Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento

Chapter 3

Chapter 33,906 wordsPublic domain

--Não, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira quadrilha, apresento-me, e depois tenho a honra de ser o teu apresentante. O estilo, cá na boa roda, é este.

--Mas a quem me has-de tu apresentar? é necessario, a meu vêr, que ella te diga quem é.

--Pois não lh'o pergunto eu?! Essa reflexão é piegas. Se queres ouvir o que eu digo, colloca-te ao pé de nós, e escuta-me nos intervallos das marcas.

O snr. Pires não reconsiderava uma tolice, nem tolerava replicas.

D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o curiosamente, para, se acaso visse pessoa de suas relações com elle, podesse, de conhecido em conhecido, chegar a colher alguma informação do seu mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe foi ao encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade. Pires, com elegante desembaraço, solicitou de Silvina uma contradança: esta, com adoravel aprazimento, aceitou logo o braço do cavalheiro porque se estavam alinhando os pares.

Aqui, porém, falhou uma vez a felicidade a um tolo. Esquecera-se Pires de procurar _vis-á-vis_, e era já fóra de tempo o procural-o. A dama deu primeiro pela falta, e o academico fez-se da côr do rabano. Silvina relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e esta, chamando o primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o braço, e entrou no lugar fronteiro á prima.

--Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva até a rasgar, deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v. exc.ª esta contradança.

--Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer _distracção_, respondeu Silvina ao adiantar-se para executar a primeira figura.

Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se perto de Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia do moço, que envidava os recursos todos da delicadesa e do encontrão para romper a barra compacta dos olheiros de espadoas nuas, chegou a dizer-lhe, franzindo a testa:«O senhor não cabe? se quer passar espere que acabe a _polka_!» O bom do burguez não sabia ao certo se era contradança ou polka o que se estava dançando.

No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que Jorge alli não estivesse, para maravilhar-se dos recursos da eloquencia afeita ás difficuldades do salão, conversava assim com a senhora attenciosa:

--Quando tive a honra de impetrar de v. exc.ª a graça d'uma contradança... (Silvina poz o leque diante dos labios) acabava eu de dizer a um amigo meu que o olhar contemplativo, _la réverie_, com que elle fitava v. exc.ª, era merecida, justificada, e...

--Muito agradecida;--atalhou Silvina, tregeitando com o leque e a cabeça uma evolução de movimentos indescriptiveis--mas eu não reparei bem no amigo de v. s.ª, que me distinguia de modo tão lisongeiro.

--Se v. exc.ª tem a bondade de olhar em frente, ha-de encontral-o extasiado...

--Extasiado?! Ora isto parece-me que vai passando da lisonja á galhofa!

--Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu Pires com o mais comico azedume.

Silvina relanceára a vista como quem não via, e voltando-se para o cavalheiro, disse:

--É do Porto aquelle senhor?

--É da provincia, minha senhora, estudante de Coimbra, meu condiscipulo, chama-se Jorge Coelho, pertence a nobilissima familia, e assevero a v. exc.ª que é um coração virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje pela primeira vez os impetos juvenis do amor.

--Não admiro, porque é muito novo.

--Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella idade! Aqui estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero já _desillusioné_, decrepito.

--Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade--disse Silvina, com muita graça de fina ironia, sustentada com imperturbavel seriedade.--Queira dizer-me em que romance poderei encontrar o seu caracter, já que não devo esperar uma revelação das tempestades que o fizeram tão cedo naufragar!

--O meu caracter ainda não está escripto!--respondeu Pires, avincando a testa, e fitando-a de esguelha.

N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a phrase ficou engasgada até ao proximo intervallo. Enganou-se, porém, o sceptico. Silvina, como esquecida da suspensão da lugubre narrativa, perguntou ao cavalheiro:

--O seu amigo demora-se no Porto?

--Não são essas as intenções d'elle, minha senhora; mas é de presumir que um aceno de v. exc.ª o faça esquecer a familia carinhosa que o está esperando.

--V. s.ª depois que envelheceu--replicou Silvina cortando as palavras com frouxos de estudado riso--julgou salutar cousa o distrahir-se da sua gotta moral zombando das pessoas que ainda crêem e esperam alguma cousa d'esta vida?!

Acudiu Pires:

--Eu que digo isto é porque sei o que v. exc.ª é para Jorge. Respondo gravemente ás suas facecias adoraveis. Sei que as virtudes de v. exc.ª...

--V. s.ª conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e formalisada.

--Não tenho essa honra, minha senhora.

--Quem lhe disse que ha em mim virtudes?

--Rosto angelico e véo translucido: homem experimentado adivinha o coração do anjo.

Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou a contradança. Conduziu a dama á sua cadeira, e disse-lhe:

--Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc.ª o meu amigo Jorge Coelho; porém, rogo-lhe me diga se devo procurar alguem que me apresente a v. exc.ª

--Não tenha esse incommodo. Fico sabendo que v. s.ª é um cavalheiro da boa sociedade, e tanto basta. Sei tambem que é academico, e sympathiso com essa qualidade porque tenho em Coimbra dous irmãos no seminario, e não sei que analogias me fazem presar os estudantes.

--Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os dedos para ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a puxões de gentil effeito--direi mais a v. exc.ª que me chamo Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque, a minha casa é na Maya, e costumo passar as ferias no Porto, porque sou avesso á vida pastoril, e não tenho senão mediocres tendencias para admirar a natureza bruta...

--Não é poeta?--interrompeu Silvina, ageitando o lindo rosto a um ar de zombeteira admiração.

V.

--Se sou poeta!...--disse Pires, enviezando para o estuque do firmamento olhos de lastima.--A poesia é flôr muito delicada, que o primeiro vendaval do coração desfolha. Desfolhada a primeira flôr, o vaso que fica não tem seiva para outra: é como a terra ferida de maldição.

--Isso é triste--acudiu Silvina, tregeitando com a cabeça e olhos umas gaifonas piedosas.

--Tristissimo, minha senhora!

Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama já pedia a Deus que não viesse para junto d'ella a prima, com medo de espirrar uma d'aquellas casquinadas de riso, que a mais sisuda prudencia não refreia.

Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o que o impacientava, não podia tolerar a detença do amigo. «Se eu soubesse dançar--dizia de si para si o academico--teria feito o que fez Pires... Será de mim que elles estão fallando? É natural, porque a vejo fitar-me com attenção... Se me eu avisinhasse, daria melhor occasião a Pires de me apresentar...»

E, obedecendo á hypothese, deu alguns passos; mas tão a medo o fazia, que antes parecia querer que o não vissem. N'isto, já o amigo o andava procurando, e Silvina, vendo a direcção errada de Pires, acenou-lhe de longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.

O pobre moço tremia quando viu que era procurado. A sua primeira idéa foi fugir da sala, e não duvidamos crêr que fugiria, se Pires lhe não trava do braço, dizendo:

--Olha lá como lhe fallas: a mulher tem espirito, e é um genio.

Isto foi peior.

--O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de apresentar á exc.ma snr.ª Dona...

Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os olhos.

--Não sabe o meu nome? isso não importa disse a dama.--Eu me apresento. O meu nome é Silvina. Tenho a gloria de ser tambem aldeã. Nenhum dos tres póde rir dos outros. Então o snr. Jorge não dança?

--Não, minha senhora, eu não sei dançar--disse Jorge com infantil ingenuidade.

--Não sabe, porque não ama a dança, não é assim?

--Em minha casa ninguem aprendeu a dançar. Minha mãi foi educada n'um convento, e de lá sahiu para ser esposa, e governar sua casa n'uma terra onde nunca se deram bailes. Eu sahi da minha aldéa ha menos d'um anno, e tenho consumido todo o meu tempo no estudo...

Estava Silvina gosando sem motejal-a a simplicidade de Jorge, ao passo que Pires lamentava as pueris historias do seu acanhado amigo. Como quizesse salval-o, o imaginoso academico interrompeu-o com não sabemos que espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo:

--Deixe fallar o seu amigo que me está encantando com a singelesa do que diz...

--Eu retiro-me, minha senhora--disse Pires, arqueando-se--porque estou compromettido para a seguinte polka.

--Tambem eu...--disse Silvina, já quando o par se avisinhava, ao qual pediu desculpa, de não dançar, por causa de uma forte dôr de cabeça. E voltando-se para Jorge, que não soubera avaliar a fineza do fingido incommodo:

--Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua familia, porque talvez precise desafogar saudades d'ella em coração que o comprehenda.

Jorge cobrára alento com este ar de familiaridade. Fez-se para elle profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.

Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe não chamava irmão ou filho; e, todavia, tanta ingenuidade fraterna respirava o rosto de Silvina, que, por encanto, o timido moço, sem forcejar contra o enleio da alma, tirou de lá expressões de sorte affectuosas que nem os mais destros comicos de sala as diriam assim.

--Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?--disse Silvina com brando mimo.--Está ancioso por chegar aos braços de sua mãi?

--Quizera que v. exc.ª a conhecesse--disse Jorge maviosamente.--Havia de amal-a... que minha mãi está tão longe d'este mundo brilhante, vive d'um modo tão differente do das pessoas educadas como ella foi, que me faz dó o que era e tem sido ha vinte annos, contando hoje apenas trinta e seis, n'uma aldêa, sem outra convivencia senão a de seus filhos, e sempre magoada das saudades de meu pai... Ha duas horas que penso em v. exc.ª e n'ella...

--Em mim?--atalhou Silvina, com sorriso de bondade--lisongeia-me infinitamente a companhia que me deu no seu pensamento; mas poderá dizer-me que analogia de imagens achou entre mim e sua mãi?

--Immensa, e não sei dizel-a. Se eu podesse bem interpretar este sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que hoje, pela primeira vez, se espelharam em minha alma duas imagens de mulher. Até ha pouco, havia lá a de minha mãi sómente, e os traços informes, a sombra, o indefinido do ser que vaga entre o céo e a imaginação do poeta. Agora...

--Essa segunda--interrompeu Silvina com uma gravidade impropria de sua idade e modos usuaes--não poderá jámais deslumbrar a de sua mãi, porque os entes de imaginação, visualidades passageiras, nunca usurpam a posse aos entes que a natureza nos está dando todos os dias em realidade de amor e carinhos. E depois, snr. Jorge, verá que é inutil esperar aquelle puro original da cópia que a sua phantasia vai debuxando, em quanto o coração novo e enganado lhe empresta as côres do céo. Affirmo-lhe, senão authorisada pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confissões sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de poeta nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem do céo a procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa avareza a imagem de sua mãi, e não consinta que outra lhe dispute o exclusivo amor que lhe dá.

Disse.

O academico ouvia, pela primeira vez, a expressão floreada, a linguagem musical, o periodo arredondado, como de folhetim ambicioso, na bocca de mulher. Achava elle certa incongruencia entre as feições menineiras da provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe subito na memoria o meu nome, segundo me elle contou depois. Lembrou-se d'aquelle meu estirado discurso, na sua aldêa, dezoito mezes antes. Tropeçou na hypothese de que o singelo exterior da palavrosa menina mascarava um coração desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a corações noviços. Alguem diria que o silencio de Jorge, seguido á ultima expressão de Silvina, era acanhamento. Já não: era a duvida.

--Ficou tão pensativo, snr. Jorge--tornou Silvina.--Está pesando no seu juizo a verdade das minhas palavras? Impressionaram-no tanto!...

--É verdade, minha senhora; estava pesando as palavras de v. exc.ª com outras que me disse um homem de trinta annos.

--Contrarias ás minhas?

--Semelhantes na intenção; mas muito mais desconsoladoras na fórma. Disse-me elle que ha muitas mulheres que matam, e uma só que salva.

--Mas affirmou-lhe haver uma que salva?

--Sim, minha senhora.

--E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de sua devoção e generosidade a mulher que sente em si o coração salvador?... Creio que me não fiz comprehender...

--Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc.ª se a mulher capaz de erguer a alma despenhada de sua grandesa, não se despenhará ella mesma n'essa generosa tentativa;

--Entendeu.

--Não sei responder, snr.ª D. Silvina. Eu não sei nada do mundo. Ignoro os precipicios em que póde cahir o homem, e não sei tambem a que alturas póde levantal-o o amor. Já imaginei o mundo mais agradavel: começo a dar cem illusões por cada realidade. Não cuide v. exc.ª que eu fiz pé atraz á vista da verdade despoetisada, e feia como dizem os pessimistas que ella é, vista á luz da razão pura; vejo, porém, que se vão fenecendo as flôres da minha imaginação á maneira que escuto e pondero, com religiosa crença, as palavras que v. exc.ª me diz, e as que me disse o bom ou funesto despertador da minha razão, que dormia acalentada nos braços da poesia. De que serve o desengano antes que a fatal experiencia no'l-o dê?! Para que me diria v. exc.ª, com ar de tanta verdade e segurança, que eu nunca encontrarei o puro original da cópia que a minha phantasia entrevê?!

--Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou adoravelmente dramatica--diz bem! Arrependo-me da injustiça que fiz ás mulheres, e mesmo da crueldade com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da sociedade, snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as palavras geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu coração. Não se desalente ao entrar na vida, e nunca de mim se lembre como de fada má, que lhe fadou a desventura. Espere, creia, e obedeça aos impulsos do coração, em quanto a peçonha da mentira o não contaminar. No mundo deve existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de filha. Quando estiver nos braços d'ella, diga-lhe que encontrou no Porto, e n'um baile--onde raro sentimento grave entretem por momentos o espirito--diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda n'esta rosa um beijo de sympathia e veneração.

E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa, chegou-a aos labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a recebeu com mão tremente.

--Cumpre o meu pedido? tornou ella.

--Pergunta-me se cumpro? É este um encargo doce que v. exc.ª faz ao meu coração. Farei que minha mãi receba nos labios o beijo que vai n'esta flôr. Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha, enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um anjo... Se ha no coração poesia mais sublime que a da saudade...

--Ha, sim... a da esperança...

--A da esperança!... balbuciou Jorge, levando machinalmente a rosa aos labios, e córando da irreflectida acção que se lhe afigurou menos respeitosa.

(Oh santa innocencia! não sei se és mais tola que santa!)

Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e harmonioso da fórma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com insulsas facecias a candura, o rubor, a timidez encantadora dos vinte annos de Jorge. Invejo-lhe o que já não posso haver nem sequer com grande esforço d'arte; mas rio-me d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do que fui, ha hoje quinze annos, sahem d'entre as flôres mirradas da minha primavera, e vem cá a este glacial dezembro da vida fazer-me assuada e zombaria, para que eu me dôa e corra das criancices de então. Pois rio-me com effeito, que é para isso a cousa, e riam-se, á vontade, os que de mim souberem que muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e rosa, quando o olhar logrativo da mulher me alvoroçava o pudor a ponto de afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava agora dos bicos da penna uma necedade das que se não desculpam á propria santa innocencia que, repito, não sei se é mais santa que tola.

Vamos á historia com ajuda da providencia dos romancistas, a qual providencia, muitas vezes, abre mão d'elles, e deixa-os para ahi parvoejar que é mesmo cousa de peccado.

Silvina deu fé do rubor de Jorge, e...--querem saber a verdade inteira?--não gostou. É um segredo da essencia mulheril o dissabor que a molesta, a seu pesar... (vá, diga-se a _seu pesar_) quando o homem se amulherenga ao pé d'ella, e lhe não deixa o exclusivo de mulher. Receios de desmerecer em graças quando lhe é força ser mulheril? Consciencia ingrata d'uma superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de captivar pelo mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do pudor, toques do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora lhe cerram os labios? Não sei se é tudo, ou alguma cousa, ou nada d'isso. A verdade é que a mulher não gosta de homens que coram, de homens que choram, de homens que... não são homens, está dito tudo, e n'isso ficaremos, se acham que está discutida a materia. _Materia_... que aleivosia! Isto é espirito o mais espiritual que póde ser. Espirito transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de muito casquilho, paralta, janota, ou como é que se chama a tal alimaria, que se desentranha em lufadas de cynismo nos botequins, e vai ao pé das costureiras tartamudear jaculatorias de ternura.

Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar, por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam imprimido o beijo de encommenda para a provincia.

--Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume ao dos labios da amiga.

--Creio que sim--disse Jorge corando outra vez--creio que sim...

--Porque?!--atalhou Silvina com despeito mal comprimido.

--Porque sinto no coração o perfume do seu beijo.

Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que costumam ir de casa gizadas; mas creio no improviso. E assim, explicado o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:

--Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo.

--Amor!--interrompeu Jorge com exaltado impeto de criança--Olhe que essa palavra póde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que eu a guarde...

--No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com tão pouco conhecimento de quem a dou, e tão pouca esperança de a vêr florir em venturas.

Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando Francisquinha da Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:

--Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é tão cedo... que raiva! estava agora ouvindo uma enfiada de tolices tão peregrinas...

--De quem?

--Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor conhece... Não lh'o diga, não? Eu fui indiscreta...

--Não diz nada--acudiu Silvina--pois não, snr. Jorge?

--Eu, minha senhora!...

--Asseverou-me--continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com cabeça e braços--que se eu o não amasse, havia de espirrar á minha fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem, que homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu não posso perder aquillo!... Pires é meu...

Ai! o pai... Vamos, Silvina.

Silvina estendeu a mão a Jorge, e disse a meia voz:

--Vá vêr-me ámanhã ao jardim de S. Lazaro.

Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do coração. N'este momento, um receio doloroso o affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?»

VI.

As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, não merecem chronica. O que póde, porém, succeder a um moço, que passeia o coração amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a moral de ouvil-o.

Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniencia, e póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente commum, e salva assim a honra das familias: é amoutar-se como fauno por entre as murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha.

No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas municipalidades não tem querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se avantajam ás do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as trombetas bastardas estão executando... _executando_, sim, é a palavra.

Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. Cuida enxergar o myope em cada renque de cadeiras uma fileira de _madonas de la sedia_; mas a illusão d'um myope não vale os desconsolos de tanta gente que tem a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter um _quantum satis_ de espiritualidade.

Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. Não sei se a bemaventurança é accessivel por igual de todas as terras; mas, convencido da rectidão que assiste aos negocios dos outros mundos, quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto, devem de ter differente recebimento e quartel nas regiões da gloria, onde ha premios para a virtude.

Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam: quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade apostolica. Não ha no romance outro merito que o inculque, nem perspectiva melhor agourada para o editor.

As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes, incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas, e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda, que irá comsigo a stoda a parte.

Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem. Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo do selvagem.