Part 4
--Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a ser isso de gatos de Alfandega?
--Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada a corporação dos _Gatos da Alfandega_, para a sustentação da qual ha uma verba de proximamente trinta mil réis por mez.
--Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...
--Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...
--Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me pelos senhores.
--Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª
Tinham dito a verdade os honrados chefes de familia, e porque o conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do ministro, ou revisores do caminho de ferro.
Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as nomeações no _Diario do Governo_.
* * * * *
_Deve se ao sr. Casimiro José de Lima, director da casa da moeda, o monumento a Souza Martins, erecto no Campo de Sant'Anna._
(Dos jornaes).
Eram congressistas.
Desemboccaram no Campo de Sant'Anna, vindo da Carreira dos Cavallos, e como se approximassem da estatua, a alguns passos de distancia, pararam de repente, em geito de quem examina com interesse. Um do grupo, o mais velho, typo acabado de sabio allemão, genero Topsius, de sobrecasaca e oculos d'ouro, erguendo ligeiramente o chapéu, n'um cumprimento respeitoso, em que havia muito de admiração, exclama com grande convencimento:--_Schön! Schr schön!_ E logo os outros todos, em unisono, como se fosse um echo alli proximo, possuidos d'aquelle arroubamento esthetico, que é vulgar nos homens da Allemanha, exclamaram tambem!--_Schr schön!_ O mais velho, erguendo os oculos d'ouro para a testa ampla, como a querer illuminar o pensamento, feita uma ligeira reverencia á estatua immovel explicou:--Ribeiro Sanches... Foi um medico notavel do seculo dezoito, um sabio do mais alto valor. Formado em Coimbra, graduado em Salamanca, visitou successivamente os hospitaes de Londres, Marselha, Toulon, Montpellier e Paris. Estudou com Boerhaave--todos se descobriram--em Leyder, durante tres annos, e a tal ponto se impoz á estima e á consideração do Mestre, que d'ahi a pouco tendo-lhe pedido a imperatriz da Russia a indicação de tres grandes medicos, que fossem exercer cargo de professor em Moscow, o primeiro nome que lhe accudiu foi o de Ribeiro Sanches. Medico dos exercitos imperiaes, fez a campanha da Polonia, em 1735, e ainda n'essa qualidade andou pelo Paiz dos Tartaros, sobre os quaes fez estudos de anthropologia, que muito aproveitaram ao sabio francez Buffon--e todos se descobriram de novo.--Viveu em Paris, com muitas difficuldades, sempre estudando, sempre cultivando a sciencia, produzindo trabalhos valiosos sobre economia, historia e medicina.
Formára a sua intelligencia no estudo de Bacon e Descartes, e temperou o seu caracter pelos conselhos de Montaigne.
Accusado de judaismo, não podia vir a Portugal, e os livros que para cá mandava eram uma especie de contrabando, que o marquez de Pombal fez passar como sendo d'um phantastico dr. João Mendes Sachetti.
A Imperatriz Catharina II, da Russia, grata por a haver curado d'uma doença grave, era ella princeza, estabeleceu-lhe uma mezada sufficiente, quando elle se viu na capital da França, a braços com a miseria.
E assim pôde viver e publicar o seu _Methodo de estudar a medicina_, e um tratado de _Conservação da saude_ dos povos, e outros muitos trabalhos de valia, que lhe marcaram logar distincto entre os sabios do seu tempo. Um grande sabio! _Ein gross gelehrt! Viel berühmht!_--E todos em unisono, como se fosse um echo ali perto:--_Viel berühmht!_
Ia a passar uma mulhersinha, typo de mulher que esfrega, e como os visse embasbacados, approximou-se do grupo:
--É o Sousa Martins, os senhores haviam de conhecer. Quem mandou alli pôr isto, foi o sr. Casimiro da Casa da Moeda--talvez os senhores tenham ouvido falar.
Pois não conheciam um, nem tinham ouvido falar do outro, aquellas cavalgaduras!
* * * * *
_Hontem a policia deitou a mão a um gatuno de onze annos, que roubou um pão n'uma padaria da Baixa._
(Dos jornaes).
Tinha roubado um pão.
A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer, e elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda a gente. Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas lojas, descalço e rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um cão. _Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando agora n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho--_dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_--entrando além n'uma loja, d'onde os caixeiros o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade inteira, extendendo a mão a toda a gente, e toda a gente olhando para elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que passava, extendendo a mão suplicante.--_Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava, n'uma afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma senhora muito bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi encalhando n'elle á porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e deixou cahir na sua mãosita suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos que elle andava a pedir correndo a cidade inteira, extendendo a mão a toda a gente que passava, entrando nos cafés, onde os freguezes eram surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas, descalço e rôto, e d'onde os caixeiros o enxotavam, como um cão vadio.
Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas pedras da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida, genuflectia á porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o signal da cruz.
Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta d'uma padaria, cheio de pão alvo e fresco.
Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o com uns frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze annos, que tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito, soffrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer.
Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e a morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas--vejam o cynismo do malandro!--e a vergonha faz-lhe esconder a cara--admirem a astucia do patife!
O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido no leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito mirrada, o ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda quente, soffrendo horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites sem dormir.
Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando toda a gente--_dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
* * * * *
_O rei podia impôr-se por um acto de abnegação e patriotismo, acceitando a Republica._
(D'um jornal republicano).
Era um povosinho pacato, que moirejava nas suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões pelo futuro.
Enlevava-se na contemplação do mar, quando elle era sereno, e como se esquecesse então, os olhos pregados na sua superficie espelhenta e lisa, os ladrões aproveitavam-se daquella especie de somno hypnotico para lhe aligeirarem os bolsos.
Bem se importava elle com isso! Tirava da terra, quasi sem esforço, tudo quanto lhe era necessario, e ainda lhe ficava muito tempo para se enlevar como um sabeista, na contemplação dos astros, de dia piscando os olhos aos raios d'um sol que não queima, de noite como a querer enchel-os d'um luar que adormenta.
Era feliz.
Os outros invejavam aquella tranquillidade paradisiaca, alguns milhões de bananas governados consoante a rima, e com um rei côr de laranja.
Succedeu, porém, que um dia, no meio d'aquelle povo pacato que moirejava nas suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões pelo futuro, caiu uma semente de revolta, que logo germinou e fortificou, avassallando todos os espiritos. Áquella gente pacifica repugnavam os actos violentos, e só comprehendia que se derramasse sangue para fazer cabidela, ou então para evitar congestões, quando assim o entendesse a medicina.
Mas havia o rei...
Foi então que um patriota, inspirado como um propheta antigo, teve uma ideia genial, um pensamento sublime--convidar o rei a adherir. Elimina-se o rei e cria-se um cidadão, exclamava com muita eloquencia, pondo arrepios de commoção na espinha de todos os ouvintes.
S. M. adheriu.
Como todos os bons cidadãos quizeram sacrificar-se na presidencia da Republica, houve necessidade de não crear essa funcção, e isso se fez por consenso unanime, cada um não querendo para os outros o que não poderia haver para si.
Alvitrou-se a anarchia, mas como viesse a reconhecer-se, ao cabo de longa discussão, que no relogio do tempo ainda não tinha soado essa hora suprema d'amor e de justiça, tratou-se de eleger um governo, como nas outras republicas.
Um velho de aspecto venerando, com um saber só de experiencias feito, propoz que na constituição do governo entrassem elementos novos e aguns dos antigos homens de governo, já com pratica de negocios publicos.
--Os cidadãos que approvam esta proposta ergam as duas mãos.
Como se visse no ar uma floresta de mãos:
--Approvada por unanimidade.
Logo uma voz se ergue, fazendo-se ouvir em toda a vasta assembléa:
--Eu voto contra. No governo só deve entrar gente nova.
O homem que assim falava protestando com energia, era o cidadão que fôra rei, o que deu logar a esta observação do presidente.
--Mas o cidadão, quando era monarcha...
--Pois sim, quando era monarcha; mas agora sou contribuinte...
* * * * *
_Parece que S. M. a Rainha não acompanhará El-Rei na sua proxima viagem._
--Confessa que te era mais agradavel ir só...
--A falar a verdade...
--Ao menos és franco, e a franqueza não passa por ser qualidade vulgar na tua nobilissima familia.
--Falas-me da minha familia n'um tom de superioridade e desdem, como se descendesses d'alguma d'essas divindades soberbas, de que estão cheias as mythologias antigas. A esse respeito, minha filha, talvez seja melhor não adeantarmos conversa. Ha um anexim portuguez que resa assim;--_disse o tacho á certã, tira-te para lá não me tisnes._
--Não conheço o calão dos toureiros...
--Nem eu a giria dos jesuitas.
--Ao menos podias ser delicado com uma senhora.
--Por certo se essa senhora quizesse ser delicada commigo.
--Nunca eu tivesse aqui posto os pés.
--Inteiramente d'accordo. Tinha sido magnifico para os dois.
--Se não fossem os filhos e...
--Bem sei; se não fosse isto de pairar no alto, estar acima dos outros...
--_Je m'en fiche de..._
--Temos calão boulevardiano?
--Se um dia perderes o logar, podes ir para Marrocos: o sultão, supponho eu, não terá ciumes de ti.
--Nem tu saudades minhas.
--Se te parece!...
--Apezar de todos os pezares, minha filha, tu ainda me podias dar um prazer enorme, uma satisfação infinita.
--Deixando-te ir em liberdade?
--Não; deixando-me... viuvo.
* * * * *
_No congresso medico do Porto, o dr. Eduardo d'Abreu apresentou um velho de 109 annos._
(Dos jornaes).
--Vou dar a palavra ao illustre congressista, nosso collega, que apresentará á assembléa o homem mais velho do mundo.
Quando o presidente acabou de pronunciar estas palavras, fez-se na sala, até então rumorosa, o silencio dos momentos augustos. Um congressista avançou para junto da mesa da presidencia, acompanhado d'um velhote rabitezo, de peitilhos bordados, endomingado como para a desobriga. Era o homem mais velho do mundo, como dissera o presidente. Nascido no seculo dezoito, atravessára todo o seculo dezenove, e alli estava muito fresco, bem disposto, nas felizes disposições de acompanhar o seculo vinte até por ahi adeante sem cansaço de maior. Estavam alli cento e nove annos, bonita somma feita com parcelas de tres seculos, muito deseguaes em valor.
Tão bem conservado o velhinho!
Dir-se-ia que adormecera quando ia a entrar na velhice, ao cabo de uma florente mocidade, e a dormir deixára de fazer annos, o bom velhote. Por certo aquella alma nunca fôra batida das tormentas, não experimentara nunca as grandes alegrias nem as grandes contrariedades, porque umas e outras consomem como o fogo, abbreviam a existencia,--diluindo-a em risos ou afogando-a em lagrimas.
Tão bem conservado, o velhinho!
Ha rugas na sua face; mas ellas são apenas as dobras avelludadas dos lagos adormecidos, d'uma paz magestosa e inalteravel.
Os olhares de todos aquelles medicos convergiam para o bom do velho, muito rabitezo, com os seus peitilhos bordados á moda de 1820--a unica coisa limpa que resta das grandes aspirações d'aquella epoca, explicou o congressista que apresentava o phenomeno. Parecia uma evocação, um phantasma que surgisse da noite dos tempos para contar historias tragicas. Mas havia tanta candura no seu olhar curioso! tanta alegria infantil no seu riso mal contido, como se tivesse vergonha de não se mostrar grave alli, no meio de tantos senhores! Aquella seriedade tinha o ar de uma meninice robusta e florida.
Tão bem conservado, o velhinho! Parecia vender saude...
Um dos congressistas, clinico de larga nomeada, approximando-se do velhote:
--E de saude, que tal?
--Ó meu senhor, graças a Deus...
--Mas nunca esteve doente?
--Uma vez, ainda era novo, ahi por volta dos setenta annos.
--E tomou muitos remedios?
--Lá quanto a isso... não tomei nenhum. Eu sempre tive muito amor á vida.
Tão bem conservado, o velhinho!...
* * * * *
_Hontem, em conferencia dos delegados, foi resolvido querellar d'alguns jornaes._
(Dos jornaes).
A sessão estava marcada para as onze. O ultimo que entrou, saudando os dois que já lá estavam, teve esta observação maliciosa:
--A justiça é pontual!...
--E algumas vezes... justa, accrescentaram os collegas.
Cada qual desembaraçou-se do sobretudo, pôz em cima da mesa um masso de jornaes, e assentou-se.
--Ha que fazer?
--Pela parte que me toca...
O que assim falou, ergueu os oculos para a testa, abriu um dos jornaes que tinha na sua frente, e leu pausadamente:--_É fóra de duvida que o nosso Monarcha é dos imperantes mais honestos e mais intelligentes não só da Europa, mas de todo o mundo._
Pousou o jornal sobre a mesa, deixou cair os oculos para os olhos, e attentou nos collegas, á espera.
--E depois? O collega com certeza não pretende querellar d'esse jornalista, com certeza monarchico...
--Engana-se o collega redondamente. Pretendo querellar a passagem do jornal, que acabo de ler, porque a encontro incursa no artigo...
--Mas isso não tem pés nem cabeça, collega. Quereria então que amanhã se dissese que este augusto tribunal querellára d'um jornalista por ter elle escripto que o monarcha é honesto, é intelligente, dos mais honestos e intelligentes que o sol cobre?...
--É como acaba de dizer.
--Mas isso é uma loucura!...
--Um pouco mais pequena do que lhe parece. Estamos aqui para cumprir a lei, e a lei, n'este ponto, é clara.
--O que faria então o collega se o jornalista tem escripto que o monarcha é destituido de intelligencia e honestidade?
--O que faria? Querellava-o com fundamento no artigo...
--Mas é então o caso de ser preso por ter cão...
--Não é nada d'isso. É o caso da lei prevenir as duas hypotheses--a da calumnia e a da troça.
Concordaram os tres em que eram de troça as palavras incriminadas, e assim fundamentaram a sua petição de querella. Nunca mais, desde então, os jornalistas se atreveram a escrever aquillo a serio.
* * * * *
_O sr. Teixeira d'Abreu foi hontem cumprimentado por uma commissão de Juizes, que o procurou no seu ministerio._
(Dos jornaes).
Era uma commissão de juizes da provincia, que vinha apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª.
Ageitou o laço da gravata, kaiserizou um pouco os bigodes, pousou a mão direita, levemente espalmada, sobre a pasta de marroquim, deixou cair o braço esquerdo ao longo do corpo, muito á vontade, e disse ao continuo que mandasse entrar.
--Vimos apresentar a v. ex.ª as nossas homenagens, felicitando-o pela justa e merecida distincção que acaba de lhe ser feita.
Muito grave, tendo ouvido aquella pequena fala como se fosse um acto de vassalagem por parte de rebeldes submettidos, pausadamente como quem mede as palavras:
--Agradeço as felicitações que me dirigem, e tomo-as como partindo de toda a magistratura, aqui representada por v. exas.
Ordenou que se sentassem, n'um gesto brando e attencioso, e elle proprio sentou-se, com muita solemnidade, não fosse desmanchar a _pose_ que estudára de vespera para actos officiaes.
E explicou:
--Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas ás outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que eu chamo _A reforma da bola_.
--A reforma...
--Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador, embora n'outro campo, e com o melhor resultado.
--Se V. ex.ª...
--É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco das bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes, receando cada qual que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a sebenta. É engenhoso não é verdade?
--Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola do seu numero, nenhum pegaria na sebenta.
--Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará os melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de juizes e delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a ver?... Acaba o favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a empenhoca.
--É maravilhoso!
--Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte improficua para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes.
Ergueu-se gravemente, e premiu o botão electrico. Logo appareceu o continuo, que acompanhou até á escada aquella commissão de juizes, que tinham ido apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª.
Já na Arcada, olhando uns para os outros, como que interrogando-se:
--Com que então, a bola?
--Redonda e de escaravelho, levada as arrecuas até ao gabinete negro.
* * * * *
_O illustre deputado F. fez hontem um grande discurso, muito caloroso e muito espontaneo, sendo no final cumprimentado por quasi todos os seus collegas._
(Dos jornaes).
Passou por alli e entrou.
Era um espectaculo novo para elle, uma sessão parlamentar. Vinha a Lisboa, muitas vezes, estando as Camaras abertas, mas em geral tinha muito que fazer, e não podia demorar-se por fóra de casa.
O cavallo engorda só com a vista do dono, e elle sabia bem como o seu emmagrecia, isto é, como lhe corriam mal os negocios quando se ausentava por certo tempo. Mas uma vez não são vezes e elle poderia fazer á sua curiosidade o sacrificio das suas commodidades. Em vez de partir no comboio da tarde, que era rapido, partiria no comboio da noite, muito ronceiro, parando em todas as estações, e só chegando á sua terra a uma hora bastante incommoda, de madrugada.
Entrou, e dirigindo-se ao primeiro porteiro que viu, entregou-lhe um cartão de visita para o deputado do seu circulo, pedindo uma entrada, para a galeria do presidente. Tinham-lhe dito que era d'alli que melhor poderia disfructar o espectaculo. S. ex.ª mandou o bilhete de admissão, e pedia desculpa de não vir, porque estava conversando com o ministro a respeito d'um melhoramento que tinha pedido lá para o circulo, a ponte de alvenaria sobre a ribeira, que no inverno, chovendo muito, estorvava a passagem de carros.
Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um deputado já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo que fossem publicados no _Diario_, e um dos ministros declarou-se habilitado a responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na vespera, um illustre deputado da maioria.
Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter alli ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra, declarou que se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir:
--Tem a palavra o sr....
Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora, está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo, prendeu-lhe a attenção desde o começo. A Camara estava um pouco distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle tinha a impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a sessão, o presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria ficar com a palavra reservada.
--Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho, chegam muito bem para o que me falta dizer.
Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns apertando-lhe a mão com muita força e outros abraçando-o com enternecimento.
Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos:
--Muito bem! muito bem!
Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra, n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado.
--Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor.
Já fóra do edificio das Côrtes, atravessando o largo, um rapaz de blusa azul, com uns papeis nas mãos, approximou-se d'elles.
--Que deseja?
--São as provas do discurso; v. ex.ª manda-as á typographia, ou quer que vá buscal-as?
* * * * *
_A continuarem as coisas assim, aos republicanos bastará um pouco de audacia para fazerem a Republica._
(Dos jornaes monarchicos).
Era um pego largo, pouco fundo, com moitas de juncos pelas barreiras que se esboroavam a cada instante. De cada vez que caia um pequeno torrão, acudiam do fundo peixes em cardume, alguns doirados, outros de prata. Andavam á roda do pego uns homens graves, sem instrumentos de pesca, varando os peixes com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.
Bem se importavam os peixes que elles os olhassem assim, com uma insolencia quasi dolorosa, se lá da camada funda em que andavam apercebiam-se do minimo gesto que elles fizessem, estendendo a mão, e logo mergulhavam mais, pondo-se inteiramente a salvo.
Alli perto, debaixo d'uma arvore frondosa, andavam creanças a brincar.