Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 7
«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a fidelidade que descuramos na orthographia, cuja liberdade concedemos a José Francisco e pedimos alternativamente para nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta até ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as que vem no cabo da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu coração saudoso!! Se vosso pai não levar a bem o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer como não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá ás do cabo; estai descançada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa da Lixa arranjada (que andam lá os estucadores e os pintores) estamos casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.»
--Que tal?--murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico compositor de cartas incendiarias.
--Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr José?--disse o visconde com sincero espanto.
--Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir ao breviario, amigo visconde. Ponto é ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias.
José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas.
José Francisco tinha desafogado. O arroto já não vinha acompanhado do suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude phisiologica. O jubilo doudo da sua esperança sorria aos arreboes que cintavam o horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos d'alma d'aquelle amante feliz.
Ai! se elle a amava!
Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares.
Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão buscar-te!
XII.
Ai! como elle a amava!
Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá referve dentro.
Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçou as mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro horror.
--Que queres tu, moça?,--mugiu José Francisco.
--São as papas...--balbuciou a espavorida criada.
--Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já de marcha para ir com uma carta a Margaride.
O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:
_Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não se manga, e está arrumada a pendencia._
Ai! se elle a amava!
A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão, chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.
Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava o primo no hotel, curioso de saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:
«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou? _Mello!_ Quem lhe deu a ella _Mello_?! Seu visavô era Antonio Gonçalves; seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no vilipendioso affecto que prodigalisou á esposa promettida de José Francisco!»
Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos cerrados, e exclamou de golpe:
--Que a leve o diabo!
Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim:
--Reconheço o meu sangue!
Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provára ao de Matto-grosso a identidade da sua estirpe:
--Que a leve o diabo!
N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires.
--Lá vem aquelle!--exclamou Egas--Vou chamal-o para lhe dar a noticia que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque! _Psio_.
Pires fez uma continencia militar com o chicote.
--Suba cá--tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios--temos que contar-lhe.
--Viram aqui passar a Francisca da Cunha?--perguntou Pires.
--Não.
--Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem que seja gata, que a minha paixão me dá por lebre.
--É muito possivel...--redarguiu a rir o de Matto-grosso--Suba, e verá que não está longe da verdade.
O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas vezes, e subiu.
--Então que temos?! Dou-lhe parte que o meu amigo Jorge Coelho não tarda ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se.
--Quem falla aqui em duello?--acudiu Egas--Escreva ao seu amigo, e diga-lhe que se deixe estar com a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de braço dado com as fronhas carnosas de José Francisco Andraens...
--Quem é José Francisco Andraens?--interrompeu Leonardo.
Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, que, d'esta feita, não sahiu com intermittentes de lagrimas. Era de vêr com que graça soez o amante ultrajado ia já apimentando os sarcasmos detraidores de Silvina, e os projectos de cynica desforra que elle offerecia ao parecer dos seus amigos, projectos que, realisados, collocariam José Francisco n'uma situação tão irrisoria como bemquista do siso commum, o qual é uma cousa muito ao envez do que por ahi nos grandes alcouces da opinião publica se denomina senso-commum.
O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com razões pouco para se estamparem. Leonardo Pires disse que não avisava o seu amigo para não perder occasião de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como estivessem os tres á janella, viram assomar no topo da rua de Santo Antonio Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um criado de farda.
--Ellas ahi vem!--disse Pires, e sahiu a encontrar-se com ellas. O morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando as damas vinham com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e fechou-lhes a janella na cara. Silvina ria tanto como a prima, quando Pires, com o chicotinho em arco, e quasi aos pulinhos como funambulo que vai fazer a sorte, se lhe atravessou no caminho, dizendo:
--Criado de vv. exc.as
--O snr. Pires!--disse Francisca toda graça e affabilidade ironica--Faziamol-o no seu _chateau_... Que é feito de si?
--Agoniso, minha senhora, agoniso.
--Ai! que funebre vem!--disse Silvina--póde-se agonisar com esse rosto tão de vida, e rubicundo?
--Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo--replicou Pires--Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem. Darei a v. exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada José Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a testa) monstro cevado em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual monstro,--ninguem o ha-de crêr, minha senhora--neutralisa o combustivel da paixão com o refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v. exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.
--Vamos, prima, que são horas--disse Francisca da Cunha, condoida do enleio desacostumado de Silvina.
--Pois sim, vamos--disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixão em homem que não fosse Pires.
--Dão-me as suas ordens, minhas senhoras?--disse elle, ladeando--Ah!--continuou Pires de sobresalto--esquecia-me dizer á snr.ª D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi...
--Ah! vem?--disse machinalmente Silvina.
--Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheço grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe José Francisco Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de fallar a vv. exc.as, e que até ouso recommendar-lhes, para que vv. exc.as admirem não só o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaça.
O enleio de Silvina redundou em colera.
--O senhor, disse ella, está-me insultando por que eu e minha prima, confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um homem, cujo desforço nos desafronte com honra.
--Dizes bem, prima--acudiu Francisca, tambem colerica por contagio--Deixemos o villão.
Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento d'ellas, e tomou-lhes o passo.
--Continua a petulancia?--disse Silvina irada--olhe que eu trago um criado!
--Com libré emprestada, minhas senhoras?--disse o imprudente fidalgo da Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamações geanologicas d'Egas de Encerra-bodes.--Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz estragar. Empeçonhou-lh'a, mas não ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de Albuquerque. Saiba v. exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc.ª ha-de ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora nós, snr.ª D. Francisca da Cunha. V. exc.ª, que só sabe lêr as cartas do linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar ridicularisando _no boudoir_ das suas dignas amigas, ou se encastella com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo lê de pernas ao ar as suas epistolas. Sem mais.
Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados, que o espreitavam.
Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, soffreu um insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada tambem do mesmo insulto. As senhoras da casa á competencia desfaziam-se em desvelos; mas Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!»
Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da tontice.» Eu não me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porém, assim como os regedores das republicas nobilitam com mercês e titulos não só a estupidez--isso é o menos--mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto de louvor a alguns selvagens da civilisação, doudos providenciaes que atiram a vaza do insulto a caras já de si tão sujas, que não ha medo de enferretal-as?
Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos caução de suas prerogativas censorias, os histriões palacianos. Na correnteza d'esta geração por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do que ahi se chama «ridiculo» e do que mais é para chamar-se lastima, ha muito quem tire a campo de zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem se vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas não responde. A isto é o que ahi dizem «guardar as conveniencias»: á mesma cousa, chamavam d'antes «guardar as costas.»
Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de servir á geração que está nem á porvindoura.
Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. Eis ahi um doudo, que tolos e sisudos lançarão de suas casas com horror; e todavia qual de nós não sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e murros com a nossa soberba? Seis Leonardos activos no Porto purificavam o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16.º o verme roedor que desmedula os ossos através de vinte gerações que hão-de lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha.
D'um lado Leonardo Pires; de outro lado José Francisco Andraens, e o linheiro das Hortas. Quem levará a melhor? É tola a pergunta. Ha-de ser o linheiro das Hortas, e José Francisco.
XIII.
O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde Vallongo até Amarante, excedeu-se a si proprio prégando ao sobrinho o melhor e a maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e casuistas ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não replicava, por que o não escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profusão de tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca, Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a mulher são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre João não era erudito que sómente fizesse praça dos exemplos que authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosa memoria d'elle entrou nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea, da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeaço impudico e deslavado. Do Olympo desceu padre João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, Salomão, Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos não deram boa conta de si, ou as mulheres não deram boa conta d'elles.
O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre da paixão sem esperança, que as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho templo a fazer oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos onde viveram santos varões da sua creação, Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações das serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu costume, contra o governo que permittia á municipalidade amarantina que as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio e na claustra. É de crer que as mulheres recebessem com galhofa o egresso venerando, cujas botas de borla e chapéo tricorne deviam de parecer cousa de entrudo ás bacchantes que a onda da civilisação revessou no remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no porto suspirado da sepultura.
Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar os frades! D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de operario que trabalha á candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que nos cubiculos do mosteiro de S. Gonçalo se alojem as vivandeiras do destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas, repletas de vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes desacatos, hei grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da religião de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o mulherio da tropa. Se o padre João Coelho quizesse, esse é que podia responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante, sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da profanação do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra.
Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impressão amarga que recebera das revelações do tio, impressão immorredoura, dizia elle. Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia de matal-o. Ajuntava elle que já não amava Silvina; mas que não podia despresal-a; e que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se lhe enroscara no coração.
Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma alimaria a que os poetas de animo socegado chamam cupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor em estilo chão. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora. Não é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, n'uma carta arrufada, em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas ás outras com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha instillada e derramada na circulação sanguinea. Na correnteza do tempo, vem esta peçonha a consolidar-se no coração, e d'ahi procedem as postemas, que degeneram em aleijões, commummente denominados scepticismo, cynismo, devassidão, libertinagem, impudencia, e outras molestias pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o coração inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e glutão hajam sempre aves.
Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João trinchou na estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto, se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os soluços da afflicção, que o egresso, tão de boa fé como crente na efficacia da historia, julgára minorada com a quarta dissertação que fizera ácerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma na época dos Cezares.
Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these de padre João Coelho assentava n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não ama está na morte;» mas tão engenhosamente o erudito frade torceu o bico ao prego que as conclusões eram todas contra o baixo amor terreal, e pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria á risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em quanto o sobrinho abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de comer ás suas horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes não pesa na consciencia. Não ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi) que disse--que a religião christã, depois de nos felicitar n'este mundo, nos segurava a felicidade do outro.
Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge, apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)... Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que nós cá os assassinos e os salteadores denominamos as _authoridades_, que medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.
Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação de precipitar-se. Foi instantaneo o accesso de loucura. Jorge viu a imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse:
«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que ella, a santa, peça por mim!»