Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 9
Pedi a quatro conhecidos que me arranjassem convite. Era impossivel. O visconde respondia que eu era um _bolas_, que descompozera no largo da Batalha uma menina, noiva de um seu amigo. Eis que encontro o João da Thereza da Cancella! Este João é meu caseiro ha cincoenta annos. Vê-me, corre a abraçar-me, e exclama: «Fidalgo, o meu Francisco chegou!»--«Quem é o teu Francisco, amigo João?»--«O meu Francisco--tornou elle--que estava no Maranhão! pois não sabe?»--«Não sabia... Vem rico?»--«Rico como um burro!»--«Está bom; estimo; é barão de...?»--«Não, senhor; barão ainda não é; mas está aquartelado em casa do snr. visconde dos Lagares.»--«Sim?!»--«É como digo, fidalgo, e, pelos modos casa-lhe com a filha; é arranjo tratado já lá do Brazil.»--«Fazes-me um favor, João?»--«É pedir por bocca.»--«Teu filho será capaz de me arranjar que eu seja convidado para um baile que vai dar o visconde amanhã?»--«Que remedio tem elle, senão arranjar?! Quem foi que lhe pagou a passagem para o Rio senão o paisinho do fidalgo?!»--«Vai depressa, e volta aqui com a resposta.»
Meia hora depois, voltou João da Thereza da Cancella, com a carta, e disse-me: «Olhe que o homem não queria dar o officio; foi preciso eu dizer que dava duas libras por elle, sendo preciso; o meu Francisco chamou-me bruto, e depois lá se mexeram como poderam, e aqui tem.»
Dei um abraço democrata no meu caseiro; procurei os meus quatro conhecidos, mostrei-lhes o cartão, e fiz o elogio do seu valimento d'elles.
Apenas entrei no baile, fui comprimentar a viscondessa, que fallava com Silvina. Esta, quando me viu, resfolegava como se eu fosse uma grande botija destapada de vinagre de sete ladrões. Retirei-me a rir, e, na reviravolta impetuosa, bati n'uma grande esponja: era José Francisco Andraens.--Perdão!--disse-lhe eu. José Francisco grunhiu, e enviezou-me um olhar sanhudo--Perdão!--tornei eu. O cerdo poz as mãos na linha hemispherica do seu globo, constituiu-se vaso etrusco, e regougou: «O senhor anda a embarrar pela gente?!»--Foi uma _embarração_ inopinada, snr. Andraens!--repliquei eu--Se lhe offendi os tecidos, desculpe-me.--«Estes meliantes...» disse o brazileiro, e foi-se embora.
Adiante encontrei os morgados de Santa Eufemia, e de Matto-grosso.
--Que ha de novo?--perguntei eu.
--O casamento de Silvina com o brasileiro está definitivamente tratado--disse-me Egas de Encerra-bodes.
--Com o brazileiro?
--Com o brazileiro. Veiu ahi o pai d'ella; expoz á filha as vantagens do casamento, e ella poz os olhos no céo, e disse:--cumpra-se a vontade do Senhor,... e a de meu pai!
--E cá o amigo Christováo Pacheco que diz a isso?--perguntei eu, voltando-me para o de Santa Eufemia, em quanto Egas ria estrondosamente.
--Eu digo--respondeu elle--que já cá botei as minhas contas, e que hei-de tourear o tal José Francisco!... Estou civilisado;--cá o primo tosqueou-me o pello.
--Vi-te n'aquelle momento, meu caro Jorge. Vi a tua candida alma, n'esse ermo, a penar, em quanto a vil, que te mentira o apunhalara, se andava alli glorificando de que a indigitassem como futura quinhoeira dos duzentos contos do negreiro. Fervia-me o sangue em borbotões de raiva. Jurei tirar alli uma vingança em teu nome, a vêr se me assim despenava da culpa de te apresentar, de te immolar aos rasos instinctos d'aquella mulher. Busquei ensejo de fallar-lhe; mas ella evadia-se, não largando nunca o braço de um ou outro homem. O millionario, filho do João da Thereza, levou-me á casa da ceia, e serviu-me tres copos de um vinho que tinha um nome barbaro. Abrazou-me as arterias; mas a minha raiva medrava nas chammas como a salamandra. Tornei ás salas, encontrei Francisca da Cunha pelo braço do linheiro das Hortas; parei diante d'elles, e disse, com a solemnidade do estilo:--Boccacio e Fiammentta! Bettina e Goethe! Fornarina e Rafael de Urbino!
O linheiro, voltou-se para Francisca e murmurou:--Não conheço este sujeito.
Eu continuei: Beatriz e Bernardim!
--O senhor está enganado comnosco--disse o linheiro na sua boa fé de linheiro. Francisca, tirou-lhe pelo braço com força, e afastaram-se. Não sei o que lhe ella segredou. O homem, pouco depois sahiu-me de cara, e disse-me:
--V. s.ª parece que, ha bocado, me quiz insultar.
--Eu não o quiz insultar ha bocado, senhor... como é a sua graça?
--Eu chamo-me Antonio José Guimarães.
--Pois senhor Antonio José Guimarães, como passou?
O linheiro açafroou-se, mediu-me tres vezes perpendicularmente, e disse:
--O senhor ha-de dar-me uma satisfação.
--N'esse caso, satisfaça-se, e, quando estiver satisfeito, avise-me, snr. Antonio.
--Na rua nos encontraremos.
--Pois sim, repliquei eu, na rua nos encontraremos. O snr. Antonio quer duello a todo o trance e sem misericordia? Eu não me bato com armas brancas nem pretas. O snr. Antonio, como tem a materia prima de casa, leve uma corda, que o hei-de enforcar.
O linheiro ficou chumbado ao tapete, e suava como uma abobora porqueira em manhã de orvalho.
Tocou á ceia. Entrei na sala. O champagne estalava. Os crystaes retiniam. Os talheres tilintavam. Eu tinha no craneo a musica das espheras. José Francisco Andraens ia atamancando um empadão de pombos, cujos arcabouços lhe pendiam das belfas em fragmentos. Silvina defrontava com elle, e comia a duodecima Sandwich. Estavam tres perús, ou seis, ou não sei quantos perús intactos na mesa. Fui collocar-me atraz de José Francisco Andraens, e chamei um servo agaloado de prata. O snr. commendador Andraens--disse-lhe eu a meia voz--quer que vossê leve um d'estes perús de mando d'elle áquella senhora que tem uma grinalda de flôres brancas. Disse e fui collocar-me a pouca distancia de Silvina.
Chegou o criado com a travessa, e disse:--Minha senhora, o snr. commendador Andraens manda isto a v. exc.ª
--Isto a mim!--tartamudeou ella entre admirada e vexada.
--Sim, minha senhora, a v. exc.ª--teimou o criado.
Silvina pregou os olhos abrasoados em José Francisco, que lhe abria um sorriso apaixonado por entre o costado d'um pombo. Ao sorriso respondeu ella com um tregeito de colera. Cheguei ao ouvido de Silvina, e segredei-lhe:
«Minha senhora, José Francisco envia-lhe um suspiro d'alma; e como a alma de José Francisco é uma ucharia, os suspiros de José Francisco são perús.»
Quando Silvina volvia os olhos fuzilantes, tinha eu desapparecido. Fui ao ouvido de José Francisco, e disse-lhe á puridade:
--A sua noiva está indignada de o vêr comer assim! Sacrifique a Cupido o oitavo pombo, amigo José.
O que decorreu depois d'isto, não sei dizer-te meu caro Jorge. A minha cabeça não podia já com encargo da chronica até final: sahi. O ar fresco da madrugada, que aspirei até ás cinco horas, restituiu-me á bestial vida commum. Não posso mais.
--Resta-me dizer-te que, se choraste uma lagrima por Silvina, envergonha-te de chorar segunda.
Adeus. Teu
L. PIRES.»
XVII.
Verificaram-se os presagios do padre João. Jorge, depois da ultima carta d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz reanimar-se, e já não pôde. Debil de compleição, quebrantado de insomnias, sorvido incessantemente na funesta scisma de que não havia ahi na terra voz humana que o chamasse ao amor da vida, nem no céo misericordia que o remisse da immerecida pena, Jorge, sem um queixume, sem uma lagrima, sem dar de si incentivo á piedade dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e ficou um dia no leito. A pobre mãi alvoroçou-se, e com ella toda a familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata magistralmente dos achaques do estomago, e d'outras visceras nobres, e declarou que a molestia do doente era cousa moral, paixão, hypocondria, ou romance. O facultativo capitulou assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e disse á viuva que não era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho, acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o pello do mesmo cão. Chiste de cirurgião de aldêa.
D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em maiores cuidados.--Para o Porto, e sem demora, o rapaz--disse o padre á cunhada.
--Mas o cirurgião não receia, nem Jorge se queixa...--acudiu D. Antonia, temerosa da separação.
--Deixe fallar o cirurgião, senhora. Seu filho morre sem se queixar.
--Não me diga isso!...--exclamou a mãi consternada.--Pois as suas palavras tão persuasivas, mano, e a religião não hão-de poder nada?
--A religião póde muito: se elle fizer uma confissão contricta, e morrer com sincera dôr dos seus peccados, a religião encaminha-o para Deus; mas o que nós queremos é que elle viva. Que me responde a isto, mana Antonia?
--Eu antes o queria com Deus, que perdido no mundo--disse ella suffocada pelos gemidos.
--Respondeu acertadamente; mas a supposição de que Jorge se perde no mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde elle se envergonhe de padecer, que eu lh'o dou por salvo. Torno a repetir-lhe, mana, que eu fui homem antes de ser frade, e a senhora foi sempre o que é--uma alma cheia de innocencia, de bondade, e de ignorancia.
--Pois bem, meu amigo, faça o que entender, mas salvem-me o meu filho.
--Aceito o encargo com uma condição: a mana não chora mais uma só lagrima na presença de seu filho; finge acreditar que elle precisa de banhos do mar; exige que vá já para o Porto, e de lá para Coimbra, se fôr vontade d'elle ir a Coimbra este anno. Conforma-se com isto?
--Com tudo que de mim quizerem--murmurou ella enxugando as lagrimas.
--Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou fallar-lhe.
Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a _Nova Heloisa_ de J. J. Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, tirou pausadamente os oculos d'um enorme estojo escarlate, montou-os na ponta do nariz, abriu e arredondou os beiços, pendido o queixo, e examinando o livro, disse:
--Era um grande homem esse Saint-Preux, ó Jorge!...
--Pois o tio conhece Saint-Preux?!
--Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa ha bons quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando praticavamos litteratura, por que sempre entendi que o ias encontrar a Coimbra, de parçaria com os muitos filhos que elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas, de que está inçado o mundo, graças ás novellas, e ao descredito a que baixou a roca e o fuso. Que carta lés?
O egresso levantou o nariz com os oculos á linha horisontal dos olhos, e leu algumas linhas da pagina.
--Ah!--continuou elle--trata do suicidio... Está mui atiladamente debatida a questão por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em paradoxos; e sabia bastante de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo á humanidade, e para elle guardava a vida com todas as suas paixões villãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e orgulho. Ensinava o mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle para a roda. Atassalhava a impudicicia do seu confrade Voltaire, e escrevia as suas _Confissões_, com esqualido recheio de desvergonhamentos, para prova de que até o impudor tem a sua soberba. E depois, meu sobrinho, o philosopho, a luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no coração da sociedade pelas más doutrinas, ia lavrando, defendeu de concerto com os seus tresvalios, uma these apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e já receio de ter dito de mais. Isto são reminiscencias das minhas leituras de ha quarenta annos. Quando orçares pelos sessenta, Jorge, has-de abrir a tua _Nova Heloisa_ n'essa pagina, e has-de rir da impressão, que te magoava, quando a lêste, aos vinte annos.
--Não me sinto magoado por impressão alguma, meu tio--disse Jorge, sorrindo, e depondo o livro.
--Não mintas, meu sobrinho--tornou o padre com branda severidade--Faz quanto em ti couber por salvar dos teus temporaes desfeitos do coração, o melhor thesouro d'elle, a _verdade_, filho. Sofres, e soffres muito, Jorge. Pensas em morrer, e dás de bom grado a tua vida a Deus, se é que a Divina Providencia transluz nas tuas imaginações negras. Não te culpo, rapaz de vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado que não soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer que uma tenra vergontea, dobrada pelas minhas mãos, se levante commigo, não hei-de molestar-me se me chamarem insensato. No mais verde dos annos, não responde o mancebo de suas fraquezas: a sociedade que responda por elle, e o temperamento tambem. Isto do _temperamento_, digo-to aqui muito á puridade, que nós cá, os theologos, não queremos ceder nada aos temperamentos. Ora vamos, Jorge, a pé d'essa cama!
--A pé!--disse Jorge--e poderei eu?!
--Pódes porque queres. Hoje e ámanhã de convalescença; depois de ámanhã para banhos do mar.
--De que me servem banhos de mar, meu tio?
--A resposta é do fôro da medicina. Vaes para o Porto. Hospedas-te em casa de D. Marianna Ferreira, a amiga da creação de tua mãi. Vaes do Porto á Foz tomar o teu banho. Se, no fim do mez, quizeres ir frequentar o primeiro anno juridico, vai; se não quizeres, fica o inverno no Porto, e vem para casa em Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos teus arvoredos.
--Peço licença--disse Jorge com amargura sincera--para contrariar a vontade de meu tio.
--Teu tio não concede a licença pedida.
O moço fitou os olhos nas mãos cruzadas sobre o seio, e não respondeu. O egresso lançou-lhe sobre o leito o fato, e sahiu, dizendo:
--Vou mandar pôr o teu talher na mesa.
Jorge disse entre si:--Morrer aqui ou lá... que importa?
Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu de um criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto da outra fez-lhe uma convulsão: era de Silvina. Abriu, e leu o seguinte:
«Não sei que mal fiz a v. exc.ª para merecer-lhe uma vingança tão baixa! Collocou ao meu lado um insultador petulante que me vexa em toda a parte. Que fiz eu ao snr. Jorge Coelho?
«Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu abandono com paciencia. Que queria que eu fizesse para não ser insultada pelo seu amigo? Diga-me se é necessario pedir-lhe perdão de ter sido abandonada. Não hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.ª me garanta a certeza de que não serei injuriada nas praças e nos bailes. De v. exc.ª--eu muito respeitadora, _Silvina de Mello_.»
Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras fez-se negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doença, em poucos minutos, progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e encontrou-o assim, com a carta na mão tremula.
--Que tens, meu filho?--clamou ella ajoelhando diante d'elle, e abraçando-o.
--Nada, minha mãi, é fraqueza... Não chore, por piedade, não chore, que eu estou bem.
E, erguendo-se com vacillante esforço, foi para a mesa. Forcejou por comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato, e a violencia não conseguia desentalar-lhe a garganta.
--Que é isto?--disse o egresso.
--Foi uma carta...--respondeu D. Antonia.
--Não é nada, meu tio. Recebi uma carta que me fez mal. A impressão gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou bom. Agora pedia licença para me erguer da mesa, e dar um passeio no jardim.
--Vai--disse o padre.
--Eu vou comtigo, meu filho--acudiu a mãi levantando-se.
--Não vai, mana; deixe-o ir sosinho.
Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. Jorge desceu ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de cortiça encostado a um maciço. Abriu a carta de Pires, que resava assim:
«A Providencia não é uma mentira. José Francisco Andraens apanhou uma indigestão de pombos, salame e salmão no baile do visconde, e está em risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vêr quantos Jonas sahem d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a noticia, jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o bruto. O qual bruto já se confessou, a vêr se a gente se persuade que existe uma alma n'aquellas cavernas de sebo!
Parte o correio.
Teu do intimo
_L. Pires._»
«_P. S._ O linheiro das Hortas ainda não appareceu com a corda.»
Se a carta de Silvina fosse uma dorida invocação ao amor de Jorge, simulando razões e desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante, que a despresara sem motivar o menospreso immerecido, é de presumir que o brioso moço nem respondesse á carta, nem se doesse dos hypocritas queixumes de uma caprichosa estouvada. Porém, o estilo, assim magoado como arrogante d'aquella carta, turvou de tal sorte a cabeça e o coração do academico, que já elle a si mesmo se accusava de indiscreto, de ingrato e de extremamente facil em acreditar o tio. E--o que é mais é--sentiu rancor áquelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas!
Quantas idéas lhe occorreram todas advogavam a innocencia de Silvina. Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora já a esperança de ir vêl-a ao Porto lhe era um desafogo, e não sei mesmo se contentamento. O pobre moço, como nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de inquieto regosijo quanto a resolução do tio lhe era grata. A mãi, compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os irmãos choravam ao pé d'elle, e elle fugia de todos para que o não vissem alegre.
XVIII.
O leitor é uma pessoa de juizo limado e occupações serias. Estou que não lê romances de ninguem, e muito menos os meus, que são escriptos em lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal, onde é sabido que não ha imaginação que invente a novella, nem modos de vida que saiam bem no romance. D'onde vem que o romance portuguez, se não é copia do estrangeiro, e aborrecida inverosemelhança, orça por cousa peor, que é a semsaboria.
Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que são vinte e tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no rio
_do negro esquecimento e eterno somno_
tres livros denominados: ONDE ESTÁ A FELICIDADE--UM HOMEM DE BRIOS--e a VINGANÇA.
N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz nome. Umas vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras litterato, e assim fui aguentando com embaraços da composição, mas venci a minha. Custava-me a falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si não era senão escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da criancice, e não acabo commigo dar um nome qualquer ao homem. Quer-me parecer que ha uns longes de poesia n'este segredo. Diga o leitor que é tolice, e saldemos assim as contas amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta revelação da minha crendice, e guardo as chimeras como o homem de boa fé guarda o tôco de cera benta para se alumiar á hora da morte.
Pois é verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do Amaral e de Augusta.
Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em infancia de illusões, passai um instante luminosos na escuridade d'esta recamara da sepultura, onde até a lampada da esperança se vai extinguindo na mão do anjo do conforto! Vinde a mim, corações amigos, cujas lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a intuscepção da alma, predestinada ao vosso fel, para lhes avaliar o travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida, o crêr nas promessas do coração, nos levantados desejos do espirito que não caiam á terra sem se infamarem; foi comvosco a fé na religião da poesia, que era a minha fé unica, porque não havia crêr nem sentir em mim em que não estivesse Deus, que eu convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das delicias que eram d'elle, creações suas, umas sujas, outras empestadas pelas mãos dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de oração, a minha ultima acção de graças, a palavra final da profissão de fé, que devia, a meu vêr, remontar-me ao céo, e que, ao revez das mais espirituaes theorias de Platão, de Socrates, de Jesus, e de todos os Messias da redempção das almas, deu commigo em baixo n'um golfão de lama, onde ha o ranger de dentes d'estas bestas feras, que até na lama sustentam o egoismo da sua propriedade!
Ó visões immorredouras, que me ensinastes o amor e o sentimento, e levastes comvosco o segredo de morrer antes do longo paroxismo do tedio da vida, vós bem vistes com que saudosa unção eu vos offertei dous livros e um ramo de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos que esta pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo á prosa d'estes annos, á mofa d'estes industriaes, que me estão perguntando se a apostrophe ha-de ser muito comprida, para tomarem fôlego, e accenderem o seu charuto.
Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e mais os romances, que não tem que vêr com elles o leitor, que tanto conheceu as almas, como se lhe dá dos romances.
Veiu isto a ponto de estar aqui já comnosco o amigo de Guilherme do Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as flôres do Candal, e as almas desamparadas d'aquelles que... Lá ia já sahindo outra tirada de sentimento. É enguiço, que me ha-de retirar a protecção de muita gente boa, que não precisa de lêr um folhetim para convencer-se do seu direito de espriguiçar-se, e voltar a gazeta de costas, e calcular perspicuamente as relações economicas que podem dar-se entre a alta do cravo dito girofe e a baixa do cacau.
Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de 1855.
D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro filhas, e dous meninos, e varias outras pessoas, estão sentadas em roda de uma grande mesa jogando o quino. O jornalista está sentado n'um sophá, conversando com o dono da casa, sobre cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha vindo depois de cinco annos de ausencia. A conversação foi interrompida pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mãi e irmãos receberam com muitas vozes de alegria, ás quaes ella respondeu dando um beijo na fronte da mãi, e outro nos labios das irmãs. Com a bem vinda entrou tambem o marido. O litterato, já de pé, deu dous passos, e disse á dama que entrára:
--Quero vêr se me conhece ainda, minha senhora.
--Se o conheço!--exclamou Rachel.--O mesmo que foi para o Brazil; o mesmo que era ha cinco annos... Não se admire da nenhuma surpreza com que lhe fallo porque eu já sabia que o vinha encontrar. A mãi, quando o senhor chegou, mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias suas. Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.
--Quando, ha cinco annos, me despedi de v. exc.ª--disse o poeta--se bem me recordo, tive a honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a viria encontrar cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava, minha senhora. Noto-lhe apenas uma differença sensivel.
--Qual?--perguntou D. Marianna com solicitude de mãi.
--Acho-a mais bella--respondeu o poeta.
Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito feliz como aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, marido de Rachel, dizendo:
--Então, vamos a isto?--E escolhia cartões do quino.
Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava já de comprimentos, em que a formosura de sua mulher era encarecida por um homem da antipathia d'elle.
As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela indicação do marido, ficou com as costas voltadas para o jornalista.
--Não vem jogar?--disse Rachel ao hospede.
--Vou, sim, minha senhora.
As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira estorcegou machinalmente um cartão entre os dedos convulsos, e fez-se escarlate, cravando os olhos no rosto descuidado de sua mulher.
O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.
Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns traços geraes d'esta familia, e fechará o capitulo.