Aquela Família: Tipos, caricaturas e episódios provincianos
Part 2
Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos--da transpiração diurna.
Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo Felizardo--Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto--convidando-me a ir passar com êle uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito conhecer-me.
No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais intensa da vida agricola.
Adorável amigo!
Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar, senhores! Eu ia emfim ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre falar com tanto entusiasmo.
Fui ao telégrafo e expedi para _dr. Vieira Leite_ o seguinte aviso: «Chego àmanha».
As delícias do progresso!
Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar que se chama--o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda vinha a parafusar nas belezas da Civilisação,--contente, reconhecido...
De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor sombra de prosápia e sem querer censurar ninguêm,--apenas para estabelecer a verdade.
Eu sou um apóstolo da Verdade!
Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal, portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortêsmente se queria alguma coisa «para êsse Minho»?
Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo dum emblema galénico:
LABORATORIO
Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, rosnou por entre dentes:
--Boa viagem!...
Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,--das minhas...
Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.
Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.
Coisa esquisita!
Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das trovoadas?
Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.
Mas...--protestava uma voz do fundo de todo o meu ser angustiado--o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!
Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por dentro--como homem e como divindade!
Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento, quebrando-me as forças, jugulando-me,--nem que alguma poderosa mão invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à primeira voz.
--Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!
E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais cariciosa das maneiras:
--E que me diz o meu amigo do tempo?...
Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro (ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe na intimidade... Que bom! Que pechincha!
Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a dentro com os braços no ar, exclamando:
--Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?
Fitámo-lo surpresos.
Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.
--Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem encobrir o seu mau humor.
E o outro, com muitos gestos, esbaforido:
--O ministério! caiu o ministério!
E sentou-se por já não poder.
Anselmo largou a espátula:
--Que me diz?!
--Olhe, veja!...--murmurou sufocado.
E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho: «ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!
Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça, doido com a história.
--Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!
E esfregava as mãos de contente.
--Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que se vai ver o que é governar!
O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes, vociferando:
--Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer, tudo! E eu, e você, e os mais,--os que trabalhâmos--a pagarmos para aqueles piratas!
Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que prosseguia irado, numa linguagem perversa:
--Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!
E já frenético, em altos gritos:
--É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!
Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta, enxotava, explicando:
--Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se embora!
Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para dentro, pelos vidros da outra porta,--a ver se via o ministério no chão...
A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria balela?
O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que quem governava não era o Zé Luciano: era a mulher.
Tomou fôlego, prosseguiu:
--Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o outro... (fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha, nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se apresentar! Uma vergonha!
Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.
--Olha o Teotónio! Você aí!--disse, dando por mim.--Desculpe, não tinha reparado... Então que diz a isto?
--Eu?...
--Sim, que diz você a isto?
Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:
--Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas alturas foi a sorte grande para o país!
Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:
--É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a câmara. Creio que agora...
--Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto--o que eu quero é que me deixem. Teem aí muita gente...
Menezes não via, não achava:
--Muita gente! Aonde?...
Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:
--Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...
--Diga, diga! aprovou êste.
--É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr. Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade e proficiência o papel de presidente do município.
--Apoiado!
--Haja em vista,--justifiquei, voltando-me para êle,--o que V. Ex.ª fez da outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!
--Ora, ora...--desdenhou Anselmo.
--É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.--Está na memoria de todos. De todos!--repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.
--Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos de dias!
--Um alimento de primeira necessidade...--avolumou o jornalista.
--Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu. Lembro-me como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que V. Ex.ª sossegou a população, declarando que uma gréve dessa natureza seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite, fôsse feita pelas próprias vacas...
--Sim senhor...--confirmou o Menezes.--Lembro-me perfeitamente; eu tambêm lá estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...
--Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o melhoramento entre nós do carro do lixo?
Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:
--A êle!
--A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?
--A êle!
--A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?
--A êle! a êle só!
--Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!--bradou o boticário rialmente confundido, levando as mãos ao crâneo--Eu sou um humilde trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os amigos. Nada mais!
--Êsse pouco...
--Mas quanto a política, francamente, confesso--estou farto; estou farto dela até aos olhos!
--Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes, piscando-me o ôlho.--Olha quem, o régulo!
Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás afogueado:
--Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?
Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto, num gesto omnipotente, informou:
--Desce!
--Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!
E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.
Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a opinião autorisada e justa...
Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com efeito um extravagante acontecimento.
Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não sabia mesmo se aquele facto, na aparência sensacional, representava uma vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrára jámais inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um franquista, um progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma--que é para o que eu me sinto rialmente com vocação...
Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que--seja dito de passagem--significava uma grande segurança para a inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão.
Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria satisfeito.
--Mas porque caíria o Hintze? indaguei.
Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:
--O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais nas condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se lhe constar, _verbi gratia_, estando aqui, que lá fóra a uma esquina há um homem com um cacete á espera dêle--acredite--é quando lá passa mais depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!
Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E quando Anselmo terminou:
--Efectivamente, o João Franco...
Anselmo benzeu-se:
--Ah! meu amigo: é um colôsso!
Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar o hino da carta.
--Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?
--Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.
--Parece.
--E brioso; um cavalheiro.
--Parece.
--Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...
--O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!
--É. O sr. fala-lhe?
--Ás vezes, por cortesia...
--Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine!--do Navarro, do Emídio Navarro!
--Patife!
--... que tinha vindo nas _Novidades_ já não sei há quantos anos, e que o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.
--Patife! patife!
--O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos--êle que é um esturrado!--agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma destas coças...
--Bem feito.
--De manhã já o Menezes aqui me tinha dito a mim, furioso: «Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um côrno».--Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.
--Anda-me.
--No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!
Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.
E com pesar:
--Já não vai; paciência!
--É pena.
--Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...--e beliscava o lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma pontinha de malicia nos olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma coisa fica. Não temêmos, porêm, etc., etc., etc....» Repare agora: «Os aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço.» (Anselmo sublinhava: _como zagalotes no aço..._). «Todo o mundo sabe que só usamos o que nos pertence...» (_Piscadela de ôlho do Anselmo_) «Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos ou as joias das amantes: _Meneses dos Santos_».
--Isso é medonho! comentei.
Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:
--«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do notário... Genial! genial!
Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao procedimento do Souto, que fôra indecente.
A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o com a vista, distraído.
--Então sempre vai amanhã? perguntou-me.
--Sempre vou amanhã.
--Pois o tempo está firme. A _coluna_ desceu, mas descance que não há-de haver novidade. Isto conserva-se.
Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:
--Pode ir descançado...
--O sr. Anselmo não quer para lá nada?--perguntei.
--Não; quero que tenha muita saúde.
Fitou-me carinhosamente:
--E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um abraço.
Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me; e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.
--Até à volta!
--Até à volta!...
O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo à porta, dizia-me adeus de lá,--com a mão...
* * * * *
Sr. Anselmo
(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)
(1912)
II
Sr. Anselmo
(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)
(1912)
II
Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em Lisboa o movimento revolucionário de outubro.
Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de perdiz, pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança bárbara, grotesca, entre uivos e assobios.
O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por tabaco, e a encomendar a carne do dia imediato, que era dia de matança na vila.
Não devia tardar.
D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas assadas, raras naquela região e muito frêscas,--nem que Nagosa fôsse um braço de mar e as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para assentar, chá,--um cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota apurada da civilização após aquele _menu_ de cavadores.
Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com a notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em deligência, espalhára a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era um mar de sangue!
Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente, mentiroso e gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, êle, Anselmo--homem de processos sóbrios--veementemente reprovára, deixára o país em alvorôço, debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente tímida, com um rei no trôno «que não era rei nem era rainha», figurita débil e epicena de maricas.
--Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.
A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.--Qual seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os insurrectos? E depois: a intervenção extrangeira?...
Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens, violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma esquina! Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...
--Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E confirmada a notícia, comentou:--Pois bem... Nós cá não temos nada com isso; lá é com êles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa noite!
Havia lua cheia.
Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca. Murmurou arreliado:--«A mania de comer a esta hora há de acabar.»
O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe o rosto afogueado.
Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.
De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou esganiçada:
--Ansèlminho, olha a bronquite!
Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas scintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...
Murmurou, regalado:
--E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...
A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho de Anselmo começava a ferver nas dornas.
De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na população. E o brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no oiro vivo do sol outonal.
Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso feliz de proprietário favorecido, e chamando o caseiro:
--Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein?
--Parece que sim, meu padrinho...
Era afilhado.
--A uvazita fundiu... dizias que não.
--Houve mais que eu sei lá!
--Pois sim, mas...
Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.
Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas pitadas de tabaco francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do rebordo da dorna a que se agarrára, a umas palhas que ali topou a geito, e pôs-se a fazer um cigarro, trauteando a _Portuguesa_.
O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a _lei da Separação_.
A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio, vingança, perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o facto de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos, quem guardára, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de substituirem as antigas côres constitucionais pelo vermelho e pelo verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra _verde_ com intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no edificio da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo republicano.
Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos. Tinham-se efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos, antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes; principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe:--«Vamos!» tudo marcharia à uma sôbre as cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando, rolando, com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!
O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as suas medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo, espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas janelas, no meio da rua.
E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!
Anselmo indignava-se:
--O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.
Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir ninguêm; que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio Mendes, republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e firmêsa estas sensatissimas explicações.
--Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não diz se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver! Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!