Ao Entardecer (Contos Varios)

Part 4

Chapter 43,842 wordsPublic domain

Uma vez superados os primeiros instantes de acanhamento, falou José Bispo a valer, fazendo sobretudo alarde da sua qualidade de homem sério, de boa posição e apatacado, insistindo muito nas vantagens que desse casamento advirião para ellas duas.

Deixou até entrever, que, do seu lado, havia não pouco sacrificio.

A isso Gêgéca rompeu o silencio:

—Então, quem o mandou vir cá? perguntou desdenhosa e altiva.

Respondeu o vendeiro com sinceridade.

—A paixão, Gêgéca, a paixão! Tudo fiz para conter-me, mas não pude. Estive quasi a fugir como um perdido, alta noite. Formei mil planos... até de crimes. Achei que afinal era melhor dar o passo que dou. Se _vancê_ me disser não, mesmo assim ficarei mais socegado. Estou disposto a tudo... comtanto que não me queira mal... não me despreze, não se volte, ao ver-me, com escarneo e nojo...

E aquelle homem brutal, violento, tinha os olhos supplicantes, cheios de lagrimas, vencido pela _força da belleza_, como dissera João Valentim nas suas trovas.

Estava D. Cula totalmente besta do que via e ouvia.

—Gêgéca aceita, disse afinal intromettendo-se, ainda que a vacillar e com uns laivos de rubra emoção na eterna pallidez das faces; sem duvida ella aceita... Que póde mais _quérer_ n’este mundo? É desafiar a sorte.

—Cale a bocca, mamãe, exclamou impaciente Gêgéca que parecia concentrar-se em rapida e necessaria meditação.

Afinal, voltando-se para José Bispo, respondeu-lhe com serenidade:

—Pelo passo que o senhor deu hoje, perdôo-lhe do fundo do meu coração tudo quanto me fez. Acabou-se o odio, e odio bem justo, que eu lhe votava. Não posso, porém, attender ao seu pedido, que tanto me honra e me levanta aos meus proprios olhos.

Não é que a diabinha da rapariga falava bem? Ora, sejam justos, leitores da minha alma. De entre os 40.000 assignantes da _Gazeta de Noticias_ não haverá meia duzia mais condescendente?

—Pelo meu genio, continuou ella, e com os seus arrebatamentos, não podiamos ser senão dous infelizes, uma vez amarrados pela lei do casamento. Falando-lhe assim, dou-lhe prova de que não sou tão desajuizada como a muitos pareço. Por outro lado, e lado muito grave, que faria o senhor da desgraçada Perpetua, com quem vive ha tantos annos? Que seria dos seus quatro filhinhos, já tão abandonados?

—Mas, _ménina_, buscou inquieta interromper D. Cula, para que... se metter assim na _vidá_... dos outros?...

Via, com effeito, José Bispo quasi a estalar de roxo, todo apoplectico, tolhido de vergonha, embasbacado.

—E o que é a pobre Perpetua, perguntou com voz vibrante a _Ciganhinha_ á mãe, toda estarrecida, senão a D. Cula lá da praça?... Nem lhe faltam pancadas e tundas, além do peso dos quatro pequenos... Só agora o abandono...

—Gêgéca, exclamaram com tom de anciosa rogativa os dous, basta... basta!

E emquanto a chorona mamãi prorompia nos mais angustiosos soluços, retirava-se José Bispo tonto, titubeante, empuxado por mil sentimentos, numa afflicção bem real de pungitiva dôr, em que sobrelevava intenso vexame de si mesmo, pela taboca que acabara de chupar.

IX

Por esse tempo chegou á Santa Rita do Paranahyba, vindo de S. Paulo, pela cidade de Uberaba, o Dʳ Anselmo de Sá.

Entre nós, quanto tem progredido a tal Uberaba, no antigo sertão da Farinha Podre! De bem poucos annos, só havia lá poeira vermelha que era um inferno, continuas trovoadas roncando grosso, uns casarões sombrios de cumieira muito alta e aspecto sinistro, o bom capuchinho frei Germano com as suas eternas observações meteorologicas, o velho tenente-coronel da guarda nacional Sampaio, advogado provisionado e membro do Instituto Historico, além do João Caetano, o homem mais pacato do mundo, mas que, de cada vez que abre a bocca e, muito de mansinho, começa á falar, provoca por toda a parte um barulho dos seiscentos, protestos, gritos, violentos apartes, retaliações e até tiros de garrucha!

Mas hoje, sim senhor! A tal Uberaba já faz figura de grande cidade... no interior. Possue bazares quasi de luxo e mais isto, aquillo, aquill’outro, cousa de encher o olho. D’aqui a um nadinha, terá linha de _bonds_, confeitarias e gaz de illuminação, se não for luz electrica, á imitação e moda de Juiz de Fóra que, só por isto, quer por força ser a primeira cidade de Minas Geraes e só fala das outras com desdem. Asseverou-me, pelo menos, bem proximos todos aquelles valiosos melhoramentos o Borges Sampaio, o tal membro do Instituto, quando por lá passei. Acho, comtudo, que o homem, aliás com excellentes intenções, tem patriotismo demasiado uberabense e inflammavel.

Voltemos, porém, á nossa historia.

Atravessava o Dʳ Anselmo de Sá já tarde o grande rio e com muita bagagem, pois viajava como um _lord_. Viu-se, pois, levado a pousar em Santa Rita de Cassia.

Era esse moço parente chegado dos Confucios e Socrates da familia dos Craveiros, ligados por laços de affinidade com os Moraes, Abreus, Fleurys, Rodrigues, Jardins e Bulhões, gente toda de alto cothurno no meu Goyaz, descendentes até do celebre conde, depois marquez de São João da Palma, antepenultimo capitão-general e governador da Capitania (apresentar armas!) e que lá fez maravilhas nos seus 5 annos de mando absoluto e violento.

Demais, todos na minha terra, quasi sem excepção, pretendem provir d’aquelle grande papão; e isto tem alguns inconvenientes.

Querem uma prova?

Em certo dia, um versejador de occasião, candidato a não sei que logarzinho, foi procurar, aqui, no Rio de Janeiro, um dos filhos do marquez—esse bem averiguado. Toca a esperal-o, e nada do protector dignar-se apparecer.

Esgotada a paciencia a contemplar um retrato, tamanho natural, do venerabundo e temivel fidalgo, todo coberto de dourados e fitões, prégou-lhe afinal o tal pretendente embaixo na moldura com um alfinete uma quadrinha altamente crespa e pornographica, relativamente á honra materna e ao esquecimento em que essa mãe era tida. Que desaforo!

E safou-se, deixando o mote, sem esperar pela glosa. Que desaforo!

O tal marquez (cumpre-me, entretanto, dizel-o a bem da verdade historica) deixou em todas as capitanias onde esteve e governou um mundo de filhos naturaes... O excellentissimo Sr. capitão-general era povoador por excellencia. Comprehendia—e tinha razão—que o Brasil, antes de tudo, precisava e ainda precisa de gente. Ia, pois, no desenvolvimento do seu programma administrativo, applicando com enthusiasmo o _multiplicamini_ de Jehovah, nem melhores serviços podia prestar á corôa de Portugal, deixando ás forças da natureza fecundada o cumprimento do outro preceito, _crescite_! e das mais obrigações, pagar impostos, ser soldado d’El-Rey, etc., etc.

Estou porém, sahindo de mais da nossa estrada.

Ah! se eu tivesse ensejo, desfiava muita cousa interessante sobre Goyaz, lembrando tambem os muitos homens notaveis que elle tem dado á patria, pois me peza, devéras, o menospreço com que por ahi costumam falar do meu cantinho natal.

Conhecem, por ventura, o padre Manuel José Fogaça, que foi prior da igreja de Lourinhã, em Portugal, e bispo resignatario de Malaca? Pois bem, era filho de Goyaz. Conhecem Alvaro José Xavier, commendador de Christo e brigadeiro reformado, presidente da junta do governo provisorio? E Luiz Antonio da Silva e Souza, eleito para as côrtes de Lisboa, mas onde não esteve, professor publico de grammatica latina?

E o general Curado? Joaquim Xavier Curado? Quem se recorda mais d’elle? Grã-cruz do Cruzeiro, commandou em chefe exercitos e ganhou batalhas campaes. Veiu á luz do dia em Jaraguá. Como é que um cidadão goyano nascido tão longe, no miudinho arraial do Conego, foi fazer o diabo e pintar a manta no Rio da Prata, malhando sem tregoas nos castelhanos, dando-lhes bordoeira de crear bicho e trazendo-os de canto chorado, é o que custa crêr. Tenham, porém, paciencia; ahi está a historia, que não me deixa mentir.

E tantos outros!

Uns conegos, padres, outros presbyteros seculares; emfim, renque de gente do mais subido valor e posição e que deixou numerosa e estimavel prole.

O certo é, que, em Goyaz, predomina muito o sentimento aristocratico e separação de castas. «Não sou filho das hervas», diz lá todo cheio de si um d’aquelles mortaes e, firme n’isso, ninguem o faz arredar pé.

Pois o nosso Dʳ Anselmo de Sá era d’esses que não tinham sido achados debaixo de um pé de couve e de tudo tirava não pouco orgulho, olhando aos mais bem do alto da sua importancia e com ares de sincero pouco caso por meio mundo.

De que lhe serviu, porém?

Foi botar os luzios na ciganinha, e _zás_! ficou pelo beiço, logo, no dia da chegada, pela tardinha, tal qual um lambarysinho do Paranahyba, fisgado na bocca por apontado e despiedoso anzol.

Isso não no rio, mas na novena que se estava rezando na igrejinha, por signal que o sacristão, o Quincas Malhado, já de miolo molle, fazia vezes de padre e puxava as rezas e ladainhas n’um latinorio levado da bréca e que o Padre Eterno, apezar do seu polyglottismo, custaria bem a entender.

Lá estava a nossa Gêgéca a encher a carunchosa matrizinha com as irradiações e o esplendor da sua belleza.

Tambem foi o doutor pregar-lhe o olho em cima e ficou tonto, tonto, abestalhado, bestificado, historica palavra do Sr. Silveira Lobo—Aristides, o justo.

Nem me lembro bem como os francezes chamam esse repentino estado d’alma, a tal fulminação—meu professor de francez foi tão fraco!—Por isto não me arrisco; podia escrever alguma asneira.

—Mas quem é aquella moça? perguntava o Anselmo assarapantado, sofrego, a quantos o rodeavam.

Aquelles olhos, aquelles olhos, santo Deus! que relampagos desferiam! Por isto, quando pousaram bem em cheio no doutoréco, sentiu-se este desfallecer, todo derretido de gosto, julgando-se na obrigação de sorrir aparvalhadamente, mas a suar frio, quasi a tiritar!

X

Não dormiu toda a noite o nosso impressionavel Anselmo de Sá, a passear, agitado, pelo povoado immerso em carregadas sombras, nervoso, irrequieto, acordando o latir de um ou outro cão e fumando cigarros; a esperar, pelo que?... Por emquanto, pela madrugada, que não chegava.

De nada valiam os esplendores do céo, de um azul ferrete, negro, avelludado, profundo, como certas saphyras do oriente, céo marchetado de tantas estrellas, que o Paranahyba d’ellas colhia fantasticas fulgurações, no immenso serpear da larga corrente.

Afinal, sentiu-se o moço tão prostrado, com as pernas tão bambas, que cahiu na cama feita sobre as canastras de viagem, e passou por uma modorrasinha, mais que somno. Ás 7 horas da manhã já estava, porém, de pé. Lembrou-se então de ir banhar-se nas aguas puras do rio, a vêr se acalmava o incendio que sentia lavrar violento, inapagavel, dentro de si e o suffocava; a mente conturbada, o peito oppresso, com os musculos repuxados.

Qual! Gregorio de Mattos, sem procurarmos exemplos e approximações em litteraturas de outras terras, na tal Europa e sobretudo na França, que tanto nos avassalam, o nosso Gregorio de Mattos já disséra descrevendo identica e penosa disposição d’alma:

«_Tomo banhos de neve por dentro,_ _Mas o fogo não quer abrandar!_»

E eram _banhos de neve_, cousa que não existe no Brasil, tomados internamente, por cima! Como, porém, o poeta se os administrava, é o que não nos diz, nem ensina.

Fica, comtudo, a receita para os apaixonados em tão melindrosas circumstancias.

Nem de proposito, fôra Anselmo mergulhar o ardente corpo no banheiro habitual da _ciganinha_, á sombra do salgueiro que tantos primores costumava entrever de soslaio... Calculem só... De certo, a arvore foi discreta, mas quem sabe? é tão singular, inexplicavel, mysteriosa, a força catalytica, a acção de presença? Que prodigios não operam no seio da natureza esses elementos mudos, impassiveis e inalteraveis?...

Qualquer que seja a causa, o pobre do rapaz sahiu d’aquella immersão peior do que quando penetrára na agua tepida, ennervante, voluptuosa em suas amornadas caricias. Tinha chammas nas veias.

Vestiu-se ás pressas e com o cabello grudado ao casco da cabeça, portanto meio ridiculo para um pelintrote de S. Paulo, resolveu ir bater á porta de D. Cula, orientado por um meninosinho, a quem generosamente deu 200 réis em nickel.

Sem demora lhe appareceu a visão celeste! nem mais, nem menos, de repente, a Gêgéca, que lhe dardejou logo dous olhares de revirarem de catrambias para o ar, não um simples bacharelete, mettido em paletot sacco, de sarja verde fundo de garrafa, porém sim, com toda a sua armadura de ferro, Roldão em pessoa, o sobrinho querido do imperador, Carlos Magno, ou algum dos Doze Pares de França.

—Que deseja, Sr. doutor? perguntou a rapariga sorrindo com encantadora ingenuidade, mas devéras surpresa e lisongeada d’aquella visita matinal.

—Venho... venho, balbuciou o Anselmo quasi estarrecido de tanta belleza matutina, venho... encommendar á... senhora sua mãe... Não posso falar... com ella? Cousa... urgente...

—Está ainda dormindo, replicou a ciganinha muito despachada.

Mas, demonio, ó filha d’aquelle diabo que tanto surrára a desgraçada D. Cula, basta de atarantar mais o Sr. bacharel! Para que esse sorriso enigmatico, para que esse bater languido de folhudas pestanas? Deixa, pelo menos, o moço dizer o que quer, que encommenda era essa, tanto mais que um raio ironico do sol ao nascedouro lhe brincava nas barbas ainda incipientes, na ponta do nariz e no seu _pince-nez_ de myope!

Era comtudo, exacto. D. Cula, com os habitos de inveterada preguiça goyana, ou antes sertaneja, ou melhor brasileira (_fiat justitia ne pereat mundus_, diz o direito estudado, ou não estudado, pelo Dr. Anselmo de Sá) D. Cula, apezar do calor, estava áquella hora encafuada na cama, o tal catre velho, de que fala o capitulo I d’esta historia verdadeira.

—Não... não a encommode, implorou Anselmo com verdadeira angustia, como se da repulsa de sua supplica pudessem provir grandes damnos. Quero... a senhora... per... perdõe... Quero para a viagem... um taboleiro de doces.

E ficou assombrado da repentina idéa que lhe illuminára o cerebro; dominado, porém, pelo terror de que o tal taboleiro de doces fosse cousa tão fóra de alcance como o vélo de ouro, ou algum pomo do jardim das Hesperidias.

Tranquillisou-se de prompto.

—Hontem mesmo á noite fizemos um bem grande, replicou Gêgéca. O senhor volte logo para ajustal-o com mamãe.

Ia humildemente, todo soffrego, perguntar a que horas; mas não teve tempo, _Pan!_ A ciganinha lhe batera com a porta na cara.

Já se viu o capricho?

Atraz dessa porta trancada, ficou ella comtudo pensativa, de sobrancelhas um tanto cerradas. Vamos e venhamos, aquelle mancebo tão alvo, de bigodinho revirado, _pince-nez_ de ouro, mãos e pés delicados, maneiras finas, trage elegante, lhe agradava devéras, não lá exaggeradamente, cousa extraordinaria; mas, emfim, esse não era, de certo, como os outros, oh não!

—Que ha de novo, _ménina_? perguntou de um canto a voz arrastada de D. Cula, entre dous bocejos.

—Um moço bem parecido que veiu pedir um taboleiro cheio de doces... para não sei que viagem.

—Louvado seja! Diga-lhe que são tres _mira_ réis pagos á vista.

—Quaes 3§! objectou a filha. Peça-lhe a mamãe 5§, quando elle voltar.

—E se não _vortá_?

—Oh! se volta!...

Com effeito voltou e, ao preço exigido de 5§, impetrou licença para offerecer 10§; favor feito a elle. Tomara informações seguras; uma viuva, vivendo honestamente do penoso trabalho com a sua filha, já moça, ambas sem protecção de ninguem—nada mais digno e commovente.

E, se não deitou discurseira, foi por sentir a cabeça que nem um ninho de guaxupés assanhados, debaixo das baterias oculares da _ciganinha_.

—A moça sabe lêr? atreveu-se elle a perguntar á Gêgéca n’um momento em que estiveram a sós.

—Mal e mal, respondeu ella sempre a sorrir (diabo do sorriso!) arranho... quando a lettra é grande...

D’alli a pouco, tambem recebia um papel com garranchos bastante graúdos: «Preciso muito falar-lhe logo á tarde, debaixo das laranjeiras.—Dr. _Anselmo_.»

N’aquelle esplendoroso _doutor_ depositava o nosso homem muita confiança, toda a confiança.

Entretanto, oh desillusão! a Gêgéca, n’essa tarde, deixou-se exactamente ficar bem socegadinha em casa, a ajudar a mãi n’uma tachada de doce de _fructa de lobo_, que esta no dia seguinte devia impingir como marmelada ao desnorteado viajante.

E não é que o bolas do _cigano_ fizera escola e para alguma cousa servira?!

Tudo neste mundo tem sua compensação.

XI

Deste dia em diante começou a ciganinha a pôr em pratica os mais habeis manejos de faceira esquivança, deixando o Anselmo cada vez mais transtornado de paixão e exaltados desejos.

Em Santa Rita já ninguem mais ignorava que o doutor, de pouso alli por alguns dias, estava positivamente a definhar de amor. A todos tomava para confidente, distribuindo dinheiro a rôdo e não se fartando de ouvir falar na Gêgéca, ora em bem, ora mais frequentemente em mal, o que o exasperava. As noticias do José Bispo então o torturavam de modo horroroso, indizivel.

Fazia tenção firme de logo e logo partir, de fugir alta noite, sumir-se, azular; marcava o dia certo, infallivel e, afinal, chegado o momento, decidia continuar a ficar por alli a banzar.

Tudo lhe servia de pretexto, necessidade de dar forte descanço aos animaes, receio de chuvas proximas, razões todas de cabo de esquadra, que os camaradas iam acceitando com a indifferença que essa gente por tudo mostra, no fatalismo da existencia.

—É _memo_, é _memo_! concordavam e lá iam folgar no rancho a tocar viola emquanto esperavam que o Sr. doutor quizesse um bello dia, quando menos contassem, levantar o pouso.

—Mas Gêgéca, D. Gêgéca, perguntava a medo Anselmo, em certa occasião, á ciganinha pilhando-a de geito, porque é que você... a senhora... foge assim de mim?...

—Por que o doutor deseja o meu mal, a minha desgraça! respondeu a moça resoluta.

—Eu, Gêgéca, eu? protestou elle com verdadeira e sincera indignação, eu que a amo tanto, que a quero como nunca suppuz poder querer a ninguem... eu, que não durmo, não como, não tenho mais um momento de socego a pensar na senhora... sempre em si?!

—E depois?...

—Depois o que?

—Sim, depois? Para mim a vergonha, as lagrimas, o abandono... tal e qual minha pobre mãe, e tantas coitadas por este mundo de Deus!

Arregalou Anselmo uns olhos muito grandes. Sériamente cahia das nuvens, via-se rolando aos trambolhões por enormes despenhadeiros.

—Eu te juro... fiel, fiel até morrer!...

—Sim, é o que vocês homens sempre dizem; a arapuca em que todas cahem... um milhosinho pisado em troco da prisão eterna... valha-me Santa Rita!...

E arremedando o arroubo do rapaz repetiu com engraçado e fingido ardor e apertando o peito nas mãos:

—Eu te juro... fiel, fiel até morrer! E riu-se ás gargalhadas.

Em outro tom, sem transição:

—Para nós, desgraçadas, as consequencias... o luto, esse eterno riso... o peso desse gracejo... os trabalhos, nós, sobretudo, do sertão, sem ninguem que nos ampare, nos mostre o caminho direito... nenhum castigo para os homens, que têm por si a força, o abuso...

Ó ciganinha damnada! Quem te ensinou tudo isso? Em que livro foste aprender toda essa desfiada de valentes argumentos, tu que só sabias kyrielas de nomes feios e se lias era mal e mal, tão sómente lettra graúda? Muito, muito póde o bom instincto!

—Então fujo d’aqui, vou me embora, desappareço... Você nunca mais ouvirá fallar em mim... Hei de esquecel-a, logo e logo que der as costas a Santa Rita...

—Paciencia, replicou a Gêgéca, levantando os hombros, a estrada é larga, está ás suas ordens. Ninguem o agarra; olhe, eu não lhe estou dizendo de ficar...

E, com melancolia, mirando o moço bem em cheio, os olhos carregados de brandura:

—Quanto a esquecer-me, disse, é bem facil, bem natural. Que valho eu? Uma pobre rapariga da roça... filha de mulher sem marido. Mas eu lhe affianço, Sr. doutor, hei de sempre lembrar-me do Sr... viva eu cem annos...

E quedou-se uns instantes a encaral-o immovel.

Mal poude Anselmo reter um frouxo de choro.

Parecia que todas as desgraças lhe cahiam em cima.

De repente:

—Então você gosta um bocadinho de mim? indagou com anciedade.

—Não sei, não posso dizer... nem sim, nem não... gratidão é amor?

—Mas, Gêgéca, qual será o seu destino, neste logar tão pobre, tão sem recursos?... Tanta formosura para quem? Para que?

—Meu destino? Que interesse deve merecer-lhe? Ora... o de tantas outras... Casarei com algum tropeiro por ahi... Estou vendo, estudando, esperando alguem que não seja de todo máu...

—Você, casada com um tropeiro, meu Deus, meu Deus!! Impossivel!

—E porque não? Nem sequer valho um arrieiro?

—Oh! Gêgéca, muito mais, muito! Não leve a mal as minhas palavras; estou fóra de mim, nem sei o que digo...

—Olhe, observou a _Ciganinha_, uma cousa juro por Deos que nos está vendo, o homem que me tiver não se ha de arrepender... Sinto que não nasci para mulher ordinaria... menos ainda para moça de porta aberta...

E com impeto:

—Não, isto não, antes a morte... mil vezes a morte!

Agarrando então violenta a mão de Anselmo e achegando-se a elle, perguntou irada, com os sobrolhos fechados, as feições contrahidas:

—O José Bispo da venda lhe contou alguma mentira? Fallou mal de mim? Responda, responda!

O moço repetiu o que era verdade.

—Não, elle se calla, todo embezerrado, quando outros cortam na pelle de você... E não são poucos Gêgéca... ah, não!

—Uma sucia de _catimbáos_ e mofinos! exclamou ella com altivez. Podem inventar o que quizerem, desafio-os a todos; mas o mais pintado d’elles não teve isto de mim!... Ixe!

E fez estalar uma unha de encontro a outra.

Passou então por perto uma velha que ia buscar agua ao rio com um pote á cabeça, e os dous pouco depois se separaram.

Anselmo levava, comtudo, a promessa formal do tão inspirado encontro a sós, n’um recanto ensombrado que ella lhe indicou, a custo, incerta, descontente, apprehensiva.

XII

Já se ia a placida e calida tarde fundindo em noute, quando no ponto aprazado occorreu o _rendez-vous_ que devia ser decisivo, entre Gêgéca e Anselmo de Sá.

Fôra este muitas horas antes, o sol ainda alto no horizonte, esperal-a ardendo em febre e impaciencia, e suppondo-se a cada momento simplesmente ludibriado pela suspirada _Ciganinha_.

Afinal appareceu ella, como que trazendo comsigo ondas da luz que já ia faltando na terra, em derredor. Parecia descer do céo.

—Enfim! exclamou o moço, atirando-se arrebatadamente ao seu encontro.

Repelliu-o Gêgéca com brandura.

—Não toque no meu corpo, observou grave e resoluta, venho só para ouvil-o, já que se mostra tão ancioso de conversar commigo. E será esta a ultima vez, desde já o aviso.

—Sim, sim, concordou Anselmo; nada mais quero.

Começou então uma dessas declarações de amor, como tantas no fundo ouvira ella, d’esta feita, porém, n’uma linguagem nova, sonora, arrebatada, que dolorosamente lhe acariciava os ouvidos, a deixava enleada, com a cabeça um tanto vertiginosa.

Presa de sincera paixão, foi Anselmo por vezes eloquente n’aquelles surtos de elevada e platonica poesia, que é o perfido visgo das crueis e irremediaveis exigencias physicas.

—Gêgéca, dizia elle, vejo, presinto que você deve amar-me um bocadinho, mil vezes menos do que eu, mas sempre alguma cousa, e o amor não pensa, não calcula, o amor é todo misericordia, é um sacrificio, dá vida, não mata, não extermina!

E com fogo lhe prendia as mãos frias nas pontas.

—Por certo, balbuciava ella, você não é como os outros que me falaram e sempre me falam em paixão... mas, afinal, e apezar das minhas imprudencias, sou uma rapariga honesta... tenho sabido resguardar a minha honra... que será de mim?

—Não lhe dê isto cuidado... leval-a-ei commigo...

—Sim, replicou a _Ciganinha_ ironica e mais senhora de si, como cousa vergonhosa, não é, ás escondidas? Não chamam por ahi _malas_ essas pobres creaturas que seguem com os viajantes? Ia eu ser como ellas, simples _mala_! E minha pobre mãe, que não póde mais viver sem mim?