Ao de Leve

Part 5

Chapter 53,786 wordsPublic domain

Como as chamassem, n'um prompto, correram para junto daquelles homens graves que andavam á roda do pego, devorando com os olhos aquelles peixes de oiro e prata, que se viam lá em baixo, na transparencia da agua, e de quando em quando vindo á superficie, quando das barreiras caia um pequeno torrão, que os atraía em vez de os espantar.

--Ganha um vintem cada um, se atirarem para o pego muita poeira e muita lama.

Os pequenos olharam uns para os outros, como que interrogando-se, e logo desataram a correr, por alli fóra, rindo ás gargalhadas, deixando estupefactos aquelles homens graves que estavam havia muito namorando os peixes, varando-os com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.

Já a distancia, para além da arvore debaixo da qual ha pouco brincavam, estacaram todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma voz de commando. O mais ladino, apontando na direcção do pego, com um grande ar de superioridade desdenhosa:

--Queriam pescar nas aguas turvas, os gajos...

E todos riram á gargalhada.

* * * * *

_Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não ha mancha._

(Cantico dos Canticos).

Que os seus labios toquem os meus labios, dando-me o osculo da sua bocca, e as minhas mãos toquem os seus peitos, fragrantes como os balsamos mais preciosos...

Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe mudou a côr beijando-a doidamente n'um dia em que ella andava pelas encostas, apascentando os gados, esbelta como a açucena...

Hei de fundir os meus desejos loucos no fogo dos seus olhos negros, para afogar n'uma gargalheira d'ouro o seu pescoço de rola.

Ella é a flor do campo, o lirio immaculado dos valles, olorosa como o nardo, rescendendo como um ramalhete de açafrão que alguem tivesse collocado entre as suas pomas virgens, appetitosas como um cacho de Chypre, de bagos humidos e frescos.

Não a acordem no seu thalamo de flores, que ella assim é linda como a Sulamita, cujo coração vela emquanto ella dorme, e na volupia do seu sonho, perfumado de todas as essencias do Libano, percebe a voz do seu amado, que lhe bate á porta, a escorrer-lhe do cabello em anneis todo o orvalho da noite.

Os seus labios são como uma fita de escarlate, mal cobrindo os seus dentes de marfim, e as maçãs do seu rosto, como romã partida, accendem fome de beijos nos proprios cedros do Libano.

Que airosos são os seus passos, e que harmonioso é o seu talhe, similhante ás palmeiras do deserto, em torno das quaes esvoaçam pombas nitentes como frocos de espuma, que o vento erguesse do mar quando as ondas saltam como cabritos do monte, procurando as folhas verdes!

Não lhe perturbeis o somno, linda como é adormecida, o leito em que repousa tendo o olor de um canteiro de plantas aromaticas, onde floresce o nardo e o açafrão, o cinamomo e a mirrha.

Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe queimou as faces, beijando-a doidamente, n'um dia em que a apanhou no campo, esbelta como as açucenas...

* * * * *

_Ci git Piron, qui fut vien!..._

Accumulava com o emprego burocratico... de não fazer nada, o encargo social... de dizer mal de todos e de tudo. Assim o tempo não lhe chegava para ir aqui e além, apparecendo em toda a parte, informando-se da ultima novidade, e commentando o ultimo escandalo. Estava convencido de que nascera com immensas aptidões, um enorme talento de escriptor, um profundo genio d'artista, e que tudo isso lhe fôra roubado, ainda no berço, uma noite, estava elle a dormir e a sonhar--um lindo sonho côr de rosa, que punha estremecimentos rithmicos nas suas carninhas de leite. Teria sido um philosopho como Littré, um esculptor como Miguel Angelo, um historiador como Mommsen, um critico como Taine, um poeta como Victor Hugo, um pintor como Rubens, um romancista como Balzac, se lhe não tivessem roubado em pequeno as immensas aptidões com que o dotára a Natureza.

Quando se punha a escrever, emperrava-lhe a penna ao cabo de poucas linhas, e não havia maneira, por mais que torturasse os miolos, de lançar ao papel uma ideia. Quando se punha a fazer pintura, escorregava-lhe o pincel borrando a lona, e succedia então que tendo feito o desenho para uma rosa, lhe saia inevitavelmente uma couve-flôr. Uma unica vez conseguiu levar a cabo uma esculptura; mas succedeu que tendo modelado no barro um cupidinho alado, quando o passou ao gesso se encontrou com um kanguru. Vinham-lhe então raivas tremendas, um odio enorme aos que tinham um nome, aos que faziam livros ou faziam estatuas, affirmando de qualquer forma uma competencia superior--o talento, que não é commum, ou o genio que ainda é mais raro. Era a impotencia gerando a inveja; era a inveja transmudando-se em odio.

Um dia morreu e, como não tivesse amigos, quasi ninguem o acompanhou ao cemiterio. Quando iam a descel-o á cova na sua mortalha de pobre, um bohemio que alli chegou, informando-se de quem era, disse:

--Deviam fazer-lhe a cova redonda... A ultima morada d'um nulo, deve ter a fórma d'um zero.

* * * * *

_S. M. tem recebido milhares de cartas, bilhetes e telegrammas, felicitando-o pelo mallogro do projectado movimento revolucionario._

(Dos jornaes).

Estendeu o braço e premiu o botão electrico, que ficava um pouco ao lado da secretaria.

--Pareceu-me ouvir chamar...

--Chamei, sim. Vieram cartas, bilhetes, telegrammas, não é verdade?

--E todos elles...

--Todos elles dizem a mesma coisa. Até parece que foram expedidos pela mesma pessoa ou então...

--Ou então foram redigidos segundo uma formula combinada, não é isso?

--Exactamente, segundo uma formula combinada.

--E já os colleccionaste, conforme te disse?

--De certo. Á medida que chegavam ia...

--Está bem. Traze aquelles que sabes e mette-os além, n'aquella caixa.

--N'aquella caixa?

--Sim, n'aquella caixa. Vou lel-os de monoculo.

Eram algumas duzias de telegrammas, vindos d'aqui e d'além, uns do norte outros do sul, todos com muitas felicitações, muitos protestos de respeito, de estima e dedicação. Parecia, na verdade, que tinham sido redigidos segundo uma formula combinada, tão eguaes eram os seus dizeres.

--Prompto, já lá estão.

--Olha, põe-lhes em cima aquelle folheteco que está além, n'aquelle _étagère_, de capa verde...

--Mas é a Carta...

--Pois já se vê que é. Anda, põe-a lá, e raspa-te.

D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria, na descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto fortemente aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico.

--Não sei se é a mim que...

--É com o que está de serviço ao bispote.

--Então sou eu.

--Despeja aquella caixa.

* * * * *

_A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo._

(Crendices populares).

No dia seguinte era o baptizado.

Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada sobre a canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas, muito harmonioso na minusculidade das suas formas--como se fosse uma esculpturazinha de Donatello, copiada de frei Angelico, em um vago presentimento da Renascença.

Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma rijeza de fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda como se sentia; mas já recommendára á parteira que o não entregasse a ninguem, nem mesmo ao padre, receosa de que mãos pesadas tomassem aquelle fardozinho ligeiro, que era a melhor fibra do seu coração, animada do mais puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a philosophar sobre o baptizado, o santo sacramento do baptismo como ensinam os livros sagrados.

Seria então um peccador, o seu filhinho.

Quantas creanças por esse mundo além, morrem sem baptismo, quasi ao nascer, pequeninos botões de rosa, que não chegam a abrir, porque a aragem soprou mais forte e os lançou por terra!... O espirito d'estes anjinhos irá então soffrer as torturas do purgatorio, espiando uma culpa que não tinham, purificando-se de um mal que não fizeram?

Se o seu filho morresse perderia a crença em Deus, e se pudesse acreditar que a alma das creanças, mortas antes de baptizadas não ascende directa e immediatamente á vista do Altissimo, radiosa como um olhar da Virgem Mãe, negaria a justiça divina, muito peor que a dos homens...

Mas então o santo sacramento do baptismo nada mais será que uma mentira?...

... Envolto em rendas, a dormir na sua canastrinha, o petiz estremeceu, e ella ficou suspensa na corrente dos seus pensamentos, enlevada na contemplação d'aquella esculptura minuscula, de formas harmoniosas, que dir-se-ia modelada por Donatello, a copiar Frei Angelico, n'um vago presentimento da Renascença.

No dia seguinte lá foi o petiz a baptizar.

* * * * *

_Um rapaz da Beira, allegando que o pae é pobre, furou a greve, pelo que foi espancado á porta ferrea._

(Dos jornaes).

Nunca fôra á escola.

Os filhos da gente pobre não teem o direito de ser creanças, e os paes d'elle eram pobresinhos. Aos sete annos já era um valor, em linguagem de economistas. Fazia dó ver o garotito queimando os musculos tenrinhos n'um trabalho com que não podia. Mas os paes d'elle eram tão pobres!...

Quando entrou nas sortes, já era orphão de mãe, e como tirasse um numero alto, o mais alto que havia na urna, livrou-se de ir servir o rei, deixando o seu velhote quasi cego e inteiramente tropego a viver da caridade publica. Por aquelles sitios não havia trabalhador como elle, sempre a lidar com a terra, de semana trabalhando para os outros, nos domingos trabalhando para si. Não bebia nem fumava, todos os seus ganhos eram para sustentar a casa, onde não faltava nada, a não ser a alegria. Como não ha-de ser triste o lar onde não explude um riso de mulher, onde não ha petizes que ponham tudo fóra dos seus logares, n'uma adoravel desenvoltura... Casou, e pareceu-lhe que tinha ido buscar á Egreja mais força, mais energia, mais saude. Quando lhe nasceu o primeiro filho, que foi tambem o ultimo, já o pae tinha acabado de morrer, pobre velho cego e tropego, que um delgado fio prendia á vida, desde que ficára viuvo.

--Este não ha-de ser para ahi um animal como o pae, dizia apontando o filho.

Aos seis annos mandou-o para a escola, e como o rapaz fosse intelligente e applicado, com muita facilidade aprendeu a ler, excedendo todos os seus condiscipulos. Ficou distincto na instrucção primaria, e como fosse notavel a sua queda para os estudos, matriculou-se no lyceu. Vencidos os preparatorios lá foi o pae leval-o a Coimbra, inchado como a rã da fabula, já a remirar-se no seu doutor.

--Evite as occasiões; mas quando se encontrar n'ellas, não faça má figura.

Foi esta a unica recommendação que lhe fez, de volta á sua aldeia, tendo-o installado na casa d'um conhecido com ordem de lhe abonarem o que fosse preciso.

Outro dia á saida da missa, no adro da Egreja, falou-se de coisas graves em Coimbra. Vinha nos papeis...

--Que foi?

Um dos que estavam no grupo, explicou:

--Houve lá o diabo. Sete estudantes foram expulsos, e os outros, por camaradagem, declararam-se em greve. Mas alguns, diz o jornal, abandonaram os companheiros e foram ás aulas. O seu rapaz...

--O meu rapaz não foi ás aulas com certeza.

Tres dias depois, como o governo mandasse fechar as escolas, appareceu-lhe o rapaz em casa, sem ter avisado como era costume.

--Ouve lá, quantos romperam a greve?

--Poucos, talvez uns quatro ou cinco.

--Mas tu...

--Considerei os immensos sacrificios que tem feito para me dar uma posição, e para lhe poupar...

--Sim, para me poupares alguns dias de trabalho honrado, não achaste nada melhor que praticar a má acção de abandonar os collegas, victimas da injustiça.

Nunca o tinham mandado á escola, mas abençoava agora a sua ignorancia, severo nos seus principios d'honra, intransigente na sua lealdade de camponio para com os seus irmãos da gleba, crendo na simplicidade do seu espirito que o saber deforma o caracter.

* * * * *

_Deus fez as almas aos pares._

(Da sabedoria das nações).

Tinham-se encontrado alli no ponto onde se bifurca a estrada.

O sol descahia ao longe, por traz dos montes, n'um esbraseamento de fogo amortecido, e na charneca immensa havia tanta paz e doçura, como n'uma cathedral augusta a horas mortas da noite.

Cançados, cheios de pó, via-se bem que tinham feito uma longa jornada por caminhos difficeis, rasgando o fato e as carnes nas silvas e pitas dos vallados, e magoando os pés descalços nas veredas e atalhos invios.

O sol descahia ao longe, por traz dos montes, e não se avistava um casal na extensão quasi infinita da charneca, silenciosa como uma cathedral augusta a horas mortas da noite.

Dir-se-ia que se procuravam sem nunca se terem visto, o acaso tendo-os reunido alli, no ponto onde se bifurca a estrada, cançados, cheios de pó, o fato rasgado, e as carnes feridas, como se tivessem atravessado um bosque selvagem, sob a ameaça d'um perigo. Pois que a sorte os reunia...

--Seria bom ficar aqui, ficando ambos, torturada como venho de muito longe, sem um braço amigo a que me encoste, sem um coração amigo que por mim palpite!...

--Juntos faremos o resto do caminho, querendo-nos muito, amando-nos muito, cada qual rivalizando em dar ao outro a maior porção de sonho, a maior somma de ventura!...

Por sobre a charneca immensa pairava uma paz bemdita, e a lua muito pallida, como se fora um pingo de leite, deixára cahir uma luz frouxa e baça--tal uma lampada mortiça no silencio d'uma cathedral augusta.

Era dia de finados.

Desde que a mulher lhe morrera, havia tres mezes, nem um só dia passava sem que elle fosse ao cemiterio, rezar sobre a sua sepultura, offertar-lhe flores orvalhadas de lagrimas.

Tinham-se amado tanto!

Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido no dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre egreja, e tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia em que lhe cerrou os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um derradeiro beijo.

Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi ao pôr do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera de ir todos os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que cobria metade da sua alma, que era toda a sua felicidade.

Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado de flores, as mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao alto, anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para a porta do cemiterio.

A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro, com um grande ramo de flores na mão.

Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o com os olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a direito sem hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma sepultura, ajoelhou, chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas para chorar, automaticamente, como se na pedra da sepultura tivesse deixado colada a alma, dirigiu-se para a porta do cemiterio.

--Devia tel-a amado muito, para soffrer assim!

--Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado d'ella, debaixo da mesma pedra.

--Era então sua mulher!..

--Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar antes de nos conhecermos.

Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas de lagrimas.

* * * * *

_Não ha bella sem senão._

Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que outro lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a Natureza fizesse tão linda uma creatura tão perfida.--Era como se alguem mettesse lama das ruas n'uma urna de alabastro.

Tão linda!

Punha-se então a fixal-a muito, muito--como se, debruçado sobre um abysmo, quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus olhos luminosos! Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em que havia o perfume intenso das violetas e o sabor casto das rosas.

Tão linda!

Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que percebesse no espaço olhos brejeiros a fital-a.

Tão linda!

Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico como se o desenhára Frei Angelico.

Tão linda!

Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos beijos que outro lhe dera.--As plantas venenosas nunca deviam ser bellas, attrahindo para matar--nem as mulheres bellas deviam ser perfidas, como se um tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma cobra se escondesse entre as folhas d'uma rosa!

Tão linda!

* * * * *

_Souvent femme varie_ _Bien fou qui s'y fie..._

--Tontinho!

--Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe depois que floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a seiva, offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas folhas mirradas, d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...

--Tontinho!

--Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos lampejos d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas tuas palavras, e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias, e o coração inquieto, na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola aberta, pulsar com força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.

--Tontinho!

--Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr recalcada, e ao mesmo tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem espirrando como a lama quando a pisam na rua.

--Tontinho!

Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça, como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou uma _bonne_ suissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e perfumado, quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma borboleta branca, que fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.

Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que toda ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes olhos negros, e foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados aquelles corpos no contacto mais affectuoso e mais intimo. Não teriam ouvido o ramalhar das folhas, ainda que por alli tivesse passado algum cyclone devastador, tudo arrasando no seu caminho...

Tontinhos!

Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer annunciar, mal saccudido o pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas as venturas passadas no logar onde as fruira.

Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as azas, faria um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé, como se tivesse medo que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos, e entrassem a gritar por soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.

Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia, e discreta como uma velha tia, ou uma _bonne_ suissa. Pareceu-lhe que alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais, cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido d'alguma folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo fundente que lhe instillassem nos ouvidos:

--Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil.

--Tontinho!

Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli já noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.

Coitadinho!

* * * * *

_Os milagres não se discutem--ou se negam ou se acceitam._

Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar.

Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas com os santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães.

Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria, como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa, para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.

No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos olhos--o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter livrado dos especialistas.

--Foi aquelle grandissimo ladrão!

Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu.