Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento

Chapter 8

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Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem.

Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata, e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.

--Vá-se agora, embora, mulher--disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da solidão que tão suave lhe estava sendo.

--O senhor dá-me este dinheiro todo?!--disse a mulher, que os homens chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu Creador.

--Dou, sim.

--Bem haja, meu senhor!--tornou ella, com lagrimas na voz--já tenho com que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve, ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve licença para casar commigo; eu depois fui lançar-me aos pés da senhora do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes, mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos aos pés de minha mãi.

--Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha--disse Jorge com maviosa caridade.

--O senhor será um anjo do céo?--disse a feliz creatura lavada em lagrimas.

--Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus.

A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu, ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os anjos.

Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da caridade.

Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um beatifico ronco.

XIV.

As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da capella-mór, e chamou para junto de si o filho.

--Senta-te aqui, Jorge;--disse ella--quero fallar com o meu filho ao pé da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não?

Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou:

--Tenho fé em que o meu coração n'este lugar, onde ha cinco annos venho chorar todos os dias, te saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho. Se Deus me não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez annos, serão perdidas as minhas consolações, e tu as tomarás como conselhos importunos...

--Não, minha mãi...--atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo cinco annos antes--os seus conselhos...

--São conselhos de mulher, conselhos de mãi, que quer desterrar da tua alma lembranças d'outra mulher que me rouba o coração de meu filho. Deus levou-me teu pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mãos ao pé de mim n'este mesmo sitio? Não te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas, Jorge? Lembras-te?

--Lembro-me, minha mãi... E porque está chorando agora?--disse compadecido o moço.

--Parece-me que é saudade das dôres de então, filho... As de hoje são inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos verdadeiros ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da infancia. Isto é triste! A natureza poderá justificar este vulgar infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e não ha razão que convença uma mãi a conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus rogos durante tres mezes.

--Eu não desvaliei os seus mandados, minha mãi--disse Jorge em tom de carinhosa submissão--Havia uma corrente invencivel que me prendia á desgraça...

--E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que não... Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre, seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a não sacrificasses á nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa menina, que te enganou o coração, não tem virtudes que suppram a riqueza, nem a riqueza que possa compensar o coração estragado e sem escrupulos do homem, que não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses para nós, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe informações da tua vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas perdido na tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas lagrimas da pobre mãi que não póde contar com o amparo de tres meninas, nem ellas contam com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente boa a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para o atirar aos pés de uma mulher que d'aqui a um anno será na tua memoria apenas um remorso, senão fôr antes uma vergonha?

--Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que surprehendido da qualificação.

--Pois qual é o nome que dá o mundo ás paixões que humilham os que as soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas senão amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um esforço de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas orações. Em nome d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai, que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos; «não tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor»; é teu pai que te pede pela minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus amigos que te não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do estudo renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da caça; restaura a tua saude, que trazes tão quebrantada; eu pedirei aos amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres; satisfaz todos os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio d'essa mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me tens feito chorar...

--Basta, minha mãi--murmurou Jorge, levando aos labios a mão tremula da magoada senhora--Luctarei, e... morrerei, se não vencer.

--Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé e da sua razão.--Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.--E erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva--Graças, meu Redemptor!

Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia, andava discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai. Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso, debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario, cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.

Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos, e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»--Disse o padre. Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua mãi lhe deu a fronte.

Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está, Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiu uma secreta amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha? Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo, bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos, reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo sacrifica e cospe.

Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:

«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!»

Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai, esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!... _É intransitivo o calix!_

XV.

A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscipulo dizia que Silvina ia todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de anquinhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baêta azul que a rodeavam, e sahindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a. Dizia mais, que Francisca da Cunha, ao sahir do banho, era uma cousa desazada como perua que saltasse de um tanque a escorrer agua. Este era sempre o estilo do fidalgo da Maya. Rematava dizendo que o morgado de Santa Eufemia fazia todos os dias a Silvina o sacrificio de se lavar no oceano, dando grandes urros, e devorando bois assados no hotel da Boa-vista.

Jorge Coelho tragou este veneno, e odiou o amigo que sem piedade lh'o vasava no coração. O innocente esperava que Leonardo lhe enviasse, senão uma carta, ao menos palavras consolativas de Silvina, incentivos apaixonados á esperança, lagrimas de saudade e protestos de firmeza eterna.

Na segunda carta dizia Leonardo Pires que tendo elle azo de encontrar-se com Silvina na calçada dos Clerigos, na loja do snr. Antonio das Alminhas, lhe fallara de Jorge, contando-lhe o motivo da sua repentina partida para a provincia, com o que a boa da menina se rira grandemente, dizendo que seria muito de receiar que o tio padre trouxesse uma palmatoria debaixo da sotaina. A isto respondera Leonardo--e não duvidamos acredital-o--que Jorge devéras merecia meia duzia de palmatoadas, quando sahiu do baile da assemblea, apaixonado por um anjo que fizera presente das suas azas á gravata do morgado de Santa Eufemia. E como quer que Silvina redarguisse com voltar-lhe as costas, Leonardo fôra fallar a Francisca da Cunha que estava á porta do snr. Antonio das Alminhas, conversando amores com um linheiro das Hortas, o qual linheiro lhe estava dizendo que o dia estava muito bonito.

Jorge Coelho respondia a estas cartas sem fallar de Silvina, e dizendo pouco de si. Divagava por assumptos tristes, dissabores da vida que em seu começo tropeça na desgraça; rebates de saudade d'um tempo que mais não voltaria; os encantos perdidos do céo, das arvores e das montanhas que elle amara tanto; a magia do viver em familia despoetisada; o coração desaffeito das caricias maternaes e já insensivel ao sabor d'ellas; longos dias, sem um sorriso, encadeados a noites desveladas sobre livros em que elle, como Hamlet, não via senão _palavras_, _palavras_, _palavras_.

Na terceira carta dizia Jorge ao seu amigo que talvez não fosse a Coimbra, porque a saude lhe minguava com a vontade, e a perspectiva da morte era a visão mais risonha que o visitava ao cahir da folhagem dos seus bosques, onde elle passava os dias com um anjo de nove annos, a sua irmã Angela.

D. Antonia não entendia o filho. Via-o triste; mas triste o vira sempre desde criança. Espreitava-o de noite no seu quarto, e achava-o sempre com os cotovêlos na mesa de estudo, o rosto entre as mãos, e um livro aberto. Se o interrogava ácerca da sua saude, Jorge respondia sempre que não soffria senão o mal-estar da sua doentia imaginação. A mãi, fiada em suas orações, esperava o melhor, e agradecia já a Deus a cura completa de seu filho.

Padre João, porém, via mais de perto o fio ás cousas.

--O rapaz come muito pouco!...--dizia o sagacissimo egresso á cunhada--Não nos fiemos n'aquelle exterior pacifico, mana. Alli ha amargura secreta enfronhada n'uns ares de serenidade, que não é d'aquelles annos. Jorge está magro, macilento, e não dorme. Debaixo da janella d'elle encontro a miudo muito papel rasgado. Já pude concertar uns pedacinhos, e lá encontrei o nome da fada má, que nos ha-de perder Jorge.

--Perder!... não diga tal, mano João!--exclamou a viuva, estorcendo os dedos, e já com as lagrimas, a fio.

--Perder, sim!... Mana Antonia, eu já tive vinte annos, e entrei no mosteiro aos trinta e dous... Vou aconselhal-a. Quer resgatar o seu filho das ciladas da sereia?... Olhe que só Ulysses venceu uma vez sereias. Que me conste; desde Ulysses até nós, as vencedoras são ellas sempre, quando as victimas as não podem examinar de perto, e vêr que ellas escondem na agua a metade monstruosa do corpo. (A erudição mythologica do padre nem D. Antonia poupava!)

--Então que conselho me dá, mano?--atalhou a senhora.

--Quando Jorge der signaes de doença grave, quando uma ponta de febre lhe accender as faces, mande-o para o Porto.

--Para o Porto?! Que desproposito é esse!?

--Deixe-o ir examinar de perto o monstro. Deixe-o cahir na conta da sua indigna paixão. Deixe-o ir ouvir o descredito da tal mulher. Ha mulheres como a lança de Pélias: curam a ferida que fazem. Eu já me arrependi de obedecer aos rogos da mana. Jorge devia deixar o Porto espontaneamente. Logo que eu sube que mulher era a tal Silvina, devia abandonal-o a elle á miseria da sua illusão. A esta hora estava elle talvez desenganado. Sabe porque? Aqui tenho uma carta do negociante Ferreira, casado com a sua amiga do convento. Diz-me que Silvina arranjara a final um brazileiro millionario, tão monstruoso em corpo como ella é monstruosa na alma. Se Jorge estivesse a esta hora no Porto, cercado de homens que fazem zombaria das affeições serias e das ridiculas, curava-se. Aqui, se lhe eu annunciar as baixezas da Circea que o bestificou, não me acredita; e, se me acreditar, não temos balsamo que lhe feche a chaga; verá que elle a rasga mais com as suas proprias unhas, Mana Antonia, o meu parecer é este. Não me argumente, que não sabe, nem póde. Se a sua vontade fôr outra, lavo d'ahi as minhas mãos...

D. Antonia foi direita ao quarto do filho, e entrou de sobresalto. Surprehendeu-o a escrever. Jorge fez um gesto machinal para entremetter n'outros papeis a folha em que escrevia.

--Escondes de mim o que escreves, filho?--disse D. Antonia, com magoada brandura.

--Não, minha mãi, não escondo...

--Pois eu não vi?!--tornou ella, sorrindo tristemente.

--São cartas para os meus condiscipulos.

--Deixas vêr-m'as, Jorge? Que poderás tu dizer aos teus amigos, que não dissesses a tua mãi?! Fallas das tuas amarguras? Conta-m'as tambem a mim.

--Eu não fallo de amarguras, minha mãi--disse Jorge, erguendo-se, para afastar a mãi da banca.--Communico a um amigo os meus estudos, as minhas impressões de leitura, cousas que não podem recrear uma senhora...

--Assim será, Jorge... Tu nunca me mentiste, nem mentirás, pois não?

Jorge guardou escrupuloso silencio, respondendo com um tregeito, que valia tanto como a supplica de perdão.

N'este momento, apeava no pateo um cavalheiro da villa proxima, que vinha visitar o academico. Jorge foi logo á sala, a mãi acompanhou-o até fóra do quarto; e retrocedeu a examinar os papeis, logo que o viu entretido. Foi fácil estremal-o dos outros pela frescura da tinta. No alto da folha, leu estas palavras: «AO ANOITECER DA VIDA.» Depois seguia assim:

«Vou d'este mundo, quando custa morrer aos que se estorcem entre uma saudade e uma esperança. Saudade! de que hei-de eu tel-a?! E que posso esperar? Quem me dera já as trevas! Esta luz, que me alumia, é ainda a d'aquelle clarão infernal do baile. Queria fugir de mim proprio, como de um inimigo. Não me has-de tu matar, paixão! Morro porque não podia viver. Se não fosse aquella mulher, era outra. Eu vejo e palpo a morte ha muitos annos. A fugir da morte, refugiei-me no coração de Silvina. Porque me disse ella: «no mundo deve existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria com respeito e ternura de filha?» E como Deus pôde crear no coração humano para zombaria pensamentos assim! Á mulher infame devia morrer a memoria das palavras com que se exprime a virtude... Sinto-me tranquillo... A compensação dos affrontados é esta. No mal e no bem te reconheço, Providencia Divina!... Mas o mal para que é? Se é necessaria na ordem do mundo a ignominia, a crueza, a infamia, a desgraça, fôra digno da perfeição divina deixar ás almas inculpadas o galardão de não sentirem a absurda justiça do Creador.

«Que és tu, bem? que és tu, virtude?... que és tu...»

Aqui fôra interrompido Jorge pela subita entrada da mãi.

D. Antonia quasi não entendera o escripto; mas algumas palavras, as do titulo só, bastaram a compenetral-a de consternação e terror. Ouviu os passos de padre João, chamou-o anciada, e mostrou-lhe o papel. O egresso leu, e respondeu risonho:

--Não tem de que se lastimar por em quanto, minha irmã. Isto é um accesso de febre; mas não me assusta; o que eu receio é a outra que não interroga a Providencia, e obriga o enfermo a inclinar a face para o seio, e esperar resignadamente a morte. Vá á sala, que o hospede quer comprimental-a.

D. Antonia sahiu, e padre João escreveu o seguinte no papel que lêra:

«O pucaro pergunta ao obreiro porque o fez quebradiço. O oleiro responde: porque eras barro antes de seres pucaro.»

«Virtude é o diamante em que se pulverisam os raios da desgraça. Aquelle é virtuoso que olha em torno de si, e vê prostradas as calamidades.»

«O reino de Deus não está em palavras sonoras; mas em virtudes. (S. Paulo--aos impacientes de Corintho).»

«Coração apoucado, sossobra, se não podes com a tua miseria; mas não abandones a tua memoria a uma piedade vã, que é quasi uma zombaria.»

XVI.

Traslado fiel de uma carta de Leonardo Pires a Jorge Coelho:

«São 6 horas da manhã. Venho do baile do visconde dos Lagares. Tenho o coração a trasbordar de amargura! Deixal-o trasbordar, que é uma gotta de absintho n'um oceano de champagne. Um bago de uva matou Anacreonte. Eu sinto-me triplicar de existencia na uva. _Evohé!_ Como a vida é linda! que vergeis de flôres recendem á tona d'este lamaçal! Vem cá, Fortuna! Schakspeare chamou-te prostituta. Linda, vem cá, que eu bem te vi no baile, como o poeta inglez te via nos paços e nas tavernas! Senta-te aqui nos meus joelhos, impudica! Solta d'essa larynge recozida de alcool um dithyrambo! Ri-te commigo, e não me venhas dizer que és filha da Providencia, infame blasphema!...

Cançou-me o folego, Jorge! O meu vinho nunca foi para grandes apostrophes. O descriptivo é o meu forte.

Fui ao baile. Pude lograr a causa da moral publica. Deves presumir que estou desacreditado no Porto, e em vesperas de um duello. Sou o varão justo a braços com a adversidade: _vir fortis cum mala fortuna compositus_--a maravilha que punha Seneca em extasis! O champagne do visconde é litterario como as aguas da Aganippe. Que abundancia de pegasos eu vi beber na sala da ceia, e apparecerem Homeros na sala do baile!