Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 14
--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde; mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para o que me determinardes.
--E tua avó?
--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade d'ella.
Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.
D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa. Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.
Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando _tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.
Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel resistir.
N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui desenvolvida.
A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos, mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar, e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.
Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a fidalguinha.
Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a conhecia adorava-a.
O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução de recolher a avó e a neta.
--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D. Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.
--Então fico em casa de v. exc.ª?--disse Rosa, não podendo crer em tanta ventura.
--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender do que hoje faço.
--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para vos agradar e satisfazer os vossos desejos.
--Assim o espero. Anda vestir-te.
--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando.
D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:
--Que queres a tua avó?
--Ella tambem fica?
--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.
--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria de paixão.
Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.
--E que has-de fazer na tua aldêa?
--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...
D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.
--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.
Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa, agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua gratidão.
IV.
Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa. Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal; depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava, fiava na sua roca.
Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como o faria a melhor mulher de casa.
D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.
Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de calices perfumados.
Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado, as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço.
Ganharam renome os cestos de Rosa.
Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios, compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.
D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou. Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.
Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom resultado do negocio de cestos e flôres.
O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella. Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para fazer esquecer as suas faltas involuntarias.
Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e flôres.
D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do lugar.
A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza, tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.
A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas infelizes, não estava longe.
V.
Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres, suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no mercado.
Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia esta linda criança por algum tempo.
Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira; mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.
Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter um livro para se entregar á leitura.
D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.
Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe aproximou uma senhora ainda joven.
--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a joven senhora com modo affavel.
Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:
--Faço cestinhos com flôres para vender.
--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?
--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a satisfazer, vou já preparar o vosso.
--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?
--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.
--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os ires vender?
--Sim, minha senhora.
--E teus paes em que se occupam?
--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.
--És orphã, e onde moras?
--Estou em casa da snr.ª D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme, tão boa, como rica.
Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos comido, quando de repente me lembrei da snr.ª D. Thereza. Eu e minha avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A snr.ª D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.
--Amas então muito a snr.ª D. Thereza?
--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir d'utilidade.
--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.
Parece-me que o meu cesto está acabado?
--Ainda lhe falta uma cercadura de _não me deixes_. Permitti, senhora, que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais frescas, e em mais abundancia.
--Ide, que aqui te espero.
Rosa partiu correndo.
D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D. Thereza, tinha vinte annos.
O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.
Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma quinta proximo da serra de Vallongo.
D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava. Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou obter o triumpho sobre a molestia.
D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas phantasias.
A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade, orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com esses _estupidos_ e _rudes_ aldeãos, que habitam os campos, e a quem ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só imperava o egoismo.
Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou encantada com a sua innocencia.
Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não voltasse, quando a viu vir correndo.
--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui muito longe colher as violetas e os _não me deixes_, porque queria que o meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa, a sua apreciação.
Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.
--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te; mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.
Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos formando as azas.
--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro, cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto queres por este trabalho?
--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras minhas freguezas.
--Mas quanto é que custam ordinariamente?
--Tres ou quatro vintens.
--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.
--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.
--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho. Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta hora apparece aqui, e fallaremos...
--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.
--Queres fazer-me zangar?
--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu não preciso de nada; a snr.ª D. Thereza é muito minha amiga e...
--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz, de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.
E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha desapparecido, levando na mão o cestinho.
Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.
--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.
--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu pensamento, e que me causa tanta alegria.
--Que é então?
--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.
--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não has-de gastar mal gasto.
Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas de flôres e cestos.
VI.
D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha determinado.
A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no caminho, ao encontro de sua filha.
--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.
--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa da minha demora.
E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.
--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a prenda de fazer cestos de juncos entrançados.
--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.
--Então quem foi?
--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.
--Uma lavradeira?!
--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?
--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua simplicidade.
--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome sob a minha protecção?
--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e accordaremos no que devemos fazer para seu bem.
D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua bondade.
N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.
D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto, desceu á sala a buscal-o.
D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.
--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse D. Julia.
--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo. Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.
--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia ter melhor gosto.
--Rosa?
--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive esta manhã. Ora ouve.
D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera com Rosa.
Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.
--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é assim?--disse D. Bertha.
--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a torna digna da protecção, que se lhe dispensar.
--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?
--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.
--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins, concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.
--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia. Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa mãi, vêr Rosa?
--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um tanto aborrecivel.
--Rosa é muito linda e interessante.
--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para onde espero ir muito breve.
Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.
D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.
Alguns instantes depois deu principio ao quadro.
VII.
No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão amavel e generosa tinha sido com ella.
Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D. Julia, tinha terminado o seu serviço.
Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para exprimir a sua alegria e enthusiasmo.
Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada da viscondessa e de sua filha D. Julia.
--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a viscondessa.
Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:
--São as _Meditações religiosas_ de Rodrigues de Bastos.
--E encontras grande prazer na sua leitura?
--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato, ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.
A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.
--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia.
--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.
--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?
--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque, para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.
--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia.
--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.