Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas

Part 4

Chapter 44,159 wordsPublic domain

96 Quasi todos os vasos grandes de jardim se fazem por moldes; com tudo elles se podem tambem fazer no torno, com hum calibre grande _ee_, entalhado nos lugares, que devem sobresahir no vaso, e formar os salientes nas partes onde os contornos do mesmo vaso devem ser ocas, ou cavadas. Supponhamos, que se quer fazer, o vaso _Est. I_, _fig. 21_; faz-se de tres pedaços; hum faz o pé, outro o corpo _l_, e outro o testo _m_, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos, como hum globo, huma pinha, pomo, etc. Vou agora explicar como se faz o corpo _L_, sobre a mesa _B_, _Est. I_, _fig. 21_. O calibre, que anda em roda se forma de hum páo vertical _hh_, cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus em hum buraco, feito no meio da mesa _aa_, que deve ser forte, e por cima he sustida por hum cachimbo de páo _g_, que fica preza a huma peça tambem de páo, quadrada _bb_, assim he preciso conhecer que o páo vertical _hh_, vira livremente sobre si mesmo. Este páo deve ser bem forte para poder sustentar com firmeza a potencia _ii_, que deve puxar o calibre _ee_, que algumas vezes forceja muito pela impressaõ que faz no barro, que excede do corpo do vaso. Tambem se ajuda a fazer firme o calibre segurando-o por baixo com a maõ, que vai sobre a mesa em _o_, e com a outra maõ tirando o barro, quando se vê que o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se, que as peças de páo quadradas _bb_, assim como a mesa _aa_, devem estar bem firmes; mas como se fará por differentes modos, segundo o lugar, em que se levantar o torno, eu me contento só em mostrallo. O oleiro põe o seu barro sobre a mesa _aa_, e tendo huma maõ dentro do vaso, e outra fóra lhe fará tomar pouco mais, ou menos a figura, que elle projecta dar ao vaso; digo, pouco mais, ou menos; porque o calibre _ee_, he o que deve aperfeiçoar a figura do vaso. Este calibre _ee_, he huma taboa pouco grossa, cujas bordas terminaõ em chanfro, e saõ talhadas de modo, que o contorno das bordas faz, por assim dizer, a contra prova do vaso que se quer fazer. Deve-se segurar bem com parafusos em huma peça de páo quadrada _ii_, que fórma huma potencia; para se adiantar, ou recuar este calibre, segundo a grossura, que se quer dar ao vaso, a potencia _ii_, he fendida, e tem hum grande encaixe; de sorte que afroxando o parafuso, o calibre _ee_, se pode chegar-se para diante, ou recuar, e se segura apertando o parafuso. Estando tudo assim disposto, se faz virar á maõ o calibre _ee_, que leva diante de si o barro, que há de mais, e o oleiro o accrescenta nos lugares aonde falta; ao mesmo tempo põe o vaso, quasi igual na grossura com hum calibre por dentro, tirando o barro, que ha de mais aonde he muito grosso. Finalmente, quando o corpo do vaso está bem formado, se deixa hum par de dias sobre a mesa, para que o barro se faça mais duro; depois se despega da mesa, com hum arame; tira-se o pedaço de páo _g_, e tendo tirado o páo _hh_; como tambem o calibre _ee_, pega-se no vaso com ambas as maõs, depois de tirado o páo _hh_, que o atravessa em seu eixo; e se põe o vaso a seccar. Entaõ se faz o testo com outro calibre, e o pé tambem com hum calibre proprio a figura que se lhe deve dar. Depois de terem estado as peças algum tempo a seccar, viraõ-se sobre a mesa, em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem por dentro com hum instrumento proprio para isso _Y_, _Est. II_, _fig. 1_, e formar-lhe aneis para se ajustarem differentes peças. Parecendo conveniente ao oleiro ajuntar azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará o modo de o fazer: algumas vezes se segura fixo, e immovel, o calibre e o vaso he que vira sobre huma rodela, que se move á maõ. Tudo isto pouco mais ou menos he o mesmo.

_Vasos grandes de barro cozido._

97 Todo o mundo conhece os vasos grandes de hum barro esbranquiçado, vidrados por dentro, que chamaõ _talhas_, _A_, _fig. 20_, _Est. II_, elles se fazem em Provença. Muitas pessoas attentas á sua saude, para evitar os inconvenientes que poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir estas talhas para conservar a agua de que usaõ. Ha algumas muito grandes, que saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se tambem de esteiras de palha, e com esta precauçaõ duraõ muito tempo sem se quebrarem; havendo cuidado no Inverno de as ter em parte, onde naõ gele a agua, que tem dentro. Quasi todos os Navios as levaõ para conservar a agua destinada para a meza do Capitaõ; e em Provença se conserva o azeite nestas talhas.

98 O gosto, que tem todos de conservar a agua em talhas, tem obrigado aos oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer potes taõ grandes, quasi como os vasos de que se acaba de fallar. Ha alguns, que levaõ a quarta parte de hum almude. Eu os conservo no meu laboratorio de Chymica em _Campagne_ feitos, em _Saint Fargeau_, vidrados por dentro; os que se vendem em París, e os que tem torneira, ou esguicho, vem de Picardía.

99 Porém vi em muitos lugares, e igualmente tenho á muito tempo vasos grandes de barro vermelho, entre os quaes há alguns, que levaõ mais de meio almude: os que saõ bem feitos a agua os naõ penetra, inda que naõ sejaõ vidrados. Servem para muitos usos; para guardar lexivias; para fazer salmouras em lugar de celhas de salgar carne; e vi em jardins algumas, que, estando rodeadas de obras de pedra calcaria, serviaõ de conservar a agua, para se regarem, ou aguarem as plantas. Eu naõ sabia de donde vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em muitos lugares; mas Mr Desmarais me fez ver no calendario _Limousin_ do anno de 1770 hum artigo, que julguei dever introduzir aqui.

100 Hum quarto de legoa distante de _Montmoreau_ que fica seis legoas ao Sul, de Angoulème se acha a Cidade _Saint Eutrope_, e quasi todos os habitantes desta Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi trinta familias todas empregadas neste trabalho: vinte e cinco fornos estaõ sempre occupados em cozer louça miuda, pratos pequenos, grandes, e panellas para o fogo de differentes tamanhos; porém ha tres, que estaõ destinados para cozer differentes obras, e principalmente vasos grandes para fazer Lixivia, e salgar toucinho, etc. Todos os oleiros, que tem de cozer destes vasos grandes, os levaõ a hum destes tres fornos.

101 Para esta qualidade de louças servem-se de huma argilla muito ductil, que se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das mulheres, e dos meninos, he humedecer, e amassar, esta argilla com huma massa de ferro sobre hum pilaõ, tambem daõ os ultimos talhes á louça, o que se chama aperfeiçoar: porém naõ he isto só o que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, e páos miudos para aquentar os fornos de cozer as louças.

102 Os homens fazem vasos grandes em huma roda muito simples _D_, _Est II_. _fig. 3_. ella se fórma de duas rodellas _E, _, semelhantes ás de hum zimborio de moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma á outra por seis furos _G_: a rodella _F_, tem hum buraco em _H_, para receber a espiga ou eixo _I_, que está bem segura por baixo na terra; de sorte, que este zimborio em sua espiga, ou eixo, vem a formar como huma dobadoura. O obreiro põe o barro sobre a rodella _E_, e com o pé que põe sobre a outra roda _F_, a faz andar lentamente. Logo que está feita a primeira base do vaso, elle trabalha os lados, accrescentando successivamente rolos de barro, que liga huns sobre os outros, unindo as superficies interiores, e exteriores com as maõs: deste modo chega a acabar vasos grandes, os quaes torna redondos por meio do torno; e elle tem cuidado de dar pequenas pancadas com a palma da maõ no barro para o comprimir. Depois de seccos estes vasos se fazem cozer nos fornos grandes, quasi semilhantes aos que se representaraõ na _Est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_. Estas louças se vendem principalmente em _Angouleme_, _Perigueux_, _Saintonge_, _Bordeaux_. Os oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas que tem dellas.

103 Quando os vasos, de que se tem tratado, saõ muito grandes, se fazem de muitas peças: huma fórma o fundo, outra o corpo, e outra a parte mais alta; e todas estas peças se unem com aneis de barro, que se cozem com o vaso, e ficaõ taõ sólidas, como se fossem de huma só peça.

104 Vê-se em alguns vasos, feitos em Normandia, partes sahidas para fóra e saõ adornos; algumas vezes estas partes postas circularmente, servem de encobrir, e fortificar os lugares, em que foraõ as soldaduras.

105 A _fig. 2_, _M_, he hum grande vaso de barro, no qual se põe algumas vezes huma torneira, para fazer delle huma fonte, ou lavatorio, e substituir os de cobre: há alguns que tem por dentro pratos desenhados por linhas pontuadas; estes pratos estaõ cheios de buracos, e se lhe põe arêa grossa para filtrar a agua, e fazer fontes areentas.

106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos de Normandia, em que vem as manteigas de Isignes. Depois de vazios, as familias pequenas se servem delles para conservar agua. _A_ _fig. 6_, _P_, _est. II_, he huma botelha de barro de Normandia. Quando se faz no torno a barriga _QQ_, e o gargallo _R_, se solda na barriga no lugar _T_.

107 Naõ faço huma maior relaçaõ das differentes obras, que se fazem inteiramente no torno; pois o que se acaba de dizer bastará para fazer perceber o modo porque se fazem aquelles, de que se naõ falla: agora vou fallar das obras, que se fazem, parte no torno, e parte na mesa para lhes pôr azas, e pés.

ARTIGO V.

_Das obras, que se fazem parte na roda, e parte na mesa para lhes pôr azas, e pés._

108 Depois de começadas estas obras no torno, e se lhes ter dado a figura, que devem ter, se despega da rodella com o fio ou arame de latam, e se põe sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ de ripas, _D_ _Est. III_, _fig. 4_, porque estaõ ao tempo, e se fórma de ripas; deixaõ-se seccar as obras hum pouco, ou endurecer á sombra, mesmo defendidas de huma grande corrente de ar, porque he preciso, que sequem lentamente.

109 Depois das obras estarem alguma cousa duras sobre as ripas, se transportaõ para huma mesa pondo humas ao pé das outras para as aperfeiçoar.

110 Esta operaçaõ consiste em remediar a maõ os defeitos, que se lhe percebem; se ha barro pegado em huma parte, se tira com huma faca de páo muito estreita que se molha; se as bordas de algum vaso se inclinaraõ para alguma parte, indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma cova, passa-se a maõ por dentro do vaso para o endireitar fazendo vir para fóra; se as boccas, que devem ser redondas, apparecem ovaes, se indireitaõ apertando-as entre as maõs. Algumas vezes he preciso cortar por baixo os vasos para ficarem com o assento mais firme; isto se faz pondo a bocca do vaso sobre a mesa, e o fundo para cima; depois se tira o barro com hum instrumento de ferro _Y_, _fig. 1_, _Est. II_, que tem córte. Daõ-se de differentes formas huns saõ, direitos, outros curvos, chamaõ-se _tournassin_.

111 Sobre a mesa tambem he, que se põe os pés, os cabos, e azas nas peças, que os devem ter.

112 Todas estas cousas saõ peças relativas que se soldaõ nos lugares, em que se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre huma mesa. O modo de soldar os cabos, as azas, e os pés he o mesmo; porém devem haver certas precauções por se naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos bastaraõ para se perceber esta pequena manobra.

113 Tomo por exemplo huma marmita; fórma-se no torno a barriga, o gargallo e a borda, e deixando-se sobre as ripas este corpo de marmita, se põe sobre a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe as azas. Os oleiros se portaõ nisto de dous modos differentes: huns formaõ a aza sobre a mesa; daõ-lhe o contorno, que lhe convem; depois para apegar ao corpo da marmita, raspaõ hum pouco os dous lugares, onde se deve pegar a aza ao corpo da marmita; esfregaõ estes lugares com hum bocado de barro novo, soldaõ a aza apertando-a fortemente com o dedo pollegar contra o corpo da marmita, ou do fogareiro, etc. Outros, depois de ter raspado o corpo da marmita, põe sobre o mesmo lugar hum pedaço de barro novo, que trabalhaõ á maõ para o fazer tomar a figura de aza; e depois de o terem preparado raspaõ o lugar aonde ella deve chegar, e pondo hum pouco de barro novo, e apertando bem com os dedos a aza se pega de modo, que naõ despega mais. Este methodo se tem por mais sólido, do que o precedente.

114 As orelhas _aa_, dos potes _Est. I_, _fig. 12_ se soldaõ do mesmo modo, que as azas das marmitas.

115 Em geral para que duas peças se ajuntem bem, he preciso que os dous barros estejaõ no mesmo gráo de seccura; naõ sendo assim, huma peça encolheria mais do que outra, e se despegaria, ou quebraria. Com tudo se o corpo da marmita seccasse muito se tornaria a humedecer no lugar, em que se quizesse soldar, pondo-lhe por cima hum panno molhado, que dentro em huma noite humedece quanto basta.

116 O corpo dos potes de tres pés _fig. 15_, _Est. II_, se faz no torno, depois se trazem para ahi os pés, e azas, como disse da marmita, e para se soldarem se poem na mesa com a bocca para baixo; e testo _C_, naõ deve ter borda com encaixe.

117 O corpo dos escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se faz ao torno; fórma-se a barriga _a_, redonda, depois aperta-se o barro para formar a parte cylindrica _b_, fortifica-se o bordo com hum rôlo ou anel de barro, faz-se-lhe hum pequeno bico, e quando estaõ já alguma cousa duros; levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para se acabarem, e pôr-lhe a aza _C_, como se disse da marmita.

118 O corpo _b_. das cassarolas, etc. _Est. I_, _fig. 14_, se faz no torno, ha oleiros que fazem no mesmo torno o cabo, outros o fazem á maõ sobre huma taboa. Todos o soldaõ a cassarola, como já se explicou.

119 Os cabos que se fazem no torno saõ muito mais proprios, do que os feitos á maõ sobre a taboa; porém bom he explicar como se faz no torno hum tubo ôco pelo qual apenas se póde introduzir hum dedo. Começa-se por baixo, com sufficiente largura, para formar o tubo entre o pollegar, e os outros dedos. Este tubo tem pouca altura, e deve ser grosso, porque será preciso estendello no comprimento; para isto comprimindo brandamente o tubo entre as maõs, se estende, levantando as maõs, e elle diminue de grossura á proporçaõ que se estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe huma pequena orla na borda _c_. Em fim se despega da rodella; e depois de ter comprimido hum pouco a ponta, que ha-de pegar no corpo da cassarola, como as azas dos fogareiros etc.

120 Os coadores se fazem como as cassarolas, etc. só sim demais se lhe abrem buracos com huma especie de buril, quando elles estaõ meios seccos.

121 Tambem se fazem fogareiros pequenos, em que se põe brazas para os esquentadores de madeira; fazem-se no torno, e antes de os tirar da rodella, se faz chato hum dos lados que he formado em parte do fundo; tira-se o barro, que excede o resto das bordas do fogareiro: forma-se á maõ o outro lado, e ajusta-se no meio desta face hum botaõ; assim esta pequena peça he quasi de todo feita a maõ, ainda que ella se começa, e se aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar para a mesa de aperfeiçõar.

122 _R_, _Est. II_, _fig. 10_, he hum candeeiro quasi todo feito no torno, ajunta-se sómente hum bocado de barro em _a_, e em _b_, com huma aza em _c_.

123 Tambem se fazem regadores de barro: o corpo se faz inteiramente sobre o torno, assim como o tubo, que se faz como o cabo das cassarollas; vaza-se hum pouco na ponta, que se tapa com huma placa de barro cheio de buracos, põe-se por cima hum bucado de barro para tapar a metade da embocadura; solda-se o tubo ao corpo do regador: sustem-se por aquella parte, que naõ está ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente.

ARTIGO VI.

_De algumas obras, que se fazem inteiramente á maõ._

124 Ja se disse que alguns oleiros faziaõ todas as suas obras á maõ. Para dar huma idéa deste trabalho vou explicar como se fazem os esquentadores quadrados _F_, _Est. I_, _fig. 10_.

125 Os esquentadores, e fogareiros, que devem ter dentro em si o fogo, se fazem com o mesmo barro de que se fazem os ladrilhos, excepto que, em lugar de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem o barro com a escoria de ferro moida; e passada por huma peneira de cabello, ajuntando _hum demiqueve_ de barro a dez _boisseaux_ do pó de escumalha. Amaça-se esta mistura como já disse, fallando os ladrilhos. Para fazer hum esquentador, se molda sobre hum caixilho de madeira, se formaõ duas como telhas, ou pastas de barro direitas, se põe nas varas a enxugar, e se batem huma vez do mesmo modo, que os ladrilhos: depois em quanto está ainda branda, se tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para fazer hum esquentador. Põe-se huma destas telhas na mesa de aperfeiçoar, raspaõ-se-lhe as bordas sobre hum calibre de páo, para o acertar, divide-se a largura em tres partes, das quaes a do meio faz o fundo do esquentador _a_, e as outras duas fazem os grandes lados _bb_, _bb_, levantando-os quasi perpendiculares, mas que fiquem alguma cousa inclinadas para fóra, bem entendido, que com os dedos se fórma em baixo hum angulo, quasi de quina viva; da outra telha, ou pasta de barro se tiraõ os dous pedaços, que haõ-de tapar as pontas do esquentador; soldaõ-se nos grandes lados _bb_, fazendo o mesmo que já disse a respeito do modo de soldar as azas, e as orelhas dos vasos; finalmente a mesma segunda telha chega para fazer o tampo de cima _dd_; no meio da qual se faz hum buraco quadrado com a folha de huma faca molhada, que he para o testo. Naõ se faz encaixe para receber este testo; mas quando se tira, corta-se o barro obliquamente, para o chanfro servir de encaixe, para que o testo naõ possa cahir dentro do esquentador; aperfeiçoaõ-se todos os lugares das soldaduras, e se acaba fazendo buracos, tanto por cima, como pelos lados do esquentador, com hum instrumento de ferro, que faz as vezes de hum trado. Sobre a mesa se lhe fazem tambem as azas _ff_, e o botaõ de testo _e_.

ARTIGO VII.

_Das obras, que se fazem com moldes._

126 Visto se ter fallado das obras feitas a maõ, parece justo explicar-se como se fazem em moldes; mas, como este trabalho pertence mais ao louceiro de obra fina, do que ao oleiro; por hora darei hum só exemplo, descrevendo, como se póde fazer hum vaso de jardim. Molda-se com o gesso hum vaso ôco, sobre outro, que tenha boa figura, mandado reparar por hum escultor: divide-se em tres partes, segundo o comprimento, o gesso ôco que se moldou sobre aquelle, que se quer imitar, bem entendido, que se faz separadamente, o ôco que deve fazer o corpo do vaso, e o que deve fazer o pé, e o que faz o testo.

127 Reunem-se os tres pedaços, que tem fazer o corpo, põe-se firmes segurando-os com cordas, e, tendo esfregado com alguma gordura o molde por dentro, com a maõ, se põe huma camada grossa de barro dentro do molde, e se aperta para tomar bem a figura do molde, deixa-se endurecer hum pouco o barro no interior do molde: como ao seccar encolhe, elle se despega do molde; mas, antes de estar inteiramente secco, se desataõ as cordas, separaõ-se as tres peças, de que consta todo do molde, e tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar nas ripas, prepara-se, ou aperfeiçoa-se depois com hum pequeno pedaço de páo chamado, _bauehoir_, especie de tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa ser escultor para o fazer.

128 Com o instrumento de alimpar, chamado _tournassin_, se tira por dentro o barro, que ha de mais, e se forma hum assento, ou encaixe por onde se ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, ao corpo do vaso. Alguns fazem moldes particulares, para formarem as azas, e folhagens; mas como já disse, só me propús fallar superficialmente das obras moldadas, porque na arte de louceiro da obra fina se trata disso com individuaçaõ, aonde se ensina a fazer pratos recortados, sopeiras, tigelas, e mais utensis de meza com molduras, e mesmo figuras de homens, e animaes.

ARTIGO VIII.

_Modo de enfornar as obras de olaria, e cozelas._

129 Quando tratei dos ladrilhos, dei a descripçaõ dos fornos, de que usaõ ordinariamente os oleiros de París, advertindo, que estas obras se poderiaõ cozer nos mesmos fornos de telha, que ficaõ representados na arte de telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos oleiros de París, que saõ muito bem pensados, e de hum uso commodo: trazendo-se á lembrança, o que fica dito no principio desta Memoria a respeito dos ladrilhos; he superfluo dizer, como se arranjaõ as differentes obras nesta sorte de fornos.

130 Da parte da bocca por detraz da _Fausse-tire_ se arranjaõ os vasos, que haõ-de ficar bem cozidos, huns sobre outros, os quaes correm menos risco de se quebrarem: taes saõ os vasos de flores, e os tubos para despejo etc. Tambem se põe junto ao fundo do forno _LM_, _fig. 8_, _est. I_, que chamaõ lingueta, onde ha muito calor, porque o ar quente deve descer a este lugar, para sahir pelas aberturas, por onde se descarrega a fumaça, que ficaõ inteiramente por baixo.

131 A primeira camada de baixo se faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros de assoalhar, ou vasos grandes de despejo, que se põe em lugar destes ladrilhos. Como os vasos grandes tem bastante força para supportarem a louça, que se lhe põe por cima, com elles se póde fazer a primeira camada. Deve haver cuidado de se pôrem na mesma fileira os vasos de hum tamanho, observando, como nos tijolos, que a ordem de cima leva no meio vasos, que formaõ a ordem de baixo, como se vê _fig. 9_, _est. I_; mas, como huma das principaes attenções, he exactamente encher o forno, e de lhe meter a mais louça, que lhe he possivel, para tirar melhor partido da lenha, que gastaõ; põe-se as peças pequenas dentro das grandes; os testos dos esquentadores se põe nos mesmos esquentadores, em que haõ de servir, os vasos pequenos tambem se põe entre os grandes, para encher os vaõs o mais exactamente que fôr possivel. Põe-se páos, como para os tijolos, ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem pelo forno de distancia, em distancia por entre a obra. Cortaõ-se as rachas de páo, com que se forra a louça, metendo-as entre a abobada de forno, e a mesma louça, e se acaba fazendo hum muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta a louça com mais cuidado, de que com o tijolo, e o fogo se continúa pouco mais ou menos o mesmo tempo, se saõ louças ordinarias, e continua-se por mais tempo, se se trata de cozer louça de greda.

ARTIGO IX.

_Descripçaõ de outra especie de forno, que usaõ os oleiros dos arrabaldes de S. Antonio para cozer suas obras._

132 Quasi todos os oleiros dos suburbios de S. Marçal, se servem do forno, já descripto no tratado dos ladrilhos, e que está representado na _est. I_, _fig. 7_, _8_, e _9_, tanto para cozer os ladrilhos como as louças; e estes fornos, que occupaõ muito pouco lugar, se imaginaraõ mui engenhosamente, e saõ muito bons para a economia de lenha. Com tudo a maior parte dos oleiros dos suburbios de S. Antonio só usaõ destes fornos para os ladrilhos, e para cozer as outras louças, se servem de hum forno, que se assemelha muito aos de oleiro de obra fina, cuja descripçaõ vou agora dar.

133 A _fig. 1_, _est. III_, representa a altura do forno, visto por fóra da parte da boca da fornalha, ou a altura sobre a linha, _C D_, do plano _fig. 2._ que he tomada rente ao nivel do forno. _A_, he o fogaõ ou fornalha que está em terra em hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O que conduz o fogo, desce dentro desta cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do forno, onde se metem as obras, que se querem cozer. Logo em principio para temperar, faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha em _A_, _fig. 3_, que representa toda a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ do forno; depois para fazer o fogo grande, chega o fogo até _E_, e o distribue por dentro de toda a extensaõ da fornalha; porém entaõ accommoda a lenha em pé na boca da fornalha, para diminuir a corrente do ár, que levaria o calôr para o fundo do forno, e ao mesmo tempo a parte de diante receberia pouco calor. Com tudo he preciso, que elle se distribua com a igualdade possivel por toda a extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ que deve ter o atiçador.[19]