Chapter 7
--Tambem a mim me está parecendo isso, ainda agora--observei eu, animado pela confissão da pessoa, menos idonea para embicar no irrisorio romanticismo da esposa de Eleuterio Romão dos Santos.
«Mas, proseguiu Affonso de Teive--esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade...
--Em amor--atalhei.
«Amor, sim, amor indomavel, amor faminto de vêl-a e de ouvil-a, de chorar com ella, de arrebatal-a ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse d'ella.
«Esporeava-me este designio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao coração arquejante, e disse-me:--_Os braços da cruz redemptora estão sempre abertos para os desgraçados._ As palavras, embora escriptas por mão criminosa, são santas. Meu pobre Affonso, já que ella te deu a desgraça, aceita-lhe tambem o conselho.--Beijou-me a palma da mão, e sahiu da sala.
«Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Theodora. Comprehendera o mysterio, resistira ao impeto de as tirar, e, desde aquella hora, promettera a Deus exercitar todos os recursos de seu coração para me acautelar das cavillações da mulher ardilosa.
«Que poderia fazer a simples creatura? O infinito das forças humanas fez ella em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o céo um pleno dominio em minha razão.
«Logo, ao outro dia, Mafalda pediu-me que sahisse com ella a um passeio longe por esses pinhaes fóra até ao mosteiro de Landim.
«Sosinhos?--lhe perguntei--Por que não! sosinhos, com os nossos anjos da guarda, e o coração de tua mãe comnosco, meu querido Affonso.
«Sahimos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constricção de alma, que não atinava com os termos communs d'uma palestra entre dous primos. No alto d'um sêrro, d'onde haviamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se, e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horisontes. Perguntei-lhe que razão tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a idéa de me vêr ir talvez para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.
«Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?--redargui--Dizes-m'o tu, se eu t'o perguntar com as mãos postas--respondeu ella, pondo as mãos em supplica.
«Tartamudiei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a mentir. O coração teve quinhão d'este pejo: a meiga creatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinisação, que me incutiam uma especie de escrupulo religioso.
«--Vejo que te afflijo, meu primo--interrompeu Mafalda--És ainda bom, que não podes mentir á tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me...
«Seguiu-se um longo silencio, que ella mesma interrompeu, exclamando, em pranto desfeito:--Não posso!... A Virgem do céo não ouviu os meus rogos!...
«Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que fallasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, faceis, porém, de se ligarem em meu espirito prevenido. Atalhei-a muito commovido, n'estes termos: «Deves ter directo instincto do céo, minha prima, por que a tua alma virginal é pura de toda a falsidade, e não póde ser enganada. Sabes que eu vou fugir, sem eu ter annunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo, minha irmã, por que entre a tua celestial dedicação e as minhas desvairadas paixões está o infinito. Tu és a creatura que ainda não sonhou o mal, sedenta d'uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a minha vida, posta em assedio pelas tentativas da mulher unica do meu amor, da mulher perdida para mim e para si propria perdida... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal d'esta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo, despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o abysmo d'onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim, e de todo homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraiso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando sahi d'estas florestas, onde nós nos entendiamos como as avesinhas do céo se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade!
«Mafalda poz-me com muita suavidade a mão na bocca, e disse:--Não digas mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... _A mulher unica do teu amor_... _a mulher unica do teu amor_ é... ella!...--Os soluços embargaram-lhe a voz. Falleceram-me a mim espiritos com que tentasse consolal-a. Todas as palavras, sem vehemencia de dentro, seriam pallidas e vans. Mentir, bem que eu podesse, de que serviria?... O meu silencio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto áquelle dialogo...»
«Com satisfação a vi erguer-se, e dizer-me:--Voltemos, primo?... Vamos para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...»
«N'este momento, á raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava uma mulher cavalgando a galope. Ia sósinha. Eu não a tinha visto ainda, quando Mafalda, apontando-a com o braço tremulo disse:--_A mulher unica do teu amor_...
«N'este instante, esqueci o anjo, que me estava alli chorando, não sei mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua patria; e adorei o demonio, que passava lá em baixo, com o véo esvoaçante, por entre nuvens de pó, sacudidas das patas do arremessado cavallo.
XII
Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo animo de Affonso de Teive. A obsessão de Theodora não lhe dava treguas. Nas circumvisinhanças de Ruivães já se fazia reparada a amazona, umas vezes sósinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a quem ella não prestava mais attenção que ao lacaio. Affonso, em quanto a mim, resistindo á tentação, iniciava-se para consociar-se no reino celestial com os santos da sua familia, mortos sob o estandarte da cruz; mas, a juizo de muita gente, muito menos benemeritos da auréola da santidade. Morrer com o céo a abrir-se além no horisonte, ouvindo já os hymnos dos anjos, é glorioso e exultante; porém, morrer gotejando em lagrimas o sangue do coração, sem visões bemaventuradas, sem estimulo de predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos pés do triumphador que a despreza e adora... sublime extravagancia, se querem que lhe eu não chame santissimo martyrio!
A mãe do lastimavel moço, antes de avisada da intentada partida d'elle, resolveu impôr-lhe o seu arbitrio de mãe com severidade. Informada por Fernão de Teive, sabia que Theodora fazia miudas investidas ás redondezas de Ruivães, e que Affonso não era estranho, bem que a não houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher. A palavra «adulterio», no espirito de D. Eulalia, tinha uma significação de horror, como se o crime não tivesse exemplo na humanidade, nem remorso que o contrapesasse na balança da misericordia divina. O pavor de que um filho seu, um descendente de santos, e, pelo menos honrados varões, podesse dar ao mundo o escandalo de tamanha perversidade, accendeu-a em louvavel indignação. Inesperadamente é chamado Affonso ao quarto de sua mãe para ouvir estas pesadas e seccas palavras:
--Eu preciso de morrer em paz com o mundo, que nunca escandalisei, penso eu, e Deus me perdôe se a minha vaidade me faz esquecer as culpas. Em quanto viva, peço-te, como amiga, se não devo antes ordenar-te como mãe, que me poupes á vergonha de esconder a face, quando me pedirem contas dos sentimentos de religião e honra que te insinuei na alma. Temo que me perguntem que fiz eu da herança, que teu pae fiou de mim para te eu ir entregando, assim que tivesses razão para recebel-a... herança de virtude e probidade que tu levas em principio de desbarate. Mando-te que te retires para longe d'esta terra. Vai para Lisboa, se te agrada; ou vai viajar, se antes queres. É bom que saibas os cabedaes que tens. A tua casa rende seis mil cruzados: conta com elles, e com o valor das propriedades, se, para salvação de tua honra, precisares que ellas se vendam. Não voltes para mim sem me poderes jurar, pelas cinzas de teu pae, que a lembrança peccaminosa de Theodora morreu em teu coração. Deus Nosso Senhor te abençôe, filho. A minha ultima oração será rogar ao Creador que restitua á casa onde as gerações legaram umas ás outras a tradição de grandes serviços a Deus ligados a grandes serviços á patria: religião, honra, e trabalho, o nobre trabalho da espada de uns, e da sciencia d'outros. Tu sahes da trilha de teus avós, consumindo tua mocidade em dissabores de que ninguem, senão eu, póde compadecer-se. Vai. Se poderes, sê forte, sê homem. Se a ultima fraqueza te levar ao ultimo crime, guarda ao menos uma parte da alma para a contrição no remate da vida.
Nunca, até áquella hora, Affonso vira e ouvira assim sua mãe. Mesmo na admoestação, denotára sempre o pesar com que o fazia; e para o compensar da magoa, acudia logo com as caricias. Por causa de Theodora, as reprehensões eram sempre disfarçadas na grave mas dôce persuasão do conselho. Querer afastal-o de si, nem por sombra de palavra o indicára nunca. E agora, no semblante, na rigidez da phrase, na postura do rosto, e arrugado da testa, Affonso achou tanta mudança para espantar-se como affligir-se.
Ia elle responder, e ella, para logo, d'um gesto de silencio, o fez calar, dizendo:
--Não te quero ouvir: Deus que te ouça; mas vai. Cá fico eu velando os dias d'esta menina, que teve a desventura de te amar. Consolar-nos-hemos eu e ella, orando por ti. Ámanhã partirás. Tua mãe ordena.
Affonso, ao despedir-se de sua mãe, teve a intuição de que a não veria mais. A maior agonia da sua vida, até áquelle momento, foi essa. Ajoelhou-se a beijar-lhe as mãos, que molhou de lagrimas. E ella abençoou-o serenamente, com os olhos no crucifixo do seu oratorio. Ao lado d'elles, estava Mafalda, livida, hirta, tranzida d'um frio, que a fazia tiritar. Não chorava. Podia comparar-se a sua atribulação á da mãe que tambem tinha enxutos os olhos. Porém, quando Affonso lhe estendeu a mão, e disse: «adeus!» ella, arrancou do intimo um cortante grito, e lançou-se nos braços d'elle, debulhada em pranto.
XIII
Foi Affonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratavel, rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no bairro de Buenos-Ayres, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do trato das relações adquiridas em casa do magistrado, e evitou novos conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se o recreio do estudo, e o trabalho mesmo da composição, sem o intento de fazer-se conhecido no mundo litterario. Em quanto o espirito se lhe entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver n'ella os dias e as noites, curtos intervallos de magoa o assoberbaram; assim, porém, que o bulicio cessou, e os tapetes das elegantes salas não davam rumor de um passo, e Affonso, sentado á sua banca de estudo, ouvia apenas as cadencias do pendulo do relogio, condensaram-se-lhe em volta do espirito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela aragem da esperança, e nunca tão compressora o sopesou a mão da tristeza. Os livros atediavam-no; o escrever acendia-lhe o espirito a um grau penoso de excitação. Todos os seus manuscriptos fragmentarios ou desatados, que eu vi treze annos volvidos, accusavam uma obstinada paixão da qual o poeta hauria argumentos contra a Providencia que o desamparára, na batalha comsigo mesmo.
Aos vinte e dous annos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de vida assim, é virtude imaginaria. Para outras civilisações, lá estava o deserto do anachoreta, e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam devorar das angustias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam encontrar-se no céo, a cobrarem o seu patrimonio de alegrias infindas, ganhado a troco d'uma hora de orgulho satisfeito--que mais não é o contentamento d'esta breve fugida que fazemos do ventre á sepultura. N'estes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho desentranhar-se a terra em novos enfeites de si propria, agora que o céo se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como estrellado involtorio d'este globo cujas delicias nos foram dadas em desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em summa, que o viver sem gozar é um triste, senão estupido, preludio da morte, em redor da sepultura, que loucura é esta de Affonso de Teive que não rompe mundo a dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dous annos, bizarria de fidalgo, e physionomia dotada de graças attractivas de todos os olhos?
Era necessario que a sociedade culta delegasse um dos seus ornamentos a intimar Affonso de Teive para comparecer, réo de lesa-illustração, á barra do seculo XIX. O enviado, escolhido a ponto, foi, como por acaso, encontrar Affonso na matta da Penha-Verde em Cintra, onde o tinham chamado saudades das suas arvores de Ruivães.
D. José de Noronha, sugeito de trinta annos, filho segundo d'uma casa titular de Lisboa, cursára alguns estudos da Universidade, contemporaneo de Affonso. Pertencia á tribu dos _trossistas_, e gozava as honras de caudilho nos disturbios, e maiores honras ainda de primeiro estomago em digestão de vinho. Contava-se que D. José de Noronha bebia por um pipo de almude, quando não tinha á mão o alguidar, taça ordinaria das suas libações. Este facto, presenciado com assombro e inveja, avantajou-o em consideração aos socios da taberna, e conferiu-lhe voto deliberativo em todas as barganterias nocturnas. Affonso de Teive, algum tempo associado aos tonantes, declinou da sua estima o illustre companheiro, indistincto dos outros em sua opinião. Separados pela mudança de costumes, raras vezes se viam, e mais raras se tratavam. D. José cognominava de renegado o fugitivo socio, e divulgava que o miseravel nunca bebera uma garrafa de genebra, sem se embriagar. Equivalia esta denuncia a uma grave deshonra.
Abandonada a carreira dos estudos, por força de successivas reprovações, D. José foi para a familia, que o recebeu sem espanto do mau exito, nem mesmo pesar. O fidalgo libertino tinha bom patrimonio materno, e um pae, cujo desregramento de vida absolvia os desatinos do filho. A sociedade recebeu-o prazenteiramente, deu-lhe a primeira linha na cohorte dos elegantes, e victoriou-o com alguns tropheus de conquistas, comminadas no codigo penal, e gloriosas nos salões. D. José absteve-se da ebriedade em publico, é isso verdade; mas indemnisou-se em vicios, que seriam muito mais nocivos á humanidade, se as maiorias compartissem dos ultrages afflictivos, que vão na intimidade obscura, e mesmo na publica exposição das familias. Não vem isto para dizer que todas as familias ultrajadas se afflijam. Em Lisboa, principalmente, as excepções são tantas, que suaria o topete quem quizesse achar a regra. Lá, haveis de encontrar muito d'uma cousa chamada «philosophia», sciencia, que foi necessario inventar-se, á medida que umas certas virtudes de portas a dentro deram em saltar pelas janellas, e voar por ahi fóra, não sei para onde, naturalmente para a India, onde as viuvas se queimam em demonstração de fidelidade aos maridos defunctos. Ha-de ser isso.
Affonso de Teive reconheceu D. José, que sahiu d'um rancho de senhoras a comprimental-o. Eram cousas diversissimas vêl-o em Coimbra, ou alli em Cintra ao lado das senhoras _da primeira distincção_, como lá se diz, e quasi sempre em rigorosa verdade, omittindo-se a qualidade distinctiva. O menos preço em que o fidalgo do Minho tivera o de Lisboa, desvaneceu-se logo. A compostura, o trajo, a seriedade, os ademanes, aquillo tudo, digamol-o assim, aromatizado do palacio e côrte, demudou a má opinião de Affonso em estima attenciosa e quasi amigavel.
Em breves termos, se disseram mutuamente as suas residencias, convencionando-se logo em se encontrarem e conviverem a miudo. D. José de Noronha, como da terra, foi o primeiro a visitar Affonso. Frequentaram-se assiduamente, e chegaram a termos de se hospedarem á vez, e ás temporadas de tres dias, nas casas um do outro.
Claro é: Affonso contou suas penas, com sincera expansão, ao amigo. Era o primeiro estranho a ouvir-lh'as. Mostrou-lhe as cartas de Theodora, encarecendo-lhe a belleza, superior mesmo ao genio revelado na escripta. Nada menos que genio o meu pobre Affonso descobrira nas cartas da esposa de Eleuterio Romão. D. José de Noronha, por sua parte, passava do espanto ao assombro a cada periodo interrogativo da famosa missiva, que me fez rir e chorar--caso unico na minha vida extraordinaria.
--E tu podeste, Affonso--disse D. José--podeste resistir a esta mulher?!... És aleijado, ou tens peito de rocha, ou cheiras a santo! Abre-me bem os refolhos do teu espirito. Esclarece-me este phenomeno. É certo que nunca respondeste a esta mulher, nem a procuraste?
--É certo--respondeu Affonso, quasi envergonhado da confissão.
--Ó pobre Joseph! ó mallograda Hiempsal! Conheces bem a Hiempsal... a esposa do ministro de Pharaó! Quantas capas tencionas assim deixar em lindas mãos?... Ai de ti, Affonso de Teive, que, a final, sahirás do mundo sem capa, e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850, e que tens de alijar a carga de dous seculos, se não quizeres ir a pique, varar no ridiculo inexoravel com os homens da tua fortuna e da tua figura. Origines ficticios, que nem sequer resalvam com o estudo dos attributos divinos a sua ignorancia dos attributos humanos... Pobre Theodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijar-lhe os cabellos, e não arrancar-lh'os. Pobre menina, casada com um homem chamado Eleuterio... que mais?
--Eleuterio Romão dos Santos--disse Affonso, sorrindo no tom imitante do dizer galhofeiro do amigo.
--Eleuterio Romão!... Eu não sei--proseguiu D. José--se amaria a esposa de um homem chamado Eleuterio!... Mas, nas condições de cara e estylo em que está Theodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Affonso, obrigando-a a promover o chrysma do conjuge... Fallemos serios, serios como rapazes, que tem o estricto dever de não serem palermas, do contrario seremos victimas de todos os Eleuterios. É necessario que escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas, visto que estás aqui a ares, e tens ainda a balda de escrever meditações... Que ratão és tu, Affonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma graça! Quando tu publicavas no «Trovador» umas lamurias lamartinianas, que davam idéa de seres um desgraçado, que vivias das brizas do claro Mondego, e tu, meu patarata, em quanto fazias chorar as meninas com os versos, emborcavas torrentes de cognac por uma catadupa esponjosa que muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal!... Patusco!... Fallemos agora serios. Escreve á Theodora, se tens algum resto de pudor... Não me digas que estás soffrendo por ella, que deixaste por ella tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo por causa d'ella... Não me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoice. A virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado de Theodora, e interpor n'esse espaço trinta mulheres, com tanto que te não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe désses desgostos muito menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo, e devias desejar a outra porque era um demonio. Que fizeste tu quando ella casou? Choraste, e com tamanho aggravo dos teus brios que consentiste que o mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte annos, gentil, e rico! Pondera bem n'esta vilipendiosa calamidade, meu caro Affonso. Salta sobre dez annos de tua existencia para diante, e diz-me que nojo te ha-de fazer este Affonso, quando o Affonso de 1860 achar que tem o mesmo nome, e quasi a mesma figura!...
E continuou por largo espaço n'este sentido.
Escutava o filho de Eulalia o discurso de D. José, lardeado de facecias, e, por vezes, attendivel por umas razões que se lhe cravavam fundas no espirito. As réplicas sahiam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já elle se temia de responder cousa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição para o igualar na licença da idéa, e por vezes, no desbragado da phrase. Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos-Ayres aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão sómente para tolos infelizes que fiam do anjo da soledade o despenarem-se, chorando. Mudou residencia para o centro de Lisboa, entre os salões e os theatros, entre o reboliço dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras impressões enjoaram-no; mas, á beira d'elle, estava D. José de Noronha, rodeado dos próceres da bizarria, todos aporfiados em tosquiarem um dromedario provinciano, que se escondêra em Buenos-Ayres a delir em prantos uma paixão callosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora, Affonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo lhe segredava os seus antigos dictames, que expor-ser á irrisão de pessoas d'aquelle quilate. É verdade que ás vezes duas imagens lagrimosas se lhe antepunham: a mãe, e Mafalda. Affonso desconstrangia-se das visões importunas, e a si se accusava de pueril visionario, não emancipado ainda das crendices do poeta inexperto da prosa necessaria á vida.
Escrever, porém, a Theodora, não vingaram as suggestões de D. José. Por ventura, outras mulheres superiormente bellas, e agradecidas ás suas contemplações, o traziam preoccupado e algum tanto esquecido da morgada da Fervença.
Mas, um dia, Affonso, n'uma roda de mancebos a quem dava de almoçar, recebeu esta carta de Theodora:
«Compadeceu-se o Senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira da sepultura, d'onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Affonso. Meus labios já não amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O cadaver ergueu-se na immobilidade da estatua do sepulcro. Agora não me temas, não me fujas. Pára ahi onde estás, que as tuas alegrias devem de ser muito falsas, se a voz d'uma pobre mulher póde perturbal-as. Olha... se eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infancia, abraçava-te. Se me dissesses que a tua innocencia se baqueára á voragem das paixões, repellia-te. Eu amo a creança de ha cinco annos, e detesto o homem de hoje.
«Asserena-te, pois. Esta carta que mal póde fazer-te, Affonso? Não me respondas; mas lê. Á mulher perdida relanceou o Christo um olhar de commiseração e ouviu-a. E eu, se visse passar o Christo, rodeado de infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: «Senhor! Senhor! é uma desgraçada que vos ajoelha e não uma perdida. Infamias uma só não tenho que a justiça da terra me condemne. Estou acorrentada a um dever immoral, tenho querido espedaçal-o, mas estou pura. _Dever immoral_... por que não, Senhor! Vós vistes que eu era innocente; minha mãe e meu pae estavam comvosco.
«Abafaram-me n'uma jaula; eu queria amar-vos fóra dos violentos ferros, deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto. O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justiça, praticou uma immoralidade, levantando sobre as faculdades d'esta alma esmagadas o patibulo do meu coração. Foi immoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor. E eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxêa a gonilha no pescoço, a vós ajoelho, Deus dos reprobos das alegrias d'este mundo, exorando-vos que me deis um amigo.
«É o que eu diria ao Deus da adultera e da Magdalena, Affonso. E o Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma, fulminada pela inspirativa misericordia do Justo dos justos, sahiria um gemido piedoso por a mulher desamparada. Sê meu amigo!»