Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento

Chapter 13

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Emilio da Cunha aportou a salvamento ás terras de Santa Cruz, e logo que saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente os resultados não correspondiam aos seus esforços e desejos, porque de todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos e embaraços não prevenidos nem esperados. Havia já um anno que Emilio da Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios não estavam mais adiantados, que no primeiro dia.

Cançado, desanimado e affectado de melancolia, ou _spleen_, como lhe chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um desassosego de que não podia explicar a causa, deliberou entregar os seus negocios e a liquidação e arrecadação da heranca a um procurador, e embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal.

Que se tinha porém passado no Porto, durante este tempo?

É o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer ás minhas leitoras, se ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lêr.

Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguiça, fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que tinham quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra mendigos, ou ladrões. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassidão, com os vestidos em desalinho, os cabellos eriçados, tomal-o-ia por um bandido de trinta annos, quando elle não tinha mais que dezenove incompletos. Valentina, pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e virtudes.

Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto, agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um pequeno episodio d'esta muito veridica historia.

De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descançar, e ahi passar até ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto, na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso por abraçar e apertar contra o coração. Julgo desnecessario o dizer-lhe, pois me parece já o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha, que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este mundo. Logo que no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeição, deitou-se e adormeceu, embalado por sonhos felizes.

No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, já subia pela escada do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia de portas de quartos, um homem de má catadura. Era um d'estes _cavalheiros d'industria_, a qual consiste em entrar, sob qualquer pretexto, de manhã cedo nos hoteis, e aproveitar-se do primeiro quarto que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os não obriga a retirar-se de mãos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na porta.

No andar, vacillante, e como desconfiado, do _cavalheiro d'industria_ se reconhecia facilmente, que era um noviço, que ia tentar os seus primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua _primeira escamoteação_.

Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia, e irresoluto se devia ou não penetrar no quarto de que a porta se achava meia cerrada, metteu primeiro a cabeça, depois uma perna, e por ultimo todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabeça, Roberto, por que o _cavalheiro d'industria_ era elle, encarou com seu tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio.

N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de ferro até ao Carregado, e ahi na mala-posta até ao Porto, onde trinta e seis horas depois se achava nos braços de sua querida filha Valentina, que immediatamente tinha ido procurar ao collegio.

--Tu sahes já, já do collegio, minha filha--lhe diz Emilio da Cunha--para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado.

--Que felicidade--exclamou Valentina toda alegre e folgazã--que vida socegada e feliz não vamos passar todos tres, não é assim meu querido pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia?

--Roberto, morreu--respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz soturna.--Não quero que me falles mais n'elle, entendes Valentina?

Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai, mas a todas ellas não obteve outra resposta, senão a completa prohibição de nunca mais lhe fallar em Roberto.

Ainda porém não tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provações, que Deus lhe destinára. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado do Rio de Janeiro, quando recebeu a participação de que o procurador, que ficára encarregado da liquidação e arrecadação da herança, tinha cumprido a sua missão, mas que, depois de ter arrecadado a somma importante, que produzira a mesma herança, tinha desapparecido, sem que as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem dado o desejado resultado.

Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque, impaciente por satisfazer os credores de seu irmão, pai de Roberto, tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.

O golpe foi forte, mas ainda assim não o foi bastante para poder subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, mostrando-se Valentina n'esta conjunctura, digna filha d'um tal pai.

Renunciando heroicamente ás commodidades da vida, em que até então tinham vivido, foram habitar, em um bairro mais afastado da cidade, uma pequena casa, na qual soffreram privações diarias e penosas, tratando sempre d'obter alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em trabalhos mal retribuidos.

Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante habilidade, principiou a trabalhar para uma modista, a qual satisfeita com os seus primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida mais delicados e por isso melhor retribuidos, o que foi para elles uma grande felicidade, e que assim lhes proporcionou meios licitos de pagarem regularmente o seu aluguel, e de já não receiarem tanto nem o frio, nem a fome.

Valentina ia entregar a sua obra á modista, a qual satisfeita com ella lhe dava sempre mais, e muitas vezes mais do que a que ella podia fazer. A uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastança mediocre, que era por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.

Decorreram assim dous annos.

Um dia, em que Valentina estava só, lhe entregou o carteiro uma carta, e qual não foi a sua surpreza quando reconheceu a letra de seu primo.

Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o momento em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para _escamotear_ seu tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha tinha recobrado os sentidos para na fuga se salvar ás imprecações d'indignação do velho. Chegou offegante ao Terreiro do Paço, onde se sentou, ou melhor se deixou cahir n'um dos assentos de pedra, que alli se acham, e assim esteve por muito tempo, com a cabeça escondida entre as mãos, mergulhado em acerbas e crueis reflexões.

Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa revolução; o seu procedimento indigno e infame se lhe apresentou em toda a sua nudez e hediondez; teve horror de si mesmo e por um instante pensou em suicidar-se; mas com o arrependimento entraram-lhe no coração sentimentos mais generosos. Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma conducta honrosa e illibada, ainda poderia chegar a fazer esquecer os seus erros passados, e reanimado por esta feliz lembrança, que o seu anjo bom lhe tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a sua rehabilitação, e a não descançar sem a ter chegado a alcançar.

A occasião favoravel não se fez esperar muito, por que um capitão d'um navio mercante, que estava apparelhando para a California, lhe concedeu passagem gratuita, mediante os seus serviços e o seu trabalho na viagem.

Aportou Roberto á California e sorrindo-lhe a fortuna, em lugar de se embrenhar no jogo, arriscando assim as suas economias, fundou um estabelecimento, que ia prosperando, faltando unicamente para a sua felicidade se tornar completa, o obter o perdão de seu tio, e a esperança de poder tornar a vêr sua prima, cuja imagem tinha constantemente na idéa, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de trabalho e ordem, de que não pensava mais em se desviar.

Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a sua prima.

Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar tão grata noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua volta.

Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o succedido, mas, Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado a primeira palavra. Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com a maldição nos labios; ella lançou-se-lhe de joelhos aos pés, chorou, supplicou, mas elle a tudo ficou impassivel e inflexivel.

Valentina consternada respondeu á carta de seu primo descrevendo-lhe o succedido, e a inutilidade de seus esforços; mas para o não desanimar promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria até que chegasse a mover seu pai á commiseração e piedade, de que não desesperava. A carta continha tambem a descripção de todos os successos, que se tinham dado desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha, a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de sua posição, finalmente continha tambem algumas palavras d'exhortação e amisade.

A situação de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo, uma modificação muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao aniquilamento da sua fortuna.

Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe entregaram 20 contos de reis de que um anonymo lhe mandava dar posse a titulo de restituição. D'onde tinha vindo este dinheiro?

Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte da restituição, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de concordar com a opinião de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.

Qual das duas opiniões era a verdadeira, é o que nos não importa saber, o que se sabe é que a abastança ou decencia tinha reentrado em casa d'Emilio da Cunha, e as idéas do digno e honrado velho, foram-se tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.

Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo Roberto, e ella não perdendo esta occasião tão propicia, que se lhe offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa alguma.

Estaria ou não convencido?

A pergunta não tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido sem colera e com socego as allegações a favor de seu sobrinho, o que já era um bom indicio da mudança que n'elle se havia operado.

Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre algum novo passo dado na estrada da reconciliação.

Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, que tinha seguido n'um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a sua filha:

--Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu primo?

--Oh! sim, meu pai--se apressou em responder Valentina.

--Queira Deus que te não enganes.

Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido ao jantar, gritando, como se continuasse uma conversa começada:

--Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o suppões, com que prazer e alegria........

Não terminou a phrase, mas a expressão benevola da physionomia de Emilio da Cunha indicou a Valentina o complemento da idéa.

Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle respondeu, e fechou-se a correspondencia.

Uma manhã Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas elegante sala, que deitava sobre o jardim--por que elles tinham deixado a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente--Emilio da Cunha sentado junto d'uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de flôres, olhava sorrindo para Valentina, que, de pé, junto d'um açafate em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d'elles:

--Eis-te aqui, meu bello fugitivo--lhe dizia ella--pensavas que era só voltar para te ser concedido o perdão, depois de me teres feito soffrer com a tua ausencia e ingratidão? Muito bem; visto que o teu regresso prova um arrependimento sincero, perdôo com prazer; não é assim, paisinho--acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos com uma expressão de candura para Emilio da Cunha--que se devem receber os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?

Emilio da Cunha não deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a face.

N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de Roberto.

Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a poderá imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a.

Roberto voltava honrado e rico. Julgo que já comprehendeu que, para soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituição.

D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha expendido antes de começar.

--Ah!--lhe disse eu com admiração sincera--v. exc.ª podia facilmente escrever um romance.

--Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como producção da minha imaginação e phantasia?

Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa discussão.

No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial importante nos suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que se póde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial e industrial, n'uma palavra nada faltava á sua gloria, fortuna, e felicidade domestica.

--Que pensa de meu sobrinho?--me perguntou D. Mafalda, quando nos retiramos.

--Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o.

--Pois aquelle que viu é o Roberto da minha historia.

Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes reflexões: Que a regeneração do homem pelo arrependimento não é utopia, e que a sociedade e a sua organisação é que são as causas principaes, que occasionam que muitos de seus membros não se regenerem, por lhe embargarem ou matarem logo algumas centelhas de virtude, que ainda tinham no coração.

Pensem, e verão o corollario que tiram.

FIM.

* * * * *

A GRATIDÃO.

A GRATIDÃO.

ROMANCE.

I.

Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia.

Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio, e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com uma energia superior á sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega.

--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha.

--Em meio caminho, minha avó.

--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada.

--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada.

--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome, e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que me sinto desfallecer...

Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.

--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.

A cega não deu accordo de si.

--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão?

--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus, não permittaes tal.

--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.

--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.ª D. Thereza receber-nos-ha?

--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a boa snr.ª D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes, que desejava que eu fosse sua filha.

--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel; agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e cega, que para nada sirvo.

--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores, que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.

A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o caminho de S. Cosme.

O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou, e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior abundancia.

--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me ficar.

--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme.

--Estás bem certa d'isso?

--Eu não queria mentir...

--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho.

--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou fatigada. Encoste-se ao meu hombro.

--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.

Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. Thereza de Sousa, depois de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta.

Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que desfalleceram.

II.

D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos do lar, em que ardia uma grande fogueira.

--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.

--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta.

--Sim, snr.ª D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho fallado a v. exc.ª e...

--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza.

A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma tal expressão de supplica, que a commoveu.

--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma cousa, não é assim?

--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado. Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.

Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse:

--Para hoje já é de mais, ámanhã...

--Perdôe-me, snr.ª D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu termine hoje,--e continuou:

--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha mãi. Um dia abraçou-me e disse-me:

«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti?

Trabalharei, lhe respondi.

És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares tua avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não pôde, abraçou-me e á avósinha, e expirou.»

Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora, pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro. Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a Deus pela vossa vida e felicidade.

D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica, que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.

--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não tenha piedade de ti.

Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças.

III.

Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.

Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar terreo.

--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza.