Aquela Família: Tipos, caricaturas e episódios provincianos
Part 4
Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo, empurrou a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír--e saíu, deixando a mulher boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.
Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito, o dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse trespassado mortalmente.
Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a tremenda nova da desonra da filha. Fôra ela, a dissimulada, quem se denunciára--com um descaramento, uma serenidade, um cinismo, calcule o doutor, que deixava a perder de vista as maiores desavergonhadas da terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer como se contivéra e porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não! Maria Cândida morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por uns restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua filha: era uma mulher perdida!
E o sr. Xavier? Ah! êsse então, coitado, tinha ficado como morto. Compreende-se... Porque Maria Cândida levára a sua audácia até ao ponto de dizer tudo diante dêle, diante das criadas e dos convidados,--era um sábado--alto e bom som, para que não se perdesse pitada: «A mãe queria casa-lá com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava ali terminantemente que não casaria: primeiro, porque o detestava; segundo, porque tinha um amante, o professor!»
--Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer! comentou o dr. Marim, voltando-se para Hipólito, a quem acabava de expor a situação com esta nitidez.--Que cabeça a sua! Que responsabilidades!
Hipólito sorriu ligeiramente, murmurou:
--Até que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, não é assim?
--É assim mesmo, concordou o médico.--Mas um homem nunca tem nada a perder com estas coisas; agora uma rapariga!...
--Perde tudo.
--Sim, tudo!
Houve um silêncio.
--O sr. não andou bem, Hipólito, confesse, não andou bem...
--Eu?...
--É claro.
--Na sua opinião, pelo menos, doutor... Já me cheguei a convencer de que sou rialmente um canalha... pois que como tal procedo...
--Leviandades, leviandades...--atenuou o médico.--Eu habituei-me a ver em Maria Cândida uma espécie de filha, desde muito nova. Não admira. Tive-a nos braços quando nasceu, pequenina, vi-a depois medrar, crescer, fazer-se mulher à minha vista--afeiçoei-me. Que quer? Emfim...--limpou uma lágrima que lhe rolou ao comprido da face--coisas da vida!
Depois, apreensivo:
--O sr. o que pensa fazer agora?...
Hipólito ficou sem responder, um bocado, com o espírito absorvido num pensamento cruel e longínquo, que o fazia empalidecer.
--Vou confiar-lhe um segrêdo, disse, por fim, numa resolução firme.--Devo-lhe muitas atenções e custar-me-ia sinceramente que o doutor ficasse formando de mim um conceito menos lisongeiro...
--Fale, meu amigo, fale, disse o médico ancioso por o ouvir.--Prestar-lhe-ei, creia, toda a atenção. Fale...
Hipólito hesitou; aprumou-se, procurando dar às suas palavras um tom solene, de grande sinceridade.
--Maria Cândida não está culpada; Maria Cândida não é, nem nunca foi minha amante!
--Que me diz?!
--A verdade! Maria Cândida é tão virtuosa, hoje, tão pura e imaculada como na hora em que pela primeira vez a encontrei. Não me acredita? Juro-lhe.
O médico fitou-o, desconfiado, surprezo.
--Conhece esta letra? disse Hipólito.
E colocou-lhe diante dos olhos um papel cuidadosamente retirado da carteira.
--Conheço. É a letra de Maria Cândida.
--Pois é. Leia!
O médico obedeceu. E quando terminou, os olhos arrasados de lágrimas, deixou-se caír sôbre uma cadeira, p'ra ali, varado de espanto.
--É assombroso!
Hipólito arrancou-lhe das mãos, trémulas pela comoção, a carta, cujo final releu em voz alta: «... Pois bem. Afirmarei, ou darei a perceber a todo o mundo que sou tua amante; dêste modo nenhum outro homem me quererá...»
--É assombroso! repetia o médico estonteado.--E é uma criança! é uma criança que faz disto!...
Emquanto Hipólito, a chorar, concluia:
«Se me desmentes... mato-me. E tu bem sabes--sim, tu bem sabes!--como eu sou capaz de cumprir fielmente o que prometo...»
* * * * *
Eureka!
Eureka!
"--Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?"
COURTELINE.
ACTO I
_No escritorio dum advogado._
O CLIENTE
Chamo-me Teodorico da Silva, negociante, com estabelecimento de bebidas...
O ADVOGADO
Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se.
O CLIENTE
O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro caixeiro da casa.
O ADVOGADO
É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?...
O CLIENTE, _presuroso_:
Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (_Pausa_). Eu me explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou tambêm um temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso, por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha vida--e já tenho cincoenta anos--peguei numa arma! Isto tudo vem para lhe explicar o motivo porque não matei minha mulher ontem à noite quando entrei em casa e a vi com _êle_, em doce colóquio amoroso, mais que amoroso! sôbre um canapé de estimação...
O ADVOGADO, _interessado_:
Sim senhor.
O CLIENTE
Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes, preciso evidentemente dar uma satisfação ao mundo, que seja, ao mesmo tempo, uma satisfação à minha consciência. Posta de parte, pois, a ideia duma solução violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex.ª se referiu há pouco, isto é--o divorcio.
O ADVOGADO, _interessadíssimo_:
Sim senhor...
O CLIENTE
Mas o senhor não sabe--porque não é casado--o que são vinte e tantos anos passados com uma mulher...
O ADVOGADO, _impressionado_:
Faço ideia...
O CLIENTE
Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio por coisa nenhuma deste mundo.
O ADVOGADO, _cofia a barba e medita apreensivamente no caso_.
O CLIENTE
Pensei então noutra coisa...
O ADVOGADO, _ancioso_:
Diga!
O CLIENTE
Pensei então em despedir o caixeiro. (_Sinal de aprovação do advogado_). Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um antigo empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por água abaixo... sem apelação!
_Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como um estertor._
O ADVOGADO, _erguendo-se_:
Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva dizer-lhe... (_Estende-lhe a mão pesaroso_). O melhor de tudo é ter paciência: a paciência é uma virtude...
O CLIENTE, _desalentado_:
E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá?
O ADVOGADO
O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi uma ingrata em lhe fazer o que lhe fez...
O CLIENTE, _com uma lágrima a borbulhar ao canto do ôlho_:
E foi. Palavra de honra que foi.
_Despede-se abatido._
ACTO II
_Numa rua concorrida. Mêses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se o cliente e o advogado._
OS DOIS, _ao mesmo tempo_:
Oh!... oh!... Por aqui?
O CLIENTE
Ora ainda bem que o encontro.
O ADVOGADO
Muito folgo em o encontrar...
O CLIENTE, _com o ar alegre, o semblante desanuviado e risonho; sem rodeios_:
Sabe que achei uma saída admirável para aquilo?...
O ADVOGADO, _surprêso_:
Sim?
O CLIENTE
É verdade. Não matei minha mulher, não despedi o caixeiro, não me divorciei, não tive que ter paciência... e dei emfim uma satisfação ao mundo e a mim próprio.
O ADVOGADO, _abismado_:
Devéras?!
O CLIENTE
Devéras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou?
O ADVOGADO
Lembro.
O CLIENTE
Que os encontrei em cima dum canapé e tal?
O ADVOGADO
Lembro.
O CLIENTE
Pois bem: vendi o movel...
O ADVOGADO
O...?
O CLIENTE
Vendi o canapé!!
CÁI O PANO... DAS NUVENS
* * * * *
O crime...
O crime...
"C'est ainsi qu'une faute est irreparable."
J. PAYOT.
Helena fitou-o então nos olhos e inquiriu sem motivo:
--Estás zangado?
--Não. Porquê?
Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se contra aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem que um dia descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho racional a seguir: abandoná-la.
Helena calou-se.
--Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de vaticínio.--De que serve andar a encobrir, um dia e outro, semanas e mêses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?
Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?...
Chamou-a brandamente, disse-lhe:
--Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não negues... leio-to nos olhos!
Ela baixou instintivamente a cabeça.
--Alguma coisa?!...--disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se por manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda mais, aumentando aquelas desconfianças.
Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe restava, para lhe dizer com serenidade:
--Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei, tenham despertado o meu reparo.
--Os factos?! Quais factos?!--dissimulou.
--Tudo; o que se está passando...
--Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim desconfiado, acredita.
--Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas palavras... o teu rosto! Anda cá...
Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala:
--Vê aí o teu rosto!
Ela esquivou-se, revoltada:
--Deixa-me! É de mais!
--Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.--Vais-me dizer tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o que houve?
--O que houve!?--exclamou aterrada.
--Sim, o que houve!
--Deixa-me! deixa-me!
Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz, intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível:
--Fala! anda... diz-me tudo!
Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.
--Larga-me!--implorou Helena.--Não olhes para mim dessa maneira... Tenho medo!
--E porque tens tu medo de mim?!
Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com energia, de forma a fazê-la gritar:
--Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas, deixa-me!
Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o desespero em que se debatia, mais o enfureciam: _quase_ lhe davam provas do que se passára!... Mas o que se passára?
E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o que a sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a suspeita entrára no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que podia pesar sôbre a honra duma mulher.
Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar.
Alberto--nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande catástrofe,--pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande banho morno de indiferença e de tédio...
Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava, arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime artista e êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito, representando o papel de marido ciumento com a mais pura e meticulosa arte!
No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...
Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: «Bravo! Bravo!»; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava para saír da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera--porque era afinal uma ópera!--pessoas que passavam, suas conhecidas, que êle cumprimentava e lhe diziam:
--«Gostou?
--«Muito!»
Helena atravessou-se-lhe no caminho:
--Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não perdoas?...
Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou. Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.
--Mata-me! mata-me!--gritou ela.
Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada sôbre o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns instantes a respirar, a arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos. Desceu então o último degrau e começou a caminhar ao longo da rua--sob a inclemência do vento e da chuva que caía.
* * * * *
Casa maldita
(Tragédia rústica)
FIGURAS:
TÓNIO...........} MANOEL..........} _irmãos_. MARIA JOANA.....} FRANCISCO....... _noivo de Maria Joana._ O MÉDICO.
Beira-Baixa, época actual.
Casa maldita[1]
(Tragédia rústica)
_Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e chuva desabridos._
FRANCISCO, _da porta, chamando_:
Maria Joana!
MARIA JOANA, _que vem de dentro, do interior da casa, com uma candeia acêsa, voltando-se_:
Crédo! Meteste-me um susto! (_Pendurando a candeia_). Entra!
FRANCISCO, _entrando_:
O pai? está melhor?
MARIA JOANA, _abatida_:
Na mesma...
FRANCISCO
Na mesma?!
MARIA JOANA
Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão!
FRANCISCO
Basta que sim.
MARIA JOANA
Sempre a variar... a dizer tolices... (_sente-se, dentro, gemer_). Ouves? Lá está...
FRANCISCO
É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...
MARIA JOANA
Sim, tem disso.--«Alembras-te» da minha mãe?
FRANCISCO
«Alembro».
MARIA JOANA
Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal.
FRANCISCO
Ágora!
MARIA JOANA
Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (_Comovida_) É o mesmo mal.
FRANCISCO
Ora!
MARIA JOANA
Verás. Já d'ali se não ergue.
FRANCISCO
Sabes lá bem...
MARIA JOANA
Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar...
FRANCISCO, _depois dum silêncio_:
Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico?
MARIA JOANA
P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.--Pois que horas são?
FRANCISCO
Oito. Déram agora...
MARIA JOANA, _calculando_:
É isso. Foi com de dia. Não tardam.
FRANCISCO, _depois dum novo silêncio_:
E que diz o mestre Lourenço?
MARIA JOANA
O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é claro.
FRANCISCO
Sangrou-o?
MARIA JOANA
Sangrou.
FRANCISCO
E «óspois»?
MARIA JOANA
Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a encovarem-se-lhe... (_Tápa o rosto com as mãos, horrorisada_). Se tu o visses!
FRANCISCO
Devia ter sido há mais tempo, talvez...
MARIA JOANA, _desiludida, encolhendo os ombros_:
Oh!
FRANCISCO
Há quantos dias adoeceu?
MARIA JOANA
Há treze.--É mau «númaro», não é?
FRANCISCO
Ora adeus! Fias-te nisso?
MARIA JOANA
Fio.
FRANCISCO, _levemente trocista_:
Esta bom.
MARIA JOANA
Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima noite...
FRANCISCO
Foi o acaso.
MARIA JOANA
A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze...
FRANCISCO
Bem haja ela...
MARIA JOANA
Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a!
FRANCISCO
Milagre fôra se a deixásse com vida...
MARIA JOANA
Que mais queres?
FRANCISCO
Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça; dás em maluca.
MARIA JOANA
Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos, «Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do nosso casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...
FRANCISCO, _nervoso_:
Bem; se continúas, vou-me.
MARIA JOANA, _rindo_:
Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!...
FRANCISCO
Não é; não gósto...
MARIA JOANA
Bem, bonda, não te zangues...--És meu amigo?
FRANCISCO, _amuado_:
Não sei...
MARIA JOANA
És, bem vejo.
FRANCISCO
P'ra que mo «prècúras», nesse caso?...
_O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores, ululando._
MARIA JOANA, _num pressentimento_:
E se eu morrêsse?... Casavas com outra?
FRANCISCO
Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então...
MARIA JOANA
Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.--Escuta!
_Poem-se os dois a escutar._
FRANCISCO
Parece que vem gente...
MARIA JOANA
Ná. É o vento.
_Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra, embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA JOANA, assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se tambêm assustado._
MANOEL, _sorrindo, semblante mal encarado de facinora_:
Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!...
MARIA JOANA, _mal refeita ainda do susto_:
D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas?
MANOEL
Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (_A Francisco_) Um cigarro!
_FRANCISCO oferece-lhe um cigarro._
MANOEL
Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»!
FRANCISCO
Déram-mos.
MANOEL
Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta casa... é tudo deles,--_dessa_ e do outro...
MARIA JOANA
Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão.
MANOEL, _crescendo para ela_:
Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és?
FRANCISCO, _para o serenar_:
Olha o pai, que ouve...
MANOEL
Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o médico? Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra! Pois hão de êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (_Beija os dedos em cruz_). Juro!
MARIA JOANA
Ninguêm to pede...
MANOEL
Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito...
FRANCISCO
Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma pessoa de remorsos.
MANOEL
Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer, morre. Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação.
MARIA JOANA
Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde.
FRANCISCO
Ouves?
MANOEL
O corpo dava ela por menos disso...
FRANCISCO
«Manel»!
MANOEL, _refilão_:
Que há de novo?
FRANCISCO
É tua irmã, bem vês...
MANOEL
Parabêns. Olha a princesa!
MARIA JOANA
Desalmado! (_Ouve-se dentro a voz do pai a gemer_). Pai! pai! Aí vou!
_Sai correndo._
_FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas._
FRANCISCO
Que noite!
MANOEL, _à lareira, põe-se a cantar_:
_Não sei que quer a «desgrácia» Que atrás de mim corre tanto..._
FRANCISCO, _interrompendo-o_:
Parece mal, «home»; cala-te!
MANOEL
Pois sim...
_... Que atrás de mim corre tanto... Hei de parar e mostrar-lhe Que de vê-la não m'espanto..._
FRANCISCO
Até é pecado.
MANOEL
Pecado e êles fazerem-me o que me fazem.
FRANCISCO
Estás doido. Que é que te fazem?
MANOEL
Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis dar!...--Já lá está, a pagá-las!
FRANCISCO
Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido.
MANOEL
Sou?--Porque dizes isso?...
FRANCISCO
Porque tenho rasões.
MANOEL
Talvez. Eu odeio-vos a todos!
FRANCISCO
A mim tambem?
MANOEL
A ti. Queres-me roubar...
FRANCISCO, _pálido, recuando_:
Eu?!
_Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima._
MARIA JOANA, _de dentro, a gritar_:
Lá veem! lá veem! Abram a porta... (_vê Francisco arquejante, afogueado; pára diante dêle_). Que foi?
TÓNIO, _de fora, ao mesmo tempo, chamando_:
Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (_Batem com força_).
_Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço._--«Santo nome de Deus!» _diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio._
O MÉDICO
Ora até que emfim!... Boa noite!
VÓZES, _a um tempo_:
--Bôa noite.
--Viva!
--Passe vossa senhoria bem...
TÓNIO
Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito.
O MÉDICO, _aquecendo-se_:
Aceito. Venho gelado.
_Faz-se silêncio. O doente grita._
O MÉDICO
É o doente?
MARIA JOANA
Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo nome de Deus! Se vossa senhoria o aliviasse daqueles tormentos, por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se os tem...
MANOEL, _do lado, chasqueando_:
Êle não e casado, mulher!
O MÉDICO, _voltando-se, reparando em Manoel_:
Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado?
MANOEL, no mesmo tom:
Digo eu...
O MÉDICO, _para Maria Joana_:
Quem é êste homem?
MARIA JOANA
É meu irmão (_segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido_).
O MÉDICO
Bem.--Vamos ver o doente. (_Indicando uma porta_) É por ali?
MARIA JOANA
Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa de «probes»...
_Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os tres homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra. Um cão põe-se a uivar, perto._
FRANCISCO, _nervoso_:
Olha o diabo do cão! É o vosso?
TÓNIO
É. Chama-o.
FRANCISCO, _vai á porta a assobiar-lhe_:
Eh! _Farrusco!_ Quieto! Venha cá! Quieto!
O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez.
FRANCISCO
Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono. _Farrusco!_ (_assobia-lhe de novo_).
MANOEL
Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes? Aquilo foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto...
TÓNIO
Bruto!
_Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma labareda d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar._
TÓNIO, _a meia voz_:
Farçola! o que tu merecias...
MANOEL, _que ouviu bem_:
Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...
TÓNIO
O quê? que dizes?
MANOEL
É cá comigo...
TÓNIO
Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste?
MANOEL
Bom proveito.
TÓNIO
As vinte moedas que ali estão (_indica um arcaz_) são da Maria Joana.
MANOEL, _erguendo-se, encandieirado_:
De quem?
TÓNIO, _enérgico_:
Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade, mando eu!
FRANCISCO, _intervindo_:
Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não queria que por via disso... de dinheiro...
TÓNIO
Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou o mais velho.
MANOEL
Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena.
TÓNIO
Pois cego sejas tu.
FRANCISCO, _interpondo-se_:
Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos...
O MÉDICO, _da porta, falando para dentro_:
Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa (_entrando_). Pobre homem!
TÓNIO, _avançando para o médico_:
Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre?
O MÉDICO, _querendo animar_:
Vamos a ver; emquanto há vida...
FRANCISCO
Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer...
TÓNIO, _desiludido, ao médico, abanando a cabeça_:
Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta noite... Adivinho!
FRANCISCO
Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que não. Êle é que sabe, que estudou...
TÓNIO