Ao Entardecer (Contos Varios)

Part 3

Chapter 33,801 wordsPublic domain

E imitava, com muita graça e valente debique, os protestos de amor eterno, as declarações ardentes e claras ou timidas e ridiculas, o gaguejado de quasi todos os pretendentes, os seus ademanes desengonçados. E concluia:

—Que pagode!

Todos lhe apontavam mil amantes; mas ninguem podia gabar-se de o haver sido. O filho do Manéca Fructuoso fôra já á cama doente de paixão. Debalde fizera valer o caso do olho quasi vasado pela laranja verde. A _Ciganinha_, sem compaixão, motejava do seu triste estado, no passado e no presente.

—Um palerma, dizia desfazendo-se em crystalina e adoravel gargalhada, que a tornava ainda mais irresistivel. Já me falou em casamento, como se fosse um _favorão_, algum bicho de sete cabeças... Tão bom, como tão bom... Que é elle, afinal? Filho de um empalamado...

E continuava a dar escandalosa corda a quantos lhe arrastavam a aza, quer moço do povoado, quer adventicio e de passagem por Santa Rita.

—Essa rapariga é uma perdição, affirmava com pausa e todo convicto o José Bispo, da venda.

Perdição ou não, estava sempre a Gêgéca prompta para as entrevistas vespertinas, a que ia sem susto, sósinha, com a galhardia de se sahir sempre bem, incolume e a contento da altiva consciencia.

E uma vez ou outra pescava uns presentesinhos, córtes de vestidos de chita franceza e até de cassinha, lençosinhos bordados ou de seda, garrafinhas e frascos de oleo fino para o cabello, ou perfumes em moda entre as _senhoras donas_ do Rio de Janeiro, da côrte, o que tudo aceitava, não por interesse, mas para obsequiar, muito instada e rogada—uma lembrançasinha sem valor daquella tarde... E accentuava a lembrança da tal tarde com um aperto de mão mais forte, que nada significava, mas que a fazia desprender-se e fugir ás carreiras pelo laranjal afóra.

Puzera-se tambem a trabalhar, e, ligeira como era, ajudava com muito geito e bom resultado a pachorrenta da mãe. Ninguem resistia ao seu sorriso, quando offerecia, convidativa e meiga, um docesinho de seu taboleiro.

Um viajante, que por alli pousou com grande estado, da familia até dos Jardins, salvo engano, chegou a pagar uma cocadasinha puxapuxa com uns brincos de pedrinhas verdadeiras, amarellas, muito vistosas; tudo desinteressadamente e por achal-a bonita devéras, como não vira igual nem em S. Paulo, nem na Capital Federal. Tambem essa fama de formosura enchia o sertão todo.

—Rapariga como a _Ciganinha_ de Santa Rita de Cassia, apregoava-se, não ha duas nestas trezentas leguas á roda!... Cousa de pôr tonto o homem mais valente!... E levada da carepa, um foguete, um buscapé... cruzes!

IV

Uma vez, com as suas facilidades, que tanto a desacreditavam, correu Gêgéca sério perigo, bem sério.

Como era natural, não tardou o José Bispo, da venda, a querer engraçar-se com ella e desejal-a com a impetuosidade do seu genio atabalhoado, despotico, irascivel, mettendo medo a todo o mundo e cheio de grandezas e valentias no meio d’aquella arraia miuda.

Por cima, inspector do quarteirão, embora não se tivesse naturalisado cidadão brasileiro.

De cada vez que a _Ciganinha_ lá ia comprar alguma cousa, um cobre de vinagre, meio tostão de azeite, um salamim de arroz, contava-lhe historias, fazia-lhe mil promessas.

—Deixe-se de partes, Sr. _Portuga_, repellia-o Gêgéca; não se faça de tolo, estou com pressa...

—Mas, _Ciganinha_...

—Limpe os beiços, Sr. pé de chumbo. Ande; que não vim cá para atural-o...

E assim era sempre.

Ora, como tudo isso occorria á vista de todos, apinhada a venda de ociosos, tropeiros, creanças, _fadistas_, não raro havia troça á custa do tal José Bispo.

—Assim, rapariga, applaudiam. Dê-lhe para baixo até mais não poder.

E se derretiam em caquinadas de chufa.

O homem bufava; procurava com esforço conter-se, mostrar frieza e desdem, mas qual!

De cada vez que a Gêgéca reapparecia na immunda tasca, afigurava-se-lhe que aquillo tudo se mudava em palacio encantado, n’um esplendor de cegar.

E a fadasinha, cada vez mais formosa, galhofeira e petulante, a ludibrial-o sem dó nem receio algum.

V

Repellido sempre, poz-se José Bispo, descuidando até os negocios da venda, a armar esperas á ciganinha, umas especies de tocaia, em que perdia muito tempo e consumia a paciencia, reduzido a roer frenetico as unhas ou antes o sabugo, conforme cacoethe velho.

Presentiu Gêgéca o imminente risco e, embora um tanto descuidosa e zombadora, de continuo lhe furtava as voltas.

Uma tardesinha, porém, em que, scismando, fóra do costume, com certa melancolia, se arredára mais do que convinha, foi de repente empolgada. Quando deu accordo de si, o portuguez lhe mettera a mão em cima, e mão bem pesada, adunca e violenta garra.

—Apanhei-te, pombinha de cascavel, exclamou com triumpho; vamos agora ajustar nossas contas: basta de debiques e caçoadas.

Era o logar deserto, gritar de todo inutil. Só se ouviam, no silencio dos ares, ciciar perto os flexiveis _sarandys_, cujos finos caules encurvados pela correnteza do Paranahyba, a cada instante se erguem para logo se dobrarem, produzindo brandos zunidos de plangente harpa eolia.

Sentiu na testa a nossa heroina camarinhas de algido suor; mas, fazendo valente esforço sobre si, buscou não dar mostra do menor receio.

—Me largue, Sr. José Bispo, observou com serena gravidade; não são modos de homem sério com uma moça como eu...

O tal appello á sua seriedade e ás maneiras pausadas da Gêgéca desapontaram um tanto o vendeiro; uns simples minutos, comtudo.

—Que historias, replicou brutalmente. Vejam, só a santinha de páo ôco... olhem, que partista!... Você cahiu no alçapão, e não solto o passarinho, que custei tanto a agarrar...

—Mas, que é que o senhor quer de mim? perguntou ella com calma e sobranceria, envolvendo-o n’um olhar de supremo desprezo.

—Que é que eu quero?... Cousa muito simples... que _seje_ minha... e ha de sel-o, olaré!... á força, se não houver outro remedio... É de tantos... Para que se fazer de pimpona só commigo?

Intenso rubor subiu ás faces de Gêgéca; os olhos faiscaram de raiva.

—Me largue, _siô_ gallego, exclamou impetuosa.

E com ameaça:

—Depois não se arrependa...

Sorriu-se zombeteiro o José Bispo.

—Ora, quero ver isto... ha de ser gaiato... Eu me arrepender? Nunca, nunca!

E riu-se devéras, quando a ciganinha, reforçada como era, lhe imprimiu forte empuxão para libertar o braço preso. Nem se mexeu do logar, emquanto ella reconhecia, com intimo terror, que os dedos do portuguez a atanazavam como guante de ferro.

—Não se faça de tola, Gégéca, eu bem sei que você esteve agora mesmo com o Nhôr Grande da esquina...

—Mentira, protestou a rapariga.

—Pois se os vi passeiando juntos até se sumirem debaixo das arvores...

—É verdade, passeei com elle... mais nada... Nhôr Grande não é tão ordinario que abuse de seu _talento_.

(Entre parenthesis.)

Sabem os possiveis e complascentes leitores, que cousa seja _talento_, em todo o sertão d’este nosso Brasil?

Força physica, nada mais.

Continuemos agora, caso valha a pena estarem aturando esta massada, mas disso não sou juiz. Como conheci, de passagem, a tal ciganinha levada da breca e lhe admirei, ha uns pares de annos, a notavel belleza, tomei a peito contar as suas façanhas e _capetagens_.

—Pois eu cá, replicou o brichote do José Bispo, entendo que _talento_ para muito serve... Olhe, quero ser bom; escute um pouco...

—Solte então o meu braço...

—_Iche_, lá isso não. Você disparava que nem veado matteiro. _Assumpte_... entregue-se por gosto a mim e de amanhã em diante a bóto de portas a dentro como minha caseira... D. Cula, sua mãi, virá morar commigo... Nada lhes hadefaltar...

Arfava de indignação, odio e pavor o peito da pobresinha.

Vinha a tarde descendo depressa e, distante, á beira do rio, avisava uma _anhuma póca_, com intervallado cantar á maneira do bater de dous páos seccos, que a noite não tardava. A luz que ainda havia, tenue, esbatida, descia de umas nuvens grandes, de intenso vermelho, a purpurejarem todo o lado do poente.

Deu então Gêgéca novo arranco para traz com tal impeto, desta vez, que o seu aggressor teve que avançar dous passos. Quasi de todo lhe quebrou o animo esse esforço improficuo.

—Juro-lhe, bradou ella com a respiração offegante e immenso accento de verdade e angustia, que nenhum homem ainda me tocou no corpo. Tenha pena de mim, José Bispo. Se ha virgem n’este mundo, sou eu... Não me desgrace... prefiro morrer...

—Qual, não se morre por isto, zombeteou o tendeiro.

—Tão certo como Deus estar no céo, affirmou Gêgéca arrebatada e ardendo em febre, saia eu d’aqui suja, desgraçada e me vou logo e logo _pinchar_ ao rio. Ninguem mais me ha de ver.

Minha pobre mãi que se agarre com a Virgem Santissima... não terá mais filha.

Viu José Bispo, no fundo, não de todo máo e perverso, que essa jura lhe subia direitinha do coração—havia de executar o que promettia.

Vacillou pois.

—Mas se eu a amo como um perdido? Se a quero noite e dia?

—Razão de mais para me tratar com respeito... Não sou nenhuma _fadista_ para o capricho dos homens por qualquer meia pataca...

—Onde fica o mundo dos amigos e rufiões? Que querem dizer todas essas conversas, á noitinha?... Santa Rita está cheia das suas passadas tranquibernias...

—Brinco, gracejo, ouço as tolices que me dizem... deixo prégar á vontade, mas ninguem toca no pulpito...

E concordou quasi com humildade:

—O senhor tem razão... Não é nada bonito o que tenho feito. Prometto emendar-me. Ficarei-lhe querendo tanto, tanto bem!... A lição foi muito séria.

Com a volubilidade de seu genio, Gêgéca, ao dizer conceitos tão sensatos, já era outra, serenada a physionomia e, por isso mesmo, mais formosa e seductora. Parecia-lhe que aquelle homem, cujas intenções a aterraram, de subito se transformara em bom e leal censor.

Pouco durou a illusão.

—Não me levo por cantigas... Você falla em morrer, quando agora é que a vida vai devéras principiar.

Recomeçava a dolorosa e indigna lucta.

—Não nasci para os teus beiços, gallego, porco, ladrão, tinhoso!

E as palavras sibilavam, ardentes, cuspidas com nausea, o corpo derreado para traz em disposição de resistencia a todo o transe, e até ao ultimo alento, lucta de morte.

Procurava José Bispo, vermelho, apoplectico de furor e volupia, enlaçal-a pela cintura com o braço livre. Ia a dar-lhe o fatal cambapé.

Foi quando a ciganinha, com inopinado movimento de mergulho, agachou-se rapida. Ao erguer-se, trazia na mão direita uma grande pedra providencialmente achada aos seus pés e, sem perder um segundo, com ella bateu por modo tão brusco e contundente nos peitos de José Bispo, que este a largou, soltando um grito de surpreza e dor.

Era quanto bastava.

Fuzilou a Gêgéca pelo _cerrado_ afóra; mas á distancia parou e, pondo os dedos nos cantos da bocca, atirou aos ares calmos e amornados uns assovios tão finos, agudos e penetrantes, que a mataria já adormecida pareceu sobresaltar-se. Respondeu-lhes, á margem do Paranahyba, a assustada grita dos bulhentos e mettidiços _queroqueros_, de subito alvoroçados.

Ao chegar á casa, toda fóra de si, arquejando de susto e de cansaço, abraçou a ciganinha a mãi com angustiada vehemencia e, deixando-se cahir de joelhos, prorompeu em longo e nervoso pranto.

Debalde tentou D. Cula saber o motivo. Afinal, suspeitando o que não era real, triste e resignada, chorou ao lado da filha até alta noite.

Meu Deus, meu Deus, que será de nós? exclamava a cada instante.

VI

Da terrivel aventura não disse a ciganinha palavra a ninguem.

Tornou-se, porém, apprehensiva, muito mais prudente e não era assim com duas razões que ia espairecer e dar um bocadinho de tréla aos rapazes, lá debaixo das laranjeiras.

Preferia longos passeios sósinha, por caminhos e atalhos só della conhecidos, mas, apenas começavam, lá pelas 5 da tarde, a desfilar nos ares os bandos de pombos torquazes, buscando sempre inquietos e como que irresolutos até no vôo, o pouso para a noite, tambem se encafuava acautelada em casa, na _capuába_ da boa mamãe.

Ficára retrahida, inquieta, menos confiante nos seus meios physicos de repulsa a tentativas de desacato.

Se se mostrava mais attenta aos requebros e protestos de dous ou tres, era para tel-os á mão, como especie de guardas vigilantes, o que desapontava não pouco os namorados de mais fresca data, obrigados a gaguejar as suas declarações de paixão, quasi á vista de uns estafermos, sorumbaticos, estatelados de tanto amor e estorvadores de profissão.

Do filho do Manéca Fructuoso, o tal do olho meio varado por uma laranja verde, fizera Gêgéca gato sapato. A tudo se prestava o pobre do trangola, macilento apalermado, comtanto que lhe fosse permittido respirar perto de quem lhe comera a alma, na energica expressão sertaneja.

—O Malaquias da boiada chegada hontem, e o Fortunato da tropa do Chico _ricasso_, dizia-lhe a ciganinha, querem por força falar commigo, cousa de segredo. Quando o sol se metter na matta, venha me buscar, ouviu, Nhonhô?

—Pois não, Gêgéca, _vancé_ manda...

E o Malaquias da boiada e o Fortunato da tropa ficavam, cada qual por seu turno, todo embabocados e desageitosos, ao verem surgir ao lado da gentil apparição, anciosamente esperada, o typo escaniçado, muito comprido e ridiculo d’aquelle _patito_ do sertão, o nosso Nhonhô Fructuoso.

—É excusado; com a Gêgéca ninguem póde, era voz corrente em todo o povoado de Santa Rita.

E tal ou qual prestigio mystico a rodeava, pois accrescentavam a meia voz:

—Tem partes com o _anhanega_ e o _sacisé réré_; anda de pandega com _currupiras_ e _boitatás_. Não poucos podem jural-o aos Santos Evangelhos.

Talvez por isso, mas muito mais pelos seus olhos a luzirem como brilhantes negros, entre orlas de cabelludas pestanas, pelo seu narizinho espirituoso, um nadinha arrebitado na ponta, pelas faces pennujadinhas como _pecego do cerrado_, tão bonito no avelludado aspecto como feio no nome (chamam-n’o _cagaiteira_), pelo seu corpo esbelto, cheio, promettedor de mil thesouros, andava positivamente tonta, de miolo virado, toda a rapaziada d’aquelles centros.

Não havia quem não parasse diante da chóça de D. Cula e, puxando logo conversa, deixasse de comprar sem vontade mesmo, nem olhar a preço, todas as _brevidades_ e ingenuas golosinas do interior, alli expostas á venda. Florescia então por tal modo o negocio, que as duas mulheres já podiam vestir com certa casquilhice umas saias de babados grandes de bom crivo, e traziam sobre os hombros lenços finos de seda, barreados de azul, e aos pés uns chinellinhos de couro de veado, enfeitados de debrum vermelho.

Não havia cocada, mãe benta, _manaoé_ ou _pé de moleque_ que parasse. Além do que comiam, levavam os tropeiros lenços cheios—um nunca acabar—e voltavam logo a pedir mais, só por causa do dedosinho de gostosa prosa e contemplação.

E a ciganinha a vender tudo á porta da choupana materna, com muito bons modos, risonha, escorreita, prompta á replica e rebatendo, habil esgrimista, os cumprimentos demasiado ardentes á sua formosura—legitima e bem instinctiva loureira, na sua Santa Rita do Paranahyba, como a mais sabida a calculista americana do Norte n’esse incessante duello de faceirice e esquivanças dos brilhantes salões de Washington e Nova-York.

Nem tardou a suprema e estrondosa consagração, dada pelas trovas do João Valentim, o _sabiá gogano_, n’uma festa, quasi _cururú_, que chamara á localidade muito povo de umas 30 leguas em torno.

Esse Valentim, que pachola ao violão! Quantos cahidos de braços e revirados de olhos! Já meio velho, calvo, assim com uns restos de homem bonito, atirado a _seductor_ de mulheres com as suas quadrinhas, que ia desfiando á medida da inspiração todo choroso e derretido!

Vadio como tudo, só queria trabalhar nas cordas da guitarra ou no machete, em que devéras pintava o sete, com umas unhas immensas, attestado da sua preguiça e que zelava como inestimavel preciosidade, sempre limpas de cairel e todas lustrosas.

E como sapateava ao fado, o pernostico bailante, apezar das juntas já bastante perras! Como puxava fieira, ao convidar, em elegante derrengado de corpo, o par ainda sentado! Não queria outra dama senão a Gêgéca, que, n’essas occasiões pulava agil, airosa, provocadora, as faces rubras que nem pimenta malagueta, os olhos faiscantes com uma pontinha de lascivia, exuberante de seiva e mocidade, cousa mesmo de botar de pernas para o ar moços até da capital federal!

—Olhe o diacho do velhão todo mettido a gallo do terreiro, murmuravam os rapazes enciumados, quasi ameaçadores.

VII

N’essa especie de choradinho ou _cururú_ que ficou celebre, expandiu-se a homenagem á formosura da Gêgéca nas seguintes quadras, cantadas com muita denguice e grandes derreados, pelo João Valentim.

Repinicando o violão, nuns preludios todos cheios de blandicias, tomou largo hausto e plangentemente soltou a voz já um tanto estragada e rouquenha:

«No Brasil jámais se viu Rapariga tão bonita, Como seja a _Ciganinha_ D’esta nossa Santa Rita.»

Correu um sussurro de applauso e admiração, que o artista acompanhou em surdina.

Erguendo, porém, o canto, obrigou o silencio, que se fez completo:

«Busquem outros prata e ouro Nos mil sonhos d’ambição; Que eu só quero, altivo a tudo, Conquistar-lhe o coração.»

Gêgéca, lá do seu canto, impando embora de vaidade, deu um _ixe_! significativo.

Concordou logo o cantor com as difficuldades da ardua campanha e gloriosa posse:

«Mas ahi é que são ellas, Pois a mais linda das flôres, Escarninha, volta o rosto, Não enxerga as minhas dores.»

Appellando para o idyllio, proseguiu, puxando as cordas do instrumento com os dedos, muito abertos e recurvados:

«Se junto ao Paranahyba Gemem tristes os salgueiros, Perto d’ella em vão soluço Preso aos olhos feiticeiros.»

—Cruzes, observou a _Ciganinha_ a uma mocinha chlorotica que lhe ficára ao lado, dizer que os homens levam a nós pobres mulheres com estas patacoadas e pacholices! Qual, este mundo não anda direito!

A tal reparo pareceu responder João Valentim, promettendo lugubre desfecho ao repellido amor, de que se tornára illustre victima, éco aliás de muitos pacientes:

«Ó Gêgéca, meus peccados, És um castigo da sorte; Mas a tanto soffrimento Eu prefiro a dura morte!»

—Não morre não, Valentim, replicou a interpellada bem alto, o que provocou até palmas no auditorio, deixando bastante enfiado o guitarrista.

—Que moça _cuéra_! exclamou um dos ouvintes.

Verdadeira inspiração inflammou, porém, o cantor com aquelle ironico desafio e com arroubado rapto acudiu elle, erguendo o tom:

«Ordem é do Ser Supremo: De joelhos, natureza! Abatei-vos, terras, céos, Ante a força da belleza!»[2]

Não pôde, porém, sustentar estro tão alto e descahiu logo em legitimo vôo icario para o ridiculo:

«Mas de tal consumição Olha bem, cruel Gêgéca, Vou ficando magro e secco, Que nem feia pereréca!»

E assim por diante, a não acabar mais, tudo muito chupado, cheio de ais! e uis! com umas pieguices de mulherengo vadio... a sua caceteação, em summa, que deixava a D. Cula toda babosa, enleiada com vontade de alli mesmo abrir um pranto enorme, mas que a filha acolhia incredula, indifferente, meio a bocejar.

Quando alguma quadra lhe cahia no goto, ria-se então, botando á mostra os dentes rutilantes de alvura, sempre arêados com uns talosinhos molles de aroeira do campo, nacaradas perolas tornadas mais brancas ainda pelo contraste do vermelho appetecedor dos labios, frescos, carnudos, feitos para beijos de enlouquecer.

Da rubida bocca, porém, partiam flechasinhas pungentes, como do seio das rosas sahem zumbindo mordicantes abelhas.

Nem sequer soube poupar o sabiá goyano, o melodioso glorificador dos seus encantos, pois sem respeito algum á necessidade da rima, logo lhe paspegou ao cogote o appellido de João _Pereréca_, que adheriu e d’alli em diante punha bambo e furioso o nosso seductor Valentim.

E entre a paixão real e a vaidade de poeta travou-se breve lucta, que terminou pela victoria do Parnaso, offendido em sua meticulosa dignidade.

Declarou-se inimigo da Gêgéca, mas teve que desapparecer de Santa Rita de Cassia, onde muito tempo depois cantavam outros bem convictos:

«Ordem é do Ser supremo: De joelhos, natureza! Abatei-vos, terras, céos, Ante a força da belleza!»

Ou mais frequentemente ainda, tanto o ridiculo sobrepuja o bom, até em Santa Rita do Paranahyba:

«Mas de tal consumição Olha bem, cruel Gêgéca, Vou ficando magro e secco Que nem feia pereréca!»

Razão talvez mais plausivel levára João Valentim a de pressa sahir d’aquelles locaes de inesperados desenganos. Foi pedir em casamento a terrivel _Ciganinha_ e levou formidavel taboa tudo com grande pasmo de D. Cula, que quasi desmaiou de emoção, ouvindo a despachada resposta da filha ao avelhentado e petulante candidato:

—Olhe, Sr. João, disse-lhe a Gêgéca na bochecha, não se faz familia nem se sustentam mulher e filhos com cantorias de pereréca!

Era, já se vê, rapariguinha pratica, bem americana.

VIII

Desde ahi verdadeira epidemia na rapaziada do povoado e adjacencias. Não havia agora quem não quizesse casar com a _Ciganinha_.

A todos ia dizendo—não, não!

Para que nada faltasse ao seu triumpho, uma tarde appareceu de repente lá pela casinha de D. Cula o vendeiro José Bispo, todo desajeitado, inquieto, a suar como um burro, mettido n’um rodaque branco bem engommado, de meias aos pés, dentro de alentados tamancos. Não tinha gravata, mas ostentava collarinhos altos e tesos, com muita gomma.

Estavam as duas mulheres merendando. Comiam com os dedos molle pirãosinho de farinha de mandioca a acompanhar um sorubysinho pescado de fresco e cozido n’agua e sal.

Ficaram ambas sobremaneira sorpresas, até receiosas, sem saberem o que fazer.

—Não é servido? perguntou a velha descorando muito, ao passo que Gêgéca fazia-se escarlate.

—Obrigado, dona, respondeu José Bispo com timidez, transpondo a custo o limiar da chóça.

—_Mas porém_ abanque-se, convidou a dona da casa indicando uma cadeira velha.

O homem foi, depois de algum pigarro, entrando em materia. Ha muito quizera vir lhes falar, mas uma cousa e outra, isto, aquillo, aquillo outro, negocios, etc., etc., o haviam sempre atrapalhado.

Depois...! receios de ter offendido D. Gêgéca, mas lhe perdoasse, não fôra por querer... estava muito arrependido das suas brutalidades...

Tudo muito gaguejado, emquanto D. Cula abria uns olhos muito grandes de coruja assombrada.

Afinal desembuchou.

A menina era já moça feita, precisava tomar estado, ter uma posição, e elle, no caso de principiar familia, vinha, nem mais nem menos, pedir a sua mão.

E contou lá suas fanfarronadas.

Possuia bastante de seu para assegurar o futuro de ambas, pois até pretendia mudar-se d’aquelle logarejo, que não lhe servia mais, retirando-se para a capital, onde daria maior extensão ao negocio, para _Goáyaz_—como dizia.

E parece, com effeito, que pronunciava mais certo do que os que dizem Goyaz, pois o Sr. Beaurepaire Rohan, muito entendido em materia de bugres e cousas do tupi, assim tambem é que falla,—_Goáyaz_. Muitas e muitas vezes, eu, Heitor Malheiros, o tenho ouvido dizer d’esse modo, á fé meu gráu. Verdade é que o juramento está hoje abolido, e não sou formado em cousa alguma.

Continuava, porém, José Bispo. Dava aquelle passo na certeza de ser attendido, embora muita gente certamente o devesse censurar. Não duvidava dos bons sentimentos da menina, cujos modos entretanto serviam de motivo a muitos mexericos e falatorios. Era franco. Nutria, porém, a convicção de que tudo não passava de muita mocidade. Uma vez mulher d’elle José Bispo, saberia portar-se de modo a só merecer respeito e consideração dos povos todos de Santa Rita, e onde quer que fossem parar.

—_Dé_ certo, _dé_ certo, ia affirmando a lesma da D. Cula toda a babar-se de gosto com a perspectiva de semelhante enlace, uma fortuna do céo.

Conservava-se Gêgéca retrahida, calada, com uns restos de pirão a seccar na pontasinha dos dedos.