Aquela Família: Tipos, caricaturas e episódios provincianos
Part 5
Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»!
MARIA JOANA, _que vinha entrando e que ouviu o irmão dizer aquilo_:
O quê! Morre? (_Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico_). Morre? meu pai morre? (_o médico cala-se_) Não me respondem! não me dizem nada! (_levando as mãos á cabeça num desespero_) Ah, meu pai! Ah, meu pai! Que não tenho outro...
FRANCISCO, _confortando-a_:
«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve.
MARIA JOANA
Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco».
FRANCISCO
Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!
TÓNIO, _ao médico que está preparado para, saír_:
Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos...
O MÉDICO
Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida. Agora o que é preciso é ir embora... Faz-se tarde.
TÓNIO
Pronto! (_a Francisco_) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr. «doitor», se te não custa, eu não posso... E trazes os remédios, pelas almas. É um favor.
FRANCISCO
Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de volta.
MARIA JOANA, _num gemido_:
Leva a arma!
MANOEL, _que tem estado sempre calado até aqui_:
Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.
_Todos se voltam, admirados da generosidade._
FRANCISCO
Não é preciso; levo antes esta (_mostra um marmeleiro ferrado_) é mais certeira... Bem hajas!
_Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra, quando se abre a porta, apagando a luz._--«Fechem a porta!» _ouve-se dizer no escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o vento. TÓNIO, dentro, ás apalpadelas, procura a candeia, que acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma rodilha, a um canto, a soluçar._
TÓNIO
Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...
_MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do lenço da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água. MANOEL nem palavra: fuma._
TÓNIO
Para onde vai isso?
MARIA JOANA
É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes? (_Tónio encolhe os ombros_) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito: «filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de beber. Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle pedisse. Dou?
TÓNIO
Se êle o disse...
MANOEL, _de troça_:
Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...
TÓNIO, _furioso, agarra num banco e avança para o irmão_:
Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (_Os seus olhos chispam lume_).
MANOEL, _erguendo-se_:
Experimenta e verás o trôco... (_Diante dêle_): Sim! sim!
MARIA JOANA, _suplicante, entre os dois_:
Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!
TÓNIO, _cedendo_:
O que te vale...
_Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante._
_Grande silêncio!_
_Súbito, um grito, depois outro,--lancinantes, desesperados, dentro do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados._
MARIA JOANA, _à porta, num paroxismo_:
O pai! o pai!... Morto! (_volta como louca à cabeceira do cadaver_).
_TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade, olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o braço nervosamente no fundo; tira tudo,--roupas, farrapos, misérias, remeche,--procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as vinte moedas!_
TÓNIO, _que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama_:
Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã!
_Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes--como dois liões!_
MARIA JOANA, _sòzinha, brada, abrindo a porta, para a solidão dos campos ermos, na chuva e na ventania_:
Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!
_Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto, alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por duas veses o prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a espingarda e alveja-o._
MARIA JOANA, _interpondo-se, num salto ágil_:
Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!
MANOEL
Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...
_Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão, dispára-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga._
TÓNIO, _vendo a irmã caída num lago de sangue_:
Mataste-a!
MANOEL, _poisando a espingarda e com um sorriso cínico_:
Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...
_Recomeçam a luta._
[1] O autor não quis nesta novela, a que deu indiferentemente a forma dialogada, tentar um género de literatura dramática como êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses (não sabe se com grande ou pequeno exito) com o titulo de _Grand-Guignol_, importado directamente de França. Género macabro, terrorista, insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções nervosas pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente extravagantes.--Esta _tragédia rústica_ é um ligeiro estudo do caracter supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre, inculta, miserável gente das aldeias beirôas, em cujo seio os instintos, bons ou maus, falam ainda a linguagem espontânea e bárbara das primitivas idades.
* * * * *
O pai da criança
(Conto carnavalesco)
O pai da criança
(Canto carnavalesco)
Êste padre Borregana, cónego da Sé, tem uma história.
Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.
Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande _queda_ para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem levava a caldeirinha e o hissope entoando o _Bemdito_ com o Senhor; quem dizia _ora pro nobis_ atrás do pálio nas procissões; quem informava as beatas dos ataques hemorroidários do sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate...
--Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a justificá-lo; ninguêm se faz...
E não.
Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje diziam que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham conhecido para o sacerdócio--para a castidade sobretudo,--o que aos seus olhos de peccadores inconfessáveis o tornára particularmente famoso, votado sem esfôrço ao sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de vontade como era, e então com um apelido que lhe assentava como uma luva...
Quando,--já depois de ordenado--desceu o estribo do comboio na estação do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado, hesitante, como uma criança que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear confuso da multidão que se acotovelava a saír da _gare_.
--Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...
Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito largo para o receber. Padre Borregana trepidou.
--Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde!
O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto, aquele ar de pessoa importante e abastada!...
--Tu! Pois tu!...--murmurou o padre.
E abraçaram-se enternecidamente.
Emquanto iam saíndo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido, tinha trepado, formára-se... arranjára um casamento rico e uma boa colocação...
--Sim?!
--É verdade.
Padre Borregana estacou, admirado.
--Mas ouve cá, disse, como demónio conseguiste tudo isso? Tu, demais a mais,--desculpa que te diga--mas nem eras dos mais atilados...
O outro sorriu, superiormente:
--Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguêm neste mundo: á custa de muito ponta-pé!...
E separaram-se.
Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismático, no encalço do moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a ponta duma bengala tocar-lhe discretamente no ombro:
--Psst!... Borregana!
Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a sua presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria. Repetiu-se, _mutatis mutandis_, a mesma scena: tambêm êste trepára, tambêm êste vencera, tambêm tinha uma linda posição...
--É boa! E tudo isso...--balbuciou.
--Á custa de muito ponta-pé!
--!!
Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava. Desta vez o velho amigo era um ministro--e ministro da Justiça!--que lhe abriu os braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os outros lhe confessou que tinha subido, trepado--á custa de muito ponta-pé!...
Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo depois da missa, chamando de parte o sacristão, lial companheiro e confidente, segredou-lhe:
--Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...
O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas, muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou, comovido e modesto:
--Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar... Cá por mim só se não pudér...
--Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço...
Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada, revirou-lhe o nédio cêsso, exclamando:
--Férras-me aí um ponta-pé!...
--Quem, eu?
--Já disse, Cristóvam: um ponta-pé.
O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar decidido do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade, encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...
--Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha flagelação parecia dever enchê-lo de infinito gôso--isso não é nada!
--Ó sr. prior, mas eu...--tartamudiou o Cristóvam, condoído.
E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas:
--Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, Cristóvam!
--Êle é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e despresando escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e gemer:
--Ui!
--Ah, já?...--e atirou-lhe segundo.
Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja.
--Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dôres, estorcendo-se.
--É para o sr. prior, esta carta...
--Para mim?!
Era um telegrama.
O prior precipitou-se, rasgou todo trémulo a obreia do sobrescrito: «Por ordem de S. Ex.ª...» (turvou-se-lhe a vista)... «nomeado cónego.»
Caiu sôbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope o prior estava triste... Em volta houve um alarido, um espanto, mal constou o milagre... Porque fôra um milagre! Tudo quis ver e visitar o sr. padre Borregana, feito cónego--a ponta-pé. Não recebia? Porquê?... Talvez dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a brutalidade da operação. E invectivava-se o Cristóvam--bruto! verdugo!--que se desculpava, dizendo:
--Pois sim, pois sim, mas se não fôsse eu...
Tinha rasão.
A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de arnica, de unto de cobra e semi-cúpios de malvas, para aliviar as dores e a tristeza do prior, cujos nadegueiros--já agora uns nadegueiros de cónego--entumesciam e grelavam...
Dizia-lhe a criada:
--Parece que ficou a modos triste, sr. cónego?...
--E fiquei, pudéra, se não tenho de quê, cachopa!--queixava-se.
--De quê?! Hom'essa! Depois duma nova assim!...
--Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-pés arranjei a ser cónego, mas se aquele alarve se não demora e me préga logo uma dúzia deles, quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!... Se não hei-de estar aborrecido...
O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a atestar o dedo da Providência na ferradura do Cristóvam. A religião, vigilante, viu logo na pessoa do padre virtudes canonisáveis...
Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu--um doido!--zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o padre Borregana tinha tido um cónego pelo traseiro, e que o pai da criança era o sacristão!
* * * * *
Índice
Índice
Aquela família 5
A bôca do sapo 17
Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1906)--I 37
Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1912)--II 85
Candidinha Cerdeira (Novela romantica) 89
Eureka! 113
O crime 123
Casa maldita (Tragedia rústica) 133
O pai da criança (Conto carnavalesco) 165