Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 11
Ás filhas chama-lhe suas, e não exclue d'esta propriedade o coração. O seu pensamento fixo d'elle é casar ricas as filhas. Rachel era querida de alguns amigos meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a ventura, se os encontros predestinados dos espiritos não fossem o mentiroso poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos, fui procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me disse foram: «Morreu Rachel! A minha alma foi com ella.» Pobre moço! bem sentia elle que já não tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por ignorados motivos, esquecido de tudo que fôra, tinha uma só reminiscencia, como se todo o seu passado se concentrasse n'ella... Vamos ao ponto, e desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os senhores não sabem ainda o que é olhar para o passado aos trinta e cinco annos, e vêr uma longa fila de espectros uns gotejando sangue, e outros lagrimas...
O poeta dissera isto tão do intimo amargurado, que nem Leonardo Pires deixou de o escutar com magoa. Jorge, já dorido de suas tristezas, não era para espantar que desse em lagrimas uma prova de sympathia á dôr alheia.
Proseguiu o romancista:
Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de Rachel. Quem os indicava, e negociava com ardis, e negaças ignobis, sobre serem immoraes, era o pai. Rachel detestava-os ambos. Manoel Pereira era um; o outro era brazileiro tambem, menos repulsivo, melhor alma talvez, e amigo do primeiro. Desde que se toparam a amar a mesma mulher, odiaram-se, intrigaram-se e depreciaram mutuamente os seus haveres, porque bem sabiam que Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que a pediu foi Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo não dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a victima.
N'este tempo, Manoel Pereira entra em transacções com o governo, e perde cincoenta contos. Ferreira, sabedor da perda, acolhe de novo o outro concurrente, e cede-lhe a filha. Este carecia de ir liquidar o seu negocio ao Rio de Janeiro. Mas, como a liquidação se detivesse mais d'um anno, Manoel Pereira aventura-se em especulações mercantis, estas prosperam-lhe, restaura-se das perdas, e rehabilita-se para esposar Rachel. O negociante, que sabia o anexim do passaro na mão, receia que o outro não volte, e quebra pela terceira vez o contracto. Rachel ignorava estas asquerosas mercadorias. Annuncia-lhe o pai que ella é esposa promettida de Manoel Pereira. A pobre menina quer defender-se primeiro com razões, depois com lagrimas. Tudo lhe é rebatido com indifferença, ou com palavras violentas de soberania paternal. Desde o dia em que se fizera definitivamente a operação commercial dos quinze annos d'um anjo formoso, como a esperança d'uma alma pura, com o homem de cincoenta annos, sem o desconto de alguma feição boa do corpo ou da alma, Rachel era perseguida pelo seu porco demonio de todas as horas. Se acontecia Manoel Pereira estar na sala, e a lagrimosa criança se demorava no seu quarto para encurtar as horas do supplicio, ia lá o pai buscal-a; e se as grosserias a não compelliam a aligeirar o passo, não era raro ameaçal-a de pancadas, e mesmo fazer executiva a paternal justiça. Quantas vezes Rachel entrou na sala, com as faces escarlates das bofetadas que o pai lhe dava como incentivo para saber aproveitar-se da fortuna caprichosa! Era esta a lastimosa situação de Rachel quando eu fui para o Brazil. Recordo todas as palavras que a formosa criança me disse a ultima vez que fallamos.--Tenha animo para a obediencia--disse-lhe eu--Bem póde ser que Deus a remunere d'essa virtude com imprevistas felicidades.
--Eu dou por terminada a minha vida--respondeu-me Rachel com os olhos enxutos--Tenho quinze annos, e ha tres mezes que olho para a minha existencia, como se ella fosse já longa de trabalhos. Os paroxismos hão-de ser rapidos. Sei que nem eu nem alguma de minhas irmãs podemos sobreviver á mocidade. Estamos todas feridas da mesma morte. D'aqui a pouco lançarei o coração em golfadas de sangue, e meu pai não terá remorsos de ter cooperado para a minha morte, por que elle já viu dous irmãos meus cahirem no verdor dos annos na sepultura onde cahiremos todos. Vá, que não me torna a vêr...
Eu sahi de ao pé de Rachel, com o coração opprimido, mas contente de mim porque chorava as primeiras lagrimas, depois d'outras que eu julguei serem as ultimas... Rachel casou. Não morreu. Mentiu-lhe o anjo que fallava áquella sua innocentissima alma. Vive. É uma agonia sem nome... O quarto de hora já lá vai. Agora, meus amigos, não venha mais o nome de Silvina como um escarro á face de Rachel. Até ámanhã, snr. Jorge. Depois d'estas reminiscencias, eu tenho um singular coração que se brutifica, e uma alma que detesta a sociedade. Boas noites.
XXI.
Cuidava o leitor que estava livre do sujo José Francisco Andraens; do estouvado Leonardo Pires; do nariz de Manoel Pereira; da erudição mythologica de fr. Antonio; do mettediço jornalista; da fidalga de Margaride, adeleira fraudulenta do seu roto coração; da Francisquinha da Cunha, promettida esposa do linheiro das Hortas; do morgado de Santa Eufemia, rival do Andraens; do Egas de Encerra-bodes, illustrissimo sangue neogothico; de Jorge Coelho, alma pura e candida e apaixonada até enfastiar o bom siso de quem nos atura, a elle e a mim; e, finalmente, de Rachel.
Ai! não me digam que estavam enfastiados de Rachel!... As lindas mulheres só enfastiam os seus maridos, e desagradam ás mulheres feias. Parece que a propria moral, severa como a directora d'um collegio, se compraz ás vezes de as vêr louquinhas, se o ellas são. A belleza é o poder moderador dos delictos do coração. Uns lindos olhos são a mais commovente rhetorica em defeza das culpas que a intolerancia lhes assaca. Um braço gentil, que descuidosamente se denuncia nu, abala o animo do juiz austero com mais vehemencia que a mimica de Hortencio e Mirabeau. O sorriso discreto, se não é bem despreso nem expressão de orgulho da culpa, abranda e enternece mais o peito abroquelado de indifferença, que a lacrimosa peroração dos que vingam apertar com os cilicios da piedade o coração de um jury.
Mas a que proposito cahe esta especie de defeza de Rachel?! Peccou ella, por ventura? Não, minhas senhoras. Rachel tem um só peccado de fraqueza; foi optar pelo marido, entre o marido e o suicidio. Desceu ao plebeismo das outras, que lhe haviam dado o exemplo da renuncia de si proprias, podendo afidalgar-se e ser unica pelo heroismo de se entregar á justiça de Deus, fugindo ás injustiças do mundo. A morte moral, que a sociedade inflige ás malfadadas, que a cupidez d'um pai acorrentou a um marido abominavel, se o coração, em phrenesis rompeu o grilhão, é, mais dolorosa que o suicidio tantas vezes, quantos são os repellões que a sociedade lhes dá até as engolfar no abysmo sem sahida.
Querem dizer-me que Rachel, se tivesse aceitado o beijo da morte, e fugisse ao beijo marital de Manoel Pereira..., (um beijo de Manoel Pereira, com aquelle nariz na vanguarda... santo Deus!) ninguem se lembraria do seu heroismo a estas horas? Dizem mais que o desdem da gente séria, e a censura da gente religiosa, e a irrisão da gente parvoa, e o contentamento de outra que Manoel Pereira iria escolher, entre mil, n'esta grande feira, fariam do suicidio de Rachel assumpto de reprovação e de affronta á sua exquisitice? Tambem o penso assim. Estou que ninguem já hoje se lembraria do pobre anjo que fôra queixar-se a Deus de o terem querido despir de suas pompas, de suas flôres, de sua aureola, de sua virginal pureza, para o prostituirem aos regalos d'um satyro revelho, que perdeu alma e coração no grangeio da riqueza, com a qual vem mercar um recreio para a sensação do corpo, abrazeado na vida ociosa! Ninguem se lembraria da nobre alma, que preferira deixar as graças do corpo aos vermes, para o não dar ao cêvo de uma besta-fera. Assim é; porém, se uma vez Rachel voltar o rosto de enojada do cadaver a que a prenderam; se a força, que o coração lhe fizer, tiver comsigo a força do exemplo bem succedido e quisto da sociedade; se o seu fragil batel de virtude, forçada e violenta, se desconjuntar e abrir, rebatido pela tempestade das paixões; se em fim, aquella honra, a constrangimento, e não de vontade aceite, se fôr a pique, a sociedade que dirá?
A sociedade--replica o leitor que a conhece e se conhece--a sociedade faz-se desentendida por cortezania; por conveniencia; porque sabe a historia do olho com trave, que se abria espantado de vêr uma aresta no olho alheio. A sociedade fez uma convenção tacita, de que é fiadora a civilisação. Em substancia, este contracto social dá os seguintes resultados:
1.º Respeitar a liberdade do coração humano, sem prejuizo do soalheiro das salas, em que é preciso entreter o tempo, e fingir a gente que não conhece senão as pessoas que estão fóra das salas.
2.º Fingir, outro sim, a gente que está convencido da tolice dos outros, para que os outros nos tenham em conta de boçaes de boa fé, e não de espertos sem pudor. Dá-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o mundo o lastima ou moteja; mas como a lastima e a irrisão cauterisam, sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de optima saude, e aproveita occasião de gemer pela molestia do seu amigo, gafado da mesma lepra. Estes dous homens, se se topam, e fallam da corrupção social, voltam as costas a rir um do outro, e vão cada qual por seu lado, espalhando a risada contagiosa.
3.º Não perdoar o que se chama «escandalo». Escandalo é não ter a sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico, tratando-o de nescio. Escandalo é tomar a serio as brincadeiras do coração, e vir dar alguem á sociedade uma prova de que despresa o contracto social. Escandalo é cahir da prostituição legal á honra do coração, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se; victimando o nome, o estado, e o que a inveja chama fortuna, ao goso de conhecer a liberdade na miseria. Escandalo, a final, o escandalo maximo e abominavel e imperdoavel é a mesma miseria.
A sociedade sabe que o crime é um dos elementos da ordem das cousas, e julga-o um mal necessario, sem o qual não haveria bem-aventurança nem inferno, nem anjos, nem demonios, e Deus seria inutil por não ter que fazer, visto que os theologos lhe não attribuem occupação que não seja julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo lhe pedem, ou conforme a sua espontanea misericordia quer. Ora, sem o crime, este complicadissimo funccionalismo, cujo presidente é o Creador do céo e da terra, do mar e do sol, da avesinha que regorgeia nas moitas, e do leão que atrôa os desertos, do homem como Alexandre e Napoleão e do homem como José Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia eu... eu! eu não dizia nada: quem dizia que o crime é necessario era o jornalista, amigo de Guilherme do Amaral, conversando na «Aguia d'Ouro» com Jorge Coelho, alguns dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da primeira parte d'estas biographias.
Vamos agora á historia.
Achou Jorge em casa de D. Marianna Ferreira o seu quarto e sala adornados com muito aceio e selecção. Melhor que isto, era o gosto de se vêr acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os filhos e filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como pessoa da familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de tristeza, que era natural, e das abstracções penosas, que tinham a sua razão de ser na dôr do coração.
D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio, que tão preciso é, chamado delicadeza, logo que Jorge lhe deu uma aberta, fallou na paixão, que o seu hospede tinha por Silvina, e nos desgostos, nascidos d'esse louco amor, para a sua querida Antonia.
D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era notorio, e talvez lhe exagerasse os defeitos.
Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de ouvil-a assim fallar na presença de suas filhas, que todas estavam presentes, salvo Rachel, a quem elle não tinha ainda visto.
Lembrado está o leitor de ter sahido Manoel Pereira zangado de casa de sua sogra, por que a maioria lhe rejeitára o parecer de não ser recebido Jorge em casa d'aquella. Como Rachel sahisse então da sua paciente annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que não queria relações com tal sujeito.
No dia seguinte, ao abrir da manhã, mandou preparar alguns bahus, entrou n'uma carruagem com Rachel, e foi conduzil-a a uma quinta, seis leguas distante do Porto, nas immediações de Barcellos. Quizera a submissa senhora despedir-se de sua familia; mas Manoel Pereira, franzindo as verrugas do nariz, e enviezando o beiço na sua ordinaria expressão de zanga, atalhou as intenções da saudosa Rachel, dizendo que a mulher casada não tinha familia senão seu marido. E Rachel, fitando os olhos coruscantes de raiva no nariz do esposo, disse com o fel do coração nos labios, que sorriam sardonicamente:
--Deus te livre que eu alguma hora me esqueça de que tenho uma familia, que não é meu marido... Se lhe eu perder o respeito a ella, se os estimulos de minha exemplar mãi me faltarem, tu verás então que eu não tenho outra familia.
O marido, arregaçando os musculos businadores, e as azas nasaes com elles, regougou:
--Põe lá essas doutorices em miudos, que eu não te entendo.
--Se me tu entendesses--redarguiu Rachel--nunca me forçarias a fallar assim á tua ignorancia.
Manoel Pereira cascalhou uma risada de velhaco, e coçou-se atraz da orelha esquerda.
Não se trocaram palavra no decurso de seis leguas. Rachel ia linda pelo escarlate da sua colera; e Manoel Pereira bufava, quando não cabeceava de somno jogando contra o hombro de sua mulher.
A gentil senhora, a espaços, encarava no marido, e dizia entre si: «Que destino o meu! Este é o homem, que me deram para a vida! Querem que seja d'este homem o meu coração! Ter uma só existencia, e curta como hade ser a minha, e hei-de sacrifical-a toda a esta cousa que vale duzentos contos de réis!
«Que aproveitou meu pai d'este monstruoso enlace? Que lucrou este homem em se aviltar para me chamar sua, se elle mesmo conhece que lhe obedeço abominando-o? Mas eu não devia soffrer, porque Deus bem sabe que fui levada de rastos, e que me perdi por ser boa filha, e me tenho atormentado para ser uma victima obediente dos calculos de minha familia! Calculos! quaes, e de que serviram? Quem foi feliz com elles?!...»
Estes mentaes soliloquios eram cortados por algum ronco pavoroso, ou espertar estremunhado do negociante de couros, quando não era uma pancada da mão esponjosa que algum sonho sacudia ao peito de Rachel.
Chegaram ao seu destino, e pouco depois as cargas da bagagem, e as criadas de Rachel. Manoel Pereira passou na quinta aquelle dia e o seguinte; ao outro, voltou para o Porto a fim de fazer uma carregação de couros, e activar uma leva de escravos brancos para o Rio de Janeiro.
Rachel, á hora crepuscular da noite d'esse dia, foi sósinha sentar-se nas escadas do cruzeiro, que defrontava com o portal da quinta, e então chorou as lagrimas represadas em tres dias de exasperada angustia.
Como tu serias linda alli de uma formosura do céo, Rachel! Qual Magdalena mais linda inventou o buril aos pés da cruz misericordiosa! E se anjo tu eras de purissima alma; se as mesmas lagrimas te depuravam de intenções culposas, que alegria não seria a do teu Creador, vendo-te assim incontaminada, com menos ventura que muitas que não tinham no coração uma fibra incorrupta!
Se a essa cruz voltares, n'outra tarde, a pedir perdão da queda, hão-de os anjos chorar-te, ó Rachel; mas pedirão a Deus que te leve para si e para elles, como se houvesses cumprido immaculada o teu desterro do céo.
XXII.
José Francisco Andraens venceu a morte, que lhe entrára no buxo, disfarçada nos dez pombos, que elle ceiou, em casa do visconde dos Lagares.
Das recahidas é que ia sendo impossivel salvar-se. Quando a medicina lhe empunha um caldo simples com meia onça de pão esfarelado, José Francisco desfazia meia gallinha na tigela. A inflammação gastrica reaccendia-se-lhe nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe os succos das tres barrigas até descorçoar rebatida pela brutal compleição. A final nem a medicina pôde acabal-o!
Ergueu-se José Francisco algum tanto abatido, um pouco pallido, quebrado de vista, e mal seguro das suas pernas zambras. Deu um passeio de carroção até á Foz, e almoçou com appetite. Voltou no dia seguinte, e almoçou duas vezes. Cubiçou pescada, por que a viu sahir das redes, e mandou cozer uma com cebolas e batatas. Depois de jantar, dormiu um somno de justo, com a barriga repleta, (cousa que não succede muitas vezes aos justos)--e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis de Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu, empinado sobre um penedo sobranceiro ao mar.
Tomada a refeição, José Francisco limpou o suor da papeira, e lambeu os beiços pulverisados do assucar dos pasteis. Depois descobriu a cabeça á bafagem fria do oceano, cruzou os braços em postura de quem medita, e pensou assim:
--Como isto é tamanho! Como se faria o mar? Por que será que o mar cresce e minga? Quantas pescadas haverá no mar? A gente sempre a comer peixe, e nunca se acaba!
Entrava José Francisco na solução d'estes problemas, quando a linha do seu horisonte foi cortada por um barco a vapor. Topetaram então com o sublime do engenho humano as suas meditações:
--E o vapor!?--dizia elle--Sempre os homens tem idéas! Pelos modos o que faz girar as rodas é o fumo do carvão! Uma cousa assim! E como a gente come boa carne a bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em que eu viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que qualquer cousa me trabalha cá no interior!...
Estas considerações entristeceram José Francisco, e o espectaculo do oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu do seu throno de caranguejos e algas, e foi dar alguns passeios na lingueta de pedra, onde então passeavam muitas familias.
Entre estas estava Francisca da Cunha conversando com Antonio José Guimarães, o linheiro; e Silvina de Mello procurando conchinhas na praia.
O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou a attenção da prima.
José Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a cabeça.
É preciso explicar o que o leitor já devia saber, se esta historia fosse contada com mais arte.
Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu estado, e teve quem lhe assegurasse que o illustre enfermo succumbiria ao typho, resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, disse-lhe alguem que José Francisco fizera testamento, sendo uma das verbas testadas aos seus parentes de Cozelhas a quantia de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, de que lhe era devedor Pedro de Mello, declarando a quinta hypothecada ao pagamento da quantia, e juros da lei.
Silvina não mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que viera ao Porto para apressar o casamento, tão indignado ficou da avareza do moribundo, que deu louvores a Deus de matar a tempo o villão, para que sua filha se não conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do sargento-mór d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, ao mesmo tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas ruas do Porto, exhibindo um rosto de amargura e uma gravata verde-gaio com alfinete de cabeça d'ouro rendilhada, Pedro de Mello disse á filha que seria prudente não dar de mão ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha soffrido um insulto apopletico, e não poderia viver longo tempo.
Silvina, anjo de submissão, accedeu á vontade paternal, e trocou algumas palavras com Christovão Pacheco, quando ambos immergiam no mar, e recebiam a unção conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em que pegou o desamuarem-se:
O morgado, ao aproximar-se a onda, dava urros, e mettia-lhe a cabeça com furioso impeto, perneando fóra d'agua. Como Silvina estivesse perto d'elle, viu que o sapato d'ourêlo n'um d'esses pinotes de arlequim maritimo, lhe saltára de um dos... dous pés--digamos dous pés por deferencia á historia natural.--E, quando o sapato, entumecido de agua, ia ao fundo, Silvina disse á banheira que apanhasse o sapato do cavalheiro. A tempo foi isto que o morgado o andava procurando á tona d'agua; e, como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mão da banheira, que lh'o atirava a elle, Christovão, bem assombrado, disse a Silvina:
--Obrigado á sua attenção, minha senhora!
--Não tem de quê--respondeu Silvina, sorrindo.--Porque não toma o senhor o seu banho mais quieto?
--Gosto d'isto assim;--respondeu o morgado.
--Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar cambalhotas na agua.
--Nada, não é, minha senhora; é que eu gosto de brincar com o mar; com o amor é que eu já não brinco.
--Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado seriamente; e o senhor zomba com as victimas d'elle...
--Eu é que zombo, minha senhora!... Não perca esta onda, que é boa.
O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de natação, deixando-se ir de costas no dorso da vaga, que o levou á praia.
Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se, e esperou, disfarçadamente, a sua mulher fatal. Sahiu Silvina da barraca, e deu de rosto com Christovão Pacheco. Sorriu-se, e respondeu á cortezia do fidalgo de Freixieiro. Deu alguns passos, procurando Francisca da Cunha; e, como a visse entre duas barracas protectoras conversando com o linheiro, sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado sentia caimbras nas pernas e saltos do coração. Girava em roda d'ella, puxado por magnetismo irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que fazia ás vagas: metteu a cabeça, e foi.
Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto de hora. D'esta conversação resultou ficarem convencionados para tomarem o banho juntos no dia seguinte, e assim nos oito dias que decorreram.
José Francisco Andraens convalescia da ultima recahida, quando teve noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do visconde dos Lagares, e deu procuração para ser demandado Pedro de Mello por um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes acontecimentos coincidiu a ida do commendador á Foz, e o seu encontro com Silvina em Carreiros. Agora está dada a razão de ter perdido José Francisco o tino, quando a viu á cata de conchinhas.
--Ó prima Silvina--disse Francisca--olha que está aqui o senhor commendador Andraens.
--Bem se lhe dá ella que eu esteja aqui ou em casa do diabo--disse com ira e amargura José Francisco.
Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom severo:
--Folgo muito em vêr restabelecido o credor de meu pai. Ser-me-ia dolorosa a sua morte, por muitas razões, sendo a primeira o receio de vêr meu pai soffrer alguma penhora a requerimento dos herdeiros do senhor commendador.
José Francisco respondeu com promptidão sem mudar de côr:
--Quem deve, paga. É como é. A senhora esperava ser minha herdeira?
--Não, senhor; esperava merecer-lhe a consideração de mulher que estivera para ser sua esposa. Esperava que o senhor não andasse jogando entre mim e meu pai com um punhado de ouro, que não vale para mim este punhado de conchas. Esperava, finalmente, que o snr. José Francisco Andraens não viesse por si mesmo certificar a conta, em que é tido, de possuir uma riqueza que é o seu flagello, e o das pessoas a quem empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se viu em perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha desembaraçado de todos os obstaculos para ser sua mulher, e testou a insignificante divida de meu pai, para morrer sem deixar saudades a alguem n'este mundo. Desde que v. s.ª praticou semelhante baixeza em que conceito queria que o eu tivesse?
José Francisco tartamudeou esta resposta: