Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento

Chapter 2

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O anjo da poesia dos dezenove annos povoava-lhe então a phantasia de ridentissimas imagens. Mezes antes, abafava no extenso horisonte, que descobria do topo das serras onde trepava para dar á sua imaginação sedenta a vaga imagem da immensidade. Agora, parecia-lhe que á sofreguidão da alma lhe bastaria a soledade, o silencio, a tristeza dôce dos saudosos ermos da aldêa, que conheciam o seu poeta desde os onze annos.

Anteviu os tres mezes de ferias como quadra de contentamentos novos. Tudo eram promessas de infantil ledice aos seus arrobos de saudade. Imaginava-se sosinho ao pé da arvore conhecida, em cujo tronco uma vez entalhára a ante-data de seis annos, com uma interrogação ao lado, e como se perguntasse o segredo do seu destino á sibylla dos seus queridos bosques.

O anno assignalado era esse em que estava. A resposta aos vagos presentimentos dos quinze annos ia dal-a agora, mais anhelante e auspiciosa de venturas certas do que elle a previra ao deixar o encargo de responder a mal-agourados futuros.

«Quão longe eu estava da verdadeira felicidade, minha querida mãi!--escrevia elle na primavera de 1855, quando as margens do Mondego reverdecidas lhe festejavam as saudades e as esperanças maviosas. A imaginação enganou-me. Cuidava eu que o coração de minha mãi faria o milagre de communicar uma faisca do seu amor ao seio de cada pessoa que eu encontrasse fóra da nossa aldêa! Pensei que a imaginada formosura da natureza começava áquem dos horisontes, que eu descobria do alto das montanhas. As impressões novas antecipavam-se-me cheias de espiritual deleite, e abundantes da vida que me lá faltava ao pé de pessoas vistas a todo o instante, com o sorrir da amisade, e ao pé das arvores, vistas em cada primavera, com as mesmas grinaldas, e em cada inverno com a mesma nudez funerea, que me confrangia o espirito.

«Castigou-me o desengano, quando dobrei a ultima collina, d'onde via o cume da serra em que tantas vezes me assentára, ideando ao longe o caminho da minha imprevista felicidade. Era tudo estranho para o meu coração. O vento do outono despia as arvores da sua folhagem; mas a poesia melancolica e contemplativa d'essa transfiguração, qual a eu sentia na minha aldêa, convertera-se agora em profundo aborrecer-me, em cerração d'espirito, em arrependimento doloroso.

«A duas leguas de nossa casa, minha boa mãi, quiz retroceder: reteve-me a vergonha. Depois de ter passado uma noite--primeira de minha vida--fóra do meu quarto, n'uma estalagem, ergui-me com proposito de vencer o pejo, e ir lançar-me chorando em seus braços. Conteve-me ainda o receio do _ridiculo_, palavra e sentimento terrivel, que, ha dez mezes, me foi entalhado no coração por um homem, onze annos mais velho que eu, propheta do meu destino, tão verdadeiro como terrivel propheta, que me vaticinou a sensibilidade immensa do poeta, e as lagrimas inexhauriveis do incessante desengano.

«Já verti as primeiras; essas, porém, são talvez uma puerilidade que o mundo escarneceria, por que, bem averiguada a causa da minha tristeza de seis mezes, encontra-se um bom coração de filho e irmão, a nubelosa saudade dos dezenove annos, e o pesar de haver com tanto afan rebatido o parecer de meu tio, que me quiz demover da tenção de estudar em Coimbra.

«Eu prometti-lhe, minha mãi querida, a noticia exacta das minhas impressões.--Descreve-me ao menos a bellesa dos abysmos como ella se afigurar á tua imaginação--foram as suas palavras. Não posso descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu deserto. Se deponho com fastio os livros, que só abro por obrigação, interrogo de novo o meu espirito, tento sondar a indole mysteriosa da minha vontade oscillante, e encontro sempre enigma. Quer-me, ás vezes, parecer que estou em vesperas de uma grande transfiguração no meu modo de ser e pensar; escuto o surdo rumor das idéas, que ameaçam rebellar-se contra a moderada esperança em que minha alma se acalenta; sinto-me impellido á vereda de angustias desconhecidas, ao passo que as suspiradas alegrias da vida serena no seio de minha familia se me varrem da imaginação como as copas de flôres desmaiadas, que o nordeste sacudiu e dispersou.

«Deverei occultar-lhe alguma das minhas visões, querida mãi? Não posso. A confidencia é a respiração das almas; é, mais ainda, é a supplica do conselho e do remedio para as tribulações, ou de estimulo e fé para crer na felicidade sonhada, se ella um dia me vier provar que não eram mentira os meus delirios dos dezoito annos.

«Ha entre mim e o indecifravel do meu futuro uma imagem como elle indelineavel. Não sei a qual hora da vida acharei a sombra real d'esta idealidade, que se fez corpo e alma, impressão e sentimento para a minha phantasia. Tenho querido collocal-a ao pé de minha mãi, como reflexo do seu amor. Quando assim consigo aproximadas, tambem consigo explicar a influencia, que ha-de ter na minha vida essa imagem, descerrada a nuvem que m'a envolve pela mão luminosa da Providencia. Será a realisação do infinito amor, porque entre Deus e minha mãi falta um élo. Creio que não usurpo a minha mãi o vago affecto dedicado a essa alma estranha, que me visita nas horas de intimo recolhimento e scismadoras saudades de não sei quê, como se do céo perdido nos ficassem saudades para reconquistal-o á custa de lagrimas. Isto que sinto não póde ser, como me dizem os livros sentimentaes, os alvoroços precursores das primeiras devoções, o subir para o altar dos cultos fervorosos e apaixonados. É mais.

«Entrevejo na escuridade do porvir uma scintilla, que me banha de festiva luz o espirito, aspiro o aroma de celestial flôr, que me delicia e adormece em dôces lethargias, tenho um despertar alegre e sereno, como o do homem incapaz de ir abraçar-se á realisação de seus ambiciosos sonhos pelos caminhos travessios da improbidade e do mal-fazer.

«Assim pois, minha mãi, contente-se a sua boa alma de se vêr assim reflectida na do filho, que d'ahi sahiu agourado por tão maus prophetas. Não abordei esses abysmos seductores, que o meu bom tio excommungava de lá, e contra os quaes me premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das tentações todas as nações da Biblia, exterminadas por causa do peccado.

«D'aqui a tres mezes, deporei no regaço de minha mãi o coração inexperiente com que de lá sahi. Dar-lh'o-hei mais rico de contentamentos puros, e desejos de ser bom filho; e, se assim não fosse, iria agora fortalecel-o em seu seio das virtudes, que ainda me faltam.»

Três mezes depois, Jorge Coelho, convidado por um seu condiscipulo das visinhanças do Porto, passou no Porto, quando recolhia a ferias, e alli se deteve, para assistir ao ultimo baile annual da _Assembléa Portuense_.

Jorge nunca vira um baile, nem ante-gostára pela imaginação o prazer de encontrar duzentas damas reunidas á competencia de formosura e pompas.

Dizia-lhe o condiscipulo, já gasto para as commoções dos bailes (tinha vinte e dous annos, e passára desapercebido em todos os bailes) dizia-lhe o condiscipulo que o coração nascia de improviso no primeiro baile, e muitas vezes lá morria. Contava-lhe, em testemunho de verdade, a sua historia, que era uma historia negra, passada ao clarão de centenares de lumes, nas salas da _Assembléa Portuense_, no baile carnavalesco do anno anterior. Com quanto nos seja sempre ingrato violentar as glandulas lacrimaes dos leitores, e sacudir-lhes com patheticas descargas electricas os nervos engelhados, não nos abstemos de contar em poucas linhas a historia negra do snr. Pires, condiscipulo de Jorge, em geographia e historia.

Parece que o snr. Pires chegára de Coimbra a ferias de entrudo, e conseguira ser convidado para o baile. Alugou um dominó de seda, entrou nos salões, e remoinhou longo tempo por entre centenares de pessoas desconhecidas. Dizia-lhe a consciencia que era um tolo, por não buscar ao acaso uma particula da felicidade, que brincava nas physionomias de toda a gente, ao passo que das d'elle apenas escorria o suor debaixo da mascara suffocante.

Deliberado a demonstrar a si proprio que não era absolutamente nescio, dirigiu-se a uma dama de aspeito melancolico, e disse-lhe «que os anjos do céo, quando cahiam cá em baixo na morada dos homens, ficavam tristes como ella.»

Ora, um maganão, tambem mascarado, que por alli gravitava em redor do mesmo astro, disse ao estudante, radioso da feliz amabilidade, «que não só aos anjos do céo acontecia ficarem tristes e atordoados quando cahiam cá em baixo, mas tambem acontecia o mesmo aos gatos, quando cahiam de um terceiro andar á rua.»

Ficou fulo de raiva Pires. A melancolica dama levou o leque ao rosto para esconder o riso.

O estudante, voltando-se para o entremettido, replicou-lhe que era de pessimo gosto a chufa, e o gosto da senhora não era de melhor quilate festejando com riso complacente tão deslavada semsaboria. Redarguiu o incognito mascarado, perguntando-lhe se tinha duvida em sahir fóra das salas para lhe estender uma orelha de modo que por ella o conhecessem todos, visto que elle tivera a habilidade de a esconder no capuz do dominó. Trocaram-se algumas finezas mais d'este tomo, até que um homem de porte grave travou do braço ao snr. Pires, e, levando-o ao salão menos frequentado, perguntou-lhe que motivos se haviam dado para desavença tão impropria de cavalheiros. Pires, querendo dar ao successo, uma causa digna de transmissão, contou que merecêra lisongeiro acolhimento da senhora com quem estava trocando as phrases previas de uma paixão, que rebentára subita e reciprocamente, quando o indiscreto e villão interventor lhe dirigira palavras descomedidas, que denotavam o ciume d'elle.

--Pois aquella senhora, a quem o dominó allude, trocava com v. s.ª as phrases previas de uma paixão?--perguntou o interlocutor do estudante com sorriso de affectada serenidade.

--Sim, senhor, respondeu o outro emproando-se.

--Antes de dizer-lhe que mente, preciso vêr-lhe a cara.

Dito isto, o sujeito, que era o marido da dama, arrancou a mascara ao snr. Pires; e, vendo um rosto imberbe, e acerejado, chamou o escudeiro, que passava com bandeja de dôces, e disse-lhe: «Dê a este menino dous bolinhos, e mande-o embora.»

Eis aqui a historia negregada do snr. Pires, a qual, contada por elle, era muito mais dramatica e engraçada, visto que terminava por dous duellos mallogrados, um com o rival, outro com o marido, e por tres desmaios da dama, um no salão, outro na carruagem, e o ultimo em casa, na presença do marido, que, pelos modos, a quizera enforcar.

E, como as lagrimas d'este acerbo conflicto cahiram todas no coração do snr. Pires, o resultado foi afogarem-se lá os embriões da sua felicidade, e ficar aquella viscera árida e resequida como enxundia secca de gallinha.

Ouvira Jorge Coelho estas calamidades com a respiração suffocada, e teve instantes em que duvidou do bom siso do seu amigo;--tão descozido lhe parecêra o conto, e tão ineptas as consequencias.

III.

Entrou Jorge Coelho nos salões da «assembléa,» e julgou-se em regiões de houris. Durou-lhe alguns minutos o atordoamento da primeira impressão. Não o enleava esta ou aquella physionomia; eram todas. N'aquella harmonia do bello, até as senhoras feias--se ha senhoras feias, vistas á luz do coração--recebiam homenagem do extatico moço. No espasmo delicioso do academico, se algum amor influia, era de certo o amor da especie, porque seus olhos não haviam ainda estremado o individuo, que os olhos d'alma entreviam no todo.

Do cisco lucido, que volita no ar, faz douradas palhetas o raio do sol coado pela fresta. Na dourada lucidez que Jorge via por magico prisma, não haveria muito cisco, muito atomo de poeira humana, que sómente refulge aos reverberos dos lustres, consoante o variegado das côres? Decidam os que lá andam.

Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudante sentiu o vacuo, porque se viu sosinho alli. O apresentante doudejava no redemoinho das danças, e raros intervallos perdia, perguntando ao condiscipulo se estava contente.

Jorge não sabia dançar, porque não tivera tempo de aprender esse appendiculo grutesco da boa educação. Muitas vezes lhe dissera o tio padre, authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que danças eram ansas do demonio armadas á alma.

Não se glorie, porém, o crendeiro egresso de ter instillado no animo do sobrinho o horror das mazurcas. Jorge não dançava porque não sabia se quer a nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o accesso ás almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um salão em que o espirito se retouça em piruetas, mais ou menos ridiculas e parvoinhas, da materia.

Á meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para dizer-lhe que se retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, viu duas senhoras reclinadas n'uma ottomana, em postura de fatigadas ou aborrecidas. A mais velha não excederia vinte e cinco annos; a outra, que teria dezoito, foi a primeira que prendeu o exclusivo reparo de Jorge, senão antes uma contemplação absorta em que ellas mesmas repararam.

O academico devia captivar a attenção das duas senhoras, melancolicas por indole ou artificio. Tinha elle um semblante de si tão meigo e affectuoso, que as pessoas tristes sentiam-se melhorar em suas magoas, pensando que outras acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava o brando olhar do moço. Estava, por ventura, este condão sympathico na magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de compleição mimosa, que effeito de vigilias e desperdicios de vida com que muitos conhecidos nossos se recommendam ás senhoras idealistas, affectando langores e martyrios de alma, dos quaes a victima principal é, em verdade, o corpo.

--Sympathica physionomia!--disse a mais velha das duas senhoras.

--Conheces?!--perguntou a outra sem fugir os olhares de Jorge, o qual, por mero disfarce, encarava objectos, que realmente não via.

--Não o conheço, nem me lembra de o ter visto em parte alguma.

--Tinha curiosidade em conhecer... Não achas n'aquelle rosto um não sei que de distincção?

--Tem alguma cousa não vulgar...

--Uma tristeza insinuante, achas?

--E não sei que de magoa supplicante...

--É verdade... e as supplicadas somos de certo nós...

--És tu, Silvina... és tu a examinada com um ar de espanto ou ternura que compromette. Olha um grupo de homens, que nos observam e mais a elle...

--Não olhemos mais. Elle já sabe que o vimos e discutimos. Achamol-o sympathicamente triste, e bem póde ser que seja um tolo com bastante coragem para nos dizer que o é... Mas quem será?!

A curiosidade das duas damas é menos racional que a dos leitores que desejam conhecel-as.

A mais velha é a snr.ª D. Francisca da Cunha, creatura galante, com quanto morena, grandes olhos pretos, sobrancelhas travadas e negras, opulentos cabellos, e espirito de improviso bastante a fingir illustração. Pertence a uma familia heraldica da provincia de Traz-os-Montes, e veiu ao Porto com seu pai, fidalgo arruinado pela politica e pelas proprias dissipações, com o fim de acirrar a cobiça de um noivo conveniente, cujos paes almejam por enxertal-o no nobilissimo tronco dos Cunhas. Tem esta menina genio exquisito e romanesco. Por muitas vezes tem mallogrado os esforços casamenteiros do pai, mofando da figura e palavriado, um pouco para rir, do noivo. Á força de ser má, conseguiu fazer-se anjo no conceito do mal-fadado que espera em ancias ser marido d'ella. Maravilhada do poder que tem na alma do capitalista, com desdens e despresos, espanta-se do presumido dominio, que poderá ter sobre o homem a quem der os sentimentos embrionarios no seu coração. Para experimentar, sem risco da sua nomeada, recebe cartas de varios oppositores á sua alma, e responde regularmente a umas com idéas respigadas nas outras. Nos grupos, que se vão formando na sala, em que está com Silvina, sua prima carnal, avultam quatro dos seus correspondentes activos, e dous, que obtiveram promessa de resposta, e alguns, que esperam aso de solicitarem aquella gloria, no entender de cada um negada a todos, chegando a fazerem-se a mutua justiça de julgarem-se parvos uns aos outros.

D. Silvina de Mello, prima de D. Francisca, é tambem provinciana, e veiu de uma aldêa do Minho a banhos do mar, convidada por sua prima, de quem é hospeda. O que ella aprendeu em quatro mezes de convivencia é possivel que o não acreditasse quem lhe visse o rosto de anjo, olhares de innocente acanhamento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras desanimadas e preguiçosas, e, no todo, uma despresumpção de maneiras, que fazia suppôr grande limpeza d'alma e de... de intelligencia!

Fôra D. Silvina da sua aldêa para o Porto com uma paixão por um morgado, que a não seguira por fortissimos impedimentos. O pai do morgado tinha feito extraordinarias despezas na construcção de uma eira, na reedificação da capella solarenga, no muramento de algumas cortinhas, que comprara, não fallando já nas desastradas mortes de um macho, que tinha trinta annos de bom serviço na casa, e duas juntas de bois atacadas de epizootia. O moço pedira debalde soccorros, fingira-se mesmo epileptico para que o cirurgião da terra lhe receitasse banhos salgados; o velho, porém, passaro bisnau, e avesso á inclinação do filho, deu grandemente louvores a Deus por propiciar-lhe ensejo de acabar-se um namoro inconveniente, attenta a mediocre legitima de Silvina. Facil foi a D. Francisca obliterar no coração da prima a imagem do seu primeiro amor, zombeteando-a á proporção que a ingenua provinciana lhe ia mostrando as cartas do saudoso morgado.

Não podémos averiguar porque traças o morgado de Santa Eufemia arranjou dinheiro com que foi ao Porto, tres mezes depois que Silvina cessára de responder-lhe ás cartas, tanto mais irrisorias quanto a paixão as dictava em estilo talhado para matar paixões. O certo é que o allucinado homem chegou ao Porto na vespera do baile da assembléa, e alcançou cartão de convite. A sua idéa era encontrar Silvina.

Todo sorvido na ancia de vêl-a e fulminal-a com olhadura terrivel de accusações, o morgado de Santa Eufemia não cuidou, com tempo, de mandar fazer casaca. A que trazia na mala era dos figurinos de Guimarães, e, posto que em bom uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e comprimento das abas, na pequenez dos botões, e rebordo dos punhos. Consultou a pessoa, que lhe alcançára o convite, ácerca da casaca; mas, desgraçadamente, a pessoa consultada era um d'aquelles individuos de juizo, que não tiram o monge pelo habito, e reprovam que seja sacrificada aos caprichos da moda uma casaca de bom pano, farta e commoda, sómente porque alguns casquilhos perdularios, ou alfaiates especuladores, inventam feitios novos.

Concordou o morgado, e foi ao baile com a casaca velha. Melhor lhe fôra ter morrido da epizootia! A sua entrada na primeira sala foi um acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-n'o, e seguiram-n'o com insultuosa curiosidade até ao salão da dança. As senhoras, em regra, pouco curiosas do trajar dos homens, não repararam na casaca, mas não podiam deixar de vêr o collete e a gravata. Era esta descommunal na altura, atravessada por um laço, cujas pontas, como orelhas de lebre morta, cahiam caprichosamente sobre os hombros. A côr verde da gravata contrastava com o encarnado-ginja do collete de uma abotoadura e colchetes apertados até ao pescoço, e acairelado na abotoadura e bolsos com vivos roixos. Sobre isto cahiam as lapelas enxovalhadas da casaca, com as quebras e vincos dos apertos que soffrera na mala em que viera, para irrisão e descredito de Freixieiro, cujo elegante era.

Desconfiou o morgado de Santa Eufemia de alguns indiscretos que o seguiram, desde o vestibulo da assembléa. Viu, depois, que as damas se trocavam olhares suspeitos, que o não impediam de procurar Silvina com aspecto entre o furioso e o comico. A obstinação, porém, dos chasqueadores era inexoravel, e o morgado teve um intervallo de lucidez, em que olhou em si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma deu, então, graças á Providencia, se Silvina o não tinha visto; mas o derradeiro olhar, que lançou aos descaridosos mofadores, era provocador.

Resolveu, pois, retirar-se, maldizendo o velho amigo de sua familia, que o demovera do proposito de fazer roupa nova. Quando ia sahindo, atravessou por engano a sala em que se achavam D. Francisca, D. Silvina, e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por alli estanciavam, deram com elle de cara, seguido d'um cortejo de folgazãos, que tinham passado da zombaria cautelosa á risada descomposta.

Silvina corou até ás orelhas, quando Francisca exclamou:

--Oh! que original! Repara, prima, tu não vês aquelle homem?!

A este tempo o morgado estava em meio da sala, e fazia machinalmente uma cortezia ás damas.

--Aquillo será comnosco?!--dizia, com desdenhosa zanga, D. Francisca.--Conheces aquelle phenomeno?! Olha que elle está esperando que o comprimentemos... Conheces, Silvina?

--Conheço...--balbuciou Silvina, acaso tão afflicta como o desastroso morgado, que estava alli chumbado ao pavimento.

--Quem é? é da tua terra?--tornou Francisca já envergonhada de que julgassem ser ella a causa da attentiva paragem de semelhante entrudo.

Silvina ergueu-se, tomou o braço da prima, e disse:

--Vem, que eu te contarei tudo.

Sahiram.

Jorge Coelho foi o unico dos circumstantes que examinou com seriedade o morgado. Achava estranho o personagem; mas dizia-lhe a boa alma que o insulto era improprio de pessoas bem educadas como deviam presumir-se aquellas, que estavam alli representando a melhor sociedade.

O fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos a marejarem lagrimas. Foi ainda Jorge quem unicamente viu este signal de afflicção; e, sem saber o porquê, sympathisou com a dôr do homem, que levava de poz si o escarneo de tanta gente, e na alma a certesa de que viera dar-se em espectaculo aos olhos da mulher, que nunca lhe perdoaria o ser ridiculo. Pobre criança! como vivias enganado pelas maximas dos teus romances francezes! Não sabias tu que ridicula, sem rehabilitação, é só a pobresa.

D'ahi a uma hora, Francisca e Silvina desciam do toucador para o salão do baile. A primeira compunha o semblante ainda descomposto das gargalhadas com que recebera a revelação da prima. Esta, mortificada pelo amor proprio, se não antes vexada pela indecorosa eleição d'um amante chulo, captivava lastimas com a tristesa que devêra acarear despreso. Despreso! Talvez piedade, que a situação era digna d'ella, por que é a mulher, quem mais a si se mortifica, se a consciencia a accusa d'uma escolha, que não só lhe não disputam, se não que, peior ainda, lhe injuriam com motejos. O morgado de Santa Eufemia, até á noite infausta do baile, era uma recordação, se não saudosa, ao menos magoada. D'ahi em diante, pelo menos n'aquella hora, causava-lhe tedio, e forçava-a a participar da zombaria.

IV.

Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se outro. Já tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa do mundo exterior a remuneral-o vantajosamente da insulação em que se via no meio de tantos indifferentes á sua tristesa. A todo homem esta mutação tem acontecido, uma vez na vida. O baile é triste para quem leva da soledade do seu quarto o coração de lucto; porém, áquelle mesmo conforta, ás vezes, uma chimera, lá onde menos a esperança lh'a promettia. Chimeras são que desbotam, como as flôres dos enfeites, ao repontar da manhã; mas Deus sabe quantas almas se retemperam nas illusões de um baile, e que horas de abençoado engano lá divertem as tristesas dos mais desenganados!

Não era assim que Jorge Coelho scismava comsigo--que a aurora do seu breve dia de fé e amor principiava alli--quando o amigo Pires, lançando-lhe o braço em redor do pescoço, lhe disse:

--Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal assombradas de gesto, como se tivessem comido a fatal maçã?

--Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa.

--A côr de cêra?

--Sim.

--Eu gosto mais da morena. _Nigra sum sed formosa._ Aquillo sim que é mulher para incommodar a fleuma d'um sceptico!... Queres ser apresentado?

--Pois tu conheces?