Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas
Part 3
68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel em toda a extensaõ do pavimento por hum modo bem simples, e expediente; põe hum bocado de gesso, ou argamaça no lado dos ladrilhos, já postos, tendo o cuidado, de que fique a argamassa de huma grossura igual; se usaõ do gesso põe só em huma extensaõ, que occupe oito tijollos ou ladrilhos, para terem tempo de os pôr em seu lugar antes do gesso, indurecer muito: assentaõ, por cima dos ladrilhos postos, huma régua de páo de duas pollegadas de grosso e tres e meia de largo, e lhe batem fortemente. Levantaõ com a maõ esquerda esta régua, e batem sobre os ladrilhos até ella assentar igualmente sobre todos. Fica evidente, que os postos por ultimo estaõ ao nivel depois da régua assentar em todos igualmente; o que se faz com facilidade pelas pancadas fortes, que fazem enterrar os tijollos pelo gesso, ou argamaça. Se alguns fogem da direcçaõ, se abatem muito por falta do gesso, o ladrilhador os levanta com a colher; tira o gesso que estava por baixo, e põe outro tijollo, que fique sem defeito. Finalmente, tendo acertado os ladrilhos, rapa com o corte da colher o gesso, ou argamaça, que sobra por cima delles, e põe outra vez ao lado dos tijollos hum bocado, como acima se disse em extensaõ que occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de novo, e assim segue até acabar. Indo a encontrar na parede, póde entaõ misturar carvaõ em pó com o gesso, para que elle naõ inche; porque aqui naõ estaõ sujeitos a sahirem do seu lugar como no meio.
69 Os ladrilhadores enchem as juntas, que ficaõ entre os ladrilhos, postos algumas vezes com gesso misturado com argamaça de cal bem dura, que lançaõ com força entre as juntas que ficaõ; outros lançaõ sobre os ladrilhos agua com gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou argamaça que se acha por cima dos ladrilhos, esfregando-os com arêa, ou com palhas, e depois de bem limpos se pintaõ com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ. Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e ficaõ com covas pelo lugar, por onde se anda, e mesmo ao varrer por serem as vassouras commumente de alamo por evitar estes inconvinientes, untaõ com sangue de boi, que lhe dá huma sólidez muito duravel. Em algumas provincias se envernizaõ os ladrilhos, como a louça, formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ por muitos modos.[17]
ARTIGO IV.
_Modo de fazer os differentes vasos, e utensis de casa com o mesmo barro, que serve para fazer os ladrilhos._
70 Os oleiros de París para fazerem differentes obras se servem do mesmo barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia a certas veias onde a argilla he mais branca tirando hum pouco sobre o vermelho a qual os oleiros chamaõ bom barro; tira-se de _Arcueil_, e de _Vanvres_, como para o ladrilho; ligaõ-na com a mesma arêa, e na mesma quantidade, que para os ladrilhos. Como se amassa com mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar mais de huma celha, ou quando muito duas de barro por cada vez.
71 Alguns oleiros, depois do barro amassado, lançaõ hum torraõ sobre huma mesa grossa, e o batem com hum maço de ferro, como se faz no barro de pitos, e esta operaçaõ he muito boa; porém ainda que elle tenha sido amassado, e batido, he preciso repassallo pelas maõs para lançar fóra algumas pyrites, e pedras, que possa ter ao que chamaõ _voguer_.[18] Para este fim amassaõ o barro sobre a mesa de moldar, como fazendo huma pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ grande, e passando alternativamente a palma da maõ sobre este barro, tiraõ de cada vez huma camada bem delgada; e assim com facilidade encontraõ os corpos estranhos, e os lançaõ fóra. Depois de terem assim passado outro tanto, como o volume de huma libra de manteiga, amassaõ este torraõ que daõ a figura de hum cylindro, dividem-no em dous, e tendo huma ametade em cada maõ, as unem batendo com força huma contra a outra; depois o tornaõ a amassar de novo, e repetem esta manobra muitas vezes, e vaõ sempre lançando fóra os corpos estranhos que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões de barro maiores, ou menores, segundo o tamanho dos vasos, que elles se propõe fazer. Os oleiros tem differentes modos de vogar o barro: porém todos consistem, em trabalhar muito o barro para o amassar bem, e separar-lhe todos os corpos estranhos, que nelle se acharem; porque para as obras que elles saõ obrigados a dar baratas, naõ podem fazer as despezas de lavar seus barros, e de os passar pela peneira (ou por hum crivo feito de arame de lataõ fino) como fazem os que trabalhaõ em louça fina. A operaçaõ de vogar he trabalhosa; porque para a maior parte dos utensis, que fazem os oleiros, se deve amassar o barro muito mais duro do que para os ladrilhos, principalmente havendo se de fazer vasos grandes, porque naõ se poderiaõ suster; e o barro voga-se com muito mais cuidado para humas obras do que para outras.
72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ, como as caldeirinhas quadradas _F_, _fig. 10_ _est. I_, outras só se fazem na roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares _K_, _fig. 11_, que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os vasos de tres pés, as marmitas _fig. 12_, os escalfadores _fig. 13_, as caçarolas _fig. 14_, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e orelhas se põe de fóra á maõ.
73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno; tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ.
_Do modo de fazer os vasos na roda._
74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o _torno_. Quasi todos os oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça fina vidrada.
75 Descripçaõ da roda de ferro _aa_ _Est. I_, _fig. 5_, he o meio da roda, que tem a pequena roda _bb_, em alguns lugares se chama _gimble_, sobre o qual está a obra _cc_, em que se trabalha. No meio _aa_, se ajuntaõ os raios da roda _dd_, que saõ de ferro. Nesta figura só se vem dous; porém a roda tem seis, como se vê na figura 16. Estes raios vem dar em hum circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura só se vê aqui representada pela linha _ee_; o meio _aa_, diminue de grossura em _ff_, e ainda mais em _gg_, esta parte, que he cylindrica, e pontuada na figura, he recebida por hum buraco em hum grosso pedaço de páo _g_, que fica bem seguro por huma cruz de páo _hh_, e pelas prisões _ii_. Em primeiro lugar he preciso conceber, que o meio _aa_, a parte _ff_, e o cylindro pontuado _g_, saõ tomadas em hum mesmo pedaço de páo; em segundo lugar que a parte cylindrica pontuada he recebida em hum buraco fundo, que está no centro do pedaço de páo _g_, no qual póde virar; que este cylindro pontuado, que tem a parte _ff_ assim como este que nos temos chamado o _meio aa_, por cima do qual está a pequena roda _bb_, sobre a qual está a obra _cc_. Aqui se vê, que os raios _dd_, saõ obliquos, de sorte que por suas revoluções, formaõ hum conico cortado em _aa_; _K_ saõ as pequenas mesas, que estaõ em roda do obreiro, em que elle põe as bolas de barro, de que vai fazer as obras, e as mesmas obras depois de feitas, huma gamela com agua, hum calibre de ferro ordinariamente, a que chamaõ _atelle L_, he huma taboa inclinada sobre a qual se assenta o obreiro. Tudo isto se tornará mais claro lançando os olhos sobre o plano perspectivo _fig. 17_.
76 _A_ he o meio da roda: _b_ a pequena roda, que sustenta em si a obra _c_, na qual se trabalha: _d_, os raios da roda _ee_, cambas da roda: _f_ a parte cylindrica do meio, por baixo do qual fica a que está pontuada na _fig. 1_, perto de _g_: _h_ a taboa que esta segura aqui por huma massa de gesso: _k_ as mesas pequenas, sobre que se põe a obra logo depois de feita: _l_, a taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: _m_, taboas grossas inclinadas, que tem entalhes profundos, em que os obreiros põe os pés como se vê _fig. 16_, e _17_; estas especies de assento para os pés se chamaõ _poiaes_: _n_ saõ as obras já acabadas: _o_, bôlos de barro para fazer outras obras: _p_, os pilares, ou pés direitos, que sustém as mesas _k_, _l_.
77 A figura 16 representa a mesma maquina vista em plano, e virada para se poder ver a roda por baixo: _g_, a parte cylindrica, que entra em hum buraco fundo feito na peça _g_: _f_, parte cylindrica mais grossa; _aa_, o meio da roda aonde se ajuntaõ os raios _d_: _ee_, a camba: _p_ saõ os encaixes destinados para receber os pés direitos que sustem as mesas _k_, e o assento _l_: _m_, lugar de pôr os pés.
78 Nos campos muitas vezes he de páo, tudo o que aqui se representa de ferro; neste caso a camba da roda he muito grossa: para que com o seu peso conserve por mais tempo o movimento, que o oleiro lhe imprime. Como ellas saõ menos perfeitas que as de ferro, escuso entrar em individuações a seu respeito.
79 Para se trabalhar sobre esta roda, he preciso imprimir-lhe hum movimento circular rapido, com hum páo _a_, _est. II_, _fig. 4_, que se chama virador. Vê-se nesta _fig. 4_, hum obreiro disposto para pôr a roda em movimento; está sentado no assento _l_, os pés estaõ nos entalhes dos lugares de ter os pés _m_; e com huma ponta do virador _a_, toca em hum raio de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe hum movimento circular, que ella conserva bem tempo para o obreiro, _fig. 5_, poder formar hum vaso.
_Do torno, ou roda, que os oleiros de obra grossa tomáraõ dos de obra fina._
80 Esta roda _a_, _fig. 18_, _est. I_, he de páo, e tem de grosso tres ou quatro pollegadas, para que o maior peso lhe faça conservar o movimento mais tempo; ella he atravessada por hum eixo de páo, ou de ferro _b_, que finda por baixo da roda em hum mancal: este eixo passa ao nivel da mesa por hum colar, e tem na sua extremidade superior huma roda pequena _c_, sobre a qual está a obra _d_; o obreiro _h_, estando assentado hum pouco obliquamente sobre a taboa inclinada _i_, tem muitas vezes as pernas ambas do mesmo lado de sorte, que o eixo _b_, lhe passa por detraz da perna esquerda; muitas vezes tem as pernas abertas, e o eixo lhe passa pelo meio, estando os pés apoiados, e o esquerdo fica na travessa _g_, da mesa: _f_, he huma gamella com agua: tendo o obreiro o pé esquerdo sobre a travessa _g_, apoia o pé direito ligeiramente sobre, a roda e empurrando-a para diante lhe imprime hum movimento circular, que se communica a roda pequena _c_, sobre a qual está a obra _d_. Como esta roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, o obreiro póde formar a sua obra com mais regularidade, e póde accelerar-lhe o movimento, ou retardarllo conforme lhe parecer, e paralla mesmo quando quer: o que se naõ póde fazer com a roda de ferro.
81 Quando o obreiro tem as pernas ambas do mesmo lado, se tem a direita cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: algumas vezes para tocar a roda mais ligeira se vale de ambos os pés para a tocar.
82 Ha alguns oleiros Alemães, que tendo o eixo _b_, entre as pernas, se servem de ambos os pés; mas he preciso entaõ, que o pé direito toque a roda para diante, e com o esquerdo a puxe para si: com o uso se vem a facilitar este movimento dos pés em sentidos contrarios.
83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador, ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça, estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar novo movimento.
84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de París já naõ fazem uso da roda de ferro.
_Trabalho do Oleiro sobre a roda._
85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas, mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ _atelli_; elles tem muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem: alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas tambem alguns saõ de páo.
86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza: porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo, mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados; com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro, faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos, etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente.
87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra grossa, escolherei hum mealheiro _Est. I_, _fig. 19_. Vou explicar como se faz esta pequena peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou pedaços: o que parece difficil de executar.
88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar, e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro; finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra, despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça.
89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo, he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda; para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra he pequena, ou com hum arame se he grande.
90 Há alguidares grandes, em que se põe orelhas; porém estas naõ se fazem na roda; adiante fallaremos delles, assim como de outras muitas obras, nas quaes he preciso pôr péz, e azas, etc.
91 Os vasos communs de flores _n_, _fig. 17_, _est. I_, se fazem inteiramente sobre a roda; devem ser hum pouco mais largos para cima do que para baixo, para se poder tirar o torraõ direito, e levar as plantas com o torraõ em que se criáraõ: em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar de hum lugar para outro. As gamelas tambem se fazem na roda, e acabaõ em cima com huma borda grossa, ou cordaõ, como inteiramente os vasos de flores. Os pratos se fazem do mesmo modo; mas para as bordas acabarem com regularidade se servem do calibre.
92 Os vasos de despejos _A_, _B_, _D_, _fig. 20_, _est. I_, se fazem por duas vezes. Sabe-se que elles saõ mais largos por huma ponta, do que pela outra _b_, que fórmaõ huma cinta, ou anel de barro, que se lhe põe quatro dedos distante da sua borda, alguns oleiros chamaõ anel, e outros _viret_. Com huma só operaçaõ se acaba todo o vaso, e na ponta _b_, fica mais estreito, e ahi se fórma hum anel: e depois se despega de cima da roda pequena ou prato, onde está pegado por hum bocado de barro, que ahi se deixou; acaba-se a ponta _a_, mais larga, que deve receber em si a ponta _b_, que he mais estreita, e tem o anel de que acima falamos; estes vasos se fazem inteiramente na roda; porém por duas vezes. Naõ he o mesmo a respeito dos vasos em dous _E_, _C_, _fig. 20_, ou que se dividem em dous para corresponder á dous assentos. A este respeito se deve notar, que há tubos de despejo que saõ mais largos, que outros; e por isso se fazem tubos, que tem hum pé de diametro, e outros só tem oito, ou nove pollegadas. Ora, quando se faz hum tubo de barro, que se deve dividir em dous como _E_, _C_, a parte _A_, _B_, que corresponde a huma serie de tubos, que se estende desde a cava, até a divisaõ, ordinariamente se faz com tubos de maior diametro, e as divisões _E_, _C_, se fazem com tubos de menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo que se divide em dous, saõ precisos tres tubos hum grande, e dous pequenos; põe-se a seccar hum pouco _est. II_, _fig. 7_. o que explicarei com brevidade; e tendo posto o grande pote sobre a mesa em que se ha de preparar _est. II_, _fig. 8_, com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se a ponta larga que está para cima, chanfraõ-se tambem as pontas mais estreitas dos dous tubos do molde pequeno, para as soldar com o grande, como se dirá. Desta sorte os tubos, que se dividem em dous se fazem parte na roda, e parte á maõ; mas por naõ separar daqui cousa alguma, das que pertencem aos vasos de despejo, por isso julguei dever fallar de tudo. Farei ver sómente, que se póde fazer a separaçaõ dos tubos, sendo taõ grandes huns, como outros, como se representou em _A_, _B_, _C_, _D_, _fig. 20_, _est. I_. Começo outra vés a fallar nas obras que se fazem inteiramente na roda.
93 Para fazer testos de potes, marmitas, escalfadores, fogareiros etc. como _I_, _Est. I_, _fig. 12_, põe se sobre, a roda pequena, ou prato hum bôlo de barro; do qual se querem fazer varios testos, começa-se primeiro a formar a parte de baixo do testo, que he hum pouco convexa no meio; depois apertando-se com os dedos da outra maõ o barro, que está por baixo do testo, se forma a parte de cima, que he concava; faz-se no meio hum botaõ, e se acaba despegando-o do barro com o dedo, ou folha de faca. Depois querendo se se põe o testo sobre o barro que está na roda, e se aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas de ordinario se naõ pratica isto: successivamente se tiraõ tantos testos, quantos póde dar o barro que está na roda.
94 Os testos de fogareiros, e escalfadores _fig. 13_, _Est. I_, se fazem pouco mais, ou menos da mesma fórma, ainda que sejaõ hum pouco mais compostos, porque devem ter hum circulo, ou anel que encaixa dentro da bocca do escalfador.
_Como se podem formar obras no torno com hum calibre._
95 Para calibrar as obras, se usa de hum torno pouco mais ou menos, como o da _fig. 18_. Elle tem huma roda _a_, hum eixo _b_, que tem a roda pequena, ou prato _c_, sobre o qual está a obra _d_. Está claro que ajustando-se por cima da mesa hum calibre, que se possa chegar para diante, ou retirallo da obra _d_, á vontade do obreiro certamente formará com exactidaõ as voltas, ou molduras, que se quizerem na obra, tirando-lhe por fóra o barro, que se pôs de mais; porém este calibre só póde formar o exterior, e naõ se póde usar delle nos vasos, que devem ser trabalhados tambem por dentro; serve só para os pés destinados a sustentar vasos, ou outras cousas de ornatos, que á maõ se alimpaõ por dentro, por naõ ser o interior de alguma consequencia; mas póde-se fazer uso de hum torno quasi semilhante para os vasos de jardim, como vou explicar.
_Como se fazem no torno vasos grandes de jardim._