Part 2
Chamavam-lhe _Ciganinha_, e a principio tambem _Magriça_.
Exasperava-a, porém, este appellido. Quando o ouvia «ó, magriça!» voltava-se rapida, furiosa, com os olhos a chammejar, e torcia a cara toda nuns esgares muito feios de bruxa velha, botando para fóra uma lingua de palmo, fina, comprida, serpentina. Soltava até grossas palavradas.
Com a outra alcunha não se importava. Erguia os hombros num gesto de expressivo pouco caso e concordava resmungando:
—Se sou mesma!
Por lei fatidica dos contrastes, havia recebido na pia baptismal o nome, que nunca devêra confirmar, de Angelica—d’ahi Gêgéca ou Gégéca, como costumava dizer a mãe, abrindo os _ee_ de modo especial e descançado, e accrescentando sempre com languido suspiro de pezar:
—Um _diabréte_, esta _ménina_.
Desde bem pequena, mostrára, com effeito, indole muito independente, genio violento, amigo de fazer as suas quatro vontades, audaz, altivo e arrebatado, de par com muitos cahidos e engraçadas momices e caricias com quem lhe cahia no gôto, ou permanentemente ou em horas de caprichoso bom humor.
Positivamente endiabrada, só gostava de andar á volta com rapazes e molequinhos, garotos da sua idade mais ou menos, furando matagaes, correndo pelas varzeas, espojando-se na relva, deixando-se rolar pelo barranco de areia até quasi dentro do rio, largo, magestoso, esfrangalhada sempre, com as saias em molambos, o corpete a lhe cahir pelos hombrinhos magros, descarnados, as pernas á vista, núas, nervosas, esgalgadas, pés no chão, um tanto grandes e maltratados, mas não espalmados e chatos.
Até perto dos 14 annos, ninguem como ella, a _Ciganinha_, para trepar nas arvores a apanhar fructas ou excogitar e descobrir ninhos de passarinho na ramagem mais folhuda e entrançada e pôr-lhes o gadanho em cima.
Agil como um sagui, leve que nem miudo e gracioso caxinguelê, eram de ver-se o geito e a firmeza com que sabia agarrar-se ao tronco liso e escorregadio das jaboticabeiras do matto e descascadas goiabeiras, indo sem vacillar pelos galhos abertos até aos ramos mais finos, que sacudia com vigor, para fazer tombar alguma goiaba teimosa e longe da mão avida, impaciente.
E lá ia tambem pelas larangeiras acima, uma perna aqui, outra acolá, escarrapachadas, sem se lhe dar com os espinhos agudos, minazes, alcançando n’um apice as franças mais flexiveis e perigosas.
—Não quero que olhem para cima, bradava lá do alto, imperiosa, aos companheiros agrupados em baixo, á espera dos pomos que ia colhendo e arremessando.
Obedeciam-lhe de prompto, porquanto o rosto de algum mais curioso e petulante ficava logo sujeito a moralisador e temido castigo e bombardeio. Para prova, o filho do Manéca Fructuoso, que se vira em risco de perder o olho esquerdo, quasi vasado por uma laranja verde, atirada com pulso vigoroso e afeito a acertar no alvo.
Muitos dias ficára como exemplo aquella face inchada e rubra, á maneira de uma bóla vermelha; e a todos explicava o ludibriado dono:
—Artes do demonio da _Ciganinha_; mas ha de pagar-me, tão certo como dous e dous são quatro.
Quédas a valer levára ella das continuas e atrevidas ascensões, mas com tão pouco não se occupava. Passado o atordoamento do baque em sólo duro, e compondo-se depressa, pulava de contente ao verificar que ainda d’essa vez não ficára com membro algum partido ou deslocado, tendo em nenhuma conta arranhaduras fundas e dolorosas contusões.
No meio de todos esses desmandos e reparaveis extravagancias, singular recato, instinctivo e selvatico pudor. Assim, jamais acceitara tomar, de dia, banho no rio, em sucia e duvidosa promiscuidade com os camaradas de travessuras. Banhava-se diariamente, sim, mas sósinha, á hora em que a tarde se ia fechando noute, e sempre protegida por frondoso salgueiro, que ainda mais ensombrava a bacia natural, onde immergia o gracil e delgado corpinho.
Uma feita, já bem crescidinha, voltara á casa coberta de sangue vivo, uma grande brecha aberta na cabeça.
—Não é nada, mamãi, affirmava toda exultante, com feição de legitimo triumpho: uma batalha de pedras, bonita como tudo, com os filhos da Narcisa _Mofina_. Del-lhes que foi um regalo. O Juca anda sempre me chamando para as bibócas, a fazer-se de cebo commigo, pois bem, levou até ao céo da bocca. Eu... contra quatro, hein? Não arredei pé emquanto não os debandei. Só agora é que senti que me tinham tirado mel da cachola... Canalhas!
E ainda se esgrimia exaltada, a pôr em fuga os numerosos adversarios.
Não cabia em si de ufana.
—Quatro, mamãi, quatro contra a filhinha de seu coração!
—Mas, menina, observava com tom plangente e arrastado a pobre da mãe, isto lá são modos de rapariga? Onde vai _vance_ parar? Que _désgostos_ me esperam mais n’esta vida de _sópplicios_? Não basta o que já tenho soffrido?
E desatava a chorar.
Muito dada a lagrimas essa D. Cula, diminutivo de Clotilde, usual em todo o interior do Brasil; muito choramingadora, a boa da mulher. Tambem, havia sido tão desventurosa na sua existencia penosa, solitaria, predestinada aos abandonos!
Sempre feia, desenxabida, esgaivotada, pallida como cêra, n’um emaciamento desconsolado de penuria constante e aniquiladora, era filha de casal pauperrimo, que a deixára orphã bem cêdo, sem um cobre[1] no fundo de velha bruáca.
Vivera ao Deus dará, muito quietinha, retrahida e medrosa a curtir negra miseria de contorcer estomago e intestinos, e aguentando-se como podia com umas costurazinhas e bordados de crivo, que lhe pagavam uma ninharia.
Viéra, depois, um cigano de arribação, muito pernostico e bulhento, atirado a conquistador, e, sem mais nem menos, se mettera com ella, procurando sobretudo explorar-lhe o trabalho e obrigando-a a fazer doce de _fruta de lobo_, vendido aos tropeiros como marmelada, e mais sequilhos e bolos de arroz e milho.
Quasi nada rendia o tal negocio, porque, além de tudo, o malandrino, guloso e glutão por natureza, comia o melhor do que pretendia expor á venda. Então, com grande dó e escandalo da vizinhança, começou a infeliz a ser, dia e noite, quasi sem intervallo, malhada pelo patife do amigo. Quanta bordoada! Que sovas de moerem os ossos!
De repente, após muita barganha aladroada, falcatruas vergonhosas e innumeras dividas contrahidas a torto e a direito, desappareceu o desbriado cigano—e para todo sempre. Foi-se embora, sem dizer adeus a ninguem, internando-se pelo sertão fundo. Corria depois que acabara ás mãos dos indios Affonsos, o que de certo bem merecera.
Signal da sua passagem, além do volumoso abdomen da Cula, só um cofresinho de bom peso e fechado com cadeado de segredo cabalistico, que a abandonada conservava com mysterioso cuidado e sério terror de feitiçarias.
Em todo o caso, ficara a coitada gravida e só tinha de seu a casinha de esburacadas paredes de adôbo e cobertura de sapê na barranca do rio, casinha em que de pancada lhe haviam morrido pae e mãe, e testemunha indifferente das colossaes e repetidas tundas. Ella ignorava até se lhe pertencia ou não.
Do terreirosinho, de costume muito varrido e limpo, se via bem de fronte o Paranahyba, todo espraiado, solemne, raramente ludroso, quasi sempre puro e de aguas claras, a reflectir, como que em espelho animado e corredio, tudo quanto se passava lá em cima, no Céo de Nosso Senhor Jesus Christo e da Santissima Virgem Maria. No alto e embaixo, que combinações de côres, ao esplendido arrebol da manhã e da tarde e nas multiplas mutações e phantasmagorias das nuvens leves e doudejantes ou pesadas e immoveis, illuminadas pelo descambar do sol!...
Ao brilho sereno do luar, então, que encantos, que quadros formosos, diversos, cambiantes, ora meigos e risonhos, ora melancolicos, quasi sombrios, de deixarem a gente cheia de scismas tristes e presagas!...
Da calmorreada e soffredora Cula se apiedaram, porém, os vizinhos; e cada qual a ajudou como poude—uma gallinha idosa, meia duzia de ovos, ou uma cadeira furada, um catre de couro já inservivel, chicaras e pote esborcinados, miudezas e trastes de refugo, em extremo usados, quasi de todo imprestaveis.
Todos eram tão pobres!
A pouco e pouco, nascida a Gêgéca, foi se tornando D. Cula estimada, credora até de certa consideração, sempre muito séria e digna nos seus extremos apuros e necessidades, activa ao seu modo e fazendo quanto podia pela vida.
Entretinha relações de amisade com familias boas do logar, que lhe pagavam as visitas; e, quando o vigario do Curralinho vinha até ao povoado, parava sempre lá para apreciar o seu cafésinho gostoso e quente, embora em chicara de folha de Flandres, que esfria depressa a bebida, queimando os beiços de quem a toma, cafésinho acompanhado de umas brôas e _brevidades_ muito bem feitas, pois ninguem as preparava melhor do que ella, após as severas e tão accentuadas lições do perfido e brutal amante.
E assim se iam os dias escoando.
Segredavam as más linguas, e á frente de todos mexericava com sorrisos ironicos e ares de desprezo o José Bispo, dono da venda mais bem sortida e afreguezada, que, alta noute, não havendo luar, costumavam rondar a porta da sisuda D. Cula certos vultos suspeitos, talvez o vigario ou gente mais limpa e apatacada das tropas e boiadas, por alli de pouso, antes de transporem o grande rio.
Quem está, porém, livre de calumnias e denigrações?
Depois da sua primeira e sabida desgraça, tinha a mulher tanta compostura e tão resignada dignidade, que só mesmo a bisbilhotice de aldeia podia esmerilhar duvidosas hypotheses, levando a mal as taes visitas, ainda que a deshoras. E a miseria e a fome... bem más conselheiras!
Demais, já dissemos, não era nada appetecivel, descorada e pamonha como tudo, nos modos e no fallar.
Com sotaque molle e cantado fazia justiça a si mesma, em invencivel desalento e abandono:
—Eu sou tão _enjóada_! Quem ha de me _quérér_?
II
Devia, com effeito, a peste do cigano ter sido das arabias, ou sel-o ainda, caso houvesse escapado das unhas dos temidos indios Affonsos.
Fizera da natureza apathica, dorminhoca, congochosa da Cula surdir, para pasmo constante de todos, lepida, escorreita, andarilha, em continua mexonada, a Gêgéca, a _Ciganinha_, cousa totalmente diversa, opposta, antinomica, um azougue, uma agua viva, legitimo producto do tinhoso.
Não podia estar quieta e parada dous minutos, com uns modos azoinados, bruscos, espontaneos, selvagens.
Tinha, positivamente, bicho carpinteiro em certa parte do corpo, que a gente de lá designava com a maior sem cerimonia.
E bem falante, muito explicada, respondona como a maior das malcreadas, sempre com a palavra do Cambronne na boca, prompta para desferil-a, como se estivesse no quadrado da guarda imperial, em Waterloo, replicando á intimação dos inglezes.
Uma occasião em que a mãi toda lacrimosa a reprehendia, accusada, como fôra, de ter furtado um pombinho nuélo á Maria Rabolona, lavadeira no porto, umas casas abaixo:
—Não fui eu, defendia-se, nunca minto... se o tivesse surripiado, confessava... Já lhe disse... não fui eu.
E como D. Cula insistisse, amaldiçoando as escapadas e traquinices já bastante graves, atirou-lhe ás bochechas:
—Ora, mamãi, de que serviu tambem _mêcé_ ter sido sempre boa, socegada, mettida comsigo, uma santinha? O malvado do cigano não lhe fez mal, não a surrou como boi corneta, e não a deixou de vez com a pança cheia?
—Menina! bradou D. Cula aterrada levando as mãos á cabeça, quem te ensinou tudo isso? Olha, diabinho, Deus te ha de castigar! Santo Christo, que será de nós?
—Deixe-se d’isso, replicou philosophicamente a _Ciganinha_ correndo já para a porta, Deus tem muito em que cuidar. Quando se lembrar de mim, já a raiva terá passado... A Maria Rebolona, que não se faça de engraçada commigo... Sujo-lhe, num dia de chuva, toda a roupa estendida no gramado... Hei de avisal-a uma vez por todas...
Esse furto do pombo nuélo... Para que insistirmos?... Por acaso, D. Cula não teve sempre bons caldos, quando esteve tão doente? Quasi esticára a canella, coitadinha, sem cirurgião ou curandeiro, que a visse por caridade, nem remedio nenhum, nenhum para tomar!—E melhorsinha, não comera pratazios de arroz bem cozido, em que se poderiam vêr ossadas bastante suspeitas, até de gordas gallinhas?
Chegou a beber seus calicesinhos de vinho do Porto, comprado a 2$ o martello na venda do José Bispo, o que serviu, semanas e semanas, de thema a muita historia gaiata, longos commentarios e malevolas conjecturas.
Pois, senhores, tudo falso e inventado, quanto ao vinho, pelo menos. Querem saber a verdade? Por Deus Nosso Senhor Jesus Christo, que está nos vendo e nos ouvindo.
Disséra um tropeiro para D. Cula:
—_Vancê_, dona, do que precisa é tomar todos os dias uns dous bons dedos de vinho do Porto, da venda... Sem isto, não sára... não póde arribar tão cedo.
—Mãi de misericordia! retrucara a agorentada martyr, que é da _cobreira_ para comprar a tal mézinha?...
—Ha de se arranjar, declarou Gêgéca, que se impressionara com o conselho.
E como costumava a miudo sopesar curiosa o cofresinho esquecido pelo trastalhão do cigano, n’esse dia o levou ás escondidas para fóra de casa e o arrombou no _cerrado_, sem a menor hesitação.
—Vamos ver, disséra para si, o que nos deixou o sem vergonha do meu pae.
Achou umas bugigangas, galhosinhos de arruda seccos, umas pedras redondinhas pretas e verdes, tres figas de madeira poida e dous collares compridos de ouro ou prata dourada, além de muitos papeis com signaes esdruxulos, triangulos, meias luas, crescentes e estrellas rabudas.
—Diabo o leve, o bruxo, ou o guarde por lá! exclamou persignando-se, um tanto assustada. E, recolhendo só o que para ella tinha valor, jogou o mais dentro do rio, em logar bem fundo.
Tratou logo de reduzir a dinheiro um dos collares, guardando o outro para si ou para maior de espadas, e foi propôr a venda a um boiadeiro pachola, que se gabarolava de apatacado.
—Onde _campeou vancê_ isto? perguntou o homem olhando-a de esguelha, todo desconfiado. Passou a unha?
—Não é da sua conta, _siô_ besta, foi a resposta. Quanto quer dar pelo _lavrado_?
Propoz quantia visivelmente ridicula. Acordado, porém, o instincto do negocio no sangue cigano, conseguiu a menina o dobro do primeiro preço.
E assim póde a chlorotica mãi, a quem tudo logo contou, saborear os seus dedosinhos do apregoado e luxuoso vinho do Porto.
—Mas, filha dos meus pecados, observou assombrada, quem nos diz que no cofre não havia _mandinga_? As desgraças vão chover em cima de nós duas...
—Qual! Foi muito bom; acabou-se agora a cai póra... Mecê verá!...
—Santa Rita nos proteja!... Se aquelle homem por cá apparecer, dá cabo de nós, não ha que duvidar... a poder de tanta bordoada.
Fez a _Ciganinha_ significativo gesto de mófa e incredulidade:
—O diabo não é tão feio como se pinta... Elle que venha!... Ha de ouvir boas... da minha boca!
E partiu á disparada, chilrando como um pintasilgo.
Atirava Gêgéca bodoque como poucos e lá ia com uma sacóla de bolas de barro pelas mattas, de onde voltava sempre com alguma caça, papagaios, tucanos, grallias e um ou outro mutum, que vendia por dous cruzados, ou até vinte e cinco cobres a algum dono de tropa.
Preferia mil vezes essas correrias com meninotes da sua idade, já então taludinha, a ficar estatelada á porta da casinha de sapê, resguardando das moscas e vigiando o taboleiro de sequilhos e _brevidades_, á espera dos possiveis freguezes. E, genuina herdeira do espirito guloso e petiscador do pai, não vendia um bolinho, que logo não roesse um bocadinho, dous ou tres na parte inferior, menos visivel.
Admittia sem pieguice muita graçola, até pesada, e ria-se com gosto, mostrando os dentes bonitos, alvos, iguaes—cousa rara no interior—quando á sua vista contavam historias e anecdotas bem crespas; não lhe tocassem, porém, no corpo, lá isto não. Tinha a mão leve como tudo e dava bofetadas de estalar aos que lhe beliscassem os quadris e as pernas, ainda bem finas. Musculosa e ligeira, passava então taes rasteiras, que os gaiatos e pelintrotes iam ao chão com grandes batecús e lá ficavam chiando de dôr, no meio das estrepitosas vaias do rapazio.
Não falassem mal da mãe, não se atrevessem a agarral-a de certo modo, ou não lhe fizessem propostas equivocas, era incontinenti uma surriada de nomes feios e cabelludos, capaz de pôr tonto qualquer soldado tarimbeiro. E por cima, muitas caretas e ademanes violentos de desafio e ameaça, com energicos bamboleios de capoeiragem.
Sempre mal ajorcada, esfarrapada, as faces meio sujas, as unhas caireladas, cabellos desgrenhados, rebeldes, todos em caracóes e calamistrados, verdadeira gaforina, fincava n’elles uma flôr vermelha, algum mimo de Venus, e passeava serena o orgulho da sua raça, quando não dava cabriolas caprinas ou fazia mil maluquices, na expansão dos inesperados impetos.
Voz geral no povoado:
—Esta rapariguinha leva a bréca de repente; acaba muito mal. Pobre da D. Cula, que filha lhe pôz nos quartos o maldito do cigano! Cruzes! Devéras, caipora assim é tambem demais... Talvez, o cujo fosse o diabo em pessoa... Te arrenego, _abernuncio_! Só mesmo o demonio é que podia ter a coragem de esbordor todos os dias a desgraçada amiga... era a ração... Milagre, que a deixasse com braços e pernas... não lhe tivesse aberto a cova com tanta porretada!...
Pelo que se vê, as surras de outr’ora haviam entrado nas tradições populares. Tambem não poucas mulheres de má vida, as _fadistas_, nas brigas com os tropeiros e scenas de ciumes, avisavam provocadoras e afoutadas:
—Olhe, _siô_ moço, não sou nenhuma D. Cula. Para cá vem de carrinho. Tire o seu cavallo da chuva, ouviu? Commigo nada de farófa... Depois queixe-se ao bispo!
Tudo isto, tão longe, tão longe d’aqui, na villa de Santa Rita de Cassia, á margem direita do bello rio Paranahyba, na minha pobre e formosa terra natal—Estado de Goyaz!...
Transporta a larga corrente n’uma balsa de duas compridas canôas encambulhadas por pranchões atravessados e um soalho por cima, chega-se a uma praiasinha de areia fina—o porto de onde se empina elevado barranco. Alguns bonitos salgueiros por perto.
E n’aquella balsa viajam, de um lado para outro do rio, homens e cavallos de sella ou bestas de carga, então desarreadas e só com as cangalhas de páos de forquilha assentes em chumaço grosso de macéga secca.
A boiada, muito chifruda, com os cornos compridos e bem abertos, ás vezes elegantes lyras nas graciosas curvas, boiada goyana, forte, grande, passa a nado; e os boiadeiros e camaradas a vão tangendo, na diagonal da travessia, com uma grita immensa, que rebôa pela matta.
Refuga a principio o gado, mas, apertado pela gente a cavallo que montada em pello o toca e estimúla, o pica e com elle se atira dentro d’agua, afinal se decide agoniado e lá vai em denso cordão com cabeça bem levantada, olhos aterrados e bocca offegante a deitar ruidosa respiração. A extremidade opposta do pesado ruminante não mergulha tambem, surde e como que se agita inquieta, presentindo perigos. É que, segundo voz geral, se aquella parte do corpo, em que a _Ciganinha_ tinha bicho carpinteiro, se molha, está irremissivelmente perdido o pobre do animal. Singular destino! Caso digno do estudo dos entendidos e sábios!
De vez em quando, lá se destaca um boi e busca voltar á margem segura e protectora, ou então roda de uma vez, embrulhado pela violenta corrente do Paranahyba.
Levanta-se então brado de interesseira angustia e gananciado desespero, não de piedade pela triste victima:—Lá vai um; lá vão dous!—E os camaradas azafamados apressam, com gestos e clamores a mais e mais, a passagem, até que o guia tome pé na borda de lá.
Em cima logo do porto de Santa Rita de Cassia, uma esplanadasinha de grama verde e folhuda, largo fechado nos tres lados por linhas de pobres casinhas terreas, algumas de telha, quasi todas de sapê.
No fundo, frente para o rio, a matriz, uma igrejasinha baixa, rebocada de annos a annos, com um sino rachado á esquerda, suspenso a uma especie de telheiro acaçapado, a cahir de podre.
E, ao redor da praça, assim pomposamente chrismada, estendendo-se para aqui e acolá caprichosamente, umas moradasinhas, quasi sempre de porta e duas janellas desguarnecidas de vidraças, moradasinhas bem caiadas e alvas, encravadas em copado laranjal. Entre si, communicam por tortuosas trilhas, que no tempo da florescencia ficam embalsamadas a pôr tonto um christão.
Nessas larangeiras canta pela manhã e á tarde um mundo de maviosos sabiás, a que respondem os bandos de afinados e sibilantes caraúnas pousados nas palmeiras indaiás, que alli ficaram da primitiva floresta virgem.
III
Cheia de travessuras no jaez das esboçadas foi, até quasi fazer-se moça, a existencia toda da Angelica, além de uma ou outra façanha de mais vulto, por exemplo, ir vagabundear, dias seguidos, da banda de lá do rio.
—Nossa Senhora da Abbadia, bradava D. Cula angustiada, sahindo da habitual pasmaceira, não é que a menina se passou para as _Geraes_?!
Do outro lado, com effeito, de Paranahyba, fica o triangulo mineiro, habitado por povos sérios, de certo, e pacificos, mas muito retrahidos e com cara de poucos amigos.
Afinal, reapparecia a _Ciganinha_.
—Onde andaste, ménina dos meus peccados? indagava a desconsolada mãi.
—Ora, respondia a damnadinha, estive correndo mundo, assumptando, vendo...
—Mas, rapariga dos seiscentos, com quem, minha Santa Maria?
—Com o José Bexiguento, o filho da portugueza. Quiz, certo dia, fazer-se de engraçado commigo; mas dei-lhe logo tal safanão, que d’ahi por diante andou direitinho que nem um fuso.
Embora aos 16 annos, tinha ella, ainda que mais assentada de juizo, pessima reputação; gozava de pessima reputação, dizem até bons classicos.
E bonita como mil peccados em penca, buliçosa, suggestiva, a pôr faulhas de ardente cobiça nos olhos dos mais indifferentes e quietos.
Cabellos negros, bastos, então mais cuidados e lustrosos, mas sempre com a sua florsinha, de preferencia vermelha, cabellos ondeados, com uns crespinhos rebeldes na testa e na nuca roliça; rosto para o comprido, n’um oval regular e como que fechado por encantadora covinha no queixo; tez não muito morena, tanto assim que bem largas sardas lembravam as grandes soalheiras de outr’ora, apanhadas em criança; sobrancelhas de japoneza; olhos enormes, negros, rutilantes, avelludados, com uns cilios que punham sombra ás atrigueiradas faces em que florescia suave rubidez; labios humidos, polposos, com o brilho de romã entre aberta, n’um arco deliciosamente desenhado, orelhas pequeninas, como conchinhas nacaradas.
E que elegancia nativa e senhoril no porte; que collo soberbo, cintura fina, estatura mais que meiã—emfim, um todo, um conjuncto de fazer peccar Santo Antão, na sua gruta da Thebaida.
Namoradeira como tudo, a Gêgéca; muito ufana da sua belleza, dos seus encantos, mas acceitando a côrte e as homenagens de qualquer pé rapado.
A rapaziada de Santa Rita de Cassia e dos arredores umas 20 leguas andava tonta, n’um rodopio.
Ao lusco-fusco, um corisco a diabinha, sempre á cata de aventuras banaes, que sabia, porém, conter nos justos limites, avisada, aliás, a cada instante pela voz arrastada, plangente da mãe, como agoureiro pregão:
—_Ménina_, _vancé_ se perde... Tanto vai o pote ao rio... _Proteja-nos_... Santo Christo dos Milagres.
—Conheço o caminho, respondia a _Ciganinha_ e não me hei de perder assim com duas razões... Estou traquejada na estrada e no atalho...
—«Lá vai a pestesinha», dizia-se ao lobrigar sobre tarde uma sombrinha airosa, esbelta, esgueirando-se, sem grandes mysterios, aliás, por baixo dos laranjaes. Ia até ás vezes cantarolando, com andar leve, mas seguro e firme. E ouviam-se as gargalhadas de escarneo, que dava lá debaixo das suas laranjeiras.
Com impudencia sem par contava as _bobagens_ que lhe haviam dito fulano e sicrano, o tropeiro Vargas, o arrieiro Thomé do Valle, o mascate José de Italia e mais este e mais aquelle, um povaréo grosso, emfim.