Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 12
--Eu não estava escorreito do miolo quando fiz o testamento. Lá foi o meu amigo visconde que arranjou tudo, e eu assignei sem dar tino de mim. Se offendi o senhor seu pai, queira perdoar.
Não ha que vêr: Silvina era a mulher fatal de tres corações, que por ella andavam perdidos. Andraens, como a visse e ouvisse, perdia a consciencia da sua dignidade, e--o que mais é para assombro--a consciencia de credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a natural grosseria, mais escravo se humildava José Francisco. Fulminava-o a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um encanto, que faria lembrar o da magica da Colchida, se elle não fosse pôrco, antes de ouvil-a. Pasmava elle do feminil predominio d'aquella mimosa mulher que o sopesava; mas este espanto era submisso, e a submissão amor, que os romancistas chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.
Antonio José Guimarães, avesso á reconciliação de Silvina com o morgado, e desejoso de a vêr ligada ao seu amigo Andraens, esforçou-se em desamual-os, dando explicações a favor d'um e d'outro, de modo que ambos já as escutavam silenciosos. José Francisco acompanhou Silvina e Francisca, promettendo vir jantar com ellas no dia seguinte, e authorisou o linheiro a dizer de sua parte á menina que por causa d'elle não se havia de desarranjar o que estava tratado. Mandou immediatamente sustar a começada execução sobre Pedro de Mello; presenteou com alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a Pedro de Mello as satisfações que o pundonor do fidalgo exigia, e deixou ao arbitrio d'este as condições da escriptura nupcial.
E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas nas ondas.
XXIII.
Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, á Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, até áquelle dia, por saber que a ventoinha de Margaride lá estava, desafiando, com as suas evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola e a indignação das pessoas sérias. O jornalista, porém; que era oraculo em casa do negociante Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a não impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que Silvina se exhibia.
Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o «caneiro» onde os grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima, conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra eminencia do fragoêdo, abarcava as pernas com os braços, e apoiava o queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um cão da Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da praia, envolto no seu cobrijão escarlate, franjado de borlas verdes, e cahido a um lado com a natural graça, que usam dar-lhe os provincianos, vesados áquella elegancia de feiras.
Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires:
--Lá está ella... Não passemos d'aqui.
--E que quer dizer não passarmos d'aqui?--acudiu o da Maya, accendendo o charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro--Queres tu, amigo Jorge, fingir o que não és? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella mulher?!
--Julgue-me ella como quizer...--replicou elle--concedo que seja tolice isto, mas... é cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina. O amor e o remorso são espinhos, que não desencrava do coração quem quer. Para que te hei-de eu mentir, se me não posso enganar a mim? Não a esqueço, nem se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle, que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e não pude, meu amigo! Como queres tu que eu possa dissimular á penetração de Silvina o que por ella sinto?! Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres: eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.
Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o morgado de Santa Eufemia.
--Então quem namora agora a menina?--disse o da Maya--O meu amigo de certo não, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem não, que está acolá conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vôo das gaivotas, como Catão d'Utica.
--Que é?!--disse Christovão, receioso de que o nome do romano fosse algum chasco á sua ignorancia.
--Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; não conhece este personagem?
--Nada, não conheço--replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha.
--Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá vem--retorquiu o da Maya.
Christovão olhou na direcção indicada, e viu José Francisco Andraens, que descia lentamente a calçada que conduz á praia. Não teve mão da sua raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz:
--Lá vem o nosso homem!
E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com as pernas apertadas entre os braços.
Silvina virou-se de lado com repellão, e Leonardo Pires exclamou:
--Estão bonitos! isto sim, que daria idéas a um Gavarni cançado! Ó humanidade tu és a caricatura dos monstros que a imaginação cria nos seus delirios de cognac e absyntho!
Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que por alli se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao mesmo tempo que José Francisco se aproximava de Silvina.
--Ora viva!--disse o commendador á fidalga de Margaride--Como passou?
--Excellentemente, e o snr. Andraens?
--Está feito; não me dei muito bem com a ceia. Appeteceu-me uma lagosta, e trabalhou-me cá dentro toda a noite. Agora, estou mais desempachado, e acho que vamos ao banho.
--Quando quizer.
--Sempre me sento um bocado a arrefecer--tornou José Francisco, apalpando as pedras, e ajustando, o melhor que pôde, com as asperezas d'ellas as roscas de carne cuja flexibilidade se moldava ao anfractuoso da rocha. Depois, bramiu um urro de satisfação, e cruzou as mãos sobre a barriga n.º 2.
--Com que sim--continuou elle--Em que estava a senhora a malucar?
--A malucar?!--disse Silvina, franzindo a testa.
--Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do mar...
--Ah! sim... estava...
--A fallar a verdade,--tornou elle, recolhendo-se--isto é uma obra que faz pasmar a gente! O que me dá no goto é isto de crescer e mingar o mar!... A senhora sabe a razão?
--Dizem que é effeito da attracção da lua.
--Da lua!--atalhou com espanto José Francisco.
--Sim, senhor, da lua; é o que dizem os entendedores; mas como se faz o fluxo e refluxo do mar é que eu não sei, nem mesmo me importa saber...
--Da lua!--tornou o commendador, olhando para a abobada celeste, e gesticulando mudamente com os braços, como quem se esforçava por entender a acção da lua sobre a agua, com um imaginario artificio de alcatruzes.--Da lua não póde ser!--disse elle por fim, com a energia e aprumo de Galileu, á sahida do carcere.
--Pois então não seja!--disse Silvina com enfado.
--Porque a lua--tornou José Francisco, com os olhos no céo, e os dedos das mãos afastados entre si--a lua está lá em cima, e...
--E o mar está cá em baixo...--atalhou a menina, espirrando um frouxo de riso.
--Ora ahi está! E a senhora ri-se!? Eu queria que os doutores me explicassem como é que a lua empurra o mar e puxa depois por elle... Ó snr. Guimarães! olhe aqui que vai já.
O snr. Guimarães era o linheiro, que estava a pouca distancia com Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de José Francisco, e ella principalmente attrahida por um tregeito da prima.
--Diga-me cá: vossê sabe como é que a lua faz isto de crescer e mingar o mar?
--Eu não estudei nada d'isso--respondeu o linheiro--mas, em quanto a mim, a maré cresce quando o vento é de mar, e minga quando o vento é de terra.
--Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!--acudiu radioso o commendador.--Mas da lua!... É que estava cá a minha Silvininha a dizer que era a lua. Quem lhe metteu isso na cabeça, menina?
--Foi alguem que estava a zombar de mim!--disse Silvina gargalhando francamente com Francisca da Cunha.
--Isso entendo eu... Agora--tornou José Francisco--se querem ir lá conversar sosinhos, vão, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns arranjos cá da nossa vida de noivos.
Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem occupar as cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas encontraram-nas tomadas por Leonardo Pires e Egas de Encerra-bodes.
Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo cederia a sua cadeira a Antonio José Guimarães; mas Leonardo não se moveu, e o linheiro estacou diante d'ambos, com os olhos fuzilantes sobre o da Maya, que assobiava apparentemente distrahido a canção popular, cuja letra é: _Muito bem seja apparecido n'esta funcção_...
Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. O linheiro, porém, bamboando a cabeça, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:
--O que vossê merecia, sei eu.
--Que regouga?--disse-lhe o da Maya.
--O senhor...--replicou Antonio José--ainda ha-de topar quem lhe dê uma boa lição.
--Vá-se embora--redarguiu Pires--Se não, atiro-lhe areia aos olhos.
--A mim?!--disse com um sorriso azedo o linheiro.
--E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio pôdre. Vá-se embora, homem, e diga lá á fidalga que não ame parvos, se não quer receber d'estas affrontas.
O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires tomou do chão dous punhados de areia, dizendo com semblante de quem brinca:
--Olhe que vossemecê leva!
Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez um gesto ao «terra-nova». O cão começou a tirar com os dentes pelas abas do paletó de Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala, que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não tem botas de cano alto, sahiria com as canellas estrincadas; e póde ser que os dentes do «terra-nova» procurassem afiar-se em porção das pernas, não abroqueladas das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que elle, de cauda cahida, veio rastejar-lhe aos pés.
Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse saber ao seu cão que nem todos os cidadãos traziam botas de cano alto.
Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra forrar-se á vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo, viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e descer agilmente as fragas resvaladiças, para se entremetter na desordem, que encontrou no periodo final do cão arremettendo ás pernas do seu amigo.
Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, cada qual em sua barraca, para se vestirem.
Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e onde só os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo mergulhava, e vinha com ella, até marrar nas pernas de José Francisco. Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o seu posto. José Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a marrada era infallivel. Á terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu mergulhar o monstro da Maya; este, porém, nadando com os olhos abertos, lá foi abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez.
José Francisco esbofava no mar como tubarão ferido. Sahiu á praia atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficára longe do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a via, resguardando-se de ser visto.
Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:
--Jorge de Sepulveda está acolá, minha senhora! Anda aquelle seu bom anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir, a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de José Francisco Andraens!...
CONCLUSÃO.
Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do Porto, a noticia do casamento de José Francisco Andraens com D. Silvina de Mello, observou que esta menina tinha muito mais juizo do que mostrava. As mães de familia citaram-na como exemplo ás suas filhas; e estas, bem que exteriormente se rissem d'ella, invejaram-na.
Ás suas amigas particulares dizia Silvina que o seu casamento fôra um sacrificio do coração á dignidade propria; por quanto, dous implacaveis homens, o morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando aos pés quantos deveres a civilidade impõe a sujeitos, que não podem ser amados, lhe andavam sempre dando desgostos, vergonhas, e descredito. Estes dizeres, comprovados por umas lagrimas que ella arranjava com prodigioso artificio, apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella mil maravilhas.
José Francisco Andraens arrijou de suas frequentes dyspepsias, quando o mundo e a medicina menos o esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam a contemplal-o á porta dos snrs. Pintos Leites, na calçada dos Clerigos, nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento. José Francisco estava um todonada melado de rosto; mas não lhe iam mal aquelles ares de noivo: tudo tem n'este mundo a sua hora e côr de poesia.
O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da morte e o balsamo da vida: morrêra-lhe o pai na vespera do dia em que Silvina casára.
D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas meninas com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte, local sagrado que dá luas de poesia a quantos parvos ha ahi que vão celebrar n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria, se não tôrpe, na essencia.
Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de muitas prosperidades a José Francisco e Silvina, estremeceu, empedrou, e invocou do anjo da piedade o desafôgo do pranto.
Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se não era o anjo da piedade, tinha em si um santo e mysterioso condão de espremer entre os dedos inexoraveis da sua philosophia algum tanto cynica, toda a peçonha dos corações, cancerados pelo amor.
Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda esta gente com as costumadas voltas do mundo.
O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se: REACÇÃO DA POESIA.
É o natural seguimento dos Annos de prosa.
FIM.
[1] Não vá entender alguem que o romancista está phantasiando. Quando Napoleão III casou com a condessa de Montijo, duas familias ventilaram em Portugal e porfiadamente, a origem dos Porto-Carreiros que levára a Castella os embriões da imperatriz. As familias litigantes eram os Porto-Carreiros da casa da Bandeirinha no Porto, e outros de igual appellido de Abragão, ahi para as cercanias de Penafiel. O pleito heraldico andou nas gazetas, e nomeadamente no _Portugal_, jornal realista do Porto. A critica oscillou longo tempo indecisa entre as duas familias, até que um dia, cançada de oscilações, cahia a rir deixando ás duas familias nobilissimas o direito salvo de enxertarem o imperio francez lá em casa.
[2] _V. do Arcebispo._
* * * * *
O ARREPENDIMENTO.
O ARREPENDIMENTO.
ROMANCE.
Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa velha, minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. Humildemente confesso que não ha sociedade mais deleitosa e agradavel, do que a de uma mulher que soube envelhecer. A sua conversação instructiva e divertida, é um inesgotavel thesouro de lembranças, anecdotas, observações chistosas e reflexões circumspectas, é finalmente uma revista do passado.
D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava á amenidade da conversa, a do caracter, que era brando e indulgente.
Quando tinha occasião de ir passar uma noite com ella, parecia-me que as horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, do que quando as gastava a distribuir finezas e galanteios ás mais formosas rainhas dos mais brilhantes salões. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para o relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o coração satisfeito e melhor.
A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me dita por D. Mafalda n'um d'estes serãos em que vos fallei.
Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua cadeira á Voltaire, tendo a seus pés, deitado em um cochim, o seu cãosinho querido; os olhos tinha-os semi-abertos, um sorriso nos labios, e parecia respirar com prazer a aragem, que, embalsamada pelas flôres do jardim, se coava pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella vinha indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um abuso de confiança; contei-lhe o succedido, e no calor da narração não poupei ao culpado as maiores imprecações, nem deixei de lhe dizer que desejava fazer-lhe todo o mal possivel.
--Devagar, meu querido amigo--me disse ella--não o julgava tão irrascivel, nem que tivesse tão pouca caridade para com o proximo. Sabe lá, se, com a vida, não tiraria ao culpado o merito de para o futuro se poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o momento em que lhe infringisse o castigo não seria o destinado por Deus para esse arrependimento?
--Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a expressão, um pouco subversiva da ordem social.
--Deus me defenda--me replicou--de querer que o culpado não seja castigado, e que a sociedade fique indefeza dos crimes que um seu membro praticou contra ella; quiz dizer sómente que devia deixar ás leis o cuidado de castigar o delinquente, e que o meu querido amigo, não devia, como individuo, fechar assim desapiedadamente o coração a todo o sentimento de commiseração por um desgraçado e infeliz, no coração do qual talvez ainda bruxelei algum clarão de virtude, que uma occasião favoravel e propicia, que se apresente, ainda póde despertar, e fazer com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e aproveitavel.
Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de cabeça, que são um protesto mudo e respeitoso, ella acrescentou:
--Está com paciencia para me aturar ouvindo uma historia, pois que ainda temos algumas horas?
Não recusei: uma historia era uma fortuna para combater a exaltação d'espirito em que estava.
D. Mafalda principiou assim:
--Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmãos, dos quaes, o mais novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcançado fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus commettimentos e especulações. Emilio da Cunha, á custa de muito trabalho e economias, pôde alcançar uma fortunasinha, que lhe permittia esperar com socego, o momento de descançar da vida laboriosa em que tinha vivido.
Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irmã, que tendo seguido seu marido á India, para onde elle tinha sido despachado, e não vindo nenhum d'elles a figurar n'esta minha historia, não lh'os recordarei mais.
Aconteceu que o irmão de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma d'estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu. Teve tal sentimento por este facto, que falleceu tres dias depois, atacado d'uma febre cerebral. A herança, que deixou, foram dividas e um filho.
Emilio da Cunha, que tinha um coração bondoso, e um caracter pundonoroso, para que a memoria de seu irmão não ficasse deshonrada, comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho para lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento louvavel, e digno de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma filha, para quem, passados quatro ou cinco annos tinha a procurar um casamento vantajoso.
Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha já 15 annos d'idade, mas o pai, inteiramente entregue ás especulações, e aos cuidados, que ellas trazem comsigo, descuidou completamente a sua educação, por isso o seu retrato moral, n'esta occasião, nada tinha de vantajoso; o espirito tinha-o completamente inculto; as noções que possuia do justo e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o respeito aos direitos d'outrem era para elle uma invenção estupida dos homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade consistia em fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou algum vislumbre de virtude, existia no coração de Roberto, ainda estava em embryão, por que se não tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai, cego pelas especulações, concentrava todas as suas faculdades intellectuaes na realisação d'um impossivel, não deixou Roberto de ir ao collegio, fazendo o que em termo escolar, se chama _gazear_, e gastava as horas d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e praças. D'ahi proveio o tomar relações com meia duzia de garotos, ou vadios, permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas acções, nem nas palavras. D'ahi nasceu a falta de respeito pela propriedade alheia, roubando os pomares; e o endurecimento de coração, castigando barbaramente animaes inoffensivos.
Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho era dotado, e a desmoralisação, que já se tinha infiltrado no seu coração, mas concebeu a esperança de o regenerar com desvelos, paciencia, e sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu poderosamente para a realisação d'este seu empenho, tão justo e louvavel. Era uma menina para quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e coração, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do coração os maus instinctos. Esta magia não teve menos poder sobre Roberto, do que sobre os outros, de sorte que a regeneração que elle soffreu, nos seus costumes e acções, foi tão sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados que tinha colhido.
Deu-se porém uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi desgraçada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma carta chegada n'um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da Cunha, que seu irmão mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser o seu mais proximo parente, herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens rusticos, e estabelecimentos industriaes é no que consistia a fortuna, dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, além de se não julgar com conhecimentos e forças para bem gerir a industria com que seu irmão tinha feito fortuna, não tinha desejo, nem queria expatriar-se. Foi até com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao Brazil tomar posse e liquidar a herança; parecia que um secreto presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a considerar como uma desgraça esta viagem, a que os sagrados direitos de sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender.
Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precauções para a tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de educação mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua idade, pois que já então tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de que até uma criança de 8 annos poderia zombar.