Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento

Chapter 16

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Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este vestido se acha na tua caixa?

Rosa fez-se muito corada e respondeu:

--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.

--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.

--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.

--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.

Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos: entregava-me a snr.ª D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a snr.ª D. Thereza no seu dia natalicio.

Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.ª D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de lh'a apresentar.

Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes. Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar a verdade.

Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde conseguil-o.

Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó, apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais cruel e mais requintada avareza as expulsava.

XI.

Estamos no anno seguinte.

Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.

Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a sua querida amiga e preceptora.

Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre ellas.

D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé; mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que, quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e desvelos, de que a cercava a viscondessa.

Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora. D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha retirado para o Porto.

Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.

A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo, ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.

Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal, que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.ª Maria da Gandra.

--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.ª Maria da Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.

A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.ª Maria da Gandra toda a despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham despendido.

A despedida de Rosa e da snr.ª Maria da Gandra foi pathetica, e só a muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra, promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a snr.ª Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe não tributasse um profundo reconhecimento.

A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante ventura lhe succedesse.

--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.

Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos, muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com muita censura e reparo de D. Bertha.

--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D. Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?

--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.

--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de deixar muito tempo para se aborrecerem.

Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia, era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas infelizes ficavam confusas e envergonhadas.

D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que, procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D. Bertha, era um trabalho improbo e esteril.

D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.

D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.

--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?

--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:

«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e rustica; uma boa menina, a snr.ª D. Julia, filha da snr.ª viscondessa do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar. É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me amaes, deveis igualmente amar a snr.ª D. Julia, minha bemfeitora; e então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»

--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.

A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia, dava as lições a Rosa.

Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o seu coração.

D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.

D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz, _castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os confirmar.

A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.

--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha commettido, que mereça semelhante castigo.

--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou certa nunca te ha-de desamparar.

Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando distrahil-a por todos os meios possiveis.

O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os merecer faria o impossivel se necessario fosse.

XII.

D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono, época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar. A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo fatal, era geral.

Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.

A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença, começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma. Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia de privar da sua protectora.

A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.

Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados, que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta esperança e crença.

Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com reconhecimento esta nova prova d'affecto.

Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a que mais a impressionou.

Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus, para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe ser dirigida.

Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse alteração sensivel.

Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.

Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma professora.

A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.

Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava de ser concedido o titulo de capacidade.

Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito tempo.

Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e querida de sua filha.

D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado, confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.

O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou, foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma excellente professora.

Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados, dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu viver.

Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança alguma de a salvar.

A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.

Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.

D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.

Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado; abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a glorificação de suas virtudes.

Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela pureza em que sempre vivera.

XIII.

Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo antecedente.

Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme, pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella conduz, que tem lugar o que passamos a contar.

Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio, e commovidas.

A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.

O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos embranquecidos antes do tempo.

A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos ramos e cestinhos.

A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.

--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?

--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por que, quem sabe se recahirei?

--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura e reconhecimento.

--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo? Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo, a que chamam mundo?

--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?

Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.

--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos, e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa, minha filha querida.

Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.

As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente, o que a commoção lhe embargava nos labios.

Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.

A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha, mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas, que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que se estabelecera entre ella e D. Julia.

A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na morte.

Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.

--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto da campa de minha avó.

--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.

Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples. Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade affectuosa da sua bemfeitora.

Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com diversas flôres, semelhava um jardimsinho.

Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.

Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.

Rosa apresentou esta carta á viscondessa.

--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.

--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero, senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!

--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?

--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia. Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa, por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração, quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças, que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a snr.ª D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem dizer os nomes da exc.ma viscondessa do Candal e de sua filha.»

--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que me fazes nascer no coração com as tuas palavras.

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Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe concedido por unanimidade e com distincção.

XIV.

Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e Sousa o seu titulo de capacidade.