Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 4
A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam, constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro das transfigurações de golpe e abruptas.
Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou «fulaninha namora um janota louro.» Não se cuide, porém, que este epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador, e irmão da ordem terceira.
Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa ao hospital do Terço.
D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras: primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado, entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto é duvidosa.
D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla é muito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda assim, o casamento remata isto que se chama o _namoro_. E o mais é que ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade eu tive! muito me diverti!»
Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media, em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra «civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas; porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes deu.
Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar as virtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos equivoca que a de Colatino.
Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não produzisse um volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de nervo e polpa, com muito sal attico á mistura. O abundoso escriptor escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque já um dos sete sabios da Grécia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da mó d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, deixou Marciano um tractado muito de vêr-se. O talento é uma cousa temivel.
Ora não vão já d'aqui os malsins de intenções maliciarem essas inoffensivas palavras, que não desprimoram, nem arguem deshonra ao paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra a proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu municipio, se acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto é o paladium das liberdades patrias.
N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de Silvina, que, passados minutos de conversação, lhe disse:
--Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar espantadiço. Eu cuido que estamos dando grande escandalo.
Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que fremia de raiva resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca.
--Desfeita!--disse Jorge--pois uma senhora faz desfeitas!?...
--O requinte hediondo da insolencia!--vociferou o fidalgo da Maya tascando com phrenesi a ponta do charuto.
--Que te fez?
--Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma declaração, acolheu-a com doudo enthusiasmo, disse-me que eu era um homem tão admiravel como perigoso; tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me arrancaria as entranhas, se me ella não aceitasse a vida como complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma carta, com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella responde-me que não sabia lêr se não letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque sabe vingar-se. Vou ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de mim!
VII.
Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da «Aguia d'Ouro» depois d'aquelle desastre da «Assembléa.» Alguns hospedes repararam na reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso, solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem de grandes brios e musculos. Apenas informado, foi bater á porta de Christovão Pacheco, dizendo pela fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do parentesco foi de facil prova.
--O primo Pacheco não póde duvidar--disse o morgado de Matto-grosso--que um irmão de meu setimo avô, que havia nome Heitor Moniz de Valladares foi casar á casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo Pacheco, governador de Cochim...
--A fallar-lhe a verdade--disse o de Santa Eufemia--eu não sei nada de linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de Chacim.
--Cochim, primo Christovão, Cochim.
--Ou Cochim, ou lá o que é...
--E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, não saiba que a nossa linhagem está mui de perto aparentada com Porto-Carreiros!
--Não sabia, nem sei de que sirva isso.
--De que sirva isso!--acudiu Egas de Villas-boas Cão e Aboim Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. Não diga tal, primo Christovão Pacheco. Pois ignora que do solar dos Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos, sahiu ha cinco seculos um infanção, que casou em Castella, e foi tronco da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de França?[1]
--Não sabia, palavra de honra, e isso que faz?--tomou o de Freixieiro.
--Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o á bocca cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a nós fidalgos de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres barões da côrte de Affonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás conquistas do restante da Lusitania, e d'além-mar.
--A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me que trocava toda a minha fidalguia por algumas libras.
--Oh! que blasphemia!--Exclamou Egas n'um impeto de sincera indignação.--Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!?
--Não é trocar-me por libras;--acudiu desabridamente o de Santa Eufemia--é que eu estou de vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de casa senão duas vezes com esta; e não tenho remedio senão ir-me embora para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo póde lêr, e depois me dirá se me não era melhor ser antes um caseiro das minhas fazendas, que me não servem de nada, n'esta idade em que eu preciso de dinheiro.
--Vejamos isto--disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o seguinte:
«Meu estimado filho.
Já te disse que venhas para casa, que não ha dinheiro para andar em folganças. Os tempos estão muito bicudos, e o bicho já pegou nas videiras. Os bezerros do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são despezas. O abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pôr a porca no sino da igreja. O milho ainda não chegou á conta; os quatro carros que se venderam não chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são desgraças. Em quanto á roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste está muito boa, e o melhor é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta os alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha benção, e sou teu pai carinhoso,
«_Vasco._»
--Que me diz a isso?--exclamou Christovão.
--Eu sempre ouvi dizer--respondeu o primo Egas--que meu tio Vasco era um tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovão custa muito não brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; não obstante, seu pai está accumulando para o seu filho unico uma grande casa, e é preciso perdoar-lhe a intenção que é boa. Vamos ao mais importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus lacaios? tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto é que diga que trocava os seus brazões por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de fato? Chama-se já aqui o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em branco. Tenho cá dous cavallos, o _corisco_ e o _phaetonte_: o primo monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.
O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a historia do _seu amor de raiz_, como elle dizia. Mostrou as cartas de Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da mala. Passou á ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na «Assembléa» narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da mulher a quem elle quizera dar o seu nome.
Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na linhagem de Silvina havia um reles sargento-mór e um capitão de milicias, afóra duas bastardias e um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos, tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de Cochim.
--Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, eu, primo Christovão, na sua posição teria açoutado os perros que o escarneceram na «Assembléa.» Esses que riram de Christovão Pacheco é a villanagem, cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os insultadores da risada boçal, os miseraveis que através da casaca, da pelle da luva, e do verniz das botas, estão accusando o costado proprio do fardo, o pé que reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que elles denominam _parvalheiras_. Parvalheiras, a nós, primo, que temos em nossas casas a educação que elles tem entre as balanças, e timbramos em honrar os appellidos de nossos avós, descendo até elles para que elles não subam até nós. Se quer vêr quanto é villã a basofia d'estes tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau, tenha o primo a longanimidade de os admittir á sua convivencia, e verá como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial. Christovão Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso não é ultrajado impunemente.
Tem um rival, primo?
--É de crer que sim.
--Fidalgo?
--Isso não sei.
--Cumpre sabêl-o.
Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapéos da melhor fabrica. Vestiu-se Christovão Pacheco, e era de vêr em que gentil moço se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão que se sepultára no frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo coração do homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão mortificada que deixe de mostrar algum alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até os pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[2]
Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se. Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. Não se cançava de correr a mão pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho que o imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o que elle se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas costuras, com a pressão do dedo polegar que queria á força entrar com os outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do Porto inventor dos mysterios da dança. No Porto ha gente para inventar tudo quanto ha.
Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no domingo posterior áquelle em que Silvina fallára um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim foram tambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de elegantes, para quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente reparo.
O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse:
--Ora vamos: andem, ou desandem!
Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados da propria docilidade.
--Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados.
Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal assombrado:
--Que é lá isso?
--Disse _bravo_!--replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei immenso de vêr aquelles bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e comprehendi a razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro que eu vi, _mutatis mutandis_, no baile da Assembléa Portuense. Eu honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me não conhecerem digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques, e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não tenho que fazer, e não me conformo á vida de meus antepassados, que viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um coração nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de avós.
Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado de Matto-grosso, scismando com o que seria no _livro dos costados_ a familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado palavrorio do mettidiço. Christovão ia um pouco desconfiado da bacharelice de Pires, que já o tratava por «vossê» quando entrou no jardim.
Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho, censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima, fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a não louvava. Era, pois, certo que o coração d'esta menina, degenerado acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade, se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem, cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor e esperança de ser d'elle.
Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta, porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.
A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes, Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia, voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra aquelle que abrira na testa de Pires um vinco dos que promettem cataclismos.
--Dá-me novas de Jorge?--disse Pires a D. Silvina.--Eu cheguei hontem da Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a Sylpho, minha senhora?--proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura.
--O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da grosseira postura do morgado--está defronte de mim.
Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o rosto risonho para a dama, e disse:
_Sobre a pyra fumegante,_ _Ardem ternos corações._
D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu prasenteiramente á tolice. Alguns morgados receberam o dito como cousa de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia retirar-se quando o morgado de Santa Eufemia, voltando a cara jubilosamente soez para o grupo, soltou uma cascalhada secca e desafinada que assanhou cruelmente os nervos de Silvina.
Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a meia voz:
--É aquelle?!
--Pelos modos!--respondeu o primo.
--Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar.
VIII.
Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos de brios capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia que os morgados rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse, estendendo o braço em attitude esculptural para o lado onde Jorge estava:
--Aquella criança, que alli está, tem um dedo de homem, que faz recuar perfeitamente o gatilho de uma pistola.
Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não fosse o melodramatico da postura, a cousa não era para rir; mas a lentidão, com que Pires desceu o braço, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que arquejava em ancias de raiva.
Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo, accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente um _obrigadissimo_, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira.
Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco. Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos olhares coriscantes de Christovão Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo as pantalonas que tinham marinhado até meia-canella, e disse:
--Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos ás sopas.
Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a mão, de sorte lh'a apertára e sacudira, que fez evidente a intenção de tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e educação aldeã.
Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente a Jorge Coelho, e disse-lhe:
--O senhor é um petisco! Não se me ande a fazer fino, quando não...
Jorge respondeu assim á brutal arremettida:
--A phrase é de carreiro; e, se não é carreiro quem me insulta, deve de ser um embriagado.
Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, põe a mão no peito, e exclama nem facundo nem irado:
--Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfação.
O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á filha e sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braços, e tirou do peito estas memoraveis palavras:
--Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que lá no matto são os homens de figados, peguem em dous carvalhos cerquinhos, e deem até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem ás gazetas ámanhã. A minha opinião é esta. O menino vá para um lado--disse a Jorge, empurrando-o com brandura--e o senhor morgado para outro. Em quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a porei em casa do pai.
Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e pôde ainda vêr nos olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle.
Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava assim: «_É bello ser amada por um homem de coração e esforço. É bello poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste não poder, na presença de Deus e dos homens, dizer-lhe:_--TUA POR TODA A VIDA!»
O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com quanta vehemencia lhe permittiu a posição horisontal n'um canapé, e as pernas sobre as costas d'uma cadeira: