Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Chapter 10
Rachel tem vinte e quatro annos. É encorpada, mas a robustez não desdiz da gentileza. Não tem attitude alguma de estudo, e parece esculptural em todas ellas. Nos mais communs movimentos ostenta graça, e garbo que vem de seu natural, e ninguem o dirá se a não tiver visto em toda a sua desaffectada singeleza no recesso das suas occupações caseiras. Quando Rachel está n'um baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era ella solteira, e teria quinze annos. Isto já lá vai ha quinze. Se eu me não lembrar do que ella era então, melhor me será despedir de mim esta bruta alma que nem para a saudade já serve. As minhas reminiscencias dão-me Rachel vestida de branco. Não lhe hei-de aqui chamar anjo, porque não foi essa a impressão. Era tudo magestade, tudo estatuario n'aquella criança; não a vi a descer do céo, onde os poetas teimam em ir buscar tudo que é excellente, como se o céo não fosse um puro congresso de espiritos que valem de certo lá muito mais do que pesam, mas que passariam desapercebidos nos nossos bailes, se não tivessem a esperteza de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu quando a vi lembrou-me a Grecia, as artes, em requinte de pompas, a numerosa familia das Venus, todos esses marmores eternos, que hão-de sobreviver á mythologia dos anjos, dos archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os vendo; nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem; poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando se o rancor lhes fuzilava nas pupillas; porém tu que paixão tiravas da alma toda amor, para a lançares de ti como um incendio que te abrasaria, se eu, se todos, que te viam, não tomassem de joelhos um quinhão d'esse fogo! Que haverá alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido electrico não basta a dizer o que é que vem de lá como corpo estranho que vos entra no seio, e vos não cabe na alma, e quer fugir ás ancias do coração que o aperta, e vos leva do amor ao transporte, do extasis ao phrenesi, do rir ébrio da felicidade ás lagrimas incessantes de noites desveladas! E, depois, porque não eram só os olhos o condão d'esta mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se quizerem, e o Creador, lá se avenha com os que o injuriam assim; mas que desigualdade diante do divino artista! Lembra-me que a um lado de Rachel estava uma menina de olhos vesgos; do outro lado uma senhora com um nariz impio; mais longe outra menina em torturas para esconder quatro dentes enclavinhados; além aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma laboriosa mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a estremecida creatura, com uma luz serena de céo n'aquella face em que se espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a adorarmos, a rever-se n'ella! Abençoada sejas tu de todas as venturas, que tão perfeita és, tão cheia de tua belleza, tão digna dos thronos da terra, já que o Creador, o teu Pygmaleão, te não arrebatou para si! Onde está, ó Senhor Deus das maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre nós que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, as riquezas da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe offerecer! De que barro, ó mão divina, fizeste o homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas que recende aquella virgem? Onde está o homem que...
O homem elle aqui está. É o snr. Manoel Pereira. Já quinou tres vezes. Feliz no jogo, infeliz no amor; é certo o proverbio... até com elle!
Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, cabeça quadrilatera, e plana como um queijo do Além-Tejo desde o occipicio até á cisura do coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de anatomia comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos arrastando cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina em fórma de fava. O nariz não tem canas; parece que é formado de parafusos. Começa do centro da testa por uma verruga, transforma-se em lobinho, ladea em pequenos abscessos escarlates, e pega no beiço superior, repuxando por elle de modo que o dono não póde exercitar as funcções olfactorias sem enviezar o beiço. Este nariz ha-de ser lithographado e distribuido aos assignantes, concluido o romance. O nariz é o homem. Quem o vir organisa o complexo de Manoel Pereira, como Cuvier recompunha o reptil iguanodo, e o megaterio.
Temos á roda da mesa a snr.ª D. Marianna e quatro filhas. É de notar em Rachel o typo perfeito d'aquella familia. A mãi, senhora de quarenta annos, é bonita ainda. Se a perfeição das raças é admissivel, nunca mais sensivel foi a gradação do aperfeiçoamento como entre D. Marianna e Rachel. Das outras filhas, uma é formosa, se bem que já ferida da tisica, que d'ahi a mezes a levara para o lado de uma sua irmã que a mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas primaveras, a das flôres, e a dos prazeres da vida. Outra é uma linda criança de doze annos, com os olhos de Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente com a mais bella é já casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de aspecto vulgar, posto que o não pareça entre outras que não sejam suas irmãs.
Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras polidas, sem embargo do trafego commercial em que labuta desde rapaz. Revela a esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo uso da boa sociedade em que desbravou as rudezas congeniaes, e as adquiridas nos seus primeiros annos.
Ácerca d'esta familia, outras miudezas seriam intempestivas agora.
Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que principia desde hoje a tomar as proporções d'um escandalo monumental.
XIX.
--Não sabes quem hoje me escreveu?--disse D. Marianna a Rachel, terminada a partida do quino?
--A minha Antoninha do convento.
--Sim? que novas lhe dá ella do filho? A mãi disse-me que a pobre senhora vivia muito consternada com a paixão do rapaz pela tal Silvina.
--Segundo me ella diz, continuou D. Marianna, o pobre Jorge está enfeitiçado, e cuida ella que a maneira de o desenguiçar é mandal-o para aqui, a fim de elle, á vista do comportamento de Silvina, se desenganar. Acho esquisito o remedio.
--O remedio é eficacissimo, snr.ª D. Marianna--disse o litterato.--O que a mim me espanta é ser uma senhora quem o receita. O fim da sua amiga é fazer com que o filho se sinta aviltado por amor de uma mulher ridicula. O amor rompe todos os tropeços, transige com muitos defeitos e mesmo vicios da pessoa ou... cousa amada; mas da mulher escarnecida é que não ha cegueira que o aproxime.
--Conhece a tal Silvina de Mello?--disse Rachel.
--Já a encontrei em algumas partidas na Foz, minha senhora.
--Que idéa fez d'ella? A sua apreciação deve chegar-se muito á verdade.
--Pareceu-me, respondeu o poeta, que era galante, e até mesmo esperta. Ouvi-a declamar acrimoniosamente contra uns folhetins que denomina _Felizardas_ as senhoras provincianas, e pasmei da imprudencia com que desprimorou as damas portuenses, chacoteando-as por um lado que é justamente, a meu vêr, o mais vulneravel da fidalga do Minho...
--Qual é?--interrompeu Rachel com vivacidade. O jornalista, reconhecendo a inconveniencia da resposta ajustada, fez, como por disfarce, esta pergunta:
--Não é certo estar tractado o casamento da tal senhora com um commendador fulano de tal Andraens?
--Assim dizem--respondeu D. Marianna--pelo menos cuido que...
--Parece-me que não é anno de fortuna para ella... atalhou o snr. Manoel Pereira, coçando a verruga media da aza esquerda do seu nariz.
--Por que?--disse Rachel olhando de través o marido.
--Por que o meu amigo commendador, desde que foi o baile do visconde dos Lagares, nunca mais se levantou, e vai cada vez a peor. O homem já soffria molestia interior, e comeu tanto á ceia, que esteve a rebentar-lhe a tripa... Ainda ha quem queira bailes!... Se elle estivesse em sua casa...
Rachel, prevendo que seu marido aproveitava o ensejo para uma enfadosa e desconchavada diatribe contra os bailes, cortou-lhe logo o fôlego comprido das tolices com esta fina ironia:
--Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus amigos... Com que então--continuou ella, voltando-se para o jornalista--o amor não será capaz de vencer a indigestão do noivo?
--Segundo ouço ao snr. Manoel Pereira--respondeu o litterato em tom lastimoso--a gentil menina está em risco de vêr o coração, que tão caro lhe era, romper-se, batido pelas explosões do estomago que rebenta, deixando a seu dono a gloria de morrer como Tito.
Rachel e uma das irmãs sorriam; Manoel Pereira desconfiou do riso da mulher, e disse mal encarado, com o nariz já roixo:
--Se elle quizesse mulher tão bonita e mais rica que ella, não lhe faltavam por ahi ás duzias.
--Ninguem contesta o dito de v. s.ª--redarguiu o escriptor.
--Mas o senhor parece que estava caçoando com o meu amigo...--tornou Manoel Pereira.
--É injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro irmãs dar-me-ia por ditoso se o seu amigo quizesse casar com todas quatro, e lamento não saber o segredo de um tal Lucius que Plinio viu transformar-se em mulher; por que se me eu podesse felizmente mudar em mulher, havia de galantear o amigo de v. s.ª, e morrer de amores por elle se uma indigestão rival m'o arrebatasse.
Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel Pereira, cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes côres desde o açafrão até ao talo da couve lombarda.
O jornalista continuou, fallando para D. Marianna:
--Tive tambem occasião de conhecer no hotel da Aguia d'Ouro o filho da amiga de v. exc.ª Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle coração em flôr. Que candura, que adoravel innocencia a dos vinte annos de Jorge... creio que se chama Jorge! E, ao mesmo tempo, que singularissimo typo de rapaz eu conheci com elle, e todos os dias encontro por ahi atraz de uma prima de Silvina, e de um tal Guimarães, linheiro, ou pregueiro, ou cousa que o valha... Que homem se fará d'alli, se o céo o não leva d'este mundo e d'esta sociedade que tanto precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V. exc.as de certo não conhecem Leonardo Pires de Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de D. Martim Pires da Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei Martim Martins, mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo não conhecem...
--Nem é preciso conhecerem--exclamou Manoel Pereira--É um patife, que concorreu muito para a doença do meu amigo Andraens!
--Eu não pensava--replicou o poeta--que Leonardo Pires era um alimento indigesto!... Se bem me recordo, v. s.ª disse ahi que a enfermidade do snr. Andraens era uma indigestão!
--Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro insultou-o no baile, o homem atrigou-se, e sahiu cá para fóra afflicto, e nunca mais foi bom.
--Não sabia isso; apenas me disseram que elle recommendára ao snr. Andraens que não comesse tanto; e quer-me parecer que este conselho, longe de ser insultuoso, tendia a prevenir a indigestão fatal que se deu.
--Deixemo-nos de contos...--instou o marido de Rachel.
O sorriso d'esta era já forçado por vêr que o jornalista não tinha a cortez caridade de conter as ironias que Manoel Pereira não percebia.
--E D. Antonia que diz, mãi?--interrompeu Rachel.
--Diz que Jorge Coelho vem para esta casa.
--Para esta casa?!--acudiu Manoel Pereira abrindo a bocca, e arregaçando o nariz até á testa.
--Não tenho n'isso duvida nenhuma--respondeu Bernardo Joaquim Ferreira, que tinha sahido e voltára momentos antes.--E dou-te parte, Marianna, que Jorge já está na hospedaria, e não sei se será dever meu ir já buscal-o esta noite. Aqui tenho um bilhete d'elle, pedindo-me que o desculpe de não vir directamente aqui.
--Como ainda é cedo, disse D. Marianna, podes ir buscal-o. O quarto está preparado. A mãi descrevendo n'um estado tal de amargura que eu tenho pena de o deixar sosinho na hospedaria.
--Mas ha um inconveniente--redarguiu o snr. Bernardo.--Tenho gente no escriptorio á minha espera para liquidar umas contas, e não posso deixal-as para ámanhã, que os negociantes são da provincia, e partem de madrugada. Se o snr. Pereira tivesse a bondade de ir á Aguia d'Ouro...
--Homem, eu a fallar-lhe a verdade--disse Manoel Pereira--tenho aqui n'este pé direito uns callos que me não deixam dar passada; se não da melhor vontade; mas, sempre lhe direi o que penso respeito á vinda d'elle para aqui. Eu não sei o que me parece metter n'uma casa onde ha meninas novas um peralvilho que não gosa dos melhores creditos, e que de mais a mais é amigo do tal Pires, que ha-de cá vir onde a elle, e o mundo pega logo a fallar pr'aqui, pr'acolá, e ás duas por tres... Em fim, meu sogro lá sabe o que faz...
D. Marianna replicou com vehemencia:
--O snr. Pereira não ouviu dizer aqui a este senhor que o filho da minha amiga era um moço muito digno?!
--Todos elles são muito bons, mas em minha casa é que elles não põem o pé.--Disse Manoel Pereira, e fez menção de procurar o chapéo.
Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor fazia figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas olhavam-se entre si com sorrisos rebeldes á prudencia. O bom Ferreira, apesar da sua superioridade relativa de sisudeza e bom senso, não deixou de vacillar ao choque das reflexões do genro. D. Marianna, porém, voltando-se com energia para o jornalista, disse-lhe:
--O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem embaraço a um amigo antigo?
--Faça-me a honra de mandar-me, minha senhora.
--Tem a bondade de ir á hospedaria, e acompanhar o filho da minha amiga, o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha mocidade o que não posso pagar-lhe d'outro modo?
O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapéo:
--Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um bilhete para que o não esperem. Até já, ou muito boas noites, minhas senhoras.
Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que não tinham na apparencia muito cabimento alli, fallou assim:
--Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo á mãi do meu hospede; escutem-me, e depois dirão se o filho de tal anjo não será digno de ser recebido como seu irmão. Eu fiquei orphã e pobre aos onze annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue á caridade da prelada, que me achou com habilitações para ser uma simples criada grave de convento. D. Antonia de Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasião, e era rica. Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para chegar ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a falsa piedade das ricaças do convento. Aceitei os favores da minha amiga, e tão suave era o dever-lh'os, que nunca me julguei devedora, se não depois que vim a esta sociedade conhecer o valor dos beneficios que recebi de Antonia. Vivi cinco annos á sombra da generosidade d'ella: prendei-me á sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada educação que nos davam no convento; e já depois que a minha amiga sahiu para casar obedecendo ás ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os presentes que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz, enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrança de amiga que lhe eu mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. Penso ha vinte e quatro annos no modo de ser util á minha querida Antonia; a Providencia depara-me agora occasião de velar as commodidades do filho d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa fé a dizer-me que devia ser outro o meu procedimento...
--Ninguem se atreve a tanto.--disse Rachel com enfado.--Eu, se minha mãi, por desgraça nossa, não existisse, levaria para minha casa o filho da nossa amiga, da protectora de nossa mãi. Se eu tivesse um marido que me quizesse roubar o prazer da gratidão em tão pequeno serviço, amaldiçoaria a hora em que meus paes me subjugaram a tal homem...
--Não te irrites assim, Rachel...--disse Bernardo Ferreira, ferido pelas palavras da filha, que lhe apontavam direitas á consciencia, onde as fibras do remorso doiam sempre.
Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as ventas hediondas, por onde vaporava a zanga.
O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do escriptor, dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia extremamente a delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia seguinte cumprir as ordens de sua mãi.
XX.
O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires sentado á banca. No semblante de ambos eram visiveis os signaes da altercação, que fôra interrompida pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava escarlate de febre, e anciado; o da Maya, se bem que de má catadura, esboçava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes caprichosos. Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita; Leonardo Pires, mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se, abraçou-o, e exclamou:
--Aqui está o teu medico, Jorge! o teu Christo, Lazaro!
--Temos _ecce homo_?! Dar-se-ha caso que o snr. Pires--disse o jornalista sorrindo--me prepare algum calvario?... Como está o snr. Jorge Coelho? O aspecto denota inquietação...
--Não é inquietação;--atalhou Pires--é a sina maldita d'este desgraçado que nos tortura a ambos...
--Todos temos o nosso demonio familliar, snr. Pires--tornou o escriptor--Socrates queixava-se do seu, e eram nada menos de dous os demonios do divino philosopho, sendo o peor dos dous uma tal Xantippa... Querem vêr que o snr. Jorge é energumeno d'alguma Xantippa ideal, que... (O jornalista escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi recebido em casa de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo contrafeito, respondia:
--Não, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do meu condiscipulo.
--Ó cavalheiro--clamou Pires irritado--diga ahi a esse ingrato quem é Silvina de Mello. Não se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e matar illusões queridas. A paixão de Jorge é uma nodoa que eu quiz delir-lhe do coração, á custa mesmo do meu descredito e abominação n'esta sociedade devassa. Tenha vossê a franqueza de dizer a esta criança o que eu tenho sido, já que eu tive a boa sorte de lhe referir ao senhor as minhas acções e palavras.
O romancista achou de riso a gravidade da appellação de Pires para o seu testemunho; mas perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e disse:
--O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de amisade ao snr. Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma menina em tudo respeitavel, menos na sua virtude.
--É de mais!--atalhou Jorge--Póde ser que Silvina mereça censura como inconstante, sem com isso...
--Deixar de ser virtuosa?...--interrompeu o poeta...
--Justamente.
--Não julga bem, snr. Coelho. A deshonestidade não póde ser virtude. A mulher que enfeira o coração, e o põe á concurrencia, mirando ás vantagens do pedido, poderá ser uma sagaz professora de economia politica applicada ás mercadorias do coração, mas virtuosa é que ella de certo não é. Para mim tenho que a virtude póde coexistir com a miseria da mulher perdida que não tem a hypocrisia de expor o coração á venda; porém, quero eu que não prostituamos a palavra, que é santa, cedendo-a á que cuida cobrir as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr.ª D. Silvina de Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia, encontrar occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu cá deixei, é uma senhora aleijada.
--Ainda mais essa!--atalhou Pires--Eu nunca dei pelo aleijão de Silvina!
--Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque. Que outro nome se ha-de dar á lamentavel enfermidade moral d'uma menina que desperta das suas illusões de infancia, esfrega os olhos, e começa a procurar em redor de si um homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais torpe, mais nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem alluido a sua virtude pela base, que é a vergonha. D'ahi ávante o pudor é uma mentira, as côres que sahem ao rosto são irrupções de sangue como as empigens, é um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo nos prostibulos. Que é o que bate no peito d'essa mulher, desde que a ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de sensações? Quando ella fallar nos affectos da sua alma, qual é de nós o que voluntariamente se immolará ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo ás Silvinas com expressões de candura e boa fé? O snr. Jorge Coelho tem a sinceridade de me dizer se me entende?
--Entendo; mas não creio que Silvina seja a mulher que o senhor qualifica.
--Eu não a qualifiquei ainda: o que eu quiz foi a certeza de que o meu joven amigo me entendeu a theoria: agora pertence á pratica o qualificar Silvina. Está o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto é uma questão de tempo. Faça as suas experiencias desde ámanhã em diante; mas tenha a condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos. Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o tinha, que estes amigos são raros. Outro objecto. A minha commissão não era vir discutir Silvina: Eu fui aqui enviado pela snr.ª D. Marianna Ferreira e seu marido a fim de conduzir o snr. Jorge a casa d'elles, onde foi recebida uma carta de sua mãi.
--Oh! bravo!--exclamou Pires.--Temos homem!
--Não atino com o seu enthusiasmo, snr. Albuquerque!--disse o escriptor.
--Que mulheres, que mulheres tu vaes vêr, ó Jorge!--continuou bracejando o da Maya.--As Ferreiras! a nata, a quinta essencia das mulheres bellas do Porto! E a Rachel! ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais indecente que fez o acaso estupido, a quem o Creador entregou a repartição dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos de antilopa! as mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se é que uma mulher d'aquellas precisa de ter alma para ser perfeita! Ó Jorge, tu estás curado! Quando vires Rachel, sentirás um coração novo, um coração caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu vi-a uma vez, e creio que se a visse segunda...
--Iria á missa dos Clerigos vêl-a terceira, não é assim?--interrompeu o poeta, rindo, com Jorge, dos transportes sinceros de Pires.--Rachel é uma bella senhora, e uma nobilissima alma--continuou o escriptor gravemente.
--Mas, segundo a sua theoria--atalhou de golpe Jorge Coelho--essa Rachel é uma das muitas aleijadas que por ahi ha. Não a conheço; mas sei que ella casou com um brazileiro hediondo e rico.
--Aquelle nariz!--disse Pires.--Tambem me quer parecer que a mulher pouco vale na alma, quando contemplo o nariz de Manoel Pereira!
--E eu creio que a sociedade--tornou Jorge--não desconsidera Rachel porque ella escolheu um homem rico, podendo ter aceitado a desinteressada pobresa e o coração opulento de muitos rapazes que a cortejavam. Já se vê que a opulencia d'um sordido não desluz aos olhos da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu por ella.
--São contos largos...--disse o romancista.--Custa-me que o cavalheiro confunda Rachel com Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho, Rachel supporta o supplicio de Mezencio, com a resignação que santifica a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras, se ellas podem existir. Não levo em paciencia o aggravo feito á pobre menina. Vou contar-lhe em quinze minutos a historia do casamento de Rachel. Bernardo Joaquim Ferreira conhece o valor do dinheiro, e duvida da existencia d'umas paixões, que podem vingar e prosperar sem dinheiro.