Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 15
--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos conduzisses a casa da snr.ª D. Thereza, e, se a tua protectora estiver satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias á mestra. Então não respondes?
--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?
--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.ª D. Thereza, e isso indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires; mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.ª D. Thereza.
Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha. Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas, que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.
Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e morno.
D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.
Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa, manteiga e um copo de leite.
D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e, reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta.
A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.
A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta, prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.
--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante convosco.
--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a cega--estou portanto ás vossas ordens.
--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a vossa neta?
--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella, que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa nos ha-de recolher. E foi verdade.
A snr.ª D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o coração, commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á noite. Em quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e no campo, e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito tempo.
Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não chegas a mim para te dar um abraço?
Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se retirado, quando a avó começára a elogial-a.
A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.
Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.
--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não prohibireis vir algumas vezes visitar-me.
--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.
D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:
--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?
--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me embora?
--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina da cidade, instruida e de maneiras polidas?
--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome, e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.
--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos, razos de lagrimas.
--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse a viscondessa.
--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.ª D. Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se assim fallo...
--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.
Não tenhas receio, que te separemos da snr.ª D. Thereza. Pediremos sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos beneficios, que te prodigalisa.
--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.ª D. Thereza me não negará este favor, e prazer.
--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.
--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.ª D. Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um vestido novo.
E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo voltar muito breve á quinta.
D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até ámanhã».
Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D. Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.
--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.
--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje, mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas mais gratas e queridas recordações.
VIII.
D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso, que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da viscondessa.
Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar sósinha, durante o inverno.
Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.
A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia sahir do quarto.
Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida, quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta.
N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.
D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para socegar a inquietação de D. Julia.
Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor; sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.
A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.
D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã, consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto amava.
Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá voltar se peorasse.
Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era baldado, por que Rosa estava inconsolavel.
Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes. A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa.
--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis, que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para que se augmente este capitalsinho.
É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.
Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.
--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó. Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor, para que me dê saude.
Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia, que, com um olhar maternal, a abençoava.
IX.
Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto, e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza, que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia veio confirmar as prevenções de D. Thereza.
D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula. Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada, e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e embargar-lhe o seu progresso.
Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.
Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D. Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas fossem attendidas.
Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais vigor.
Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde, de que ella admirasse o valor e o gosto.
Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado, chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe parecia.
Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.
Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.
Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.
Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.
--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar remedio.
O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.
Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser muito vigilante, era boa e justa.
Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião, ainda bem não estavam dadas.
Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.
A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em não poder fazer cousa alguma.
De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.
Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria mais uma palavra, nem faria um unico movimento.
Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.
D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D. Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.
D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua herança.
Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.
D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar, naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos moribundos não lhe foi permittido.
O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada apertada nas suas.
--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha segunda mãe no tumulo.
Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.
Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, que fechava com cuidado, guardando as chaves.
X
Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. Thereza.
--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e ella não podia desherdar-me.
--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever, por que a lei protege os direitos de todos.
--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem filhos.
--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?
--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que ella teve a phantasia de recolher em sua casa?
--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e amisade.
--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...
--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e minha avó recebemos da snr.ª D. Thereza?
O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão tão vergonhosa, e feia.
Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que Rosa não pôde refrear a sua indignação.
--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma? Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que, logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.
Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou corrida de vergonha.
Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro a D. Thereza.
A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito. Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.
O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.
--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.ª Maria da Gandra, que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.
A snr.ª Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.
--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua avó.
--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó, que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.ª D. Thereza, e receba as minhas inscripções.
--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.ª Maria da Gandra--Não preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como obtiveste essas inscripções?
--A snr.ª D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, com os quaes a snr.ª D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou duas inscripções em meu nome.
--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir ao vosso quarto.
Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.
A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e trabalhadeira, que a snr.ª Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que lhe podia apparecer.
No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza, Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.
Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não pôde reter as lagrimas.
Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos dinheiro, do que imaginava.
Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava um accento de triumpho.
--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter _empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.
O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo tamanho, não pertencia de certo a Rosa.
--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando pelo rubôr, que lhe cobre as faces.
--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto dar-me as explicações, que tiver a fazer.