Chapter 3
--Ah! que se eu fosse homem! disse a marqueza, ao concluir o seu artigo para o «Echo de la Bourgogne» e lançando com despeito a penna; ensinaria a viver este senhor Ronquerolle.
Ao mesmo tempo que Ronquerolle se mettia no seu leito d'hotel, imaginando a maneira, de dar ao sr. «de la Tournelle» um golpe traiçoeiro, a marqueza deixava-se vencer pelo somno no seu grande leito Luiz XV, coberto com um baldaquino que amôres gorduchos seguravam.
Fecharam-se-lhe as palpebras e meia adormecida murmurava uns versos de Ronquerolle.
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Uma grande actividade começou a desenvolver-se nos dous campos, a partir d'esse famoso dia da chegada de Ronquerolle. A guerra declarara-se entre o castello soberbo dos «de la Tournelle» e a humilde «Poule Blanche» onde estavam hospedados Ronquerolle e os seus companheiros. Faziam-se apostas. Agitaram-se todas as paixões em Saint-Martin.
As proprias mulheres, se mettiam nas discussões. Muitas d'entre ellas se mostraram favoraveis a Ronquerolle, porque era novo, diziam ellas, e um bonito rapaz. Tinham immensa vontade de o ouvir fallar. Porque se não organizava uma conferencia publica no theatro, um domingo, depois do meio-dia? Ellas iriam lá. E depois, não era só isso. Tinham simpathisado com os «tres parisienses». Eram d'este modo que designavam Maupertuis, Branche e Didier. Estes cavalheiros diziam ellas, teem muito espirito; conhecem a alta vida de Paris. Porque se não convidam? É necessario deixal-os abandonados na «Poule Blanche?»
Tal era o objecto das conversações quando, no domingo, 24 de junho, appareceu o primeiro numero do «Reveil» o jornal de Ronquerolle. Principiava por uma apologia vigorosa do regimen republicano, seguindo-se-lhe um pequeno artigo intitulado: «O sr. conde d'Orgefin».
N'esse artigo Ronquerolle pregava o seu inimigo no pelourinho. Lembrando as injurias que o conde proferira, terminava assim: «Por consequencia, a redacção do «Reveil» decreta que o sr. conde d'Orgefin seja considerado como um tolo e convidamol-o a vir receber o attestado do seu novo titulo na quinta feira, 28 de junho á reunião publica que se ha de effectuar em Saint-Martin. Por sua vez, reservamos uma queda honrosa para o nosso elegante adversario, o marquez «de la Tournelle», cujo papel na camara tem sido até hoje egual a zero. Os eleitores julgarão depois de ter escutado os dois concorrentes».
O artigo não levava assignatura alguma. Ao mesmo tempo que rebentava esta bomba, apparecia do seu lado o «Echo de la Bourgogne» e o artigo da marqueza, brilhando na primeira pagina com a assignatura «Phenix». Ronquerolle era ali martyrisado a picadas d'alfinete, discutia-se com habilidade o seu talento d'escriptor, os inicios da sua carreira litteraria, considerando-o apenas como um estudante.
«Queremos poupar este menino, concluia o artigo da marqueza. Seriamos dignos de censura se o fizessemos chorar e tomar a serio os seus brinquedos. D'aqui a vinte annos os eleitores da circunscripção de Saint-Martin poderão talvez saber que existe M. Ronquerolle. Hoje perdoam-lhe os destemperos mas com a condição de que em breve acabarão. Em todo o caso seria bom que lhe impozessem silencio».
Ronquerolle não se impressionou com a tirada. Ainda que alvejado nunca se alterava. Leu muitas vezes o artigo que tinha tentado humilhal-o. Separou o estylo e as ideias como homem de «metier».
--Esta Phenix, dizia elle aos companheiros, não é um principiante mas o medo que lhe provoco é manifesto. A ameaça final denota despeito e fraqueza Ah! bello desconhecido! queres fechar-me a bocca! Eu saberei quem tu és!
No castello houve uma discussão animada a proposito da reunião publica annunciada. A marqueza queria por força que seu marido e o conde d'Orgefin acceitassem o desafio dos republicanos.
O comité conservador decidiu por unanimidade que se deixassem sós os republicanos a fazer e a dizer o que quizessem na reunião publica. Era por outros meios mais discretos e mais seguros, pensavam, que era necessario operar. A marqueza ao ter conhecimento d'esta deliberação encolerizou-se extraordinariamente.
--Meu amigo, dizia ao marido, tremeis deante de M. Ronquerolle. Mas desconheceis por completo o poder da palavra sobretudo no povo! Toda a Saint-Martin irá a essa reunião. Contam comvosco lá e vós não ides. Ainda uma vez lembrai-vos da minha advertencia, dizei adeus á eleição se vós proprio não defenderdes as vossas ideias!
A marqueza sentia que lhe faltava o terreno. Comprehendia que as simpathias iam para o novo candidato. A classe operaria tinha sido conquistada por Ronquerolle que se arvorara seu defensor. O pequeno commercio e a burguezia, indifferentes até então, davam coragem ao candidato republicano. Na sua colera a marqueza agarrava-se a seu marido sem piedade, e perguntava a si mesma porque casara com esse homem, só bom para se pavonear n'um baile ou n'uma «soirée».
--Como este Ronquerolle é ambicioso! Como sabe chegar depressa ao seu fim, abertamente, sem demora, com o bom «humour» da força, com a coragem da mocidade e com a resistencia das grandes convicções! E eu que o ataquei com colera! eu que tentei envergonhal-o!
É um prestigio do talento, o impôr-se áquelles que merecem o nome d'adversarios. M.me «de la Tournelle» censurava-se de ter cedido á phantasia, de ter querido attingir Ronquerolle com a sua penna mordaz!
Alem d'isso, as grandes almas, de qualquer lado que venham, sentem-se sempre attrahidas por uma estima reciproca. Podem ter um fim differente na vida, podem ter, sobre os homens e sobre as cousas, as ideias mais diversas, que se assemelham sempre pela honestidade superior da conducta, pelo respeito do que é verdadeiramente grande e bello e pelo desprezo soberano de tudo que é mesquinho, pequeno falso, venal e baixo.
Advinham-se, conhecem-se, muitas vezes, sem nunca se terem visto, sem nunca terem trocado duas palavras; seguem-se por uma visão intelectual, nas suas acções, admiram-se mutuamente a distancia e desejam-se porque só ellas se podem comprehender. É isto que explica muitas vezes o segredo d'essas melancholias profundas que absorvem o pensamento completamente, d'esses sentimentos, d'essas ligações, d'esses amôres que o mundo julga extraordinarios e anormaes mas que um observador de paixões considera naturaes e fataes.
A pezar seu a marqueza sentia-se attrahida para Ronquerolle porque o republicano fallava e trabalhava com a facilidade d'um genio, porque era novo, porque caminhava para a gloria, porque era verdadeiramente o filho das suas obras, porque nada devia ao dinheiro, á lisonja e á intriga. Tudo entretanto os separava, o nascimento, as ideias, a raça, a fortuna, as relações e a sociedade em que viviam; mas á lei mysteriosa que preside aos sentimentos humanos, agrada vencer os obstaculos e acaba sempre por ligar os que se procuram, os que sentem a necessidade de se amarem.
A marqueza chamou a sua criada de quarto a quem ordenou que a ajudasse a vestir. Eram quasi quatro horas. Metteu-se na sua carruagem, mandando bater para os «Passeios». Estava encantadora na sua «toilette» de verão. Agitada, contrariada na sua ambição, cheia de colera contra seu marido, sentia a necessidade de respirar o ar puro do campo, de descançar os seus lindos olhos azues no espectaculo harmonioso dos bosques, dos valles, dos prados, das collinas e de se sentir levada pelo galope rapido dos seus cavallos.
O retiro conhecido pelo nome de «Passeios» é um dos mais bellos logares de Saint-Martin. Entra-se por um largo caminho ladeado de ulmeiros. O rio, parallelo ao caminho, corre pelo fundo do valle, vendo-se do lado opposto uma cadeia de collinas que nos fecham o horizonte parecendo tocar o ceu azul. Os «Passeios» são formados por tres avenidas magnificas, com castanheiros e tilias centenarias. No fundo da avenida central levanta-se uma estatua em marmore, datada do XVIII seculo e representando Cybele. Alguns metros distante corre uma fonte rustica mugindo d'um rochedo e cercada de plantas aquaticas.
É um passeio verdadeiramente encantador feito para o amôr e para a ambição. Estas avenidas levavam outr'ora a um castello grandioso, abandonado durante a revolução e que, com o tempo, tombara em ruinas. As pedras amontoaram-se, as silvas e as ervas cobriram-as, os parasitas invadiram-as, mas as arvores resistiram á acção do tempo.
A communa de Saint-Martin, que adquirira este velho dominio ha cerca de quinze annos fez restaurar cuidadosamente as trez avenidas. Quanto ás ruinas do castello não ousou tocar-lhe, o que lhe era recommendado pelas suas economias.
Aos domingos, durante o verão os «Passeios» eram muito frequentados. Vinha gente de tres ou quatro leguas em redor. Os rapazes davam alli «rendez-vous» ás suas namoradas e a deusa, immovel e com a sua cara de marmore, passa por ter visto cousas «lindas». Á semana, pelo contrario, era um silencio absoluto. A distancia era grande de mais para ir a pé de Saint-Martin. No mez de setembro eram raros os frequentadores.
A marqueza sentia renascerem-lhe as ideias alegres á vista do rio e das suas margens floridas. O sentimento da natureza penetrava-a e fazia-lhe sentir um encanto mysterioso.
--Meu Deus! como isto é bello! murmurava.
Os seus desejos renovavam-se ao contacto d'esta paysagem. Vendo um bello carvalho desejava vêr debaixo da sua sombra tudo o que amava; viu um barco preso á margem do rio, balouçando ao capricho do vento, e desejou sentar-se alli, tendo em frente um sympathico e elegante remador. N'uma palavra, toda a sua energia se fundia como n'um circulo de fogo em presença d'essas florestas voluptuosas, d'essas aguas perfidas, d'essa verdura que a sombra torna mais attrahente.
M.me «de la Tournelle» mandou parar a sua carruagem no principio da grande avenida. Desceu e caminhou a pé por entre os castanheiros e as tilias. Habituara-se a dar este passeio; ia saudar a deusa Cybele, gosar o frescor da fonte depois do que voltava devagar e entrava na carruagem para regressar a Saint-Martin.
Uma vez alli, começou a andar mais rapidamente, nervosa e irritada contra seu marido.
Appoiava-se ligeiramente á sua sombrinha e um largo perfume d'heliotropo exhalava, a sua «toilette», perfumando a atmosphera. Caminhava arrogantemente, levando alta e direita a sua linda cabeça loira, olhando para diante com uma elegante arrogancia.
Esta mulher encantadora abandonava-se ao divino prazer de se sentir nova e bella n'aquelle sitio campestre, debaixo d'essas arvores centenarias, no meio do silencio da natureza. O coração batia-lhe mais forte do que de costume. A solidão do logar inquietava-a, e a folhagem que a briza fazia murmurar docemente produzia-lhe um tremor d'inexpressavel voluptuosidade.
Quando se dirigia para a fonte dos «Passeios», viu de repente n'um banco um homem mergulhado no mais profundo scismar. Estava só. Tinha os braços cruzados sobre o peito, o chapeu collocado ao lado e absorto n'uma meditação de tal modo que não ouvira o passo ligeiro da marqueza nem dera pela sua presença. Tinha a cabeça um pouco inclinada sobre o hombro e poder-se-hia acreditar que dormitava se não fosse o seu olhar vivo e expressivo.
M.me «de la Tournelle» parou. Não ousava afastar-se nem ir mais longe. Impressionara-se ao encontrar um homem na occasião em que se encontrava só, de modo que esteve a ponto de soltar um grito de surpreza. Ficou, portanto; mas, sem por isso dar, fez um movimento brusco com a sombrinha o que attrahiu as attenções do mancebo que se levantou saudando-a.
Este mancebo era Maximo Ronquerolle. Viera alli, a occultas dos amigos, para meditar sobre as aventuras da sua mocidade, sobre as incertezas do seu futuro, sobre os destinos da sorte que tanto nos fazem subir á superficie e nos põem em evidencia como nos deixam na sombra e nos lançam no nada.
Quando reconheceu M.me «de la Tournelle» sonhava com a poesia da natureza, com as delicias d'um sitio pittoresco, com o attractivo das solidões e pensava que talvez para elle fosse melhor renunciar ás agitações da vida publica, ás febres e ás agonias das ambições e ter uma existencia pacifica em qualquer humilde habitação do seu paiz natal.
Distraido do seu sonho simples e puro, saudou a mulher que se encontrava junto d'elle e que reconheceu immediatamente. Era bem a soberba creatura que a sua memoria recordava: aquelles olhos azues, aquelles cabellos loiros nunca os esquecera!
--A senhora marqueza «de la Tournelle?» perguntou Ronquerolle.
--Sim, senhor! respondeu a marqueza perturbada. Não o conheço! Que me deseja?
Ao dizer isto, M.me «de la Tournelle» recuou um pouco, olhando a carruagem que tinha ficado á entrada da Avenida. Viu-a através a folhagem do arvoredo e Ronquerolle comprehendeu esse olhar. A marqueza temia ser vista pelos seus criados que acreditariam facilmente n'um «rendez-vous,» decidindo-se por isso a retirar-se e a deixar absorto o desconhecido que lhe dirigira a palavra.
--Minha senhora, chamo-me Maximo Ronquerolle e quero crêr que não sou para vós absolutamente um desconhecido. Ah!... que de segredos que tenho a confiar-vos! Que de confidencias que tenho que fazer-vos!
--Vós?! interrompeu a marqueza, o senhor, o nosso adversario, o nosso inimigo!
--O destino, dizia Ronquerolle, é verdadeiramente o deus do mundo, como já vos escrevi, citando Schiller. É necessario aproveitar. Não fiqueis immovel debaixo d'estas arvores, minha senhora, os vossos criados perceberão que não estaes só. Escondei-vos atraz d'esta tilia immensa, onde ninguem nos poderá ver e vos direi todo o meu pensamento.
A marqueza hesitou a principio. O medo fez com que ella se decidisse e tranquillamente caminhou para traz da arvore cujo tronco a escondia de todas as vistas.
--Devia evitar-vos, dizia ella, detestar-vos, odiar-vos e arrisco-me a perder-me por vós.
Ronquerolle tinha os olhos fixos nos seus. Fascinado, louco, contemplava-a e sentia-se vencido pela belleza magestosa d'aquella mulher. Não via n'ella a marqueza inimiga da sua causa, a aristocrata que desejava a volta da realesa e que sonhava uma côrte brilhante em que triumphasse; não, ella não era para elle, n'essa hora, mais do que a incarnação da elegancia, da juventude, da vida, do amôr, da paixão incandescente, que queima, que devóra.
Por um phenomeno análogo, a castellã de Saint-Martin esquecia que o homem que alli estava deante d'ella representava o povo trabalhador, os infelizes que se revoltam, que fazem as revoluções e que prendem os reis e os imperadores. Não pensava que esse homem incarnava o odio fatal do pobre contra os rico, do humilde contra o poderoso, do opprimido contra o oppressor. O que n'elle via era o talento promettedor, o enthusiasmo da sua linda edade, a coragem do homem que luta, a poesia do ideal e da acção, o encanto emfim d'um espirito superior e d'um coração preso ao destino.
Alem d'isso, nem um nem outro tinham tempo de reflectir, as convenções imbecis da sociedade não podiam ser attendidas n'aquelle encontro e a natureza boa e fecunda recuperava os seus direitos. A presença, por si mesma, tem a sua eloquencia e dois olhares que se encontram diminuem singularmente as distancias.
--Perder-vos por mim! disse Ronquerolle, mas não sabeis que me perderei para vos agradar! Amo-vos com toda a minha coragem, com toda a minha energia e não é d'hoje este amôr, não é d'hontem. Ha quatro annos que viveis na minha saudade. Recordae o baile em que dançámos juntos, onde vos tive junto do meu peito!... Recordai-vos...
--Amaes-me, vós! o orador das multidões, o republicano fogoso, o apologista do Terror!
M.me «de la Tournelle» estava de pé e encostada á larga tilia, paternal e tranquilla. A velha arvore servia-lhe de abrigo mas não a occultava.
Ronquerolle, na sua frente, conservava-se a uma distancia respeitosa. O seu busto, alto e esbelto, dominava o da marquesa.
--Se vos amo! dizia elle, aproximando-se, e com uma voz em que havia lagrimas. Se vos amo!
Fez-se silencio. A commoção impedia Ronquerolle de fallar! Sentia desejos de tomar a marqueza e de a cobrir de beijos. Temia assustal-a e pensava: como convencêl-a? Sê simples e verdadeiro! respondia-lhe a sua nobre intelligencia; era a arma mais digna para conquistar uma mulher como aquella.
--Sim amo-vos, porque a vossa belleza me arrasta; desejaria resistir a este encanto, mas não posso. Oh! minha senhora, não misture com a minha paixão as irritantes discussões politicas. Não pairará acima d'essas questões, para almas como as nossas, a ideal visão do amôr? Não se encontram os grandes corações n'esta esphera superior onde veem acabar as disputas dos homens? Vêde! tenho um orgulho que por vezes me arrasta e que resistencia alguma fará dobrar... appareceis-me, e estou prompto a cair de joelhos deante de vós. Está domado o meu orgulho? Certamente não, mas, por cima d'elle, encontrar-nos-emos e parece-me que lá nos amaremos.
... Não pensaes assim? Sei-o bem, não me enganei comvosco: o mundo ideal a que aspira a vossa alma não tem nada de commum com as infamias, com as pequenas coisas, com os miseraveis calculos das castas e dos partidos. Vá, respondei, senhora! Não disse eu a verdade?
Ao terminar, Ronquerolle ousou approximar-se, quasi tocando na marqueza. Appoiava-se, como ella, á velha tilia e esperava resposta.
--Escuto-vos, senhor, e sinto-me perturbada. As vossas theorias parecem-se ás flôres do Oriente cujo perfume muito forte enerva os que o respiram.
--Não me amaes? perguntou Ronquerolle com a voz perturbada.
--Elle duvida ainda! respondeu a marqueza, empallidecendo.
Ao escutar estas palavras Ronquerolle tomou-lhe a mão que uma luva finissima calçava e levou-a aos labios. A marquesa retraiu-se e quiz escapar-se.
--Por favor, uma palavra para acabar! disse elle. Onde e quando vos voltarei a ver?
A marqueza hesitou, sentia-se embaraçada para responder. N'este momento os cavallos da sua carruagem relinchavam de impacientes; finalmente fugiu a Ronquerolle, dizendo:
--Aqui, d'hoje a tres dias, ás dez horas da noite.
Ronquerolle viu-a partir e escutando o ruido do seu vestido de seda, o «frou-frou» harmonioso de toda a sua «toilette», custava-lhe a acreditar na sua felicidade.
Quando escutou o ruido da portinhola da carruagem que o trintanario fechava, quando viu a carruagem desapparecer a caminho de Saint-Martin entre uma nuvem de pó, pareceu-lhe que a terra girava por todos os lados e que o ceu ia sair-lhe do peito.
Durante muito tempo olhou a carruagem que dous cavallos ageis arrastavam. Quando emfim ella desappareceu n'uma volta do caminho, voltou a sentar-se sobre o banco solitario em que M.me «de la Tournelle» o tinha surprehendido no meio dos seus sonhos e das suas doces illusões.
--Dentro em tres dias voltarei a vêl-a; dentro em tres dias será minha. Ó delicia! Ó felicidade inesperada! E já antecipadamente, escutava os transportes da sua paixão, a alegria dos novos amôres. De repente bateu na testa e empallideceu.
--Mas, d'aqui a tres dias, á noite, ha uma reunião eleitoral em Saint-Martin. Não posso enganar-me pois que fui eu que convoquei os eleitores... Que fazer?
Ronquerolle acreditou por momentos que M.me «de la Tournelle» lhe tivesse pregado uma peça. Ella conhecia a data e a hora da reunião publica já publicadas no «Reveil». Quereria ella d'esta fórma pôr á prova o amôr de Ronquerolle, forçando-o a sacrificar a sua palavra de homem politico? Quereria ella rebaixal-o para com os eleitores e tentar destruir a sua influencia em proveito da sua causa? Emfim, terá fallado sem calculo algum e o «rendez-vous» que lhe marcou, na sua coindencia com a reunião de Saint-Martin, não passaria d'um acaso que por vezes tanto nas grandes como nas pequenas coisas, se torna um obstaculo ás vontades do homem?
Ronquerolle não sabia que pensar.
IV
_O barão de Quérelles_
Quando se davam os acontecimentos que acabamos de narrar, chegou o barão de Quérelles a Saint-Martin. Como dissemos já, era o unico inimigo da marqueza por causa do despreso a que ella votara a sua paixão.
Pequeno, bilioso, trajando com o maximo apuro, os cabellos cortados á escovinha, desenvolvia uma actividade febril quando algum projecto lhe enchia o cerebro. Agitava-se em todos os sentidos, luctava tenazmente até conseguir o seu fim e se o não conseguisse era por que ninguem o poderia conseguir.
Com trinta e cinco annos, rico, este «petit baron» tinha tido uma paixão louca pela marqueza «de la Tournelle» quando ainda era apenas M.elle Carlota Maximilana de Champeautey. Por uma singular lei dos contrastes, o seu maior, o seu mais insaciavel desejo era possuir uma grande e inteligente mulher por esposa.
A orgulhosa Carlota ria das suas pretenções.
--Meu Deus! meu Deus! dizia a marqueza, quando o ousado barão teimava em conseguir o seu «desideratum», que hei de fazer d'esta creança? É tão baixo que se torna ridiculo.
No emtanto, Domingos de Quérelles não era um imbecil. Era para elle um contra tempo a sua estatura minguada e muitas vezes repetia que os homens não se mediam aos palmos.
Infelizmente para elle, M.elle de Champeautey não se via obrigada a debruçar-se para tomar o braço de seu marido e o elegante «Sergio de la Tournelle» não tivera muito trabalho para eclipsar o seu rival. A repugnancia d'artista que a futura marqueza sentira pela antistetica personagem que era «Quérelles» contribuira immenso para o triumpho do marquez.
--Ah! dissera Domingos de Quérelles, M.elle de Champeautey quer desposar um pateta? Pois bem, que o faça, que d'isso se arrependerá.
O barão viajava por Italia quando, pelos jornaes, viu que no seu departamento os republicanos oppunham um candidato aos monarchicos. Immediatamente arranjou as suas malas e veio a toda a pressa para Saint-Martin onde possuia uma propriedade. As ideias politicas de «des Quérelles» tinham sido até então conservadoras se bem que com uma certa tendencia liberal. A côr de conservador era uma tradicção na sua casa de fidalgo, mas o seu espirito, moderno e liberal, não desdenhava em admittir as modernas theorias democraticas.
Não era um inimigo do progresso e quando via que alguma asneira se fazia, reprovava-a absolutamente quer ella viesse dos conservadores quer dos republicanos. Era extremamente estimado na Borgonha. Não se desprezava em comer á mesa dos operarios quando para isso se offerecesse occasião e secretamente, desejava pertencer ao conselho geral.
Se não perdoava á marqueza o tel-o despresado, mais o acabrunhara com os seus sarcasmos o sr. «de la Tournelle», «maire» conselheiro geral e deputado.
--É um asno, dizia «des Quérelles», fallando do marquez; sim, é um estupido esse espigado marquez «de la Tournelle». Aposto vinte luizes em como não sabe distinguir a sua mão esquerda da direita e que a respeito de ortographia é um ignorante.
A candidatura de Ronquerolle era um balsamo sobre as feridas d'amôr proprio e sobre as irritações do «petit baron». Encontrava assim maneira de se vingar d'aquelles que tinha como seus inimigos, vingança que tinha acalentado durante tantos annos.
--Emfim, dizia, chegou a hora da minha vingança. Por mais «pequeno» que eu seja podem contar commigo aqui. Disponho de muitos milhares de votos que vão ser n'este momento o meu instrumento de vingança. Dal-os-hei ao novo deputado Ronquerolle. É um republicano exaltado... que me importa isso. É necessario a todo o transe que esse papalvo, esse marquez «de la Tournelle» perca a eleição... Ah! o patife, não me exterminou ainda! Ah! sr.ª marqueza, despresastes as minhas homenagens! Sereis vós quem d'esta vez virá implorar a paz e então entabolaremos as condicções.
Como todos os apaixonados, o barão «des Quérelles» não renunciara, ainda, á sua ultima esperança em commover o coração da mulher que elle tão extraordinariamente amara.
Era seu inimigo, por amôr. Queria tirar a sua desforra. Alimentava ainda a esperança de que, apezar de se não ter podido desforrar, talvez podesse um dia fazer d'ella sua amante.