Chapter 5
Como tinham decidido os directores do «comité», um grande banquete se devia realizar no castello de Tournelle. Toda a nobreza da região tinha sido convidada para este banquete eleitoral que devia destruir a fortuna politica do sr. Ronquerolle, como diria o conde d'Orgefin. Foi convidado o senhor bispo de Dijon, bem como o vigario e quasi todos os curas de Saint-Martin. Não se tinham esquecido dos grandes industriaes da circunscripção, que dirigiam numerosos operarios e que convinha prender por qualquer delicadeza.
Quando chegou o dia fixado para o banquete, numerosas carruagens se viam chegar de todos os lados ao castello «de la Tournelle», conduzindo toda a nobreza.
Mancebos em «breaks» de caça, sorriam ás condessas, viscondessas, baronezas e ás velhas donas de castellos que vinham cooperar na manifestação contra a Republica.
Outros convidados, que na vespera tinham chegado a Saint-Martin, transpunham a pé o portão do castello, e, ás onze horas e meia, o grande salão estava completamente cheio. Não se esperava mais que o sr. bispo de Dijon que tinha promettido vir e que, como se sabia, se encontrava justamente nas visinhanças do castello n'uma viagem pastoral.
Meio dia soou, quando o ruido d'uma ultima carruagem se fez ouvir. Os lacaios correram ao seu encontro. Era a carruagem de monsenhor. O bispo vinha acompanhado do seu primeiro vigario geral e do seu secretario particular. A carruagem parou em frente do perystilo do castello e, sorrindo, de bom humor, o prelado desceu, sendo acolhido entre duas alas de admiradores, de mulheres elegantes e de lindos rapazes, levando, quasi todos, nas suas gravatas em forma d'alfinete uma flôr de liz.
O marquez «de la Tournelle» adiantou-se para receber o principe da egreja, dando-lhe as boas vindas.
O bispo, galante como um abbade do seculo passado, perguntou pela saude da marqueza.
--Senhor, disse o marquez, é o unico contratempo que temos em tão bello dia. A marqueza está um pouco adoentada e não poderá assistir ao banquete de que tenho a honra de vos offerecer a presidencia.
O bispo continuou a sorrir, mas intimamente, no fundo do seu pensamento, perguntava o porquê e a causa d'esta ausencia da dona da casa. As dignidades da egreja, padres, abbades, curas, vigarios, bispos, arcebispos e cardeaes, gostam de conhecer os segredos das familias. Nunca se deixam illudir pelas apparencias, pelos pretextos allegados; querem conhecer o fundo, a rasão, segundo a expressão popular, dos pequenos e dos grandes acontecimentos que se passam na intimidade dos lares, na choupana do pobre, como nos palacios dos ricos.
--«M.me de la Tournelle», disse o bispo de si para si, é uma mulher que vende saude. Que motivo mysterioso a tem presa nos seus aposentos, quando tudo a está convidando a apparecer?
Não obstante a sua perspicacia e o seu profundo conhecimento do coração o prelado estava longe de conhecer a verdade.
Acreditava em alguma discussão por amôr proprio entre marido e mulher, qualquer disputa interna, mas a supposição de que uma adultera estava em casa dos «de la Tournelle» não passára ainda pelo seu espirito.
«M.me de la Tournelle» recusára-se abertamente a comparecer ao banquete. Tinha havido uma scena entre ella e o marido, scena fria, sem violencia, sem longas explicações, mas mais do que significativa.
Fôra no proprio quarto da marqueza que se dera essa discussão. A bella Carlota fôra d'uma impiedade extrema. O marquez comprehendera que lhe era inutil insistir e que era prudente retirar-se em boa ordem.
A marqueza não cuidou mais da agitação politica do seu partido. O amôr vencera-a; Jamais tinha pensado em que semelhantes tempestades se desencadeassem na sua alma. Quasi que se não conhecia. A paixão que sentia por Ronquerolle invadira-a completamente como uma onda subita, e tudo aquillo que até então constituira o seu ideal submergira-se, obliterara-se, aniquilara-se quasi.
Começava a amar a solidão dos seus aposentos. Estava impaciente, febril. Tentava entregar-se á leitura mas a sua attenção divagava. Tomava rapidamente um livro, passava-o pelos olhos depois do que o lançava para o lado sem o ter lido.
O amôr invadia esta adoravel mulher, como a febre ardente invade uma doente. Coisa extranha! Soffria e era feliz ao mesmo tempo! O que experimentava era uma «melange» de dôr e de alegria, de inquietação e de esperança, d'orgulho e de medo. Louca d'amôr, passeava febrilmente no seu quarto quasi que fallando em voz alta, aproximando-se de vez em quando da janella e contemplando os prados, a relva e, lá no fundo, a pequena cidade de Saint-Martin.
--Amigo, amigo! dizia ella, pensando em Ronquerolle, que haverá em ti para assim me esquecer do que sou? Já não pertenço a mim mesma desde a nossa entrevista... Oh sim!... foi depois que te vi que me considerei feliz... Tua! Tua para sempre!
E, levando os dedos aos seus finos labios, enviou, como uma creança, beijos ao joven republicano e ao mesmo tempo toda a sua alma.
O banquete realista! A lucta dos partidos O triumpho d'uns e a perda d'outros! Que lhe importava isso? Nada d'isto a interessava no momento em que o imperioso delirio da paixão se apoderava d'ella e a torturava.
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O famoso banquete terminara no meio d'alegria geral dos convidados. A principio decorrera frio. A ausencia da marqueza tinha impressionado toda a gente. O seu logar, logar d'honra, ficara por occupar.
A sua cadeira vasia lá estava e cada conviva lançava muitas vezes um olhar involuntario para esse lado, fazendo, intimamente, os commentarios mais maliciosos.
Presidia o bispo, tendo sentado «vis-á-vis» o conde d'Orgefin. Ao todo os convivas subiam a noventa e cinco. Os lacaios, de calção, com as armas dos «de la Tournelle» bordadas nas fardas, faziam um serviço irreprehensivel sob todos os pontos de vista.
Os pratos exquisitos, os vinhos finos aqueceram pouco a pouco os cerebros, destravaram-se as linguas e a animação augmentou. D'Orgefin observáva os convidados e tirava um bom presagio das suas felizes disposições. D'uma sobriedade notavel, o conde não bebia senão agua, conservando o seu sangue frio. Ao «toast» fez encher a sua taça de «champagne» para levantar um brinde ao triumpho dos principios monarchicos, fazendo um «speech» enfatuado d'odio ao governo republicano.
Esperava-se um pequeno discurso da parte do bispo, mas a este, passaro bisnau, não convinha comprometter-se muito com o partido conservador. Intimamente, detestava extraordinariamente as novas ideias; via, com a morte na alma, os triumphos dos principios da Revolução, mas os membros da egreja são prudentes. O bispo gostava antes de estar do lado do cabo, como se diz em linguagem popular e quando o futuro estivesse mais conhecido, elle cuidaria do seu caminho.
Emquanto se festejava a causa realista no castello do marquez, os habitantes da pequena cidade de Saint-Martin estavam seriamente preocupados. Este banquete era um acontecimento que entretinha todas as conversações.
Em toda a parte se fallava d'elle; na pharmacia, na praça, na fonte, e em frente da «mairie» formavam-se grupos, dizendo cada um o que lhe appetecia.
Por uma necessidade natural de se encontrarem juntos os republicanos de Saint-Martin foram todos para os lados da «Poule Blanche». O presidente Kolri discursava a uma grande mesa cercado de Ronquerolle, Branche, Didier e Maupertuis. A maior parte dos individuos estavam de pé e, a cada instante se ouvia copos tocando o do candidato republicano.
Ronquerolle encorajava-os, fallava-lhes das lutas que encontram sempre n'um paiz a liberdade e a justiça que nascem, fazendo-lhes comprehender que, na maior parte do tempo, o luxo do rico é sustentado pelo trabalho do pobre.
O joven republicano estava d'uma pallidez excessiva. Devorado pela febre da ambição e do amôr, pensava nas suas aventuras de ha dois dias com a marqueza «de la Tournelle», deixando-se levar pela sua paixão. Todos os seus sentidos se sentiam presos d'uma languidez indefinivel.
A sensação dos beijos da sua amante parecia não poder deixar o seu rosto, não podendo ao mesmo tempo esquecer a sua lembrança.
Ignorava que, por elle, se recusara a comparecer ao banquete realista. Não suppunha que recordações amorosas tinha gravado no coração da bella Carlota.
Parecia que era elle Ronquerolle, que a amava com uma intensidade mais violenta, emquanto que, na realidade era a marqueza que tinha pelo republicano uma amizade mais profunda.
--Oh! meu Deus! dizia Ronquerolle, pensando na sua amante, quando poderei voltar a vel-a? Oh! minha linda amiga, quando nos encontraremos alfim reunidos, sós, no silencio da natureza e fóra do ruido das cidades?
E recordava os seus grandes olhos, o seu sorriso, a graça das suas longas tranças, a sua mão tão fina, os seus seios incomparaveis, o perfume da sua «toilette».
Separando-se, após a sua entrevista nos «Passeios», Ronquerolle e a marqueza prometteram voltar a encontrar-se em Paris, depois da eleição de 15 de julho.
--Voltarmos a encontrar-nos aqui, no campo, é impossivel, disse a marqueza. Perder-nos-iamos os dois inutilmente. Eu seria envilecida, expulsa, vilipendiada como uma mulher publica. Tu, meu querido, tornar-te-ias suspeito a todos os que defendes e pezar-te-ia sempre o teres-me comprometido. Sejamos prudentes. Partirei para Paris alguns dias antes de ti. Virás então juntar-te a mim e lá construiremos um ninho para o nosso amôr.
Ronquerolle recordava este plano delineado pela sua amante e consultava as datas.
--Ainda oito dias! dizia elle. Encontral-a-hei em Paris, n'esse immenso Paris, quando partir.
Já elle calculava que partiria no dia seguinte ao da eleição quer vencesse ou não o marquez.
O amôr e a ambição confundiam-se no seu espirito e no seu coração. No coração da marqueza só o amôr vivia. Ella amava-o e n'estas palavras se reunia tudo para si. Ronquerolle pagava em amôr, amando-a tambem, mas, dotado de faculdades poderosas, tinha antes d'isso, um fim a cumprir, e com esse fim esperava elle construir o pedestal do seu amôr.
VI
_Momentos decisivos_
O partido conservador, um momento enfraquecido, voltara de novo a cobrar confiança e serenidade.
O banquette do castello de «la Tournelle» produzira um grande alarido. Relatorios, habilmente redigidos pelo conde d'Orgefin appareceram em differentes jornaes e foram enviados a todos os eleitores.
A presença do bispo era commentada de muitas maneiras e fizera-se correr o boato de que Ronquerolle se encontrava extremamente desanimado a ponto de se dizer que renunciaria á sua candidatura.
Ronquerolle, porém, não perdia o seu sangue frio. Sem descançar percorria a circumscripção, reunindo os eleitores nas salas da estalagem onde repousava. O seu «comité» trabalhava na expedição das profissões de fé, boletins para votos e nos cartazes. Branche, Didier e Maupertuis redigiam os numeros do «Reveil» que saía agora tres vezes por semana.
Um facto que preocupava extraordinariamente o publico era o silencio subito do barão «de Quérelles». No principio da campanha eleitoral, viram-no lançar-se abertamente na lucta e tomar o partido, senão, por Ronquerolle, ao menos contra o marquez «de la Tournelle»; passados, porém, quinze dias o barão emudeceu e tornou-se quasi invisivel. Áquelles que se lhe approximavam e que o interrogavam respondia que era necessario esperar para a ultima hora para poder inclinar-se definitivamente para um dos partidos.
Uma colera estranha se apoderara do barão. Sentia-se indisposto com todo o mundo; contra o marquez, contra a marqueza, contra Ronquerolle e até contra si proprio. As suas manobras não tinham dado resultado algum e conhecia que afinal era mais do que o tolo da farça. O seu zelo na lucta afrouxava por isso, não saindo, quasi, do seu castello.
Alguns dias antes do dia 15 de julho, data fixada para as eleições, o barão levantou-se uma manhã com mais mau humor do que o do costume. Maltratava os criados, dava ordens que annulava d'ahi a momentos, passeando com impaciencia e anciedade n'uma galeria, contigua aos seus aposentos, e que dava sobre o jardim.
Quando um dia estava assim preso da irresolução e do desgosto de vêr que a bella Carlota se lhe escapava uma vez ainda, vieram annunciar-lhe que uma deputação d'eleitores o procurava para lhe fallar.
Feliz por ter essa nova distração no meio dos seus desgostos internos, desceu para fallar aos que o procuravam. Na sala encontravam-se assentados uns quinze homens.
Viam-se muitos «maires» influentes dos arredores da cidade e lavradores de blusa que esperavam de chapeu na mão.
--Vejamos, senhor barão, disse o mais velho dos eleitores presentes, por quem devemos votar nas proximas eleições? Vimos pedir-vos este conselho. Faremos o que o senhor barão nos ordenar.
Estas palavras envaideceram o amôr proprio do barão «des Quérelles». Sabia bem que a delegação que se encontrava na sua frente representava bem umas vinte communas importantes.
--Ah! scelerado marquez, pensava elle, depende de mim a tua sorte e vós, senhor repuplicano, tendes a vossa eleição na minha mão.
Após este discurso mental, o barão voltou a ter o bom humor antigo.
--Meus senhores, disse, dirigindo-se aos eleitores, estou immensamente envaidecido com a vossa resolução. Dar-vos-hei, sinceramente o meu conselho. Mas a questão merece um exame muito cuidadoso. Convido-vos para almoçardes commigo e antes que nos separemos, tomarei as minhas resoluções energicas.
Na realidade, o barão não sabia que responder aos eleitores que o vinham consultar. Como todos que se veem embaraçados pediu tempo para reflectir. Se por um lado, odiava de morte o marquez por que fôra o rival que «m.elle de Champeautey» lhe preferira, por outro lado custava-lhe favorecer a eleição de Ronquerolle.
Não comprehendia bem porque este homem lhe inspirava tal anthipatia mas o certo era que o aborrecia.
Adivinhava que este senhor Ronquerolle havia de ser mais tarde um obstaculo aos seus desejos, porque o arrebatado barão não renunciara á esperança de possuir mais tarde ou mais cedo o coração da bella Carlota.
Durante os preparativos do almoço, os homens da delegação foram passear para o parque do barão, que por sua vez se retirou para o seu gabinete de trabalho, preso d'uma perplexidade inquietadora.
--Meu Deus! que hei de aconselhar a estes homens? Se lhes digo que votem por esse tolo do marquez «de la Tournelle» saberá a marqueza reconhecer que é a mim que deve o não ver o seu orgulho e o seu nome humilhados? Se os aconselho a deitarem a sua lista pelo Ronquerolle quem me assegura que a sua eleição não vem pôr uma barreira invencivel entre mim e a minha paixão?
Torturado pela duvida o infeliz barão não sabia para que lado se havia de voltar, quando o creado lhe entregou o ultimo numero do «Echo da Borgonha», o jornal monarchico que pertencia ao marquez. Abriu, e de vermelho que estava, tornou-se pallido como cêra. Na primeira pagina do jornal destacava-se em normando um suelto ironico que lhe dizia respeito. O auctor do pequenino artigo troçava do barão pela sua pequena estatura e fazia insinuar que a pequenez da sua intelligencia estava na proporção da do seu corpo.
Era ferir a corôa sensivel. Este artigo afiado como a lamina d'um punhal, pôz fim ás suas hesitações e decidiu da eleição do circulo de Saint-Martin.
Ah! é isso? Pois bem! disse o barão. Senhor «de la Tournelle», meu amigo, ficarás fóra da lucta, serás vencido, assim o espero. Feliz Ronquerolle, um bom genio te protege!
O barão «des Quérelles» desconhecia por completo a grande verdade que dissera. Sim, um bom genio protegia Ronquerolle. Sim, a felicidade vinha para elle. Que artigo perfido! Quem o redigira? Quem sacrificára assim a vaidade d'um barão? Quem tanta sorte dera a Maximo?
Quem? A propria marqueza «de la Tournelle». Louca pelo seu amante, capaz de fazer por elle todos os sacrificios, não pensando senão na sua fortuna e na sua gloria começou a por ao seu serviço toda a artilharia dos seus ardis femeninos.
«Des Quérelles» estava alegre, como um homem que acaba de tomar uma resolução. O seu caracter colerico encontrou em que se empregar, durante o almoço que offerecêra aos eleitores inflúentes que tinham vindo consultal-o.
--Bebam, meus amigos! dizia aos seus hospedes. Viva Deus! Vamos, finalmente, ver-nos livres d'esse magrizela do marquez. Está entendido, não é assim, no proximo domingo votaremos como um só homem no bello Ronquerolle. Eis um que têm sorte.
Os convivas, bravos lavradores e vinhateiros, bebiam vinho puro, comendo constantemente e rindo á vontade ao ouvir os gracejos do seu amphitrião. A conversação foi declinando a pouco e pouco da politica para os boatos que corriam na cidade e na região. Fallou-se da marqueza, de «M.me de Beaumenard», a mulher do banqueiro; de «M.me Desbroutin», a mulher do notario.
--Parece que esses senhores, dizia o barão, não teem muito que se queixar do periodo eleitoral. Vamos, tanto melhor! Os tres parisienses não vem para aqui só para trabalhar, os galhofeiros; levam-nos, porém, o melhor. O que está nas boas graças da gentil «M.me de Beaumenard» é um finório. Ah! que linda coisa é a mocidade!
O almoço terminou alegremente, como havia começado. Tomou-se café no jardim, onde pouco depois se bebia tambem cerveja. Eram apenas tres horas da tarde. O barão fez a ultima recommendação aos seus hospedes:
O «mot d'ordre» é que o marquez tem de ser vencido. Ide, meus amigos, e levae por toda a parte a boa nova!
Estas palavras deviam dar a Ronquerolle tres mil e setecentos votos. A intelligente marqueza tinha calculado bem, redigindo ella mesma o artigo contra o barão, para excitar a sua colera e para o fazer sair da sua reserva.
Ficou louca d'alegria e louca d'amôr quando soube da resolução de «des Quérelles». Era o bom exito da lucta de Maximo assegurado.
--Ó meu querido amante, dizia ella, sou eu que te abro o caminho da fortuna e da gloria. Serás tu fiel, ao menos?
O caracteristico do verdadeiro amôr foi sempre o sacrificio pela pessoa amada. Sacrifica-se tudo por ella, por ella se affrontam os perigos e a morte, por ella se commettem prodigios, por ella se perde o apetite e o somno e se é feliz com este tormento, com esta dôr, com este mal implacavel que invade todo o nosso ser.
A soberba Carlota estava no paroxismo da paixão. Calma na apparencia sentia-se devorada pelo frenesi do amôr. Passeando no seu jardim, sentia-se tão dominada pela imagem e recordação do seu amante que a custo caminhava. Uma languidez indizivel a fatigava. Podia-se tomar por uma d'essas deusas antigas que atravessavam os bosques sagrados da Grecia e que desappareciam n'uma nuvem azul. Jámais visão tão bella podia inspirar um poeta. Jámais a incarnação da vida se tinha manifestado n'uma mais nobre creatura!
Ronquerolle sentia-se falto de energia.
No ultimo sabbado, vespera da eleição, esteve dominado por um febre ardente. A inquietação devorava-o. Sairia vencedor do escrutinio? Iria de novo passar á obscuridade? Além d'isto o amôr de «M.me de la Tournelle», como uma ferida incuravel, invadia-o, torturava-o, dominava-o. Elle, um homem forte, o cidadão inflexivel, sentia-se vencido por essa mulher, por essa sereia de cabellos loiros.
--O destino! Ella sacrifica-se por mim emquanto que eu, egoista, onde está o meu sacrificio?
Uma agitação extraordinaria o reteve durante as horas em que se procedeu á abertura do escrutinio.
Os partidarios do marquez percorriam a cidade e os arrabaldes, fazendo promessas a uns, ameaçando outros, espalhando profusamente por toda a parte as listas.
Por seu lado os partidarios de Ronquerole não ficaram inertes.
Durante toda a noite de sabbado para domingo desenvolveram uma energia sem igual a fim de levarem os operarios a votarem no candidato republicano. Luctavam com a intrepidez da ultima hora, com a coragem suprema que tem o soldado quando está prestes a derrotar o inimigo.
Quando, no domingo de manhã, o escrutinio se abriu, os dois partidos estavam perfeitamente calmos. O momento decisivo approximava-se. Viam-se grupos formados na praça publica e que depois se dirigiam a votar á mairie. Misturavam-se os amigos e inimigos politicos; uns chasqueavam o marquez de «la Tournelle», outros riam-se de Ronquerolle.
Este ultimo abatido pela fadiga e atormentado pelo desassoçego não abandonou o leito n'este domingo fatal que ia dicidir a sua sorte. Victima da ambição, debalde tentava adormecer. Elle proprio tinha censurado o seu procedimento e só o seu amigo fiel, Branche, estava junto d'elle absorvido pela mesma incerteza pelas luctas do futuro.
O escrutinio fechou-se ás seis horas, começando immediatamente o apuramento de votos. A sala da «mairie» estava completamente cheia. Os eleitores presentes escutavam silenciosamente a contagem dos votos.
Alternadamente escutavam-se os nomes dos dois candidatos.
--Sr. de la Tournelle!
--Sr. Ronquerolle!
Cêrca das nove horas os murmurios d'alegria ouviam-se já entre os operarios. Vencia o cidadão Ronquerolle, segundo todas as probabilidades. Tinha a maioria de 1500 votos só na cidade de Saint-Martin. O ruido d'esta vitoria estalou como uma bomba de dynamite.
Uma multidão compacta que esperava as noticias em frente á casa da camara, gritou instinctivamente: Viva a Republica!
Este grito resoou pelo silencio da noite como o ronco d'um trovão. O seu ruido fez-se ouvir no castello feudal do marquez de «la Tournelle» e gelou de terror os realistas que se encontravam reunidos no salão.
--A canalha triumpha disse friamente o conde d'Orgefin. Escute estes gritos marquez! Tenho receio de que tenhamos sido batidos!
De minuto em minuto chegavam estafetas das communas, succedendo-se sem interrupção os telegrammas. Por toda a parte o candidato republicano saía vitorioso.
Cêrca da meia noite a victoria definitiva de Ronquerolle foi proclamada. Vencera pela maioria de quatro mil seiscentos e vinte sete votos. Foi um delirio entre os republicanos.
O «Poule Blanche» illuminou-se, organisando-se grupos que cantavam pelas ruas hymnos patrioticos. Ronquerolle não podia acreditar no seu triumpho. Tinha os olhos cheios de lagrimas continuando a ser devorado pela febre.
Foi preciso que se mostrasse á multidão, da janella, entre bandeiras tricolores e illuminações. Estava pallido como a morte. Quando se fez silencio pronunciou um d'aquelles discursos que inflamam as imaginações e fazem transbordar os corações d'enthusiasmo.
Durante quasi uma hora, o intrepido mancebo fallou á multidão da maneira a mais patriotica. A sua fadiga desappareceu deante d'esses homens rudes e valentes que o applaudiam freneticamente. Quando de novo recolheu ao seu quarto, quando já tinham terminado todas as manifestações, Ronquerolle encontrou-se fresco e bem disposto, tendo-lhe desaparecido a febre; tinha passado a hora d'angustia.
Subia, finalmente, a essa tribuna que tanto ambicionava. Os obstaculos que lhe impediam o caminho desappareceram como uma nuvem ligeira. O caminho do futuro, apparecia claramente agora aos seus olhos. Estava satisfeita a sua ambição.
--Restava-lhe ainda a amante. Ronquerolle passava a maior parte da noite a escrever-lhe.
Toda a poesia da sua natureza inquieta e apaixonada se desenvolveu livremente e as palavras mais ternas sairam da pena.
--«Mulher adorada, escrevia Ronquerolle, devo-te a primeira gloria da minha carreira! Sê bemdita, porque me ajudaste, porque foste immensamente corajosa para sacrificares por mim os prejuizos da tua raça; porque, afinal, tu sacrificaste-te... Que farei eu para recompensar o teu amôr que tão alto vae? Ah! no inicio da minha carreira, pobre, obscuro ainda, não tenho senão a minha mocidade para te dar, a ti minha encantadora e bella amiga, incomparavel Carlota, a ti, cuja graça me encanta, a ti cujos olhos azues me fazem louco, a ti cujo ser me enebria!...
«Que dias felizes eu antevejo! Que ideal visão me persegue! Que nobre destino eu entrevejo para ti e para mim, cara e mysteriosa amante!