Chapter 6
«Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos compendios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessaria a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ella. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idéas que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu designára passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A dôce creatura, accusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigára-se a expiar pela abnegação e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me reapparecesse a visão de Lessa.
«Que presentimento!
«Dias antes da minha destinada partida, fui ás Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro, quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alamêda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse n'um tom ironico:--Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados.
«Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu braço, e reconheceu-a tambem de instincto.
«Desviei-me do caminho trilhado para seguir ávante. Theodora deixou cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom arrogante:--Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua.
«Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no fremito da sêda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume, e afastou-se a passo rapido.
«Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?!
«Mafalda ia murmurando:--Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Lessa, e meu pae descreveu-m'a tão pelo miudo que a adivinhei. Não t'o disse, e pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...--Não receies, minha boa prima--disse eu a Mafalda--que esta mulher na minha vida, já agora, apenas póde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas Caldas--Minha prima replicou:--Não te illudas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita.
«Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia á caixa. Abri-a, e vi uma trança de cabellos, com tres flôres resequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flôres: tinha-lh'as eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus annos.
«Tirei a trança, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora; consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, ácerca da miseria do bruto que chora, e beija tranças de cabellos, do bruto que ri de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado _homem_. «Ia depôr as madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente, fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de noite, e palpitante de commoção sahi do meu quarto, e fui respirar no escuro d'uma varanda, onde presumia não encontrar alguem.
«Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente. Fui á extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com anciada violencia. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas mãos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava. Respondeu-me:--São as primeiras lagrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixa-te perder... Não ha ninguem que te possa salvar d'aquella mulher.--E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.
«Eu levantei olhos ao céo, e disse, em meu espirito, com terror quasi infantil:
--Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa misericordia não tem querido salvar-me!
«E cuidei que o céo, se abrira á minha oração com um milagre.
«A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta, vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa.
«Amei então minha prima; todas as estrellas do céo m'a estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno ao Senhor que me descaptivára das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo de sua audacia me fascinára, e com aquelles cabellos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.
«Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a á cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas só servem para exprimir os soffrimentos communs.
«Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a benção, e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez soffria, depois que eu a surprehendêra chorando provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisação de Mafalda.
«Fechado na minha alcôva, abri a carta de Theodora. Está n'este masso lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da authenticidade da historia... Aqui a tens. Lê tu, em quanto eu dou folga aos pulmões. Ha muito anno que não fallei tanto tempo!
Li a carta de Theodora, cujo traslado segue:
«Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso?
«Quando te dei eu direito de suppôr que o teu silencio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo?
«Quando eu te appareci magnifica de dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.
«Não podeste chegar com a fronte á altura da minha, e apedrejaste-m'a!
«Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava, e não sabes sequer usar a misericordia de dizer á mulher, que te ama, que não seja infame, amando-te?!»
N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração, e disse:
--Esta senhora tem estylo, ou eu não entendo nada de estylos! Que interrogatorio!
«Podes rir, que eu tambem cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive--disse o meu amigo.
--Mas o estylo--tornei eu sinceramente agradado da leitura--o estylo aqui não póde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hercules! Isto sim que é mulher... e «aqui ha que vêr» como diz o Garrett.
--E que lêr--ajuntou Affonso de Teive--continúa, se queres.
Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura:
«A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezivel!
«Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dôres do meu captiveiro, dentro das grades das Ursulinas?
«Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flôres, das aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?»
--Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os periodos, meu caro Affonso; e, se me dás licença, direi que ha estylo de mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impressão te fazia isto ha quinze annos!...
«Lê, e no fim fallaremos--disse Affonso. E eu li:
«Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada é generosa. Não respondas. Ri, e escuta.
«Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços, e esperar a morte. Á borda do abysmo, vi uma tabua de salvação. Sabia que, segurando-me n'ella, as mãos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me á tabua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo.
«Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher sem mãe, sem pae, sem amigo, sem coração que se abrisse ás cinzas do meu. Não importa. Via o sol no firmamento; e para além do sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor que, á sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em sua innocencia, não ousam interrogal-o como Job!»
--De mais a mais--reflecti eu--lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive escorreitamente?
«Espera que a concatenação dos factos te elucide--respondeu Affonso.
Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso:
«Trasbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céo de bronze, as catadupas que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei á cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um anno te avistei encostado ao hombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanhã não terás honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que te não insulte.
«E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciação, aquellas palavras queriam dizer:--Dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me acclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indignas d'ellas; e eu, contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseraveis, que m'a cuspirem.
«E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos labios o sangue do coração, e escarraste-lhe!
«Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma. Os cabellos negros, que adornastes com tres flôres n'aquelles formosos quinze annos, cahiram-te aos pés. As flôres vem aradas do fogo do inferno. O phantasma voltou ás suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao céo, e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação, e eternidade para o amor. Adeus.»
Não sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a leitura da carta, já quando os olhos mal discriminavam as letras.
Como a gente, ás vezes, chora?...
Era o estylo!
XI
Sorriu Affonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu destrahidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de fasciculos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro, e continuou:
«Eu é que verdadeiramente chorava, quando acabei de lêr esse papel. Ficas sabendo a impressão que em mim fez a carta de Theodora. Não ha vergonha que eu omitta n'esta confissão geral. Sou o juiz do homem que fui. Julguei-me e condemnei-me ao opprobrio de levantar da lama o coração velho, e mostral-o com nausea ao enojo dos que vão passando...
--Mas eu não vejo ahi cousa indecorosa de que te envergonhes!...--atalhei.
«Vês, pelo menos, a baixeza do meu espirito, senão antes a crassa sandice de pensar que as accusações de Theodora estavam justificadas por essa frandulagem de palavras sonoras, e apostrophes melo-dramaticas. O castigo da minha miserrima estupidez virá depois... Lá chegaremos.
«Li terceira vez a carta, e abri a janella do meu quarto. O vento ramalhava nas carvalheiras, e o céo d'aquella noite não tinha uma estrella. Appeteci embrenhar-me na escuridão do arvoredo. Abri de manso a porta do meu quarto, e, pé ante pé, ganhei a varanda d'onde era facil o salto á rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janella contigua á varanda, me surdiu a voz de Mafalda.--Não tinhas necessidade de saltar, primo--disse ella--Chamasses que se te abriam as portas.
«--Estás a pé ainda, minha prima?--perguntei eu, corrido da surpreza, e algum tanto contrariado da espionagem.--Nunca me deito mais cedo--respondeu ella com brandura--Quando as noites são assim tristes, gosto de as vêr... Está vento, primo;--continuou retirando-se--não estejas ahi ao ar desamparado. Boas noites.»
«E fechou rapidamente a janella.
«Encaminhei-me á alamêda dos banhos, na inepta esperança de vêr alli vestigios de Theodora, ou não sei se ella mesma. Não sei ao que ia. É impossivel explicar o intento que nos impelle em casos semelhantes, quando a gente, alguns annos depois, inquire de si mesmo o sentido das suas intenções: são actos estranhos á razão, dos quaes só póde desculpar-se o delírio. A verdade é que eu fui á alamêda, e andei, palmo a palmo, recordando-me do local em que ella me sahiu, e a direcção que tomára na retirada. Sentei-me n'um dos bancos de pedra, e conjecturei se ella teria estado alli sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para escutar o som das palavras de Theodora, que me ecoavam do intimo coração. Atirei com a alma supplicante e desesperada áquelle céo de bronze, negro como ella. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a vehemencia do justo atribulado que pede a corôa do triumpho.
«Levantei-me, e andei por as trevas, esbarrando nas arvores, e refrigerando o fogo da testa e mãos nas fontes e charcos que topava. Ao arraiar da manhã, estava eu nas raizes da Falperra. Senhoreou-me então um somno lethargico e invencivel. Adormeci com a face encostada á raiz d'uma arvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos primeiros raios do sol. Retrocedi pela estrada das Taipas, e entrei em casa, quando meu tio Fernão, admirado de minha falta, andava indagando dos criados, se eu sahira de madrugada.
«Mafalda appareceu-me com o semblante pallido, os olhos raiados do muito chorar, e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até meia-face. Meu tio ligeiramente alludiu á minha falta, na presença da filha. Sahimos da mesa de almoço, e entramos na sala, onde Mafalda recordava as suas musicas ao piano, e, algumas vezes, se acompanhava cantando. N'este dia, a adoravel penitente sentou-se ao piano; e, com uma só das mãos, dedilhou umas toadas monotonas, mas celestialmente saudosas e melancolicas. O velho acenou-me, a occultas da filha. Segui-o; sahimos, e caminhamos a pé na direcção das ruinas de Citania. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em pé. O velho avisinhou-se das ruinas, estendeu o braço com o indicador apontado, e disse: Aquelles pardieiros pertenceram a teu tio-avô Christovão de Teive. N'aquelle tempo, os homens de vida infamada, quando os ultimos invernos lhe geavam na cabeça, e os sinos, dobrando a finados, lhes attrahiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os até ao amago, e estorcia-os nas roscas das suas mil viboras, até que Deus se amerceava d'elles, e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da côrte entrou-lhe no coração, e apodreceu-lh'o á força de lhe derrancar o sangue com as torturas da perfidia. O moço empestado veio para a provincia, e sevou o seu odio em quantas victimas pôde surprehender adormecidas no regaço do seu anjo de innocencia. Aos quarenta annos, pesou sobre elle a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabellos até á raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor d'elle fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os engeitadinhos, indigitados como filhos d'elle, ousavam chegar-lhe um pucaro de agua. Christovão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de visinhos, construida não sei para que fim ha tres seculos. Aqui se encerrou e viveu quinze annos aquelle vivo amortalhado nas ulceras da sua pelle. A sua companhia era a ama, que o amamentára, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilissima enfermidade. Morreu o desamparado, legando esta casa á mulher que lhe cerrára as palpebras. A enfermeira foi depós elle, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cincoenta annos depois, quando eu aqui vim, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguem poz pé a dentro das soleiras, que alli estão, onde existiram as portas...
«Deteve-se meu tio breves instantes, e concluiu:--Affonso, o divino Mestre doutrinava com parabolas: o homem d'estes calamitosos tempos moralisa com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o d'elle. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do coração. Em quanto esse dia de regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha unica, um thesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Affonso, se as lagrimas d'ella te não resgatam das presas d'uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silencio, Affonso...
«Na madrugada do dia seguinte, sahi das Taipas, e fui para Ruivães. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Sahia um vapor para Liverpool: embarquei, e estive na Inglaterra; passei a França; e de França fui residir na Suissa uns seis mezes. O arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre. Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voando em espirito á patria, não era a de minha mãe. Ella sempre, Theodora sempre!
«Ao cabo de um anno de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então como curado. A memoria d'ella era já fria: o pulso não se accelerava, nem do coração me subia á cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia á convalescença d'uma perigosa enfermidade. Notei sensivel mudança no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao céo no perfume de suas orações. A coruscante luz d'aquelles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas cahiam-lhe soltas sem flôres, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que elles valham ás venturas da existencia. Porém, formosa da aureola santa da dôr sem culpa. Que paixão me avassallou n'aquelles primeiros dias! com que religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos labios d'ella! Recordo-me de a encontrar sosinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher purissima. Tomei-lhe com subita sofreguidão os dedos que me offereciam um pomo. Não ousei beijar-lh'os... apenas balbuciei: minha querida irmã!... Mafalda respondeu--Deves assim chamar-me, por que eu já me afiz a chamar minha mãe á tua, meu primo.
«A paz dos primeiros dias, aquelle suave repousar do espirito, entre as duas carinhosas almas, que m'o distrahiam com as indiziveis doçuras da domesticidade, durou menos de tres semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustiei-me, e cobrei horror do meu futuro. «Que abominavel homem sou!» dizia eu no meu intimo senso, repellindo-me a mim proprio com uma restante força de virtude--Se me repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para que me devoro n'estas covardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e, em minha alma lhe exoro perdão d'este odio. Se me doe o coração saudoso d'ella, abomino-me, e recurvo sobre mim proprio as unhas d'esta feroz paixão.
«A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ella via nos meus olhares a submissão imploradora, e não entendia a covarde procedencia d'aquelle fital-a com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a visão de Lessa e da lamêda das Caldas, Mafalda rehavia do céo os jubilos de outros dias, e a purpura do rosto. A compadecida amargura, com que eu a fitava, afigurava-se á ingenua menina a expressão do amor contemplativo, como ella o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pae.
«Minha mãe, a occultas da sobrinha, perguntava-me a respeito d'ella cousas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciencia. Mostrava receios de ter desbaratado as flôres do coração, ao apuro de não ter já virtudes que me fizessem um digno esposo d'ella. Minha mãe não podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicações, e, ouvindo-me, dizia soluçante: «Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraçado filho!»
«A quarenta passos de distancia de minha casa está uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Theodora, na carta que lêste. Quando ella tinha seis annos, esteve com sua mãe uma temporada em nossa casa, e voltou alli aos nove. Algumas vezes nossas mães se sentaram nos degraus do cruzeiro, em quanto nós, com vergonteas floridas de acacias e arvores de fructa, teciamos uns desageitados festões que dependuravamos dos braços da cruz.
«Levou-me para lá o coração dez annos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o sôcco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Theodora. Eram duas datas: _5 de Julho de 1848_, com a assignatura inicial _T. P._ Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: _10 de Setembro de 1849_, com as mesmas iniciaes, e as seguintes palavras: _Aqui veio orar a alma penada._ Eu estava então em 15 de Setembro d'aquelle anno. Cinco dias antes, pois, alli tinha estado Theodora.
«Recolhi-me com febre. Á celestial graça de Mafalda, que me sahiu ao tope da escada, respondi com uma affectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassivel carrasco das organisações ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe, e, por alguns dias, raras horas nos encontramos.
«Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma corôa de flôres do campo; e, na base, inscripta outra data: _20 de Setembro de 1849--Meia noite--O sol de amanhã queimará as flôres; mas o braço da cruz redemptora permanecerá aberto para os desgraçados. T. P._
«Eu queria esconder de minha mãe estas inscripções, feitas a lapis. Embebi um lenço em agua, e desfil-as. Hei-de agora confessar-te que a pertinacia de Theodora, por algumas horas, me pareceu ridicula.