Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas

Part 2

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33 Para fazer huma amassadura, se começa estendendo arêa sobre toda aquella porçaõ do pavimento, que occupará a camada; reserva-se só hum cesto para o que adiante diremos; esta arêa, que se precisa misturar com a argilla, tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se das celhas o barro das aparas, que estava humedecendo, como o novo; estende-se sobre arêa em camada; porque como este barro he mais facil de amassar, que o novo, põe-se no lugar, em que o barro se naõ amassa tambem. As duas celhas de barro novo saõ distribuidas pela circunferencia, e por cima se lança hum bocado de arêa, da qual se reserva só meio cesto para o uso, que adiante se dirá.

34 Tres celhas de barro bem pisado, bastaõ para fazer quinhentas telhas, e viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos. Estando o barro disposto, como já dissemos, o amassador descalço se chega ao monte de barro; a sua postura he, com a maõ esquerda firmada sobre o joelho esquerdo, e porque o barro escorrega, para naõ cahir, tem na maõ direita hum páo, em que se firma. Separando entaõ das bordas hum pouco de barro com o pé esquerdo o despega, e lança fóra do monte, dá hum pequeno passo adiante, e faz o mesmo; de sorte que andando em roda de todo o monte, e separando em cada passo quatro, ou cinco pollegadas de barro, ganha pouco a pouco o centro; onde fica pouco barro, porque elle tem separado para as bordas a maior parte. Como o do meio fica mais mal amassado, elle acaba de amassar, e separar o barro, que ahi fica; com hum ferro proprio corta em pedaços este barro, e o tira com as maõs com facilidade, porque se despega por causa da arêa, que estava por baixo, e o distribue por todo o monte. Depois de se ter tirado o barro, que está no meio da camada fica huma coroa de dous circulos concentricos; mas com a mesma peça de ferro corta as bordas da camada, e as lança no meio, depois amassa deste barro, como fez a primeira vez, e depois de acabar esta manobra, naõ tira mais o do meio: porêm depois de ter cortado o barro com a peça de ferro, elle o ajunta com a maõ, e o põe no meio; depois o amassa de novo terceira, e ultima vez, estendendo o barro mais do que nas camadas precedentes, para assim ficar mais delgado na camada. Feito isto, está amassado, e em termos de servir, como vamos explicar.

35 Para apromptar assim tres pequenas celhas de barro, hum homem vigoroso precisa ao menos quatro horas: depois amontoa o barro; e entaõ está em termos de servir.

36 Como he de muita importancia para a louça o distribuir-se igualmente por toda a massa, o barro, que se mistura hum com o outro, ou a argilla com a arêa, e que as differentes misturas façaõ hum todo uniforme, os oleiros, para se certificarem disto, cortaõ o barro com hum arame de lataõ, e examinaõ se a côr está uniforme em toda a extensaõ do golpe, e se ha lugares mais brilhantes, que outros. A uniformidade próva que os differentes barros estaõ bem misturados, e que o todo está bem amassado: nos lugares brilhantes está a argilla mais pura.

_Como se moldaõ os ladrilhos._

37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar, como dissemos na arte de fazer tijollos, do mesmo modo que a telha, e o tijollo. Os telheiros naõ fazem de outro modo os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha, para os distinguir dos ladrilhos de louça, que saõ muito melhores, e trabalhados mais propriamente do que os de telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a figura quadrada em hum molde de páo aos tijollos, ou ladrilhos que chamaõ de fornalha. Elles tambem fazem em hum molde inferior _fig. 3_, os ladrilhos para os celleiros, ou quartos, que requerem pouca attençaõ; elles naõ os aperfeiçoaõ, nem aparaõ como aquelles, que se destinaõ para sallas, e quartos acceados; mas por este methodo a superficie dos ladrilhos, naõ he bem dirigida, os angulos muitas vezes ficaõ rombos, e o barro naõ fica suficientemente comprimido: por isto he que nos ladrilhos de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ mais.

38 He verdade, que elles começaõ mettendo o barro em hum molde, segundo o tamanho, que devem ter os ladrilhos para as peças de barro, que chamaõ de culumnas: mas depois que o barro está meio secco, elles o batem, e comprimem muito. Deste modo perdem os ladrilhos a figura regular, que o molde lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por hum calibre de ferro, que os oleiros chamaõ molde: este calibre, ou padraõ de ferro he cortado regularmente, segundo o tamanho, e figura, que se quer dar aos ladrilhos. Tudo isto se fará claro pelas indagações, em que vamos entrar; mas convém fazer antes notar, que supposto se possaõ fazer ladrilhos triangulares, quadrangulares com dous cantos obtusos, quadrados, longos, etc. Naõ se fazem senaõ quadrados, ou de seis panos _fig. 3_, e tambem alguns meios tijollos para os socalcos das fornalhas, dos muros, ou outras cousas. Estas duas qualidades tem a vantagem, que os ladrilhos de hum mesmo tamanho se unem exactamente huns aos outros sem deixar vacuo entre elles; se fossem de cinco faces ficaria entre elles vacuo, que seria preciso encher; e aliás sendo os angulos, agudos, com facilidade se quebrariaõ.

39 Sendo outogonos, ou de oito faces, necessariamente entre quatro ladrilhos, fica hum espaço quadrado, que he preciso encher com hum ladrilho pequeno. Só se fazem estes ladrilhos de oito faces, quando o ladrilho pequeno he de côr differente dos grandes; taes saõ os ladrilhos pretos, e brancos, que fazem os que trabalhaõ em marmore. Tambem vi em algumas Provincias ladrilhos, que sendo cobertos de verniz de differentes côres, formavaõ huma boa vista. Variando a figura dos ladrilhos, e a côr pelo verniz, e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer muitos repartimentos simetricos: disto fallarei adiante; porém, como os ladrilhos de qualquer figura se fazem do mesmo modo, vou explicar com individuaçaõ, como os oleiros fazem os ladrilhos hexagonos ou de seis faces.

40 O oleiro começa fazendo no molde hum grande ladrilho quadrado. Este molde he hum caixilho de páo que faz os ladrilhos mais grossos do que devem ser; naõ só por que diminuem, quando seccaõ, mas tambem, porque ficaõ mais delgados quando se batem.

41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro huma taboa grossa _a b_, _est. I_, _fig. 4_, que está posta sobre cavalletes fortes, e põe no meio desta taboa huma pedra dura e unida, ou hum pedaço de páo _g_, de tres ou quatro pollegadas de grosso, que tem differentes nomes; em alguns lugares se chama _urquain_ na ponta deste pedaço de páo _dd_ está posto hum vaso cheio de agua _ee_, e sobre o vaso hum instrumento de páo que chamaõ plaina _ff_ e por diante está o caixilho, ou molde _gg_. Alguns põe da parte esquerda do moldador hum bôlo de barro _h_, destinado para encher o molde: tambem se põe ahi o barro, que se tira com a plaina _ff_. Outros tiraõ só a quantidade, que caressem, de hum monte de barro _H_, que está sobre o soalho, perto delles. Á direita do moldador está hum monte de arêa _i_, e se deve ter sobre a meza hum lugar _k_, para se porem as obras já moldadas.

42 O moldador posto adiante da mesa, toma com a maõ esquerda hum bocado de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre o pedaço de páo _g_ _fig. 4_, põe por cima o molde tambem esfregado na arêa; depois o enche de barro comprimindo o com as maõs o mais que póde; porque este barro deve ser mais duro, do que se servem os telheiros. Depois de estar o molde bem cheio por todas as partes, o moldador toma a plaina _ff_ _fig. 4_; molha-a na agua, e pegando nella com ambas as maõs, a passa fortemente por cima do molde, para tirar todo o barro, que excede á grossura, que deve ter; depois pegando no molde por hum dos cantos o puxa para si, e mette a maõ esquerda por baixo da peça, para a soster a põe sobre as outras _k_ _fig. 4_, e como este barro he amassado duro, se póde passar de hum lugar para outro em as maõs sem ficar com defeito. A pouca arêa, que fica por baixo da peça, basta para naõ a deixar pegar na outra sobre que se põe.

43 Depois de terem endurecido alguma cousa as peças, ou ladrilhos, que se tem tirado do molde se lançaõ em huma especie de taboletas feitas de varas á maneira de caniços, para o ar lhe dar de todas as partes; e seccallas por cima se põe huma coberta de taboas para a chuva os naõ molhar.

44 Quando estaõ já meios seccos se viraõ debaixo para cima para seccar a parte, que fica por baixo a polla no mesmo gráo de seccura, que a de cima.

45 Em quanto estes ladrilhos estaõ ainda flexiveis se põe sobre hum banco forte huns sobre os outros, e se batem com a parte chata do masso. Depois de batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a pôr sobre as varas, aonde ficaõ mais ou menos tempo, conforme o calor do ar. Logo que o oleiro os julga sufficientemente seccos, os tira das varas, mas como o exterior sempre está mais secco que o interior, quebrar-se-hiaõ, se acaso se tornassem a bater neste estado. Previne-se este accidente pondo-os em pilha, huns sobre outros cinco ou seis dias, para amolecer as superficies, que estavaõ seccas; estas pilhas se fazem em hum quarto baixo, e alguma cousa humido. Além de que o ar humido deste lugar abranda a superficie das obras feitas, e a humidade do seu interior se communica á superficie, que já estava bem secca. Quando se achaõ já bem flexiveis se tiraõ da pilha, e se tornaõ a bater com mais força do que antes no mesmo banco, e logo se cortaõ por medida certa em quatro partes; depois se põe em pilhas de vinte cada huma junto a huma parede, defendidos da chuva por huma coberta: quando o barro está já hum pouco secco, se põe na ponta de hum banco pilhas destes ladrilhos, hum obreiro posto a cavallo no banco, pega em hum molde de ferro _est. I_, _fig. 5_, da grossura de cinco linhas, que está talhado em faces precisamente do tamanho e da figura, que os ladrilhos devem ter, e com hum cutello curvo _fig. 6_, corta tudo o que excede a peça de ferro, que os oleiros chamaõ _molde_.[9] Hum bom obreiro póde aparar 1800 ladrilhos por dia. As aparas cahem em hum peneiro, onde se conservaõ para as misturar com o barro novo, quando se fizer nova amassadura. Quando sahem os ladrilhos da maõ do aparador, vaõ já em figura de ir para o forno, logo que estiverem bem seccos.

46 Seria impossivel fazer o primeiro molde tamanho, que depois désse quatro ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ em huma fôrma maior cada hum separado, como se fazem os tijollos de fornalhas; com a differença porém de que os tijollos de fornalha, naõ se batem, nem se aparaõ; e os ladrilhos grandes, que se fazem com aceio saõ batidos, e aparados por moldes, como os pequenos.

47 Os ladrilhos feitos como acabamos de explicar, carecem estar bem seccos para irem para o forno: porém naõ se expõe ao Sol, mas sim em parte onde lhe dê o vento, ou em lugar aonde chegue o calor do forno.

48 Quando os ladrilhos estaõ de todo seccos, resta cozellos, o que se faz como vamos a explicar.

_Do forno[10], e do modo de arranjar nelle os ladrilhos para se cozerem._

49 Na arte de telheiro, e de fazer tijollos se vem os fornos, de que se servem alguns oleiros para cozer os ladrilhos: onde se póde consultar o que nos dissemos a este respeito, aqui trataremos só, de duas qualidades de fornos, de que se serve a maior parte dos oleiros de París naõ sómente para coser seus ladrilhos, mas tambem toda a qualidade de louças: depois fallarei dos fornos, de que se servem os oleiros dos arrebaldes de _Saint Antoine_ para cozer suas obras: e por hora fallarei só dos fornos, que estaõ mais em uso nos arrabaldes de _S. Marceau_; elles vem representados na _est. I_, _fig. 7_, _8_, _9_. A _fig. 7_ representa o plano do forno; a _fig. 8_ he a divisaõ deste mesmo forno no comprimento pela linha _A_, _C_; e a _fig._ 9 he huma divisaõ transversal pela linha _G_, _H_, da _fig. 7_: _A_ he a boca do forno, ou entrada da fornalha; na qual se põe madeira para esquentar o forno, como se vê de _A_, até _B_, _fig. 7_, e _8_; de _B_, até _C_, he a capacidade interior do forno, aonde se arranjaõ os ladrilhos, ou a louça, que se quer cozer; _C_, _D_, _fig. 8_, he hum tubo da chaminé por onde sahe a fumaça. Como a communicaçaõ do interior do forno com este tubo, para descarga da fumaça, he por baixo perto do pavimento do forno em _C_, he preciso, que a corrente de ar, que entra pela boca _A_, passe ao tubo _D_, pelos buracos _C_. Deste modo, tendo seguido a curvatura da abobada, até perto de _M_, _fig. 8_; o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama _Lingueta_,[11] para ganhar os buracos, que estaõ em _C_, e tornar ao tubo _C_, _D_. Por esta construcçaõ, que he bem entendida, o calor se distribue muito bem por todo o comprimento do forno: mas, como he mais estreito na sua entrada _K_, _I_, _fig. 7_, do que no fundo, os lados em _G_, _H_ naõ recebem tanto calor, como no meio; mas isto se remedeia; arrumando lenha nos dous lados, como se vê na _fig. 7_, e como adiante explicaremos. _F_, _fig. 7_, he huma porta, por onde se entra no forno para o encher; depois do forno cheio, se tapa com hum muro de tijollos, e se accende o fogo.

50 Antes de metter no forno alguma louça se levanta, com tijollos em _I_, _H_, até a abobada, huma separaçaõ que tem aberturas, pois se deixa entervallos entre os tijollos, ou como dizem os obreiros _crenaux_[12], para que o calor do fornete _A B_. se communique o forno. Esta separaçaõ, recebendo a mais viva acçaõ do fogo, chama-se _la fausse-tire_, a qual se naõ desmancha em cáda huma fornada, pelo contrario se repara para que dure o mais que for possivel.

51 Como a parte de diante do forno está tapada em _I_, _K_, pela _fausse-tire_[13] he preciso carregallo pela abertura _F_, e começa-se, formando as tres primeiras ordens da parte da _fausse-tire_, para isto se desmancha huma ordem de tijollos de fornalha, que se põe de parte, como se vê em a _fig. 8_, entre as quaes se deixa huma aberta de quatro pollegadas e meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer debaixo da fornalha huma corrente de ar quente, de modo, que pela subtileza do ar esquentado, suba sempre melhor á abobada. Sobre estes tijollos se arranjaõ as pilhas de ladrilhos, que se põe deitados, como se vê na _fig. 7_, de modo, que hajaõ dous dedos de distancia de hum ao outro ladrilho, e que o meio do ladrilho da ordem superior corresponda ao vácuo dos ladrilhos da ordem inferior.

52 Depois de se terem levantado até á abobeda quatro pilhas de tijollos ordinarios, se põe achas de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas de tijollos: depois se arranjaõ sobre o pavimento do forno, os tijollos de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se nos lados as achas de lenha, como se vê _fig. 7_, e além de huma ordem de achas em pé, que atravessaõ o forno, como se vê _fig. 7_, segundo a linha de _G_, e _H_, e se continua a encher o forno pondo por baixo os tijollos de fornalha, e por cima os ladrilhos. Depois de se terem formado duas, ou tres pilhas, se põe achas de lenha entre as pilhas de tijollo, e as paredes do forno, além disto se põe huma ordem de achas sobre a parede do fundo do forno, que se chama _Lingueta_. Quando as achas de lenha, que se põe de pé naõ tem o comprimento sufficiente para tocar na abobeda do forno por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos de sala dos maiores. Continua-se, como temos explicado, até chegar á abertura _F_, _fig. 10_; para formar as ultimas ordens se põe sempre tijollos de fornalha: as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, como já dissemos; porém por naõ fechar a entrada _F_, se começa, enchendo primeiro o lado opposto á abertura, e se acaba por esta mesma abertura _L_, que se fecha por huma parede de tijollos, como já dissemos.

53 Em hum forno semelhante ao que se representa, que tem dez pés de _K_, a _L_, e sete de _K_, a _I_, para cozer os ladrilhos se gasta carga, e meia de madeira tanto para arranjar entre os ladrilhos como para a tempêra[14], e huma camada de lenha rachada para queimar na fornalha _A_, _B_, e fazer o cozimento da louça; a isto chamaõ os oleiros _la chasse_.[15]

54 Os que se lembrarem, do que dissemos na arte de telheiro, veraõ que he preciso primeiro esquentar o forno com hum pequeno fogo de páos grossos, que façaõ mais fumo, do que chamma. Por mais secco que pareça o barro, he preciso lançar fóra ainda muita humidade no forno: se esta dissipaçaõ se apressar, o barro se quebrará, indo porém de vagar, dissipa-se a humidade sem fazer estrago. Este pequeno fogo, he que os oleiros chamaõ humedecer, talvez porque a louça com este pequeno calor se faz humida.

55 Accende-se hum pequeno fogo de páos grossos na boca da fornalha entre _A_, e _B_, _fig. 7_, e _8_; isto se continúa trinta e seis horas, para que as obras se esquentem pouco a pouco, e percaõ a humidade, que lhe resta, ainda que os tijollos pareçaõ bem seccos quando se mettem no forno. Nas doze ultimas horas augmenta-se hum pouco o fogo, e depois se faz no mesmo lugar hum grande fogo de lavareda com lenha secca, e se continúa por sete, ou oito horas, os páos que se metteraõ pelos lados, e entre as pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem e contribuem para ficarem perfeitamente cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha na fornalha, e se lhe tapa a boca com huma chapa de ferro, para ir esfriando pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, se tira a louça do forno.

ARTIGO III.

_Das obras de ladrilho._

56 Como em París as obras de ladrilhos fazem parte do officio de Oleiro, he preciso fallar aqui dellas.

57 Nos lugares aonde ha gesso, todas as obras de ladrilho se fazem com elle; mas aonde o naõ ha, se ladrilha com argamaça de cal, e arêa, betume, ou algumas vezes com huma mistura de argamaça, e gesso; naõ fallo aqui de hum máo modo de ladrilhar, de que usaõ os paisanos, assentando os ladrilhos sobre a argilla bem amassados com bastante arêa, para naõ encolher tanto o barro.

58 Quando se tem de ladrilhar com argamassa, he preciso embeber bem de agua o ladrilho logo ao sahir do forno: sem esta precauçaõ o ladrilho atrahe a agua da argamaça, e em lugar de tomar corpo se descompõe, e se torna quasi em arêa pura.

59 Como a argamaça se pega menos ao barro do que o gesso, alguns mandaõ fazer por baixo do ladrilho, regos, ou buracos com hum pedaço de páo, que se mette por baixo do ladrilho depois de o bater, porém isto naõ está em uso.

60 Em París todas as obras de ladrilho se fazem com gesso; mas, como o gesso vivo incha muito, quando se usa delle puro, por isso vem estas obras a ficar com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, ou misturando o gesso hum pouco molle com cal, ou ladrilhando por camadas, e naõ pôr outra em quanto naõ séca a primeira; ao menos se deve evitar pôr o ladrilho encostado á parede de encontro, e se deverá deixar alguns pés em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos do meio, ter acabado de inchar; há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, chegaõ a ladrilhar com gesso só, e a sua obra he melhor; mas pela a maior parte os ladrilhadores misturaõ o pó de carvaõ peneirado com o gesso, para elle naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe ajuntaõ, menos temem, que lhe inche o gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; porque o gesso assim naõ pega com tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; e isto he utilidade sua, porque elles mesmos daõ o gesso. Por todos estes motivos ajuntaõ elles tanto pó de carvaõ ao gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi naõ se péga ao ladrilho; ao contrario porém o gesso puro se péga tanto ao barro cozido, que se naõ podem separar dous ladrilhos, estando unidos hum ao outro com gesso. Seria melhor em lugar do pó de carvaõ misturar arêa boa, que faz corpo com o gesso, e tambem o naõ deixa inchar tanto, como se fôra o gesso vivo.

61 Eu vi hum bom ladrilhador, que em lugar do pó de carvaõ ajuntava ao gesso ferrugem de chaminé; esta mistura naõ deixa o gesso prender com tanta promptidaõ, e assim tinha elle tempo de assentar melhor os ladrilhos. Disse-me elle que este gesso assim naõ inchava tanto, e me pareceo, que estes ficava muito duro, e muito adherente aos ladrilhos; e por isso penso, que se deve adoptar este methodo, aonde ha gesso, e ferrugem com facilidade.

62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem difficil, se póde segurar bem o ladrilho com huma mistura de gesso, e argamaça de cal, e arêa, ou betume. Esta especie de argamaça bastarda, que os nossos obreiros chamaõ _gâchis_,[16] incha pouco; com o tempo se torna muito dura; e como se demora em inchar, póde o ladrilhador com facilidade assentar os seus ladrilhos.

63 Em París os pedreiros saõ os que fazem o lugar em que se devem assentar os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores, põe ao nivel, e apromptaõ o pavimento, e lugar em que haõ-de assentar os ladrilhos, ou tijollos, elles o fazem ordinariamente espalhando carvaõ moido na parte, e depois assentaõ em cima huma regua com hum nivel. Logo que o lugar está prompto lançaõ por cima do pó huma agua de gesso muito clara, para lhe dar alguma consistencia.

64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros, quando se assentaõ sobre o gesso puro, ou simplesmente misturado com huma pouca de arêa boa; mas deve-se assentar o ladrilho depois do lugar estar secco, e o gesso ter acabado o seu effeito, hum assento da argamaça de cal, e arêa tambem he bom; e o peior modo, he o de assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ puro, que sendo comprimido, se abate, e se desordena com facilidade; por naõ poder dar hum assento sólido ao ladrilho, ou tijollo.

65 Em algumas Provincias se prepara o pavimento com tufo branco, que se passa por grades, ou canissos, humedece-se hum pouco; para que sendo batido tome alguma firmeza.

66 Em outro tempo se carregavaõ muito os pavimentos; porém agora, como os carpinteiros põe a madeira bem desempenada, e igual na grossura; recommenda-se aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ muita carga por naõ pezar sobre as vigas.

67 Quando os quartos ou celleiros, que se querem ladrilhar tem o assento preparado, o ladrilhador estende huma corda por todo o comprimento da peça, e põe por cima do gesso, ou argamaça, huma ordem de tijollos, examinando sempre se vai direita, e ao nivel, porque esta primeira ordem he a que regula as outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou tijollos feitos exactamente do mesmo tamanho, formáraõ ordens iguaes, e bem direitas, se o ladrilhador os põe de modo, que naõ haja junta. Com tudo se por defeito do oleiro, ou do ladrilhador ficarem as ordens alguma cousa curvas, se remediará esta falta, deixando huma junta, ou emenda na curvatura. Isto sempre he hum defeito, mas pouco sensivel, quando a curvatura he pouco consideravel, e que se indereita pouco a pouco. Como esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir todas as mais, logo que estiver bem assentada, se deve recommendar o naõ andar sobre ella pela naõ desordenar. Põe-se depois as outras fileiras, de sorte que hum dos angulos que falta no tijollo, que se põe se assenta no angulo, que entra dos tijollos, que estaõ postos na fileira, deste modo vem a formar linhas obliquas.