Part 6
Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados, mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava, acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz. Então o homemzinho explicou:--A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas, entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos. Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a Senhora respondeu-me:
--Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é um crente sincero, e quando toda a gente negasse o milagre, elle o affirmaria como possivel.
Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em paz, com os brincos e o cordão.
Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:
--Grandissimo ladrão!
E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:
--Reverendissimo burro!
* * * * *
_Saudade! gôsto amargo de infelizes..._
(Garrett).
--Fizeste bem em vir...
Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.
--Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam.
--Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...
Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a apertar-lhe o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição.
--Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...
Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida, um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso em que se apagassem.
--Custa tanto morrer, sabes?...
Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos calcanhares quando as deixava cahir pelas costas.
--Vê como se envelhece depressa...
Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.
--Lembras-te?...
Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era tudo o que lhe restava de vida--um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte...
--Doidos que nós eramos!..
Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas, para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos.
Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica; vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar dentro d'um jazigo, para violar uma morta.