Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 5
--Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha! Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina, os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia explicando a _enallage_ e o _hyperbaton_. Oh! o estilo é muito mais a mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentes de marfim e esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte. Estás sem vintém?
--Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...
--Já devoraste cinco volumes em _rost beef_, e luvas brancas e charutos, não é verdade?
--E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais, que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que me fez pena e saudade...
--Tem estilo?--interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.
--Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta carta o que me diz é copiado do seu livro de orações.
--Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua mãi?
--Deixo... Aqui a tens... eu leio.
Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:
«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge as leia:--A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto, contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço o que fazem todos.--Infeliz!--a mãi exclama--que te deitas a perder por isso que fazes o que todos fazem.--Ri o insensato dos temores maternos, e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias. Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos, com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu filho, rogai por elle!»--Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós: teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»
Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim, assomaram na porta.
--Temos duello--disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro circular da luneta e esguelhando a bocca.--Queiram entrar--proseguiu elle, adiantando-se para a porta--se é que entende com o meu amigo Jorge a honra da visita dos cavalheiros.
Egas de Encerra-bodes entrou e disse:
--Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra para justificar o meu nascimento.
--Ha-de perdoar-me--disse Pires,--não precisava v. exc.ª dizer tanto para justificar o seu nascimento...--E atalhou logo a ironia vendo que o vulto do morgado se anuviava de mau agouro:--o senhor morgado é tido e havido na conta de muito bom sangue da provincia...
--E do melhor de Portugal--cortou logo Egas--Vamos ao ponto da nossa missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.
Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires, sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:
--Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a mortalha da
«_..............misera e mesquinha_ _Que depois de ser morta foi rainha._»
Jorge por sua mãi, é Sepulveda, appellido que traz á memoria o caso miserando, aquelle naufragio de que por ventura das letras patrias nasceu um poema!...
--Deixemo-nos de lerias!--interrompeu Theotonio Tinoco.
--Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!--acudiu Pires--Então que quer o senhor?
--Queremos que esse amigo dê uma satisfação ao outro a quem elle chamou bebado hoje.
--Mas, primo Tinoco--disse o do Matto-grosso--bem sabes que o primo Christovão não propõe, nem aceitaria desafio, a quem não tiver nascimento.
--Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de familia de bom sangue...
--Eu não sei de que sangue é a minha familia--atalhou Jorge serenamente.--O meu amigo Pires não o sabe melhor que eu, e vv. exc.as hão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a côr do nosso sangue lá a veremos no campo, quando elle quizer.
--Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles--disse Egas.
--Um serei eu, se derem licença--disse a voz de um homem, que entrou de subito no quarto.
--Meu tio!--exclamou Jorge, beijando-lhe a mão.
Era, com effeito, o padre João Coelho.
Leonardo Pires e os outros olharam com veneração para a figura sublime do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mãos convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes, disse compassadamente:
--Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado pela perversidade!
E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre authoridade e sorriso ironico:
--Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas. Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.as das virtudes de seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que se atascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.as rogo eu mui humildemente que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro, que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores? Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.
Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre. Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez. Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.
O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se via, despediu-se com estas palavras:
--Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que o offensor não tem imputação, attendendo á sua criancice, e mais ainda ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é desmamada de fresco.
--Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e acommettidas do inimigo.
--Teu tio é grandemente lido nos classicos!--disse Pires, no quarto immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.
IX.
Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo, saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atirarás com o peito ás sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração, que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua guarda.
Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre. Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes de erguer o rosto disse:--Meu tio entende que me é honroso sahir do Porto sem responder ao desafio?...--Padre João, que abria o seu enorme lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém, urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole, dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse:
--Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue, justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o assassino era honrado?
O academico apenas respondeu:
--Meu tio, vamos; eu estou prompto.
Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava, e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.
Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do Norte para a praça.
Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor, Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de Francisca da Cunha disse a Jorge:
--Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa?
--Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de lagrimas--diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as entregares... Silencio, que ahi está meu tio.
--Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo cá para a frente.
--Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu lado.
--Mas leva uma grande alma, replicou Pires.
--O macho? perguntou o padre, sorrindo.
--Sim, senhor.
--Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico?
--Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com grande alma.
--Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua mãi e irmãos.
--É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe.
--É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando--tornou o padre, fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta correspondente.--A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida; e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto, andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou gata; o essencial é que apenas o triste passarinho apegou, o animal damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi, que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires, _ad usum delphini_, e seja delfim o nosso Jorge.
A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto desagradavel a Jorge. Era uma injuria á mulher querida, á sombra lagrimosa que o ia acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e exhortando a emancipar o coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as regalias que bastavam á criança, mas não ao homem.
Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, Jorge disse com vehemencia:
--Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem lhe pedir lições.
Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada tristeza:
--Não te envergonhes de pedir-me lições, filho, que as não pedes sómente a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa inutil á sociedade. Se me não quizeres as lições, de que sirvo eu, Jorge? Já agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me repulsem, como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mãi, «te premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das tentações todas as nações da biblia exterminadas por causa do peccado.» Sei de cór as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da ingratidão. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: não me sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de te apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios: como te não encontrei, fui colher mais informações; voltei á noite á hospedaria tres vezes, e ás duas horas não tinhas ainda recolhido. No dia seguinte, que foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da tua historia de tres semanas. Sei quem é a creatura que te ourou a cabeça. É uma feia alma n'um formoso estojo; é uma aventureira...
--Meu tio, isso é crueldade e calumnia--interrompeu Jorge allucinado.
--Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma aventureira de maridos, que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o consentimento do velho fidalgo para a realisação do casamento que a fazia rica. Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe não desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe entendeu os pespontes da eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse. Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento...
--Francisca da Cunha?--exclamou Pires, erguendo-se nos estribos.
--Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que...
--Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!--interrompeu solemnemente Leonardo.
--Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeira não andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras, recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições amoraveis de seu velho tio.
Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o dizer, exclamou:
--Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres!
--Boas!...--murmurou o padre, que não entendeu o sentido do adjectivo--boas... quer-me parecer que não são muito!
--Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes?
--Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi?
--E d'ahi! _Amor omnia vincit!_ o amor tudo vence.
--Agradeço a traducção--disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido «homem» antes de ser frade.--O snr. Leonardo Pires não tem mãi?--acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa seriedade.
--Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi--disse precipitadamente Leonardo.
O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe com bons modos:
--Praza a Deus que o coração esteja menos derrançado que a linguagem... snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas respeita-se um velho.
D'esta vez, o imperturbavel Pires não teve que responder.
Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu amigo, e disse-lhe suffocado:
--Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte no coração!
O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe:
--Deus o tenha de sua mão.
Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas, murmurou:
--Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi aquelle homem.
X.
Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:--_Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a jornada cinco pintos._
O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. José Francisco Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde viera tratar do baço, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do snr. José Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheiro de viagem para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma esmola de cincoenta mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr. José Francisco viu-se tão festejado, tão requestado, tão necessario ao Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos.