Chapter 9
O quarto d'elle era contiguo á sala commum. Já Affonso lhe ouvia os passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os cavallos e fosse receber as suas ordens. Foi elle manso e manso espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao visinhar-se da porta. Curvou-se, inspirando sofrego o ar que lhe sahia a sacões do peito. Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado á mesa central da sala, e a face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde escuro. Verde era o véo do chapéo, que, momentos depois, ella tirou com um rapido movimento, e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos ás fontes, afastando os anneis dos cabellos, que se encaracolavam rosto abaixo até ás espaduas. Demorou-se momentos n'aquella postura. Ergueu-se impaciente, e passeou d'um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e tirando com força pelo trancelim d'ouro do relogio. Volveu a sentar-se, com o rosto voltado em cheio contra a porta, d'onde Affonso a observava. «Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixára--me disse elle--Da menina admiravel o que ella ainda tinha era o ar angelico; mas a belleza da mulher deslumbrava as reminiscencias da creança.»
Venceu Affonso os impetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou, sem saber o que: esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra retrahido ao coração.
Entrou o lacaio que ella mandou logo ao correio com um bilhete alli escripto a lapis. Desde este momento, Affonso já sabia o que esperava: queria vêl-a affligida com a falta da carta. No intervallo, Theodora chamou o criado da hospedaria, e pediu café. O criado, ouvidas as ordens, dirigiu-se ao quarto de Affonso: este viu-o, e afastou-se. Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se s. exc.ª queria almoçar. Affonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta, perguntou Theodora:
--Quem é que está n'aquelle quarto?
--Não sei, fidalga--respondeu o moço.
Affonso repoz-se á fechadura.
Chegou o lacaio.
--Trazes?--exclamou ella como assustada.
--Não ha, minha senhora.
--Não?!--bradou ella batendo o pé--É impossivel! É impossivel! Deve lá estar uma carta!...
--Saberá v. exc.ª que eu li a lista primeiro, depois fui dentro perguntar ao homem que dá as cartas--disse o lacaio, e sahiu.
--Inferno!--clamou ella estorcegando os dedos que estalavam nas articulações.--Maldita eu seja, que tão aviltada me tornei!
Sentou-se a arfar, e a chorar, e logo depois levantou os pulsos comprimindo as fontes.
Pôz depois as mãos enclavinhadas junto dos labios, encostou a barba ao pollex da mão esquerda, abaixou a cabeça, e meditou.
Entrava o criado com a bandeja. Theodora, estremecendo como atemorisada, relanceou os olhos sobre o criado, e disse-lhe com desabrimento:
--Deixe ficar. Cá me sirvo. O lacaio que almoce, e apparelhe.
N'este momento Affonso abriu a porta, e disse com a voz convulsa:
--Um passageiro pede uma chavena do café de v. exc.ª
O leitor já sabe por todos os romances, por todos os dramas, e por todos os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que Theodora fez. Um _ah!_ ou dous, é o nariz de cêra para todas as surprezas, fabricado desde Homero, ou mais de longe. Adão, quando viu Eva, devia dizer: _ah!_ A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu eu vou jurar, sem menoscabo do historiador Moises, que mais ou menos nervosa, exclamou _ah!_ A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio de espantos.
Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando Affonso me disse que Theodora não expediu do seio interjeição nenhuma, nem _ah!_, sequer.
--Pois que?!--perguntei eu com a respiração abafada--Que disse ella?!
--Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio, postas em oração; depois, cahiu em joelhos, ia cahir, quando eu, ajoelhado tambem, a recebi, a desfallecer.
--Não disse nada, por tanto!... E desfalleceu sinceramente?
--Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...--respondeu Affonso--Asseveras-me que te estão contando factos ignorados?
--Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de Barcellinhos?!--repliquei--Eu ignoro d'essa mulher tudo, menos o que toda a gente sabia. Vi Palmyra em Lisboa comtigo... mas, se tu crês que um homem, acostumado a fazer romances, é uma especie de naturalista, que só com um osso recompõe um animal desconhecido, admitte-me que eu tenha adivinhado a alma inteira de Theodora com os poucos, mas caracteristicos traços que me deste do seu caracter. Authorisado, pois, pela tua pergunta, afouto-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de theatral, por que nem sequer foi precedido da inevitavel interjeição. Assim que me disseste, Affonso, que ella não desentranhou do intimo seio um estridulo _ah!_ entendi que Theodora era mais artificial que o proprio artificio, mais theatral que o mesmo theatro.
--A narrativa--redarguiu Affonso de Teive--vai perdendo a seriedade que demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-hei que me sinto já constrangido n'estas memorias. Acho-me um pouco identificado com a minha vida passada; repassei o Lethes interposto, e olho com saudades para as margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada ha ahi mais triste que recordar na miseria os tempos felizes, é, pelo menos nauseabundo recordar em tempos felizes vergonhosas miserias. Todavia, como já agora, inexoravel romancista, me não dispensas o remate d'este longo prologo do capitulo final do meu livro--livro que eu chamaria _Amor de Salvação_--concluirei a historia, e irei depois purificar meus labios no rosto de meus filhos.
--Theodora--continuou Affonso--quando quiz abrir os olhos, arrancou-se dos meus braços, exclamando:--Repelle-me, que eu sou indigna de ti. Agora reconheço a minha miseria, agora que te vejo, ó Affonso, ó anjo da minha infancia, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da mulher pura, da creatura perfeita para quem tu nasceste!...
--Ha ahi muito estylo--interrompi--A mulher compunha! Vê-se que leu e aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña para as mulheres de letras. E depois?
--Eu venci o espaço que ella deixára recuando e abracei-a. N'este movimento, senti nas faces o contacto dos caracoes desfeitos. Osculei-a na fronte...
--Gosto--atalhei--do comedimento honesto da palavra... _Osculei-a_... sim, senhor... Assim é que um pae de oito filhos conta a historia dos seus beijos. E ella tambem te osculou?
--Sofregamente, doudamente, segurando-me a face pelos cabellos.
--Isso tambem é de rigor theatral. A mulher conhecia a scena!--perdôa as interrupções. De proposito as faço para te dar azo a inspirares fôlego novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...
--Rebentou-me a bolhões do peito a eloquencia da paixão. Era uma alma virgem que se abria. Abria-se um thesouro intacto, d'onde nem sequer tirára uma palavra para mentir a outra mulher. Ella entrecortava-me, sorvendo-me as expressões nos labios, ou abafando-m'as no seio palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvêra uma hora, segundo a vida do tempo...
--E depois--acudi eu--começaram a tratar de assumptos circumspectos com discreta serenidade.
--Contou-me ella que o marido, com ar de _tyranno tolo_...
--A phrase é d'ella, _tyranno tolo_?--perguntei.
--É. Desgostar-me-hia o tom zombeteiro com que me ella fallava do pobre homem, se eu não estivesse...
--Corrompido--conclui--Querias dizer isto?
--Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ella que o marido lhe fallava em correspondencias de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos pavilhões dos ouvidos, costume d'elle, quando os ciumes lhe faziam prurido nas orelhas.
--Disse-t'o assim ella?--interrompi com a mais ingenua irritação.
--Disse-m'o assim, com pouca differença, mezes depois, quando eu estava mais corrompido que ella para provocal-a ás originalidades da sua veia sarcastica: do que me confesso em opprobrio meu. Delineamos o nosso futuro. Foi ella quem o programmou. Iriamos para longe. Propuz Lisboa, ou Madrid, ou Paris. Quiz Lisboa, no intento de requerer divorcio. A fuga teria execução antes de oito dias. Eu ficaria em Barcellos, disfarçado, occulto, durante o dia. Á meia noite apearia a um oitavo de legua de Tibães. Theodora estaria no seu gabinete de estudo, e as vidraças coariam a luz da sua lampada, companheira das lucubrações intellectuaes, insuspeitas ao marido. Referendado o programma e rubricado com um osculo (repara, que não me descomponho) ouvi estropeada de cavallo na rua. Momentos depois...
--Querem vêr que chega Eleuterio!--atalhei com alvoroço e alegria parvoa, senão cruel.
--Eleuterio Romão dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que subiam para a sala, onde nós estavamos tranquillos como Paulo e Virginia (perdoai-me santas almas a comparação!) nos rochedos de S. Domingos! Agora tu, Caliope, me ensina a contar o successo estranho!... Eleuterio viu ainda o desencadearem-se os braços de Theodora do meu pescoço. Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta.
--E Theodora? narra-me da esposa surprehendida; que fez ella?--perguntei com inquieto empenho.
--Theodora, pendidos os braços, fitou Eleuterio com sobranceria, deu dous passos, postou-se diante de mim, e disse, voltada para o marido:
--Que me quer? A minha alma é livre.
--Esperava outra cousa eu! Isso parece-me estupidamente immoral. É caso novo e feio esse! E tu, que fizeste tu?
--Nada.
--Dos tres é quem andaste melhor. Parabens! E elle, o marido, que fez depois? que respondeu á Panthasilea?
--Respondeu que lhe ia dar cabo da casta, e tirou uma luzente podôa de dous gumes do bolso interior da judia.
--Uma podôa! Outra novidade! E arremetteu com ella?
--Quando elle sacou do ferro, passei para a frente de Theodora.
--Desarmado?
--Desarmado: as pistolas estavam no meu quarto. Mas a Panthasilea virgiliana, como tu apropriadamente a denominas, repelliu-me com um braço, e mostrou na extremidade do outro uma pistola abocada ao peito do marido.
--Novidade terceira!--acudi eu, quasi suspeitoso da logração do conto--Tu não estás inventando, Affonso?
--É inepta a pergunta; mas perdoavel. Não invento, meu amigo. Conto verdades que me entristecem. Recordar-me agora do gesto consternado do marido d'ella, punge-me devéras. Tremia-lhe o ferro na mão ameaçadora, e já o rosto se lhe estava banhando em lagrimas. Desceu o braço quebrantado por agonia mais lacerante que a ira, e fitou em mim os olhos chammejantes. De mim, relanceou-os á mulher; e, desafogando a custo as palavras, disse:
--Castigada te veja eu, e Deus me vingue!
--Não esperava eu que elle dissesse isso. Ha concisão e angustia suprema n'esse appellar a Deus--reflecti eu condoido, não obstando têl-o visto, como fica escripto, no arraial de S. Braz de Landim, annos antes, em geito de muita felicidade, e grande frescura de animo e coração--E continuei no meu impertinente interrogatorio, tendo em vista que o leitor fosse bem informado:--Eleuterio, depois, sahiu, ou que fez?
--Chorou, embebeu as lagrimas no lenço, e disse: «Eu não te obriguei a ser minha mulher. Se casaste foi por que quizeste. Se tinhas outra inclinação, não dissesses a meu pae que me querias.»
--Que impressão fizeram em ti essas palavras tão simples e sinceras?--perguntei.
--Má impressão!--respondeu Affonso de Teive--pessima impressão! Desviei involuntariamente os olhos d'ella: a razão sahiu por momentos do seu chiqueiro, e teve dó da alienação da minha pobre alma. Eleuterio, por ultimo, rematou assim: «Não tenho mulher. Vou para minha casa, e vai tu para a tua.» E sahiu. Theodora voltou-se para mim, atirando a pistola sobre a mesa, e disse: «Estou livre. Aqui me tens, Affonso. Aqui está a tua Palmyra, com o virgem coração que lhe conheceste, mais valioso do que era, mais depurado dos instinctos maus, graças aos trabalhos que me angustiaram a vida. Queres-me assim, Affonso?...
--Abraçaste-a fervorosamente, convulsamente--interrompi eu.
--Não: disse-lhe com uma falsa graça no rosto:--quero-te assim: partiremos hoje mesmo para Lisboa. «E os meus fatos, as minhas joias?--perguntou ella--Tenho brilhantes que eram de minha mãe.»--Deixa-os. Terás brilhantes, se elles forem precisos á tua felicidade--«A minha felicidade!--exclamou Theodora, ajoelhando-se-me de mãos postas--a minha felicidade é uma choça comtigo, no ermo, no isolamento de todos os prazeres da sociedade»--Ergui-a com amor. Tocou-me o contraste d'aquella humildade com a arrogancia da resistencia ao marido.
--A esta procella de commoções violentas, seguiu-se um intervallo de silencio morno, concentração por ventura dolorosa em que os nossos olhares mutuamente se interrogavam. Eu via minha santa mãe, e a purissima imagem de minha prima. Theodora não sei o que via: póde ser que estivesse lendo a pagina negra do seu destino, voltada pela mão do Senhor. Eu de mim esforçava o contentamento no rosto: os olhos viam-na embellezados; o ambiente escaldante que ella aquecia com o seu halito coava-me lume até ás medullas dos ossos; mas o formidavel grito da moral repercutia-me no senso intimo da minha queda. Desgraçadas e atrozes ligações as que principiam assim! É que a sentença da justiça divina foi já lavrada.
Theodora abriu a janella da sala e aspirou com força; encostou-se ao peitoril, com os olhos cravados nos cabeços da serra da Tranqueira.
--Em que meditas, Palmyra?--perguntei-lhe eu.
--Em minha mãe, que era virtuosa como a tua--respondeu ella.
Esta dôr nobre, tão singelamente revelada, fez-me bem ao coração. Commoveu-me aquelle dizer de _mulher_, no tom da maviosa feminilidade que sôa tão brando e compadecedor nas almas de rija tempera, como era a minha. Fallamos de nossas mães, e com tantas caricias de expressão saudosa, que terminamos, beijando um do outro os olhos cheios de lagrimas.
No mesmo dia, por volta da tarde, sahimos caminho de Lisboa.
XVI
Volvido um mez sobre os successos descriptos, Affonso de Teive e Palmyra--que nunca mais se chamou Theodora--viviam n'um palacete ao Campo Grande, por ser entrada a sazão estiva.
O interior esplendido da casa sobreexcedia o exterior magestoso. Nas cavalhariças escarvavam, arrifavam e relinchavam os cavallos de trem e de passeio. No pateo, os lacaios limpavam e bruniam os arreios, e as equipagens. Sentia-se o respirar da felicidade, como escondida das invejas do mundo, n'aquelle magnifico aposento. O dono d'ella gozava-se da fama de opulento fidalgo do Minho; porém, o thesouro, que a publica admiração mais lhe encarecia, era Palmyra.
Frequentavam a casa de Affonso de Teive alguns dos amigos, que D. José de Noronha lhe dera, moços da primeira fidalguia. Ao verem a mulher, por quem Affonso desprezava todas, acharam e disseram, sem lisonja, que elle tinha soffrido e amado pouco. A espectativa de D. José fôra surprehendida pelo excedente d'uma formosura, graça e talento, não imaginados. Estes gabos, porém, proferidos a medo na presença d'ella, eram tão respeitosos e aferidos no padrão do melindre palaciano, que Affonso de Teive, nem por sonhos, aventou a possibilidade d'uma intenção desleal do amigo. Palmyra, por sua parte, quando os seus hospedes e convivas, no mais accêso dos brindes em lautos banquetes, lhe balanceavam o incensorio dos louvores, baixava os olhos, inclinava a cabeça, e mostrava aceitar resignada o incenso, em obsequio aos thuribularios.
Era aquella a atmosphera inebriante dos anhelos da morgada da Fervença. Lembranças de sua vida conjugal em Tibães afastava-as com repulsão.
A imagem de Eleuterio fazia-lhe vergonha de si mesma. Tornou-se desnecessaria a leitura ao recreio das suas noites. Preferia, á falta de theatros, passear a cavallo ao clarão da lua, ladeada de Affonso e de D. José de Noronha, a mais intima e feliz testemunha dos prazeres de Affonso. Tinham noitadas de estenderem a Cintra os seus passeios, ora serenos e contemplativos, ora em correria vertiginosa, á vontade e capricho de Palmyra, cujo cavallo negro ella denominára...
--Eleuterio?!--perguntei eu, cuidando que adivinhára, quando o meu amigo chegou a esta altura da historia.
--Não, nem tanto...--respondeu Affonso--chamava-lhe _Lucifer_.
--Que desprezo do monarcha do inferno! Parece-me que Palmyra não tinha virtudes para zombar assim do personagem que provavelmente lhe ha-de pedir eternas contas da nomenclatura do quadrupede!
Vamos no proseguimento d'esta celestial felicidade, em que o inferno apenas lembrava em virtude do nome do cavallo.
No termo de um anno, Affonso de Teive tinha escripto, a largos prasos, pouquissimas cartas a sua mãe. N'outro relanço viria mais bem cabido o fallar-se da virtuosa senhora e da angelical Mafalda. A promiscuidade faz-me susto de vituperal-as. Mas é preciso dizer que D. Eulalia, em cumprimento da sua promessa, remettia ao filho as quantias avultosas que elle exigia, e o producto d'uma quinta de sua legitima paterna, logo que Affonso lh'o determinou. Fernão de Teive comprára a quinta clandestinamente por intervenção do seu mordomo. O ouro entrava em torrentes n'aquella voragem, d'onde retornava em carruagens, em baixellas, em festins, em sêdas e brilhantes, em apostas soberbas no jogo, em extravagancias de soada fama, em emprestimos aos commensaes. No decurso dos doze mezes, apenas Fernão de Teive mandou um triste _memento homo_ ao reboliço d'aquelles jubilos. Eram estas palavras unicamente: «Lembra-te, Affonso, de teu tio-avô Christovão de Teive.» Affonso sorriu e perguntou a Palmyra se lhe via signaes de lepra. A jovial creatura, informada da intencional allusão, cascalhou umas risadas de que muito se compraziam os ouvidos do amante, as quaes, no dizer de D. José de Noronha, tinham uma alegria contagiosa, que faziam bem aos infelizes. Affonso não respondeu ao velho de Fonte-Boa; mas, n'uma hora de solidão em seu particular gabinete, sommou as parcellas hauridas de sua casa, e espantou-se; calculou a quantia necessaria para vinte annos de vida, e descobriu que no fim de dez annos devia estar morto, para não pedir esmola aos parentes. Levantou-se pensativo d'esta operação arithmetica; sahiu do gabinete; e encontrou Palmyra a lembrar-lhe a conveniencia de arrematar um camarote de S. Carlos, que estava a lanços. Affonso respondeu tristemente: «Pois sim.» Palmyra não viu linha alguma extraordinaria no rosto do amante: beijou-lhe os olhos, e disse: «És um anjo!»
Desde aquelle fatal dia dos calculos sobre as despezas de vinte annos, Affonso scismava a miudo nos dez que restrictamente lhe offereciam os seus presumptivos cabedaes, contando já com o fallecimento da mãe. «Infame clausula dos meus calculos!» dizia elle com os olhos a reverem lagrimas de remordente remorso, treze annos depois.
Palmyra, a final, deu tento da melancolia de Affonso; e ainda antes de consultar-lhe a causa, perguntou se a não amava já. O interrogatorio affligiu o moço. Reconheceu que faltavam n'aquella mulher as sérias qualidades de espirito para lhe escutar o motivo de suas abstracções, em meio dos favores da fortuna.
Manifestou Palmyra o seu insoffrido orgulho. Similou um recolhimento de amargura cavillosa. Pranteou-se, perguntando ao céo, em attitude tragica, se a expiação começava tão cedo. Affonso acariciou-a, já condoido d'ella, e revelou, com desdem de seus proprios temores, a causa mesquinha d'elles. Palmyra observou-lhe que a fortuna d'ella, a sua parte, excedia o valor de vinte e cinco contos, e propoz-lhe requerer-se divorcio, desde logo. O bizarro moço recusou a proposta, ajoelhando em espirito, á generosa offerta de Palmyra.
Passou a nuvem. Requintaram os gozos e as despezas. Projectaram-se passeios ao estrangeiro. D. José de Noronha era grande parte e conselheiro n'estes prospectos de recrescente felicidade. Lembrou Palmyra a semana santa em Sevilha. Foram a Sevilha, detiveram-se por Hespanha dous mezes até presentirem uns longes de fastio. Voltaram a Lisboa no ante-gosto de planeadas excursões á Italia. Affonso de Teive entrou no seu escriptorio, em busca de cartas, e abriu primeiro uma das duas de Mafalda, antes que Palmyra o surprehendesse a lêl-as. Rezava assim a primeira:
«Meu primo. A nossa mãesinha está muito adoentada, e causa receios ao medico de Braga, que vem aqui todos os dias. Não me authorisou a chamar-te; mas eu, depois de consultar meu pae, resolvi participar-te isto, e pedir-te que venhas vêr esta santa. Ella não cessa de chorar e rogar a Deus por nós. Vem pedir-lhe que, ao sahir d'este desterro, continue a pedir no céo por ti, por mim, e por todos os infelizes. Tua prima, _Mafalda_.»
Era datada esta carta em 6 de Abril de 1852.
A outra, datada em 18 do mesmo mez, continha o seguinte:
«Meu primo. Acaba de expirar tua mãe. São cinco horas da manhã. Morreu-me nos braços. Dava tres horas o relogio, quando ella disse que havia de expirar quando raiasse o dia. Assim foi. Fallou de ti até á ultima, e ordenou-me que te mandasse uma carta, que ella escreveu no segundo dia de sua enfermidade. Admirei que não me respondesses ao menos á que eu te escrevi então. Deus sabe o que vai na tua vida. A santa lá está no céo: ella conseguirá o que fôr melhor para ti, em conformidade com os decretos do Altissimo. Aqui está meu pae a cuidar n'estes tristes preparativos para o enterro. Já dobram os sinos. Não me deixam escrever as lagrimas. Adeus, Affonso. Tua prima, _Mafalda_.»
Affonso, concluida a leitura d'esta segunda carta, bradou: «Meu Deus, meu Deus!» e cahiu de joelhos, escondendo a face nos estofos d'uma othomana.
Acudiu Palmyra aos gritos. Affonso ergueu-se, com as mãos no rosto, e, abafando os soluços, pôde dizer: «Morreu minha mãe!»
--Chora, no meu seio--disse ella commovida--chora, meu querido filho! Tens ainda este grande coração que te abriga na tua angustia.
Estas palavras alancearam mais a alma do meu amigo. Pareceram-lhe um sacrilegio, uma injuria á memoria da mulher, cuja vida fôra uma enchente de virtudes. «O coração da adultera a dar abrigo á dôr de um filho!» Era a consciencia que assim lhe gritava, não era ainda o tedio. Era, talvez, a repugnancia de se encostar ao seio da mulher por amor de quem deixára morrer sua mãe, esquecida, desprezada mesmo, lembrada algumas vezes como senhora mieira da casa, cujo herdeiro elle era.
Affonso pediu a Palmyra que o deixasse sosinho. Ferida em sua vaidade, considerando-se inutil em consolar o homem fraco, o homem debulhado em lagrimas, Palmyra cruzou os braços e abanou a cabeça. O atribulado moço não vira aquelle gesto; mas ouvira as palavras que o denunciavam:
--Não basta o amor da mulher amante para consolar as saudades de uma mãe. Eu tambem a tinha, quando te amava, e abriguei-me no teu coração. Que differença!...
Affonso irou-se; mas abafou a colera n'um gesto de impaciencia. Palmyra comprehendeu-o, retirou-se, lançando os olhos ás duas cartas, que estavam abertas. Encostou-se á mesa, e leu-as sem lhes pôr mão. Lidas, sorriu-se, remexeu ainda na lingua uma ironia infame, não ousou proferil-a, e sahiu. É que a mulher impura muitas vezes espumára o pus do cancro do orgulho, que a roia, na face immaculada de Mafalda, que o moço indiscreto algumas vezes, com fatuidade, relembrava como desgraçada na sua amoravel dedicação.
Assim que Palmyra sahiu, Affonso, a tremer calefrios, deslacrou a carta de sua mãe. Dizia assim:
«Meu filho. Muito ha que eu peço a Deus que me despene. Já me cançava a vida com tão aturado padecer, e nenhuma esperança de remedio.
«Agora espero que a misericordia do Senhor me attenda; e, se me diz verdade o coração, é chegada a hora de eu escrever umas linhas, que te serão mandadas quando eu tiver passado.