Apontamentos para a Biographia do Cidadão José da Silva Passos

Chapter 2

Chapter 23,794 wordsPublic domain

Á esquina do theatro de S. João, na praça da Batalha, encontrou o bravo, nobre, e patriotico Montenegro, Commandante em segundo da Guarda Municipal Portuense; depois de fallarem, dirigiram-se ambos para o quartel do Carmo, a fim de se pronunciar o distincto corpo da Guarda Municipal, antes que o Duque alli fosse, ou mandasse algum seu emissario.

Os Snrs. Passos José, e Montenegro, no seu caminho para o quartel do Carmo, entraram n'uma casa na rua nova de Santo Antonio, mas não se demoraram. Á sahida dessa casa disse o Snr. Passos algumas palavras ao Snr. Fevereiro Junior.

Durante o transito pelas ruas de Santo Antonio, Praça Nova, Clerigos, Correio, Praça dos Voluntarios até o quartel do Carmo--foi o Snr. José Passos declarando a quem encontrava, que se resistia á contra-revolução de Lisboa, que se havia de impedir que o Duque exercesse as funcções de Lugar Tenente, e pedindo a todos que se fossem armar, e communicassem aos outros patriotas esta briosa resolução.

Pronunciada a Guarda Municipal, pelo que são dignos d'encomios os commandantes, officiaes, e soldados, mandou o Snr. José Passos tocar os sinos a rebate, avisar os Commandantes dos Batalhões da Guarda Nacional para que fizessem reunir os seus corpos, e bem assim os Administradores dos Bairros, e outros empregados, para o encontrarem no quartel de Santo Ovidio.

Na sahida do quartel da Municipal fallou o Snr. Passos, junto á porta da igreja do Carmo, com o benemerito Tenente Coronel Gromicho Couceiro. Achavam-se alli os Snrs. Abreu Couceiro, Fevereiro, Nicolau, e mais quatro patriotas.

Dirigiu-se ao Bomjardim, e tendo ahi montado a cavallo, veio reunir-se, na rua dos Ferradores, á Guarda Municipal, que na conformidade da resolução previamente adoptada, marchava para o quartel de Santo Ovidio, aonde se achava o Regimento d'Artilheria n.º 3, do commando do distincto militar o Snr. Antonio Rogerio Gromicho Couceiro.

Depois de ter alli fallado com dois Administradores de Bairro, alguns empregados, distinctos militares, e outros patriotas &c. marchou com o Capitão N., dez soldados da municipal de cavallaria, e um patriota paizano, pela rua nova do Almada, calçada dos Clerigos, praça dos Voluntarios da Rainha, Carregal, Torre da Marca em direcção ao quartel do 6.º regimento, com o fim de promover a revolução na povoação, e assegurar-se por si da fidelidade do benemerito corpo de infanteria n.º 6.

No meio do campo de Santo Ovidio reuniu-se-lhe o Dr. Francisco Antonio de Rezende, que acompanhou o Snr. José Passos na primeira vez que foi ao Duque, e depois continuou a trabalhar no que foi necessario para o triumpho da causa nacional. O Snr. Rezende é tambem um dos diversos cidadãos que foi, por recommendação dos Snrs. José Passos, e Visconde de Beire, procurar barco para conduzir a bordo do vapor os illustres generaes, vindos de Lisboa.

O Snr. José Passos, no transito para Villar, mandou prender defronte do palacio do Barão de Nevogilde, um official da comitiva do Duque, que hia encarregado de levar despachos de S. Exc.ª

Depois de haver fallado com o distincto Commandante d'infanteria n.º 6, que informou o Snr. Passos do que havia passado com um filho do Exc.^mo Conde de Terena José, continuou a sua marcha para Villar.

Chegado ao palacio do Conde de Terena Sebastião, e feitos os devidos comprimentos, teve o Snr. José Passos occasião de declarar que a guarnição estava na resolução de não cooperar para no Porto se imitar o que se tinha feito na capital, e que contava que a cidade tambem não obedeceria ás ordens de que S. Exc.ª era portador.--O Duque, como militar valente que é, dizia com toda a urbanidade e cortezania, que havia de cumprir a sua missão e as determinações do governo de S. M. a Rainha; ao que o Snr. José Passos respondeu com a sua notoria amabilidade--que desta vez não seriam cumpridas.--Depois d'andarem conversando na sala os Snrs. Duque, e Passos José, aproximou-se o General Visconde de Campanhãa, o qual perguntou seccamente ao Snr. Passos==V... reconhece o ministerio ultimamente nomeado por S. M. a Rainha?==Para mim, respondeu o Snr. José Passos, só é legitimo o que for filho da insurreição.==Entendo bem, disse o Snr. Campanhãa.

Entrou o nobre Visconde d'Alcobaça, e o Snr. José Passos sahiu com o Snr. Dr. Rezende para, depois de dadas as providencias para que d'alli se não evadissem os generaes vindos da capital, fazer marchar para Santo Ovidio o regimento d'infanteria n.º 6; porque não convinha que continuasse a permanecer na proximidade do quartel do Duque.

Para guarda do Duque e seus companheiros deixou o Snr. José Passos o Snr. Capitão N., oito soldados de cavallaria, seis ou sete paizanos, sendo um delles o Snr. O. C. que teve de hir immediatamente ao quartel de Santo Ovidio, encarregando-os de não deixar escapar os cavalheiros que se achavam na casa do Snr. Conde de Terena Sebastião, tanto pela porta como pelos quintaes, promettendo-lhes que para alli marchariam os patriotas que estivessem reunidos na cidade, assim como todos os que encontrasse no seu caminho para Santo Ovidio, para onde acompanhou o regimento n.º 6.

A estas providencias dadas pelo Snr. Passos devem o não ter sido presos o Snr. Antonio Pereira dos Reis, e outros.

Entrando o Snr. José Passos com o regimento 6.º no quartel de Santo Ovidio, ahi na presença dos Snrs. Barão de Fornos d'Algodres, Rogerio Gromicho Couceiro, Montenegro, Damazio, Almeida e Brito, Rezende, O. C., e outros officiaes--escreveu o Snr. José Passos ao Commandante da terceira divisão militar, Conde das Antas, uma carta que mandou expedir por um postilhão.

Os Snrs. José Passos, Barão de Fornos, Antonio Rogerio Gromicho Couceiro, João Pinto de Sousa Montenegro, são todos constitucionaes, emigrados, e soldados de D. Pedro.

O Snr. Barão de Fornos d'Algodres é um fidalgo, antigo liberal, e official distincto e disciplinario.--O Snr. Gromicho Couceiro é um dos mais distinctos officiaes d'artilheria, patriota muito illustrado; e fez tambem bons serviços, juntamente com o Snr. José Passos, nos dias 12 e 13 de Junho de 1846, e desempenhou com muita dignidade o lugar de Lente na Academia Polytechnica Portuense.--O Snr. Montenegro é um cavalheiro, valentissimo official, e distinguiu-se na revolução de Maio de 1846, e na acção de Valpassos.

Do quartel de Santo Ovidio passou o Snr. Passos para o palacio do Snr. Visconde de Beire, e d'alli para a praça de D. Pedro, a fim de apressar a marcha, para Villar, dos populares que se tivessem reunido.

A tropa de linha conservou-se firme e na mais completa obediencia aos seus commandantes, no quartel de Santo Ovidio.

Em consequencia do toque de sino--da noticia da chegada do Duque--e da resistencia começada pelo Snr. Passos, e da louvavel posição que tinha tomado a tropa, um numero consideravel de cidadãos respeitaveis se tinha no principio da noite começado a reunir em alguns pontos da cidade.

A patuléa depois d'armada começou a marchar para Villar, e a operar. O Snr. Passos José na praça de D. Pedro conversou com o Snr. Justino Ferreira Pinto Basto, e recommendou a alguns patriotas que fossem aos outros pontos de reuniões populares avisar os cidadãos para marchar para o quartel do Duque.

Vimo-lo depois no páteo da igreja do Carmo conversando com o Snr. Almeida e Brito, Alvo Brandão, alguns officiaes, e outro cavalheiro, em quanto pela frente hiam marchando as forças populares. Mandou d'alli alguem vigiar a cadêa e a ponte, e pediu que lhe mandassem um destacamento de soldados de infanteria municipal para Villar--e dirigiu-se pela segunda vez para a casa onde se achava o Duque.

Encontrou na casa do Conde de Terena Sebastião os Snrs. Visconde de Beire, e d'Alcobaça, com quem esteve fallando, e talvez combinando o que naquelle momento convinha fazer a respeito dos illustres generaes.

Poucos minutos antes da segunda visita do Snr. Passos José a casa do Snr. Conde de Terena Sebastião, tinha o patriota o Snr. Antonio Navarro entrado na sala e declarado ao Duque, que o povo exigia que elle fosse prêso para os paços do concelho.

O Snr. Passos entreteve-se a conversar com o Duque, Visconde de Fonte Nova, Conde de Terena José, Conde de Santa Maria, em quanto todos os vindos de Lisboa, e alguns que se dispunham acompanhá-los, se preparavam para marchar para o lugar do embarque. Um fidalgo mancebo aproximou-se do Snr. Passos José, e disse-se que appellando para os sentimentos nobres e cavalheiros deste benemerito cidadão, e para a sua proverbial generosidade, lhe recommendou que tivesse o maior cuidado na conservação do Duque--ao que o Snr. Passos respondeu--que a recommendação era desnecessaria; porque a salvação da vida do Duque era o seu principal dever, e que podia assegurar a S. Exc.ª que o seu corpo serviria de trincheira ao Duque, e que só por um acaso inesperadissimo poderia o Marechal ser ferido ou maltratado, sem que primeiro o fosse elle José Passos.--Declaração de cavalheiro, que o Snr. José Passos cumpriu primorosamente, não se separando do lado do Duque senão momentaneamente, duas vezes, porque o bem do Marechal assim o exigia. Facto este presenciado por amigos e adversarios, e que não póde ser contestado.

O Duque, antes do triste papel que lhe distribuiram para tirar a S. Exc.ª o que tinham de glorioso os seus padecimentos, dizia com muito chiste==O José Passos é uma formidavel trincheira.==O risco foi mui grande naquella noite, mas era difficil que eu fosse ferido ou morto antes que o fosse o José Passos.==Estão ainda bem presentes na memoria d'alguem que, na lingoeta, disse o Duque para o Snr. José Passos==V.... fez agora o diabo;.... tive bastante receio....

A opinião mais geral era que convinha re-enviar para Lisboa os generaes. Os Snrs. Passos José, Visconde de Beire, e Visconde d'Alcobaça, tinham os mais sinceros desejos de que elles re-embarcassem, e lhes não succedesse incommodo algum. As ordens mais terminantes foram dadas para se apromptar um barco que os conduzisse ao vapor.

O não apparecimento do barco, e a muita demora que houve na lingoeta a vêr se dos vapores, ou de algum navio, vinha escaler, suscitou a alguns populares a lembrança de serem conduzidos ao castello de S. João da Foz do Douro os illustres generaes. Então o proprio Duque vendo que a exaltação dos bons cidadãos hia subindo de ponto, conveio em que nada se podia fazer mais acertado do que seguir o brado popular. Patriotas distinctos, e chefes de fabricas continuaram a fazer esforços para que o Duque re-embarcasse, e não fosse para o castello. Baldados esforços! porque não appareceu barco ou escaler. Se alguem tivesse declarado aos Snrs. Passos José, Visconde de Beire, e Visconde d'Alcobaça, que apromptava o barco, ou que o havia na proximidade, teriam estes cavalheiros feito todas as diligencias para que elles embarcassem, embora perdessem a vida; porque nessa noite não só esses tres illustres cidadãos, mas muitos outros patriotas Portuenses deram a prova mais cabal, de que sabiam affrontar a morte, quando tratam de cumprir os seus deveres...

Durante todo o transito, o Snr. José Passos desenvolveu a sua costumada coragem, mostrou-se digno irmão do corajoso e intrepido Passos Manoel; e patenteou o mais decidido interesse pelo Duque. O Snr. Passos José já tinha visto em época não mui remota, armas levantadas, bayonnetas apontadas contra o peito, e não deixou por isso de cumprir o seu dever na praia de Gaya, e praça de D. Pedro.

Os prêsos foram conduzidos sem o maior incommodo até o castello da Foz. Louvor aos patriotas Portuenses que mostraram que, em generosidade e tolerancia, não são inferiores aos Parisienses. No nosso paiz ha muito que a pena de morte por delictos politicos se reputa extincta. Costumamos marchar sempre na vanguarda do Exercito da liberdade e civilisação.

A indisposição contra o Duque provinha principalmente de haver sido ministro com os Cabraes.

Os patriotas deixaram evadir os Snrs. D. Manoel Alva, Antonio de Lacerda, Barros, e outros.

No dia seguinte (10) o Governador Civil interino Corte Real, propunha á Camara Municipal, reunida em vereação extraordinaria, a nomeação d'uma Junta Provisoria do Governo Supremo do Reino, como se fizera em 24 d'Agosto de 1820.

Foram eleitos para a Junta:--Presidente, Conde das Antas Vice-Presidente, José da Silva Passos--Vogaes, Antonio Dias d'Oliveira--Sebastião d'Almeida e Brito--Justino Ferreira Pinto Basto--Conde de Rezende--Barão de Lordello--Antonio Luiz de Seabra, vogal encarregado das repartições civis--Francisco de Paula Lobo d'Avila, vogal encarregado das repartições de guerra e marinha.

Os Snrs. Dias d'Oliveira, Barão de Lordello, e Conde de Rezende, não acceitaram a nomeação, apesar de sympathisarem com a causa popular.

O Snr. Conde de Rezende, como official do Exercito, prestou mui valiosos serviços.

A Junta teria sido melhor organisada, se os Snrs. Visconde de Beire, e Visconde d'Alcobaça, não tivessem depois da noite de 9 d'Outubro de 1846 voltado á vida privada.

Se o Snr. José Passos teve alguma parte na escolha dos individuos que formaram a Junta, faz-lhe muita honra o ter escolhido para membros della alguns cavalheiros que antes estavam em divergencia com elle na questão eleitoral.

O Snr. José Passos, como encarregado dos negocios da Fazenda, e em cumprimento das ordens da Junta, procurou muitos recursos para a sustentação da causa nacional--aboliu alguns tributos, como foi o do pescado--reduziu as sizas a cinco por cento--permittiu durante a guerra civil o livre fabrico do sabão, e a admissão do estrangeiro com modicos direitos--alliviou os jornaes, e impressos dos portes do correio.--promoveu com grande actividade a cobrança dos rendimentos publicos--introduziu a mais sevéra fiscalisação, economia, e regularidade nas repartições a seu cargo--mostrou severidade contra os prevaricadores, e maus funccionarios--empregou muitos esforços para adiantar a contabilidade das repartições publicas, e para evitar roubos e desperdicios que tão vulgares costumam ser em épocas de commoções n'outras nações.--Fundou a casa da moeda em Monchique.--A conta da receita e despeza effectuada no cofre central do Porto, achava-se lançada no livro respectivo, indicado nas instrucções de 8 de Fevereiro de 1843, que existe em poder das authoridades da situação desde 30 de Junho de 1847. É de presumir que o governo actual a mande imprimir e distribuir pelas camaras legislativas; visto que a Junta se acha dissolvida, e os seus membros não tem caracter algum governativo.

Os governadores civis, os thesoureiros pagadores, os delegados do thesouro, os empregados das secretarias, directores d'Alfandegas, administradores e recebedores de concelho, e todos os mais empregados fiscaes desempenharam as suas funcções com zelo, actividade, e intelligencia. Os commissarios do governo, junto aos bancos, companhias, emprezas, e contractos, tambem cumpriram os seus deveres com moderação, fidelidade, e dignidade.

Com mil quarenta e dois contos trezentos sessenta mil trezentos e cincoenta e dois reis, sustentou, por espaço de nove mezes, um exercito maior do que actualmente temos--forneceu dinheiro para a compra d'armas, petrechos de guerra, seiscentos cavallos e arreios--para fardar milhares de soldados, e voluntarios--para sustentar a marinha, fazer duas expedições, fortificar a cidade muito melhor do que o estava no tempo do famoso cêrco--e para muitas outras despezas extraordinarias conducentes ao triumpho da revolução. A responsabilidade moral da Junta e dos que geriram os dinheiros publicos ou particulares, consiste principalmente em provar que o não applicaram para seu particular proveito, mas sim para o bem da causa de que o povo os encarregou.

Mas o que sobremaneira honra a Junta, é as poucas medidas violentas de que, no meio de tão extraordinarias circumstancias, lançou mão, quando parece tinha um perfeito conhecimento de quem eram os conspiradores que ajudavam o governo de Lisboa, e dos seus planos! Os emprestimos forçados de dinheiro foram insignificantes. Os de generos, pipas, vinhos, palhas, madeiras &c., foram insignificantissimos--porque havia uma grande porção de donativos voluntarios.--Os mappas que por ordem da Junta se estavam formando nos governos civis para juntar aos relatorios dos encarregados das diversas repartições, continham preciosissimos dados estadisticos para se avaliar não só a economia e regularidade das authoridades da Junta--mas os sacrificios do povo para a conservação da sua liberdade.--As intenções da Junta eram que se pagassem todas as despezas feitas para o triumpho da causa popular, logo que a capital adherisse á vontade nacional.

Um governo justo e amigo da prosperidade nacional, não póde deixar de mandar liquidar essas quantias que se ficaram devendo, e pagá-las da maneira mais suave tanto para o Estado, como para os mutuantes forçados. As despezas das guerras civis quando os partidos belligerantes se equilibram, devem ser pagas pelo thesouro publico. A Junta merece a gratidão dos mutuantes pelos esforços que fez para obter para estes, das potencias interventoras, ou do governo de Lisboa o prompto pagamento. Vejam-se as instrucções dadas aos plenipotenciarios ou agentes da Junta encarregados das negociações.

A administração financeira da Junta foi das mais economicas e regulares que neste paiz tem havido.

Como vice-Presidente, mandou o Snr. Passos José expedir muitos officios e ordens para se activar o recrutamento--para se promoverem donativos de milhos, palhas, salitres, polvora, armas, petrechos de guerra, e cavallos; e para se enviar o mais que se necessitava para que nos depositos houvesse sufficiente porção de tudo o que fosse indispensavel para se prolongar a resistencia nacional. Não se póde escrever, como o deve ser, a historia da revolução, e da administração da Junta, sem se lêr e examinar os copiadores das diversas repartições, e do commando em chefe, e muitos outros documentos importantes que nos foram confiados.

O Snr. Passos José, como encarregado dos negocios estrangeiros, procurou manter as relações d'amizade com as nações alliadas, e sustentar a todo o custo a honra, dignidade, e independencia nacional--e não dar pretextos para que os gabinetes estrangeiros se intromettessem em nossos negocios.

No desempenho desta repartição, especialmente depois do aprisionamento da esquadra, foi o Snr. José Passos poderosamente coadjuvado pelos seus illustres collegas, e pelos distinctissimos patriotas os Snrs. Manoel da Silva Passos, Joaquim Antonio d'Aguiar, Marquez de Loulé, Manoel de Castro Pereira, Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, Alvaro das Povoas, José da Costa Sousa Pinto Basto, Augusto Ferreira Pinto Basto, José Pedro de Barros Lima, Dr. Rezende, Damazio, Cunha Vasconcellos, Bernardino Coelho Soares de Moura, General Guedes, Barão do Almargem, Alheira, Rebocho, José de Vasconcellos, Antonio Cesar, Abreu Castello Branco, Fevereiro, Parada, e alguns outros que a Junta julgou conveniente chamar aos seus conselhos e conferencias, ou encarregar d'alguma commissão, ou da redacção d'alguns papeis; porque os desejos de todos os membros da Junta nunca foram outros senão desempenhar com acerto, e á satisfação de todos, a missão de que fôra incumbida, e fazer a felicidade da nação.

As respostas ás notas dos agentes dos governos estrangeiros eram examinadas, discutidas, e approvadas pela Junta, e por os cavalheiros que ella julgava necessario ouvir.

É publico que o manifesto de 8 de Dezembro de 1846, e o protesto de 1 de Junho de 1847, foram redigidos pelo Snr. Manoel da Silva Passos, mas discutidos, emendados, e approvados pela Junta, por o seu author, e mais cavalheiros que assistiram ás respectivas sessões.

O Snr. José Passos votou contra a concessão do armisticio--pela sahida da expedição, commandada pelo General em Chefe Conde das Antas; e pela não acceitação dos quatro artigos do protocolo na sessão de 5 de Junho de 1847. Erro ou acerto, todos os homens de bem lhe fazem a justiça de que votou assim, porque a sua convicção era que nisso servia a revolução e o seu paiz.

Averiguamos que pelas repartições a cargo do Snr. José Passos não se expediram portarias sobre objectos da competencia da Junta, sem serem ordenadas por ella, e assignadas pela totalidade ou maioria dos membros que faziam vencimento para se ellas passarem. As portarias de expediente, e as que versavam sobre objectos pouco importantes, eram assignadas só pelo encarregado da repartição competente. O mesmo se poderá affirmar a respeito das outras repartições.

Todas as vezes que o Casal, Saldanha, e Hespanhoes se aproximavam das linhas, vimos os Snrs. Passos Manoel, e Passos José, apparecerem entre os primeiros nas trincheiras e lugares do fogo, como tambem o faziam os outros membros da Junta, e o povo Portuense, para quem um dia de fogo, ou aproximação d'inimigo, era um dia de festa.--Tambem os encontramos a rondar muitas vezes a cidade.

Entre os actos da Junta, dignos dos mais subidos louvores, merece mencionar-se a submissão dos realistas á bandeira nacional arvorada no Porto no famoso dia 9 d'Outubro de 1846. Para se elle conseguir prestaram valiosos serviços os Snrs. Povoas, Cesar de Vasconcellos, Bernardino, Marquez de Loulé, Guedes, Passos Manoel, Sá da Bandeira, Alvo Brandão, Abreu Castello Branco, Antonio Augusto, Visconde d'Azenha, Sebastião de Carapéços, Manoel Vaz Pinto Guedes Bacellar, Dr. João Alves de Moura, Lemos de Condeixa, Faria Pinto, Chichorro, Garrido, Rebocho, Pato, Teixeira, Coelho de Mello e Mesquita, Pinto da Cunha, e tantos outros cavalheiros patriotas, e officiaes, cujos nomes muito sentimos aqui não publicar.

Não houve nada de transaccional da parte da Junta com os realistas além da portaria assignada pelo Snr. Seabra, impressa nos jornaes da época, e no opusculo do Snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos==Succinta narração das circumstancias que precederam e seguiram a união dos realistas insurgentes com a Junta do Porto.==

Abstemos-nos de fallar das operações militares, e dos valiosos serviços dos generaes, officiaes, soldados, voluntarios, e guardas nacionaes--porque esse objecto terá o seu lugar nos apontamentos biographicos do benemerito General em Chefe do Exercito Nacional, e mui desinteressado patriota o Snr. Conde das Antas, cuja dedicação, lealdade, e serviços á causa popular, não podem esquecer aos bons patriotas.

A Junta merece muitos elogios pelas acertadas medidas que adoptou para se fazer o desarmamento do exercito nacional. Diz-se que ella insistira em que o exercito passasse todo armado para a obediencia das authoridades da Rainha. Se assim se tivesse feito, muito lucraria o Estado. O desarmamento depois da convenção de Gramido, é um dos actos que mais honra o partido progressista, o exercito, e o povo do Porto.

Mereceriamos grande censura se não mencionassemos aqui, que os brilhantes e eloquentissimos discursos do Snr. Passos Manoel, e os mui bem pensados do Exc.^mo Snr. Alvaro Xavier da Fonseca Coutinho e Povoas, e do Snr. Horta &c., proferidos nos conselhos militares que tiveram lugar na Casa Pia, muito contribuiram para esta brilhantissima pagina da historia do partido nacional.

A Junta fez os maiores esforços, para que os alliados, ou o governo de Lisboa provissem ás despezas indispensaveis para se recolherem a suas casas os heroicos defensores da mais nobre causa, mas nada pôde alcançar. A sua sollicitude foi ainda mais longe--nomeou uma commissão de pessoas respeitabilissimas para promover uma subscripção para subministrar alguma quantia para as despezas da jornada dos mesmos patriotas; mas pela entrada das tropas hespanholas, e posse das authoridades do governo de Lisboa, não se levaram ao cabo as beneficas intenções da Junta.

A Junta em quanto tivesse dinheiro, polvora, e viveres, devia prolongar a resistencia, e nunca deixar reserva de dinheiro para o desfecho. Ella cedeu; porque em identicas circumstancias o faria qualquer guarnição n'uma praça de guerra.