Amôres d'um deputado

Chapter 4

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--Quem sabe, dizia, o que será aquella mulher, que sentimentos lhe dominam a alma, sobretudo depois da desillusão que deve ter sentido após o seu casamento com esse estupido marquez.

Era digno de ver-se o homemsinho, passados dois dias, pavoneando-se sobre os elevados saltos das suas botas, fumando o seu cigarro.

--Vamos! Vamos! pensava, tudo caminha á mercê dos nossos desejos. Declaro guerra aos «de la Tournelle», colloco todas as minhas baterias em campo, excitando os eleitores contra elles... A marqueza pedir-me-ha treguas na lucta, enviar-lhe-hei um parlamentar e tudo conseguirei; será finalmente o resumo de todas as minhas esperanças, de todos os meus desejos. Quanto aos candidatos, elles que se arranjem, que resolvam o caso como entenderem. Se porém ainda assim a marqueza continuar a mostrar-se esquiva, será Ronquerolle o novo deputado por Saint-Martin.

Domingos de Quérelles adquiriu então uma rara actividade junto dos eleitores, em toda a parte. Este liliputiano mexia-se como um diabo n'uma pia d'agua benta. Entrava nas choupanas, conversava com os operarios, pagava-lhes de beber, comia com elles, acabando sempre as suas conversas pela politica.

Em breve em todas as communas se espalhou a noticia de que o barão advogava a candidatura de Ronquerolle. Foi uma surpreza para o castello. O conde d'Orgefin, presidente do «comité» conservador, era d'opinião que se devia tomar uma medida energica, e em plena reunião de todos os marechaes do partido reacionario ficou planeada. Devia convocar-se, no castello do marquez «de la Tournelle», a reunião dos oitenta a cem proprietarios influentes da circunscripção; coroaria a reunião um grande banquete.

--Que reles canalha que é este barão «des Quérelles!» dizia uma manhã o conde d'Orgefin ao marquez. Hein! Comprehendeis este homem? Excitar a população contra nós! Defender um Ronquerolle! Romper abertamente com as tradições da sua familia! Ah! marquez, é preciso que não nos enganemos, se o barão fôr contra nós até ao fim da lucta, perderêmos votos, mesmo muitissimos votos.

--É uma vingança de biltre, respondeu o marquez. O barão «des Quérelles» é um poltrão. Morde cobardemente, receando encontrar-se frente a frente commigo, não dizendo a causa da lucta porque tem d'isso vergonha. Sabeis por que elle nos odeia a este ponto?

--Sim, sei, meu caro amigo, respondeu o conde. O tôlo, queria desposar a marqueza, e não vos pode perdoar o terdes vencido na conquista do coração da marqueza, calcando assim os seus caprichos. Tratemos, antes de tudo, de o atrair; depois de feita a eleição, lançamol-o á margem, desprezamol-o como a uma casca de laranja.

Emquanto todo este alarme se produzia no castello perante o seu procedimento e emquanto o seu nome era injuriado, tratava o barão de gosar deliciosamente os golpes que desapiedadamente despedia sobre os seus adversarios.

Via-se atravessar de carruagem as ruas de Saint-Martin, guiando os seus cavallos, e cumprimentando significativa e affectuosamente os democratas mais avançados.

N'uma occasião em que na praça publica atravessava com a sua carruagem, encontrando por acaso o bravo Kolri, presidente do «comité» republicano, disse-lhe em voz alta de maneira a todos ouvirem:

--Sabei, pae Kolri, que sou dos vossos de todo o coração. Fazei-me o favor de dizer a esses senhores, M. Ronquerolle e aos seus amigos de Paris, que lhes desejo fallar. Alem d'isso tenciono ir á reunião publica na quinta-feira á tarde. Pouco me importa o que digam de mim. Logar aos homens intelligentes e nada de deputados sem valor!

O barão «des Quérelles» dispunha de tres a quatro mil votos. Era um influente nada para despresar n'um escrutinio onde só votavam dose mil eleitores.

--Tenho o castello nas minhas mãos! dizia o barão n'uma ceia, quando bebia cognac em companhia dos seus amigos.

No fundo da sua consciencia pensava:

--Serei o senhor da soberba Carlota que sem duvida capitulará por ambição. Como ella me tem feito soffrer! Como me tem despresado!

Emquanto o marquez «de la Tournelle» e o conde d'Orgefin tratavam da sua reunião plena das fôrças conservadoras, emquanto o colerico barão «des Quérelles» meditava como Machiavel e punha a sua influencia politica ao serviço das suas paixões amorosas, os tres amigos de Ronquerolle, Branche, Didier e Maupertuis, não perdiam o seu tempo. Os rapazes, arrojados para as mulheres, como todos os jornalistas, produziam estragos terriveis nos corações das burguezinhas de Saint-Martin.

Ronquerolle e os seus amigos tinham sido convidados para uma pequena «soirée» em casa do mestre Desbroutin, notario republicano da cidade, que não temia defender as suas opiniões democratas e que alem d'isso, possuia uma bella fortuna. Desbroutin era ao mesmo tempo um bom «vivant» amando os prazeres da mesa e tendo sempre a sua despensa bellamente fornecida. Recordava muito as suas travessuras de rapaz no tempo em que vivera na capital. Havia muito tempo que isto accontecera, ha pouco mais ou menos vinte annos. Que praser sentiria, ao receber em sua casa os quatro parisienses com os quaes conversaria dos tempos passados e das suas loucas amantes.

Ás nove horas da noite, Branche, Didier e Maupertuis fiséram a sua entrada no salão de M.me Desbroutin, uma senhora loira, pequena e nutrida, muito amavel, muito simples e muito mais nova que seu marido.

--Como, meus senhores, vindes sós? O sr. Ronquerolle não vem?

--Perdão, sr. Desbroutin, respondeu Maupertuis, o nosso amigo está preparando n'este momento um discurso politico mas estará aqui antes d'uma hora tendo-me encarregado de vos apresentar as suas desculpas.

Tinham já chegado muitas pessoas, toda a burguesia descontente de Saint-Martin; todos os que nada tinham a esperar do castello e que não podiam por mais tempo supportar que os cavallos e os trens do marquez os continuassem a enlamear, tinham sido convidados por mestre Desbroutin.

As mulheres vinham acompanhadas de seus maridos. Desbroutin andava por todos os lados a explicar que não tardaria a chegar o sr. Ronquerolle, a quem uma pequena occupação detinha em casa. Esperava-se só por elle para ser servido o chá. Quasi todos os homens se tinham retirado para o gabinete de trabalho do notario, que se seguia ao salão e onde fumando, se entretinham a fallar das eleições.

Maupertuis fallava no meio d'elles, Branche e Didier tinham ficado perto das mulheres a quem contavam como no inverno se passava a vida em Paris e como ella era immensamente mais divertida do que na provincia. Alem d'isso, Branche testemunhava uma sympathia particular a M.me Desbroutin, emquanto que Didier fazia evidentemente a côrte a M.me Beaumenard, a mulher do banqueiro Beaumenard. Esta tinha um espirito romanesco. A sua maior felicidade consistia em lêr folhetins e ser heroina ideal das mais ternas aventuras.

--A vida sem paixão, dizia-lhe eloquentemente Didier, é semelhante a um deserto arido. É um pouco a minha, e nem vós calculaes, senhora, o quanto tenho soffrido pelo coração. Ah! Se não fôra a politica por onde faço carreira e que me faz esquecer as amarguras da vida, seria o homem mais infeliz da terra.

A graciosa M.me Beaumenard estava encantada com esta linguagem. Encontrava vivas, nas palavras do fino e amoroso Didier, as tiradas apaixonadas que a faziam quasi chorar nos seus livros. Branche, pelo seu lado, tinha levado a linda mulher do notario até ao precipicio encantador mas perigoso das confidencias amorosas.

Eram onze horas quando chegou o barão «des Quérelles». Desbroutin tinha-o convidado verbalmente e sem ceremonia. O barão promettera vir e viera com o fim d'excitar os espiritos contra o marquez «de la Tournelle». Pretendia ao mesmo tempo conhecer de perto e assegurar-se por si proprio se o joven deputado republicano era realmente o homem intelligente de que lhe tinham fallado. A presença do barão interrompeu por momentos a interessante conversação de Branche com M.me Desbroutin. Quanto a Didier, aproveitou o vae-vem dos convidados e a curiosidade que se fizera em volta do barão, para apertar docemente a mão de M.me Beaumenard que lh'a retirou, é verdade, mas sem muito esforço.

Ronquerolle entrou finalmente no salão. Apresentou as desculpas da sua demora, sendo facilmente desculpado. Desbroutin apresentou-o ao barão, ficando os dois a conversar. Desbroutin andava radiante. A pequena «soirée» fôra ainda além dos seus desejos e no dia seguinte todo o mundo o invejaria.

Ronquerolle escutava attentamente o barão «des Quérelles». No fundo desconfiava d'este homemzinho que tão calorosamente defendia a causa republicana.

--Que interesse poderá ter este barão, pensava, na actividade que desenvolve contra o representante da sua casta, contra o meu adversario? Evidentemente não trabalha por convicção. Ha pois, na sua conducta um mobil occulto. Qual será?

E Ronquerolle, com o seu olhar penetrante, mirou o barão dos pés até á cabeça.

Pelo seu lado o barão tratava de sondar o espirito de Ronquerolle; abordou successivamente todos os assumptos para ver até que ponto podia confiar n'elle.

Ronquerolle exprimia-se com a maxima clareza sobre todas as questões politicas, mas fóra d'isso conservava-se impenetravel. Bruscamente, «des Quérelles» interrogou d'esta maneira o joven candidato:

--Conheceis a marqueza «de la Tournelle?»

Ronquerolle empallideceu ao ouvir esta pergunta directa, e hesitou um instante antes de responder. Mas adquirindo de novo o seu sangue frio, respondeu com uma soberana indifferença.

--A marqueza «de la Tournelle!». Mas senhor barão, conheço-a como toda a gente, e menos que V. Ex.ª certamente. Tenho eu tempo para me occupar de mulheres? Tenho muito que fazer, tratando dos meus eleitores e procurando bater o meu adversario.

O barão queria conhecer melhor Ronquerolle, para lhe contar toda a historia da sua paixão por M.elle de Champeautey. Não receava tomal-o para seu confidente e dizer-lhe o quanto desejava humilhar o altivo castello «de la Tournelle».

A pergunta do barão tinha feito tremêr um pouco intimamente Ronquerolle. Terá este tagarella alguma suspeita? Terá advinhado a minha paixão, a minha loucura pela loura e adoravel Carlota?

Terá surprehendido o mysterio da nossa entrevista? O que será, emfim?

Todos tinham saido satisfeitos da «soirée» de M. Desbroutin e, no dia seguinte ninguem falava d'outra cousa. Os mais pequenos incidentes foram discutidos e recontados dez vezes, commentados segundo a intelligencia e a malicia dos narradores. Recahia toda a consideração sobre o notario e algumas más linguas começaram a insinuar que a gentil M.me Desbroutin não era quem mais lastimava os resultados da reunião politica de seu marido.

V

_Os infortunios do marquez_

A reunião publica estava annunciada e determinada para quinta-feira, mas á ultima hora o proprietario da sala onde tinha de se realisar essa reunião veiu avisar Ronquerolle de que confiava pouco na resistencia do soalho e que seria, a pesar seu, obrigado a faltar á sua promessa e ao preço estabelecido, porque um particular tinha pedido cincoenta francos pelo aluguer.

A sala do «Poule Blanche» era demasiado pequena e por esse motivo foram ter com Matteus Baliverne, proprietario do café do Commercio, que tinha, no primeiro andar, uma magnifica sala de baile podendo conter mil e quinhentas a duas mil pessoas.

Baliverne acolheu admiravelmente o presidente Kolri, Ronquerolle e os seus amigos na entrevista preliminar; Kolri deu-lhe dez francos de signal pelo aluguer da sala e beberam n'essa occasião em boa companhia um copo de cognac.

--Ao bom sucesso da vossa candidatura, disse Baliverne, tocando com o seu o copo de Ronquerolle.

Não obstante, Baliverne fugiu ao contracto depois de ter recebido os dez francos do signal.

--Como! gritou-lhe Ronquerolle furioso, quereis convencer-nos de que a vossa sala não está segura e daes bailes n'ella! meu caro senhor Baliverne, tomaes-nos por uns imbecis! Quando as raparigas e os rapazes do logar veem bailar aos domingos em vossa casa mandai-los por acaso, descalçarem-se no vestibulo, afim de dançarem descalços para não prejudicar a solidez das vossas salas?! Basta de gracejos, senhor Baliverne! tendes o aspecto d'um bom rapaz e ha dias comemos juntos, por isso é preciso fallarmos com toda a franqueza. Vamos, dizei-nos qual a verdadeira razão que vos leva agora a recusar-nos a sala que já nos havieis promettido. Mas, por amôr de Deus, se Deus existe, deixae em paz o vosso soalho.

Matheus Baliverne estava embaraçado, de cabeça baixa, não sabia que responder a Ronquerolle, que o fitava attentamente, esperando resposta.

--Vejamos, disse Ronquerolle, quereis que vos ajude a confessar a verdade? É o marquez, não é verdade, que vos ameaça se nos concederdes a sala? Deve ter-vos lembrado a sua qualidade de «maire» da cidade, e, como necessitaes da sua auctorisação para conservardes o vosso baile aberto até ás 5 horas da manhã, o marquez fez-vos comprehender que d'ora avante vos recusará essa licença, no caso de eu vir fallar em vossa casa aos meus eleitores!

Baliverne, olhando em volta de si para se certificar que ninguem o escutava, respondeu a Ronquerolle:

--Palavra d'honra sr. Ronquerolle, ouvi-me, eu sou um homem energico mas tenho filhos a sustentar e vejo-me por esse motivo obrigado a agradar a todo o mundo; não me trahireis não é assim? Confio em vós. Pois bem, haveis adivinhado tudo o que aconteceu! Foi o marquez, o maire que me fez comprehender como o sr. disse, que não queria que a reunião se realisasse em minha casa. Aquelle canalha tem-vos medo, e, se me recusasse licença para os meus bailes, ao mesmo tempo que me tirava o sustento, privava os rapazes de se divertirem.

Ronquerolle tremeu ao ouvir tal confissão. Sorriu ironicamente, depois do que se apoderou d'elle uma colera fria. Despediu-se rapidamente de Baliverne e encerrou-se no seu quarto.

N'este mesmo dia, na mesma quinta-feira para que fôra convocada a reunião devia elle ter o «rendez-vous» combinado, com «M.me de la Tournelle», nos «Passeios» ás dez horas da noite.

Por uma estranha coincidencia, este «rendez-vous» apaixonado, a que julgava não poder assistir, tornava-se agora possivel.

Quem destruira, afinal, os obstaculos? Quem lançára nos seus braços a bella, a divina Carlota? O proprio marquez de la Tournelle. Invejando-o como rival, temendo o poder das suas convicções, impedia-lhe que fallasse em publico e que conquistasse a popularidade que lhe dava a sua eloquencia. O infeliz! Impedindo Ronquerolle de n'essa noite subir á tribuna, deixava-lhe livre a mulher e era elle mesmo o causador da sua infelicidade.

--Dentro de tres dias, ás dez horas da noite! tinha segredado a marqueza n'essa inolvidavel noite dos «Passeios».

A reunião que devia realisar-se na quinta-feira, ficou adiada para mais tarde. Ronquerolle explicou em o seu jornal o «Reveil» que o detestavel «maire» de Saint-Martin queria tapar-lhe a bocca e impedir ao mesmo tempo que as lindas raparigas da cidade se divertissem com os seus namorados, mas que pouco importava a sua ridicula e idiota firmeza pois que breve teria de se recolher ao seu castello socegadamente a tratar da sua vida particular.

Visto que nada se oppunha á entrevista fixada pela marqueza «de la Tournelle», Ronquerolle preparou-se para isso. Fez irreprehensivelmente a sua «toilette», perfumou o lenço, poz uma gravata nova da ultima moda, pegou no chapeu mais elegante, calçou as luvas mais lindas que possuia e as botas mais elegantes e chegou uma hora mais cedo ao logar da entrevista.

Sentou-se, nos «Passeios», no mesmo banco onde a marqueza o encontrara, recordando as tempestades da sua juventude.

O dia estivera quente mas a brisa fresca começava a murmurar por entre o arvoredo.

Vinha caindo a noite, e ouvia-se ao longe o ruido harmonioso da fonte e o canto do rouxinol. Alguns cães uivavam nas herdades longinquas e uma indefinivel voluptuosidade saía dos campos, dos bosques, dos valles e descia dos céus.

--Comtanto que ella venha, dizia Ronquerolle. Oh! meu Deus! Comtanto que ella venha! Mas, sem duvida, ella virá! Sinto que se aproxima! E poder-me-ha ella enganar? Mas, porque não está ella já junto de mim? Porque não tenho entre as minhas a sua mão mimosa, porque me encetou os meus juramentos, porque me deixou dizer-lhe que a adorava, que era o meu idolo?

O apaixonado mancebo poz-se a passear rapidamente, atormentado pela sua impaciencia em esperar. Quando ouviu soar as dez horas no relogio d'uma herdade, parou.

--Soou a hora que me indicou. Estará aqui dentro de poucos momentos? Porque não veiu já? Porque não ouço ainda o ruido do seu vestido de seda passando na areia da avenida?

E Ronquerolle, immovel, escutava, attentamente, no silencio da noite, mas não se ouvia som algum sob aquelle immenso arvoredo. Uma hora se passou, hora d'angustias profundas para Ronquerolle. Pensava que talvez não tivesse podido deixar o castello, e que tivessem surgido difficuldades imprevistas que a impedissem de cumprir a sua palavra. Resolveu esperar toda a noite. Nuvens pesadas pairavam no céu, occultando as estrellas. Não havia luar e a escuridão da noite tornava-se cada vez mais densa. Um vento forte succedera á brisa calma da tarde.

D'ouvido attento, os olhos pretendendo desvendar a escuridão, Ronquerolle espreitava os caminhos, os atalhos, os campos. Esperava-a impacientemente, queria vel-a, correr ao seu encontro. Cêrca da meia-noite, uma fórma occulta e mobil appareceu lá no fundo d'um caminho orlado de macieiras.

Surgia como uma sombra na direcção dos «Passeios».

--Eil-a, gritou Ronquerolle. Sabia-o bem! Viria com certeza! É minha emfim!

O coração batia-lhe fortemente dentro do peito. Occultou-se por detraz d'uma sebe e quando a forma escura e indecisa estava junto d'elle, murmurou docemente:

--Sois vós, minha querida?

--Sim, sou eu, respondeu uma voz debil. Onde estaes?

Era com effeito a marqueza de la Tournelle. Trazia o rosto coberto com um espesso veu e tremia de esperança e d'amôr. Sentiu-se tranquilisada com a presença d'aquelle a quem ia tornar seu amante, abandonando-se-lhe. Ronquerolle tirou-lhe o duplo veu que a envolvia e deu-lhe o braço, ajudando-a a caminhar, arrastando-a quasi.

--Como podesteis vós vir aqui a estas horas? perguntou Ronquerolle.

--Sabel-o-heis mais tarde, respondeu a marqueza. Commeto por vós imprudencias que podem tornar-me alvo dos motejos publicos; se não me amaes verdadeiramente, como creio, sereis um grande culpado!

Ronquerolle jurou que seria eterno o seu amôr e que só a morte o poderia destruir. «M.me de la Tournelle» descançou um pouco mais ao ver-se sentada ao lado de Ronquerolle, sob as tilias centenarias, escutando com attenção as suas palavras, os juramentos que lhe fazia.

Jamais ouvira tão apaixonadas palavras. Nunca acreditara que fóra dos romances, existissem d'aquelles enthusiasmos. Nunca Ronquerolle, pelo seu lado, tivera para seduzir uma mulher, usado de termos tão ardentes, d'exclamações tão enthusiasticas, como nunca occasião tão favoravel se lhe offerecera.

Durou muito tempo a entrevista dos dois amantes. Tinham ao seu dispor as horas tranquillas da noite. As nuvens tinham desaparecido, o vento acalmara-se e as estrellas silenciosas percorriam o seu eterno curso.

Ronquerolle tinha, entre as suas mãos, as mãos delicadas da marqueza e contava-lhe as aventuras da sua mocidade ardente. Ella escutava-o, admirava-o intimamente e estabelecia pequenas perguntas de amôr. Tremia ao pensar na aventura em que se lançára e o seu seio arfava sob a emoção commovente do remorso e da felicidade.

--Que felicidade a minha! segredava-lhe Ronquerolle. Sou todo vosso, sem restricções, sem pensamentos reservados e é a primeira vez que o faço. A fatalidade creou-nos um para o outro e torna-se impossivel que não nos amemos. Ah! quem descobrirá os mysterios da ternura humana? Quem conhecerá a lei que preside ás preferencias do coração humano? Quem nos explicará como é que nos achamos aqui reunidos na calma d'esta noite linda, devorados pelo fogo da paixão, decididos a tudo vencer antes do que deixarmos de nos amar, de que nos separarmos?... Oh! como sois bella! E como vos amo!

E febrilmente o mancebo enlaçava a marqueza. Contou-lhe tudo quanto sacrificava para que alli estivesse ao lado d'ella, apresentando-se decidido a tudo immolar ao seu amôr para lhe provar que era digno da sua ternura e que a comprehendia em tudo e por tudo.

--Tinha como que um presentimento mysterioso de que influenciarieis na minha vida e que o destino nos uniria mais cedo ou mais tarde; disse a marqueza. Lembrais-vos d'aquelles versos, d'aquella linda poesia que um dia me mandastes? Ha quatro annos já. Pois bem, conservo essas estrophes que talvez tenhais esquecido. Porque guardei eu tão fielmente essa vossa lembrança? Porque foi que tudo o que dissestes e tudo o que fizestes se me gravou na memoria? Porque não deixei de vos admirar nas vossas luctas e de vos amar?...

«M.me de la Tournelle» e Maximo de Ronquerolle viajavam pelas altas espheras da paixão. A voluptuosidade sensual desaparecera dos seus pensamentos. A sua suprema felicidade consistia em ver que se comprehendiam, e que á delicadeza d'um correspondia maior delicadeza d'outro, que por mais alto que fosse o amante mais alto iria a mulher amada.

Era um phenomeno raro e admiravel. Em todos os tempos, as affeições humanas se nortearam por considerações mesquinhas, por interesse, pelo dinheiro, pela vaidade, e por prazeres grosseiramente sensuaes. Por isso pouco tempo duram e se arrastam na banalidade da vida de todos os dias.

Mas quando, não obstante os prejuizos sociaes, os costumes do mundo, as barreiras sociaes, os obstaculos da pobreza d'um e da fortuna d'outro, dois entes se atraem, se encontram e se amam, este amôr profundo, é tão puro e tão bello, que por si mesmo constitue a base da vida d'aquelles que o sentem, e que não esperam, senão a hora em que o tumulo o destruirá.

Era um amôr assim, um thesouro de divinas sensações que unia a marqueza e o republicano. E, como n'este ultimo residia a força do caracter, e intelligencia e o talento, Ronquerolle devia absorver completamente a existencia de «M.me de la Tournelle». Ella tendia mais para elle do que elle a amava a ella. É o privilegio do homem: a força fascina a graça. É a planta que se agarra ao tronco da arvore e que com ella vive e morre.

Todas as barreiras da sociedade estavam destruidas entre a aristocratica marqueza e o fogoso republicano. Tudo aquillo que constitue as castas, separa as classes, sustenta o orgulho d'uns e envenena a inveja d'outros, desapparecia aos olhos d'esses dois seres que a fatalidade se entretinha a approximar e a unir n'um beijo.

Não era a altiva e imperiosa Maximiliana Carlota de Champeautey, tornada «M.me de la Tournelle» que alli estava, n'este momento.

Não havia n'ella mais que uma mulher nova e soberba, que uma creatura adoravel, embriagada d'amôr, abandonando-se livremente nos braços d'um homem que para ella attingira o mais alto grau da força moral e da coragem.

O mesmo acontecia a Ronquerolle.

Esquecera as suas coleras e odios, abandonara as suas indignações, nada tinha, n'este momento, do vingador dos soffrimentos populares. Todo entregue ao encanto d'aquella paixão, o seu coração trasbordava d'amôr, a sua juventude brilhava, não vendo em «M.me de la Tournelle» mais do que a formosa personalidade da belleza e da vida.

Nunca dois seres mais sinceros, mais dignos um do outro, mais desinteressados, mais enthusiastas, mais feitos para se comprehenderem e se adorarem se tinham unido debaixo do céu e jurado um amôr eterno!

--Amo-te até á loucura! dizia Ronquerolle á marqueza.

--E eu, respondia ella, amo-te até morrer!

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