche ville se fazem duas qualidades de louça; e isto depende da especie de barro de que a fazem.
176 O amarello resiste perfeitamente o fogo; o cinzento, que se chama _gaubino_, como he hum barro mais puro faz huma louça mais compacta, que naõ póde aturar o fogo; mas a louça feita com o barro amarello, se descasca ao ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie; o côr de cinza supporta muito melhor as suas influencias.
177 Dizem, que as plantas postas em vasos deste barro naõ produzem. Misturaõ-se estes dous barros para hum corrigir as faltas do outro.
178 Nas olarias se fazem vasos na roda, e outros em molde conforme requer a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes barros batendo-os com huma massa de ferro como se faz em Prá.
179 Os fornos, semelhantes aos dos telheiros, humas vezes saõ redondos, e outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo de huma abobada, em que ha buracos quadrados de tres, até quatro pollegadas de diametro, separadas humas das outras seis, ou sete pollegadas; para que o ar quente se communique ao interior do forno, onde se arrumaõ as obras, ellas devem estar bem seccas antes de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi cento e quarenta feixes pequenos de lenha para huma fornada.
180 Para envernizar estas louças, querendo-se que o esmalte seja verde, se usa do chumbo hermetico, ou mina de chumbo, que se liviga debaixo da mó com agua, como fica dito, e a limalha de cobre. Querendo-se fazer o verniz branco, naõ se lhe ajunta a limalha de cobre; e quando se usa do chumbo só em huma louça de barro amarello, fica o esmalte avermelhado: este verniz se emprega no barro crú. Limito-me a estas indicações geraes, porque já se tratáraõ com individuaçaõ em outro lugar.
ARTIGO XI.
_Das Louças, que se chamaõ de greda._
181 A vista do que disse no principio deste pequeno tratado a argilla he a baze dos barros, que servem para fazer as louças; porém segundo as substancias, que se achaõ misturadas com a argilla, ha humas, que fazem obras muito mais solidas do que outras. Quando estas substancias tornaõ a argilla fusivel, se cozem com pouco fogo, e por isso se póde dar a louça mais barata; destas he que acabei agora de tratar. A argilla pura, sendo de natureza a encolher muito, se racha ao seccar, ou ao cozer; mas quando a argilla se mistura com huma area refractaria, ou muito difficil de derreter, resulta daqui hum barro, que póde seccar, e cozer-se sem rachar, e que faz louças muito duras, quando experimentaõ hum grande fogo. Em geral este he o motivo porque se chama louça de greda. Ha qualidades dellas muito differentes; os vasos de greda côr de castanha, em que vem as manteigas de Isigny, saõ muito duras, e sonoras; elles rezistem muito bem a hum fogo grande, e naõ saõ atacaveis pelos acidos: esta he huma excellente louça; he quasi taõ sonora como a porcelana, quando se quebra a sua grã he muito fina, e hum pouco brilhante: e por isso he muito chegada á natureza do vidro; tambem tem o defeito de se quebrar, quando se faz passar subitamente do quente para o frio, ou ao contrario. E porque suspeitei, que este defeito vinha, de estar a argilla ligada com muita area que se tinha vitrificado pelo muito fogo, eu a fiz lavar; e depois de se ter precipitado huma pouca de area mais pezada, e mais grosseira, e pequenas pyrites, que tinha em grande quantidade, mandei fazer cadinhos com o barro fino, que depois se precipitou. Estes cadinhos vindo vermelhos do fogo, e depois mettendo-se em agua fria senaõ quebráraõ. Se eu estivesse vizinho destas olarias, persuado-me que poderia fazer vasos, naõ taõ formosos, como os de louça fina, a mais commum, porém que seriaõ taõ bons para o uso como a melhor porcelana. Fiz vir este barro de Gournai, a Normandia; mas como naõ me podia vir, senaõ em pequena quantidade, só fiz muito poucas experiencias em obras pequenas, porque se acabou logo o barro. Convido os phisicos, que tiverem a maõ as olarias de greda, a fazerem experiencias mais decisivas do que estas, que acabo de referir; porque esta especie de barro me parece digna de sua attençaõ.
182 Como quasi todas as louças de greda, que se vendem em París vem de Beauvais, e que naõ ha lugares em todo o reino, aonde se trabalha nestas qualidades de louças, que passaõ mesmo para os estrangeiros, desejei ter maiores luzes sobre a posiçaõ das veias do barro proprio para estas louças, sobre o modo de o preparar, finalmente sobre tudo, o que respeita a esta qualidade de obras.
183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ em outro tempo em huma freguezia, que ainda agora se chama _S. Germano da olaria_; porém ellas se tem abandonado: agora neste lugar só se fazem tijolos, telhas, e ladrilhos. Na freguezia de _Savignier_, onde ha quatorze oleiros, que trabalhaõ em greda, se acha hum barro muito proprio para estas qualidades de obras, e os obreiros saõ peritos no modo de o trabalhar. Em _Chapelle-au-Pot_, huma legoa distante de Savignier ha seis oleiros; porém elles trabalhaõ por hum modo muito inferior neste barro, do que no de Savignier; ainda que elle he quasi da mesma natureza.
184 Huns, e outros ás vezes tem muito trabalho em achar veias de barro de boa qualidade. Depois de se tirarem dous, ou tres pés da superficie, se começaõ a perceber as veias dos barros, que se procuraõ; mas ellas só saõ boas, de vinte pés de fundo por diante, e se tira barro ainda de mais fundo; e entaõ os obreiros temem o cahir-lhe a terra em cima. Ha veias mais grossas, e mais largas humas do que outras, que se seguem em quanto se acha barro de boa qualidade: distinguem-se duas especies delle; o que se chama greda, muitas vezes he bastantemente duro, e dificil de tirar. Com estas duas qualidades de barros se fazem duas especies de louças, huma com o barro, que se chama greda, e outra com hum barro hum pouco differente; com este se fazem vasos, que pódem ir ao fogo; mas as do outro se quebraõ, se senaõ esquentaõ com muito cuidado, com tudo quebraõ-se menos do que os da greda escura de Normandia. Os cadinhos só se fazem aqui de encomenda: o obreiro, que tem mais fama de os fazer bem, passa o barro por huma peneira, escolhe-o, e amassa-o com mais cuidado do que os outros: a preparaçaõ deste barro he, quasi a mesma, que os oleiros de París daõ ao seu.
185 Interrompo, o que hia a dizer das olarias de Beauvais, para fazer notar, que os melhores cadinhos, que podem haver para os fundidores, saõ os que se fazem de hum barro branco, que se acha em S. Samsaõ, quasi seis legoas distante de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, bem cozidos, muito sonoros, resistem ao maior fogo, sem se quebrarem, e sem se penetrarem pelos saes; tem de mais a vantagem, de naõ precizarem tanto cuidado como os cadinhos de greda, quando se metem no fogo, ou quando se tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho de Beauvais.