Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento

Chapter 6

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Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cincoenta a cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das quaes a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em fórma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida e retesada como os flancos d'um ôdre posto de través, e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda ella se libra em conjecturas. O author não assevera senão a existencia das barrigas.

Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes da realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e barrocaes dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos Gavarni. O marrão do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso da passarinhada.

No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesar d'outros animaes que lhe não disputam os fóros da humanidade, porque não teem um curso de historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciaes do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilações carnosas, sebaceas e luzidias. A menina do olho é rutilante e azougada, posto que as secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas.

O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afóra isto, o brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial do Porto, é orador vitalicio d'aquella assembléa, em que não são raros os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de Freixieiro.

José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos, segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo não apparecera para receber o dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza que elle tivesse feito na estalagem.

Foi o snr. Andraens á _Aguia d'Ouro_, e como não encontrasse Christovão, deixou dito ao criado do quarto quem era e a precisão que tinha de fallar com o morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a chamar o criado.

--Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito cá na casa?

--Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.

--Está bom, está bom, vossê não diga que eu perguntei isto, e pegue lá para matar o bicho ámanhã.--Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado com a mão direita fechada, para que a esquerda se não escandalisasse da prodigalidade.

Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque José Francisco estava ainda recolhido com a barriga n.º 2 envolta de papas de linhaça.

--Estou aqui emplasmado, senhor morgado--disse José Francisco, arqueando os braços por sobre a esphera abdominal.

--Então o snr. José que tem?

--Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores cá de dentro, que dão que fazer á botica; mas isto, se Deus quizer, não é nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir ter aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para casa, quanto antes, porque o velho, pelos modos, está lá arrenegado por si. Então, vai ou não vai?

--Por estes dias, irei; mas já já não se me arranja cá a minha vida, snr. José.

--Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem cá que fazer? Ahi, por mais que me digam, anda derriço... Eu hei-de saber o que é quando fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor morgado...

--Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello?

--Conheço-a como os meus dedos...--respondeu o snr. Andraens, com um sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.--É bem boa estampa, ó senhor morgado, não é? ora diga a verdade!

--É muito bonita, isso é.

--Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar, aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! Até em Sebastopool, senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é verdade... eu...

--E a fidalga--atalhou o morgado--nunca lhe fallou em mim, snr. José?

--Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella... é assim ou não é?

--Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a torno a ter pela mais pintada.

--Ah! que me diz?--acudiu o brazileiro com espanto--pois a cousa é isso? Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella?

--Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou. Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela, mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha.

--Conte-me isso, conte-me isso--exclamou José Francisco com vehemente interesse.

--É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.

--Com que então diz-me o senhor morgado--disse meditabundo e detidamente o brazileiro--que ella andava já com o miolo ás voltas por outro sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?

--Eu não digo nada; póde fallar snr. José.

--Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina, para elle mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está empenhada até aqui.--(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º 3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado, veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior! Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro... Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta d'ella...

--Uma carta d'ella!--interrompeu o morgado a fumegar.

--Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...

Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas com uma fita de nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e exclamou:--Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr, que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos.

O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á raiz dos cabellos, leu o seguinte:

«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»

--Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:

O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor que lhe transpiravam da testa:

«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos delicados que ella representa...»

--Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?--interrompeu o snr. José Francisco.--Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo... Ora ande lá... vá lendo:

«Nunca eu aceitaria--continuava a carta de Silvina--uma prenda de homem, que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»

José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou:

--É ahi, é ahi onde está a cousa!

Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os olhos:

«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga as cordas da alma...»

--Olhe lá--atalhou o brazileiro--isso que vem a dizer? esse bocado não o percebi bem... _A violencia da vibração fatiga as cordas_... que diabo!...

--Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a gente...

--Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no interior... Ora faz favor de vêr o resto.

O morgado leu:

«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas palavras da sua dedicada e constante amiga, _Silvina_.»

--Que me diz o senhor a isso?--interpellou José Francisco, dando uma palmada no hombro do entorpecido morgado.

--O que eu lhe digo, snr. José!...--tornou o morgado, atirando a carta para sobre o leito.--O que eu lhe digo é que esta mulher...

--É uma mulher de pouco mais ou menos--concluiu o brazileiro, atando as cartas com o nastro--Ora ahi tem... Agora, á vista d'isto, deixe-se andar por cá atraz d'ella...

--E o senhor continua o namoro?--perguntou o morgado com os olhos vidrados de lagrimas.

--Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga!

XI.

José Francisco Andraens, mentiste á tua consciencia! Supposto que as tuas barrigas te mereçam quantos desvelos cabem na alçada do oleo d'amendoa dôce e da linhaça, o coração em ti é um musculo cheio de bom e sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e reçuma á cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José Francisco, quando respondeste áquelle pobre morgado, que o que tu querias era melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de farinha de pau e araruta que emborcas todas as manhãs. Commendador da ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamado _acaso_, te houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferações contra a fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que fosse a tua lingua peçonhenta e a dos teus amigos famintos de detracção e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porém, José Francisco Andraens, que não sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam amantes abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e deixaste romper a torrente represada, com estas palavras: «Qual namoro, nem qual diabo! o que eu queria era melhorar da barriga!»

Ai! se elle a amava!

Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão no intimo, coração de homem. Aquella propria dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos está dizendo finezas do amor de José Francisco, procedida, como é, do uso do chá a que o forçavam successivas noites que passou em casa do tio de Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era extremamente do bom tom rejeitar o chá, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua casa, _para affazer a tripa_ como elle dizia, mandava cozinhar grandes chocolateiras de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e carregava de folha até sahir negro na fervura. José Francisco conhecia o veneno, punha a mão no buxo, e, se não dizia como o papa Ganganelli: «hei-de morrer d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, mitigava a inflammação, e de puro amor continuava a immolar o estomago, como fino amante que não tem mais que dar.

Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os seus divinos braços.

Ai! se elle a amava!

Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:

--Que tem vossê, sôr Andraens?!--perguntou o trinchante da casa real, afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão.

--Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias.

--Mas então vossê que medo tem?--tornou o visconde, variando a mimica com uma palmada na espadua boleada de José Francisco.

--Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração.

--Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar, deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação, e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella.

--Pois não pozeste!--acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de sacões, que valia bem um programma.--Vossê ainda está n'essa?

A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa. Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê algum _T_ na testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de viver.

A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde?

--Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a desatremar, adeus, minha vida!

--A desatremar!--clamou José Francisco com iracundia.--Então um homem não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher com quem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a ella a ganhar? do seu dinheiro?

--Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava melhor solteira.

--Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!--atalhou com ironia pungente José Francisco.--Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:--Quanto vale a tal madama?

--Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.

--Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo visconde?

--Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem contos... p'ra cima que não p'ra baixo.

--Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo! Responda a isto, amigo, se é capaz!

--Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modo de vida. Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão escolher.

--Cale-se lá, homem!--interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas--Eu gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou?

--Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.

--Isso então!--exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.--Bem feita até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande, chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hade saber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...

--Uma pauta, ha-de ser pauta...

--Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as letras todas... Já me lembra: um breviario.

--Ha-de ser isso, ha-de ser isso...--disse o visconde, que apreciou o ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras todas--mas, a fallar verdade--continuou ingenuamente o brazileiro--não me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça.

José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e leu correntemente o seguinte:

«Meu caro amigo.

«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos d'um delicioso futuro...»

Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso:

--Olhe isto, amigo visconde! _os sonhos d'um delicioso futuro_!... Pelos modos, quer dizer que o que ella quer é uma vida socegada para, em vez d'andar em visitas, dormir na sua cama á sua vontade. Não é isto?

--Pois elle que ha-de ser senão isso?--disse o visconde gostoso da modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a proposito, quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo:

«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? Não tem já do meu caracter um profundo conhecimento? Não se demore a confirmar o destino que minha alma anceia, porque desgraçadamente a minha vontade não é de todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da resolução de v. s.ª, tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do coração, _S._»

--Á troca d'estas linhas do fim--disse o brazileiro um pouco recolhido e melancolico--é que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de dentro. Ora escute lá a resposta: