Ao de Leve

Part 2

Chapter 23,818 wordsPublic domain

Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua cama como um _frou-frou_ de sedas, muito pallida, muito magra, quasi cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia d'um delirio:

--Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá o superfluo, sem dar a todos o que é preciso?

* * * * *

_S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no mais rigoroso incognito._

(Dos jornaes).

Que frio cortante, meu Deus!

O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas cinzas--uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os farrapos as carnes enregeladas.

Que frio cortante. Deus do céu!

A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.

Que frio cortante. Senhor!

E é então que a Opulencia desce ao antro onde agoniza o miseravel, pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.

Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar noção do que seja a equidade?

Que frio cortante, meu Deus!

Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os desgraçados.

Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo sincero e grande de fazer obra meritoria.

Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.

* * * * *

_SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio._

(Dos jornaes).

--Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...

--Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso pagar-lhe.

--É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...

--Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á gloria?

--Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu me não ver envergonhado com os meus credores.

--O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle serviço á larga, pelo menos com certa generosidade, como seria justo que se fizesse?...

--Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o companheiro:--_já cá cantam dois mil réis_. E toda a gente dizia por alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para dirigir aquella manobra.

--Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente. Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e fica mudo como um peixe.

--Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno agora, é porque me parece a occasião favoravel.

--Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes, porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!...

--De maneira que...

--De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da estação.

--Que pagará...

--Quando houver outra manifestação espontanea.

Resmungava o alfaiate, descendo a escada--Que grande pulha!

Dizia o vivographo, fechando a porta--Que grande idiota!

* * * * *

_Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados, por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito._

(Dos jornaes).

Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco. Não havia duvida possivel--estava alli um prodigioso talento, uma organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella austeridade de manequim, n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á multidão, e gritou-lhe nas bochechas--é fundamentalmente estupido!

Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem, deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas--_Parece-me que fiz asneira!_

E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande homem se mostrou intelligente.

* * * * *

_A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda possivel é a abdicação._

(Nas entrelinhas dos jornaes).

Era uma conspirata.

Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada, farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira, ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia.

Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada, correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro, homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda, e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer:

--Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro, costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas--creio que ha uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito.

* * * * *

_Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado._

(Dos jornaes).

Se tivesse echo!...

Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as noites, ao fechar da loja, consultava o livro de _razão_, e como visse que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera; encontrava-se de novo com os rapazes da sua geração, e abalavam todos de restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas. O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o echo--_quem está lá!_--e fechava os olhos, n'um esforço enorme de concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então, principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo acordado--_quem está lá!_--victima d'uma allucinação do ouvido. Por maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar uma quinta que tivesse _echo_, não se importando pagar o seu capricho a peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa curiosa:--quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus pulmões--Ó João!--o pobre diabo, escondido por detraz d'uma pedra, ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom humilde--_Meu senhor!_

Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de barytono:--_Que é lá isso ó seus gajos?_

Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?

* * * * *

_Vaidade das vaidades--tudo é vaidade!_

Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no espaço, sem ponto de apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea, olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como lhe perguntassem, _in articulo mortis_, se não receava pela salvação da sua alma, respondeu, tartamudeando muito--_Receio que me mettam no céo. Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos._

Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes dizeres biblicos:--_Vanitas vanitatum_, o que traduzido em portuguez quer simplesmente dizer:

--_Ora bolas para tanta embofia!..._

* * * * *

_Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das finanças a qualidade de portuguez._

(Dos jornaes)

--Contente que nem um rato, não é verdade?

--Não sei porquê...

--Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras, apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente?

--Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito proveito de todas, conforme as circumstancias.

--Mas os seus direitos...

--Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas, no meu entender, a faculdade de realizar um certo lucro, da mesma fórma que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida commercial faz-se com estes dois termos--ganhos e perdas.

--Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo ganhou.

--Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados vantajosos; mas...

--Mas...

--Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de nacionalidade mais uma vez.

* * * * *

_O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe sobejou da viagem._

(Dos jornaes).

Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, pregava-lhe duas bofetadas.

Era aquillo um proceder de principe?

Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que fosse, muito menos dinheiro.

Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.

De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.

Quem sabe?

Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta mentira os jornaes!... Ha gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade.

E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos, mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam que lhe fosse desagradavel.

--Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?

Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.

Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.

Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza, que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar.

Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é sempre de maior edade...

Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos saltos, como de costume, a estender-lhe os braços.

--Ias sair, avózinha?

--Ia procurar-te.

--Parece que não estás contente?

--E com razão.

Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:

--Isto é verdade?

O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.

--É então mentira?

--Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa, pelas quaes tenho um verdadeiro culto.

Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma lucta.

E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não ser ouvida:

--Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia. Revejo n'elle toda a nobreza da raça.

E adormeceu.

* * * * *

_Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado._

(«A Lucta»).

Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...

A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas, cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida aos céus por milhares de labios virginaes.

Morrer, dormir!...

Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos, reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.

Dormir, sonhar!...

A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica de uma regularidade geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se inflammar.

Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...

E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.

Quem sabe!

Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta pagina é hoje um canto do cemiterio!

* * * * *

_A morte perdendo a foice_ _Creu sua força desfeita._ _Disse-lhe um medico insigne:_ _Aqui tens esta receita._

Chamava-se Corvo, e era alfaiate.

Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava ao _sitio_, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de vir alli, apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras vezes matava quantos se _faziam_; mas sempre se divertia immenso, a puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca de _beijar_ a garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.

Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do alfaiate, que não tugiu nem mugiu.

Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.

O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão eximio caçador:

--Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um barbeiro, não vejo razão para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se fosse um pombo que se _fizesse_, e apanhasse a carga em cheio.

* * * * *

_O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa._

(Dos jornaes).

A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não _estava_ para ninguem, absolutamente ninguem.

Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.

Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse a materia por discutida, a um signal do _leader_. Mas trabalhava muito, estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade em que vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.

Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo cobro a muitos escandalos.

Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.

Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.

Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o _bonet_ na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.

--Que ha?

--Um senhor que deseja falar a v. ex.ª

--Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?

--É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v. ex.ª não o recebesse.

Mandou entrar immediatamente.

--É você?...

--Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?

--O quê?

--Talvez não dure 48 horas.

--Coitado! E a familia?...

--Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.

--Mas que posso eu fazer?

--Uma coisa muito simples--um adeantamento.

--Mas se elle está a morrer!...

--Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.

--E depois de morto?