Part 7
Por que deixar de realisar o que era tão natural, uma vez apartado o unico obstaculo que se interpuzera entre os dous? Por ventura, valia elle menos do que esse intruso, o tal Barroso? Era, de certo, um pouco mais velho; mas tinha por si a precedencia. Ninguem estranharia aquelle casamento com quem tanta corda lhe déra n’uma época em que não deveriam ter sido aceitas as suas assiduidades. Culpa tivera ella, induzindo em erro tanta gente.
Sofia ensaiou um gracejo e com tom de remoque:
—Para nós, solteiras, o senhor... você tem um grave defeito: é viuvo.
Pelos olhos de Mario relampejou um raio de odio e ferocidade tão visivel e intenso, que a moça estremeceu. Com os dentes apertados sybillou a resposta:
—Quem me fez viuvo, ouviu? não tem o direito de me attirar isto em rosto, comprehende?
E o seu olhar torvo, dardejante, desvairado, buscava ir ao intimo de Sofia, explicando-lhe talvez mysterios terriveis, possibilidades de apavorar, completando a confissão confusamente bosquejada.
Por instinctiva defesa fechou-se a moça, fazendo poderoso esforço para conservar-se calma, serena, alheia e superior a qualquer connivencia, por longe que fosse.
Via-se subitamente envolvida em tenebrosas complicações, ameaçada de perigos de que nunca pudera cogitar, e cujo alcance não lhe era dado medir; tudo isso vago, indefinido na mente conturbada.
Ao mesmo tempo surgia-lhe medo immenso, incoercivel, d’aquelle homem, cruel alvoroço por toda ella, penosas explicações, arrependimento indisivel da sua leviandade e inconsideração, levada só e só pela ancia das homenagens, viessem de onde viessem, o gosto de dominar e ser requestada.
Continuava Mario Campos ameaçador.
Tudo caminhava para a tragedia; assim presentia. Quando quizesse ter mão em si, havia de ser tarde. Avisava...
—Então, interrompeu Sofia fingindo indifferença, temos agora intimidação? Quer levar-me pelo terror?
Elle, de subito, muito manso e cordato, sem transição, pedia perdão dos seus arrebatamentos. Promettia ser brando como um cordeiro. Queria só o que lhe parecia justiça. Implorava se preciso fosse, compaixão, misericordia. Tivesse Sofia pena da sua desgraça, de que fôra a causa. Contára tanto com o seu amor, a sua lealdade, e agora... Que é que o esperava n’este mundo, se se visse repellido, enxotado, quando architectara toda a existencia numa base unica, indispensavel, aquelle casamento. Para o tornar possivel, não recuára diante de consideração alguma. Tudo, tudo antepuzéra a isso-tudo, tudo, estivesse certa.
E recomeçavam as reticencias, as allusões vagas, mal indicadas, que deixavam Sofia toda fria,—não poderia dizer como, com verdadeiros calefrios pelo dorso, d’esses que, no dizer do povo, annunciam o esvoaçar da morte por perto.
Então, proseguia Mario, de nada valiam provas do que existira entre elles?
—Que provas? protestou altiva e surpreza a moça.
—Ora, as murmurações e o reparo da sociedade, durante mais de anno.
Sofia levantou os hombros com desdem.
—E as suas cartas, ardentes, incendiarias. Ah! mostral-as-ei ao mundo inteiro, a todos, a esse Barroso do inferno...
—Fôra indigno da sua parte. O cavalheirismo...
Cavalheirismo? replicava Mario Campos impetuoso, cheio de fél e ironia, quando tudo lhe tiravam, lhe arrancavam, lhe roubavam?! Depois do que lhe succedia, não era, não podia ser um homem como qualquer outro. Havia de tomar o seu desforço do modo que melhor lhe aprouvesse, como um villão, um miseravel, uma féra. Dependia d’ella. Dos seus labios estava suspensa a sua vida. Não lhe diria jamais tudo; mas a morte pairava sobre ambos...
—Sofia, Sofia! implorava o misero.
A moça, porém, abanava implacavel a cabeça, pallida, os olhos sem fulgor, meio cerrados, inquietos, mas energica, de tenção firme, inabalavel.
—Não, não; não é mais possivel...
N’isto um cavalheiro veiu lembrar-lhe o compromisso de uma valsa.
—Tenho certo escrupulo, disse elle um tanto malicioso, de interrompel-os; conversavam tão animados...
—O Sr. Mario Campos, replicou Sofia com toda a naturalidade, estava me contando a sua viagem ao Rio da Prata... bem interessante.
E lá se foi ella envolvida nos languidos effluvios de cadenciada e vaporosa musica.
II
Que existencia a do desprezado Mario Campos!
Pareceu-lhe aquillo, a principio, um sonho, um pesadello, esse tremendo e inopinado capricho de loureira a perturbar-lhe todos os planos e calculos e a exasperar-lhe a paixão por modo inacreditavel.
Fez ainda algumas tentativas, procurou encontros, entrevistas; mas achou todas as portas fechadas, as vasas cortadas, esbarrando com uma resolução tão valente e decidida como a sua. Empenhava-se Sofia em mostrar-se de posse do maior sangue-frio; e a sociedade, curiosa e attenta, observava aquella especie de duello travado repentinamente entre dous entes, que, pouco antes, tanto lhe dera que fallar em sentido bem diverso.
Cahiu depois o moço em profundo abatimento. Tudo se lhe afigurou perdido, a mesma natureza em vesperas de definitiva destruição, apezar dos rutilantes esplendores dos mais formosos e festivos dias. Encerrado em casa semanas e semanas, n’essa casa cheia de conforto e luxo em que não soubera dar o devido apreço á suave affeição da perdida esposa, reconcentrava-se num desespero medonho, tétrico, a sós com os mais negros pensamentos. Não lograva um momento de socego, e, para conciliar uma ou duas horas de acabrunhado torpor, tinha que recorrer, após noutes de absoluta insomnia, a elevadas doses de morphina.
Ahi emergiu-lhe das mais fundas entranhas odio immenso áquella mulher, e com elle sêde ardente incontentavel, de estrepitosa vindicta. Ah! sim, queria, precisava por força vingar-se, mas de modo unico, nunca visto, inexcedivel, nem sequer imaginado. E tornou-se-lhe prazer exclusivo procurar que desforço seria esse, capaz, só em ideal-o, de lhe applacar um pouco tamanhas ancias, fogo tão devorador e indomavel.
Matal-a-ia sem vacillar; oh, sim! mas como fazel-a soffrer mil mortes, n’uma agonia intérmina, á maneira d’essas aves de rapina, cruentissimos açôres, que, por instincto infernal, dilaceram as victimas membro a membro, pedaço por pedaço, lenta e quasi scientificamente, poupando com cautela os orgãos essenciaes á vida, afim de se saciarem, dia a dia, de carne sempre sangrenta e palpitante?
Mataria, oh, sim! aquelle homem... Tudo isto, porém, não fôra tão banal? Que valia esse rival de occasião? Eliminado da scena, outro o substituiria sem demora. Por tão pouco não se abate nem recúa a perfidia da mulher. Para que, aliás, essa suppressão de vida? Em muitos casos não é um favor a morte? Não representa a cessação da dôr, do soffrimento, da vergonha? Por ella não suspirava elle, como supremo bem? Sim, tambem tinha que morrer. No perpassar de todas as odientas combinações, intoleravel se lhe afigurava continuar a existir. Reservava essa tortura para Sofia; mas como transmudar tamanha concessão em martyrio constante, em angustias sem nome, em indizivel supplicio, calcando para sempre aos pés o seu orgulho, conspurcando-a perante a sociedade toda, arrastando-a com eterno labéo, imprimindo-lhe na fronte signal de inapagavel ferrete? Como?
Comparava os tempos anteriores ao amaldiçoado amor com tudo quanto occorrera, uma vez ateada a criminosa e já tão flagiciada paixão. E a lembrança da esposa, tão boa em sua discreta feição, o enchia de pavor. Fugia de aprofundar comsigo mesmo o incerto mysterio... aquella janella aberta por noite frigidissima, em Buenos-Ayres, ella a dormir fraca dos pulmões, presa então de perigosa bronchite... depois a pneumonia dupla... as vascas de terrivel agonia num estreito quarto de hotel... Que momentos agora tão claros á sua memoria... Parecia os estar vendo; bastava fechar os olhos. A pobresinha, resignada, quasi a sorrir, emquanto as lagrimas lhe rolavam silenciosas pelas faces, apertando a mão assassina, implorando protecção contra a morte que chegava... elle, com o pensamento fixo no Rio de Janeiro, ardendo de impaciencia, brutalisando-a, doudo por vêr tudo acabado, concluso, findo, espreitando, espiando o ultimo estertor, o derradeiro suspiro, a convulsão suprema, que ia desatar as cadeias do abominado captiveiro... Que indigna contraposição! De um lado tanta pureza e resignação; do outro tamanha maldade, tão satanica e baixa ferocidade. E para que o monstruoso attentado? D’elle agora emergiam obrigatoriamente outros crimes, novas infamias.
Sentia-se condemnado. Justiça inteira havia de ser feita e pela propria mão. Era ponto decidido, indiscutivel já no seu espirito. Ficaria, porém, impune a causa de tantos males? Impossivel! Para beneficio de todos, cumpria esmagar ente tão pernicioso, inutilisar de vez encantos tão perigosos e lethaes.
E parafusava, sem se lhe deparar nada que apaziguasse um tanto as iras exasperadas, em fremente ebullição.
Depois... serenou. Mostrou-se por toda a parte altivo, calmo e indifferente. Tornou a frequentar theatros e logares, fallando no proximo enlace de Sofia com desembaraço e naturalidade, applaudindo-o até. Declarou-se curado de mal entendidas e pueris velleidades. Chegou a cumprimentar a moça e, uma feita que se encontrou cara a cara com ella apertou-lhe a mão sem nenhum constrangimento ou perturbação.
A varios amigos falou em proxima partida para terras longinquas, e ás rodas habituaes levou um todo, senão risonho, pelo menos de tranquilla e digna compostura.
Publicaram-se então os primeiros proclamas do casamento de Lucio Barroso com Sofia Dias, a qual se suppunha afinal livre de qualquer complicação, toda radiante de alegria e felicidade, cada vez mais formosa, faceira e seductora, nos labios sempre róseo sorriso sobre nacarados dentes, bocca humida e appetitosa de tentar um santo.
Numa bella manhã, sobresaltou-se a cidade em peso. Acabára de suicidar-se com um tiro de revolver Mario Campos.
Sem declarar o motivo d’esse acto, recommendava que dessem immediata publicidade e prompta execução ao testamento por elle depositado, dias antes, no cartorio do tabellião Matheus.
N’esse documento, feito de accordo com as mais restrictas formalidades, distribuia varios donativos a institutos de caridade e legava alguns bens a parentes da sua mulher. Terminava, porém, pelas seguintes e terriveis palavras, que causaram escandalo enorme, ecoando por todos os cantos da capital:
«Eternamente grato a não poucas provas de affeição e condescendencia, deixo os remanescentes, que calculo em 200 contos de réis, á minha amante D. Sofia Dias, devendo esse legado transmittir-se em qualquer tempo á successão ligitima ou _illegitima_, verificada em regra a filiação. Caso não seja a quantia reclamada logo, entregar-se-hão annualmente os juros á Misericordia.»
Dentro, duas cartas da imprudente moça, que se prestavam a muitas interpretações.
No meio da indignação geral, do profundo abalo de uns, do revoltado pasmo de outros, da pungente ironia dos maldizentes e da compungida piedade dos bondosos, rompeu Lucio Barroso com estrondo o casamento; e a malaventurada Sofia, salteada de febre cerebral, por largas semanas esteve entre a vida e a morte.
Rumorejou-se na possibilidade de melindrosa justificação perante os tribunaes; mas, afinal, a familia toda, mãe e duas filhas menores, depois de mezes e mezes de sumiço, partiu para a Europa. Nunca mais se ouviu fallar, se não vagamente, em Sofia Dias; parece que por lá se casára.
Ainda não foi até hoje levantada a ominosa herança... Quem nos diz, que será sempre repellido o maldito e infamante legado?
Assim seja!
RAPTO ORIGINAL
RAPTO ORIGINAL
I
Namoravam-se a valer, de uns mezes atraz; a visinhança sabia de tudo, acompanhava curiosa, accesa, as peripecias do derriço e tomava bons regabofes.
Ella, muito nevrotica, atirada a romantismos, exaltada, amiga de leituras violentas, _fin de siècle_, tocando piano por modo quasi notavel e gostando de despertar, alta noute, o bairro com a valentia dos accordes que desferia, nem bonita, nem feia, com esse viço da primeira mocidade que os italianos espirituosamente appellidam _la beltá dell’ásino_, vivendo numa atmosphera de perfumes entontecedores, exoticos, acres, a soffrer, quasi todos os dias, de enxaquecas, que a levavam a abusar da antipyrina e lhe davam desejos ardentes de se morphinisar, para cahir em longos torpôres e fruir sonhos paradisiacos.
Filha unica de antigo negociante, retirado rico do commercio, o commendador Jacintho Candelaria fazia as suas quatro mil vontades, creada, como fôra, sem mãe, e no meio de numerosas mucamas, que beliscava forte, nos dias de máo humor e mais nervosismo. Num só ponto, comtudo, e ponto capital, desenvolvia o pae todas as energias de portuguez teimoso e embezerrado. Significára á filha, desde em menina, e incessantemente lh’o repetia, que só elle é que havia de casal-a. Tivesse paciencia e sobretudo confiança, pois lhe daria para noivo, não nenhum velho ou qualquer figura estapafurdia, porém sim rapaz novo, sacudido, de boa presença, latagão de peso e medida, mas que offerecesse, depois de cuidadosas provas, garantias seguras para tornal-a feliz no correr da existencia.
Tambem soubéra o zelo paterno arredar já não poucos pintalegretes—uma sucia de bilontras! berrava possesso o commendador,—alguns patricios até, que lhe rondavam a casa, ou melhor, palacete das Laranjeiras, attrahidos pelos dótes da rapariga, entre os quaes sobresahia, mais que os seus olhos e apimentado donaire ou o talento ao piano, o dote ante-nupcial, de que diziam maravilhas.
—De duzentos contos para cima, era voz geral, e logo de pancada, antes de se agadanhar, por morte do velho, cobre muito grosso.
Estava, pois, a moça, entre dores de cabeça, nocturnos ao piano, bocejos e manifestações hystericas, cada vez mais accentuadas, esperando o pretendente _patent_, garantido pelo governo paternal, quando ferrou n’esse namoro muito cerrado e sério—pois os pequenos á janella não contavam—com o Arnaldo Gracias.
Gracias ou Garcia? Não, senhores, Gracias, no plural—d’isso fazia questão,—elle, proprietario unico do nome. Zangava-se devéras, ou fingia zangar-se, ao lhe não transporem, principalmente, o tal _r_ caracteristico, que a todos causava tamanha estranheza.
Bohemio aliás, até á medulla dos ossos.
Dotado de muito chiste natural, talentoso, com estupendo poder de assimilação, sabendo tudo, e no fundo ignorante chapado, verboso, e mais que isso eloquente, com uma phrase viva, faiscante, imaginosa, colorida, entresachada de tropos, verdadeiro fogo de artificio, em que, se havia muita fumaceira, fuzilavam, por vezes, alguns clarões.
Tinha a mania de inventar palavras, locuções; e algumas entravam logo em circulação. Fôra quem puzera em giro o estrambotico _de quando em vez_, tão em moda por algum tempo no Rio de Janeiro.
—Não me _banalisem_ o nome, costumava gritar nos cafés, batendo com a bengalinha de junco no marmore das mesas, Gracias... Gracias; com mil milhões de diabos! Não sou qualquer Garcia da venda ou da botica. Descendo de guerreiros hespanhóes que costearam de rijo os mouros, os infieis. Attemdam bem, tenho que zelar tradições, cousas até de religião.
E nas rodas de estudantes, que applaudiam e chasqueavam, lá vinham vibrantes narrações das batalhas com a mourama, em que se haviam illustrado os primitivos Gracias.
E tanto era o fogo que a tudo punha, como se assistira ás tremendas pelejas, que, não raro, palmas rompiam, sinceras, espontaneas.
A todo o instante contava historias do arco da velha, sua vida em Pariz, seus triumphos no _Quartier latin_. Fôra até amigo de Theophile Gautier, a eterna creança, o poeta genial, o estylista impeccavel, e, com effeito, parecia haver tomado ao mestre e companheiro de troças algumas scentelhas do maravilhoso poder descriptivo.
Carioca da gemma, e votando certa ogeriza á gente nortista—«são trefegos, invejosos», proclamava sem appellação possivel—tinha como obrigatorio o odio ao burguez em geral.
—Miseraveis! exclamava com indignação repassada de desprezo; _corriqueiraram-me_ o sublime Shakespeare! Babujaram-me de ignobil baba o immenso Dante! Canalhas! Entrego-lhes o _Inferno_ e _Purgatorio_, já que não ha mais defesa possivel; mas, com mil bombardas e pelas cinzas dos meus avós, o _Paraiso_ é meu. Hei de zelar-lhe a alvinitente pureza, custe o que custar, até á morte. Não consinto que n’elle toquem!...
E olhava para todos com ares de quem acabara de receber a sagrada herança por testamento do immenso Dante, com recommendações expressas acerca d’essa parte da _Divina Comedia_.
Lêra elle jámais esse _Paraiso_, por que quebrava tantas lanças, o _Purgatorio_ ou simplesmente o _Inferno_? Nunca se soube.
Buscando abrigo em refugios extremos do gosto e da originalidade, ainda não conspurcados pelo torpe vulgo, entranhara-se, como um perseguido, pelas litteraturas do Norte e citava com pasmosa profusão os nomes mais arrevesados, apregoando, dos primeiros nos circulos da rua do Ouvidor, Dostoiewsky, Pissensky, Arne Garborg, Ibsen, Bjœnstierne-Bjœrnson, Ostrowsky, Hastzembusch, Ocienxdlœger e outros de igual calibre.
Alto, magro, muito claro, com o olhar meio empanado sobre palpebras empapuçadas, cabellos em continuo desalinho, barba espetada perpendicularmente ao queixo, distinguia-se, mais que tudo, por pés e mãos enormes. Calçava Clark 43 e luvas, letra... não; luvas era superfluidade de que nunca usara. Em compensação, movia essas mãos nuns gestos continuos, ora largos, calmos e generosos, ora freneticos, raivosos, ameaçadores, de quem ia derrear meio mundo com pancada de moer ossos.
Vivia ao Deus dará, sempre em vesperas de estrondosa collocação, já n’alguma das secretarias de Estado, onde distribuiria o santo e a senha, introduzindo reformas estupendas de mais apurado cunho litterario na feitura das peças officiaes, já á frente de uma publicação periodica que havia impreterivelmente de desbancar a _Revista dos Dous Mundos_—nada menos.
—Vocês verão, annunciava exaltado, convicto, como ponho de pernas para o ar o tal Buloz e toda a sua igrejinha carrança, pedantesca e jesuitica. Será o protesto do mundo pensante contra aquella ridicula camarilha, que pretende avassalar o intellecto universal. Preparem-se para estourar de tanta gargalhada!
Por em quanto, porém, nem emprego de secretaria, nem revista. Passava os dias a pedir _emprestadas_ a amigos e conhecidos umas miseraveis quantias, que considerava favor ir embolsando; hospede dias, semanas ou mezes seguidos, aqui, acolá; excellente rapaz no fundo, divertido, serviçal e meigo, em meio de todas as bravatas e objurgações.
Sempre prompto para a pandega. Lá isso, contassem com elle; era dos fieis, dos inabalaveis. Com a bréca, até em patuscadas ha deveres a cumprir. Demais, a vida foi feita para desobrigar-se com honra e pontualidade dos compromissos tomados; curta e boa—a sua divisa.
E desfiava umas 8 a 10 horas inteirinhas do dia na rua do Ouvidor que, percorria do largo de S. Francisco á rua Primeiro de Março quinze ou vinte vezes, ora ás carreiras como homem atarefadissimo e que não podia perder um minuto, ora parando em cada botequim e n’elle chuchurreando café, licores, cognac, leite, sorvetes, seu absynthosinho não raro, e quantos liquidos, innocentes ou não, todos de bom grado lhe offereciam.
Pagava tudo com o seu verbo inflammado, multiforme, incansavel, já contando anecdotas picarescas, engraçadissimas, já vociferando, sempre em opposição violenta contra os homens do poder; hoje nihilista, communista, anarchista, amanhã autocratico, déspota, feroz na desapiedada repressão e no illimitado rigorismo, tudo com inabalavel convicção e grandes luzes de argumentos.
Á noite, theatros, onde achava sempre meios de encaixar-se, sem jámais se entender com o bilheiteiro. E, nos entreactos, eram interminaveis catilinarias a proposito da decadencia da arte dramatica e dos costumes publicos, adubada a prelecção com olhares de indignado manospreço ás petulantes francezas e raparigas que por alli se exhibiam espivitadas, provocadoras. Occasiões, porém, havia em que com ellas confabulava graciosamente.
—Boas creaturas em summa, estas michélas e marafonas, dizia com sorriso bonachão, o que não impedia de declarar-se discipulo intransigente de Shopenhauer e de prégar inflexivel cruzada contra o _eterno feminino_, a perdição do homem, o seu instrumento de degradação e insanavel villania.
—Tirem-me a mulher do mundo, urrava já muito escaldado com os _bocks_ de cerveja e copinhos de cognac _fine champagne_, e faço de todos os homens deuses, entes supernaturaes!
Davam-se épocas, entretanto, em que, de viseira alçada, com muita nobreza, relembrando o cavalheirismo castelhano, se batia em prol do sexo fraco, victima e martyr da prepotencia do forte, secularmente tyrannico e maldoso, brutal e egoista. Nessa quadra de reivindicação, exigia, em nome da justiça ultrajada, que a natureza repartisse com igualdade os gravames da reproducção da especie.
Bradava então imperioso:
—Uma vez a esposa, outra o marido. Os taes senhores que experimentem o que é bom. Quero vel-os _gravidos_!
E com toda a seriedade chegava a affirmar e prometter, que elle, Arnaldo Gracias, á fé de gardingo e descendente de fidalgos wisigodos, de uma só palavra, de antes quebrar que torcer, havia afinal de pôr cobro a tamanha iniquidade.
Boas surriadas e espirituosos dichotes ia promovendo com tudo isso.
Morava não se sabia bem onde, alcandorado em qualquer pouso mais á mão, quasi sempre _republicas_ abarrotadas de estudantes, onde discutia sciencias, artes, litteratura, e lá se deixava ficar mais ou menos tempo, conforme o capricho, não se lhe dando absolutamente com a amabilidade ou os máos modos d’aquelles a quem dispensava a honra da sua convivencia.
É que estabelecia logo incommodativo communismo, e a applicação d’esse systema devéras modificava o prazer das interminaveis e acaloradas palestras, em que gastava tanto fluido vital. Com toda a sem cerimonia, tomava a roupa dos outros, vestindo camisas alheias, quer engommadas de fresco, quer já servidas, e enfiando-se sem o menor escrupulo nas calças e nos paletots, que encontrásse mais de geito.
E por cima, se o apertavam mais sériamente apuros de dinheiro, não punha duvida alguma em passar a mão nos livros dos que o hospedavam, levando velhas grammaticas, compendios de mathematicas elementares, selectas latinas, ou até obras de preço, que truncava sem o mais leve embaraço de consciencia, e ia vender a esses modestos belchiores, chrismados com a alcunha bem feia de... _cagacebos_.
Costumava, entretanto, que incoherencia! esbravejar com sincero furor contra essa timida classe, tão util aos seus habitos, e propunha uma Saint Barthélemy implacavel, que extinguisse de vez a abominada raça.
—Ha de chegar o dia, olé, se ha de! annunciava ameaçador. Tenho de olho uns cinco ou seis... Já os avisei... Esses ficam por minha conta... gallegos todos—uma bella bainha de toucinho para a adága dos meus avós!
No fundo, incapaz de matar um caçapo.
II
Tal era Arnaldo Gracias, por emquanto todo entregue á sua paixão pela nevrotica Julia Candelaria.
Entabolara-se o caso, estando elle de pousada na casa em commum de varios empregados do commercio, seus amigos intimos dessa temporada, como era de meio mundo em certas quadras, segundo a veneta, pois não raro tinha tambem accessos de misanthropia, e desapparecia, sem que ninguem pudesse attinar onde ia encafuar-se.
Mettidos a aristocratas e moços de boa roda, habitavam os taes empregados do commercio nas Larangeiras, perto do palacete Candelaria.
Panno para mangas forneceu o publico namoro de Gracias, estampando-lhe as gazetas quasi que diarios sonetos coroscantes, embora monotonos e impregnados de sentimento todo facticio. O auctor porém e alguns adeptos fervorosos os tinham em conta de indiscutiveis obras primas.
—É o Petrarca sul-americano, decidia um dos discipulos na arte bohemia; assombroso, um abysmo!