Amor de Salvação

Chapter 5

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Quizera o desembargador leval-o comsigo na traquitana; mas o moço rebellou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da pertinacia do sobrinho em ficar, terceira noite, fóra de casa. Affonso internou-se de corrida entre o arvoredo, n'um impeto de desesperação ou loucura. O magistrado deixou-o, e foi para Lisboa, d'onde participou á irmã o resultado das cartas, e aproveitou o ensejo para vaticinar que Affonso ia caminho da demencia a passos de gigante.

Disse-me Affonso que, n'aquella noite, fôra ter a Mafra; e repousára, na madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do sol, quiz agitar-se em nova caminhada; mas o cavallo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassivel á espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Affonso. A mais tragica desventura tem uma physionomia comica, se bem lh'a procuramos. Escusavel seria o riso de quem observasse o cavalleiro, roxo de febre e colera, esporeando os ilhaes do esbuxado cavallo, decepado de jejuns, e correrias arabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer póde questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade!

Em quanto o cavallo reparava as forças na manjadoura, Affonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Theodora. Escreveu tambem ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.

Feito o proposito de viajar, o phrenesi descahiu em sombria, mas serena tristeza.

O céo negro abria-se-lhe, a instantes, em relampagos de luz. Atirava elle com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineavel, e retrahia-se com ella a uns rapidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas dos dezoito annos! Viajar era-lhe já uma ancia; cria-se resgatado assim das penas, e só assim que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.

Embebecido n'esta esperança, voltou para Lisboa, e recolheu-se tranquillo a casa do desembargador. Ninguem fallou em Theodora. As primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem proposito d'isso. O velho proferia maximas umas de Seneca, outras d'elle ácerca das paixões; abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Affonso, n'aquelles oito dias, podera recopilar maximas e proverbios com que, no decurso de longa existencia, regesse as suas acções, e repartisse sciencia de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inattento sobrinho do apotegmatico desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as maximas de Seneca, e quasi latinas as do tio em virtude do estylo graudo e philintiniano em que as compozera. O certo foi que Affonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.

Mais vernaculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.

N'um dos dias em que Affonso estava esperando recursos para se expatriar com a sua dôr, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Affonso, desgostoso da surpreza, bem que as lagrimas o consolassem ao vêr sua mãe, receiou que ella viesse apostada, com o imperio dos prantos ou da authoridade, a demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu benignamente, e disse-lhe:

--Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sahir de tua patria, não quizeste ir abraçar tua velha mãe, e abraçal-a talvez para nunca mais a tornares a vêr. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Affonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca sahirem da patria para as guerras contra a Hespanha os militares ainda mancebos e os generaes já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e orarem em commum diante da cruz a que suas mães tinham orado com elles tenrinhos nos braços. Este era o uso da nossa familia antiga, meu filho, e não sei por que não ha-de continuar comnosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que elles oravam, tambem eu orei comtigo em meu seio, e lá aprendeste de minha bocca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos--nome dôce de mãe que te estremece--seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Affonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a sua pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com anticipação o abraço, que eu lhe pediria nos ultimos instantes da vida. Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar, e ficar pedindo a Jesus Nosso Pae que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam chorando. Em quanto a dinheiro, Affonso, tu dirás o que queres, que prompto está. Prasa a Deus que elle te não sirva de ruina ou deshonra.

O desembargador, que estivera ouvindo esta affectuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no hombro com severidade, e clamou:

--Acorda, coração de pedra!... Córa de pejo, e dôa-te o arrependimento, filho mau!

--Meu mano--disse a senhora--o nosso Affonso não é mau filho, nem tem acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que elle tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou n'esta má vereda fui eu.

--Tu, Eulalia?! Como assim?--perguntou o desembargador interdicto.

--Eu, eu fui, quem primeiro lhe fallou em Theodora, e lhe preparou o coração para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Theodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ella fosse excellente esposa de meu filho, e digna de o ser do filho da mais illustre mãe. Eu enganei-me, e elle foi enganado por mim. Affonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco ha, lhe chamei fraco.

Affonso lançou-se em pranto desfeito, aos braços de D. Eulalia; e, após curtos instantes de offegante silencio, exclamou:

--Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um thesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é a sua vida!

--Graças vos dou, meu Creador e Redemptor!--clamou a senhora, muito commovida, com as mãos postas--Grande é o poder que daes ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericordia não mede os merecimentos pela afflicção com que as mães vos chamam!

E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infancia.

O magistrado e as filhas solemnisavam o espectaculo chorando e rindo de contentamento.

IX

Verei se posso repetir, sem inexactidão sensivel, o que Affonso de Teive me contou, com seguimento aos successos descriptos.

«Nenhum rapaz dos meus annos--dizia elle--exerceria tão dolorosa violencia sobre o seu espirito. Jurei commigo de nunca mais proferir o nome de Theodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido d'ella. Eu não sabia a que porta do inferno fôra bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade, que homem nenhum de annos experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de minha familia, atava com arames em brasa a mascara da minha agonia, contra a qual minha propria mãe involuntariamente dardejava insultos. Quando ella me dizia: «Estás esquecido d'aquella louca, meu filho! as minhas orações foram ouvidas no céo» ou quando meu tio, com alegres gargalhadas me applaudia, dizendo: «Sempre entendi que eras homem, meu rapaz!» então a minha angustia exacerbava-se, e eu, assim que as attenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mãos postas; e, muitas vezes, d'este inutil rogar á piedade divina, erguia-me para escrever a Theodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquellas!...

«Minha mãe deteve-se um mez em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer comsigo para a provincia; mas a obediencia não podia levar tão longe a abnegação. Recordar estes sitios, vêr além os horisontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar, fortuitamente, Theodora, ou alguem que me fallasse das felicidades d'ella, isto apertava-me tanto a alma, que eu sentia em mim um desfallecimento de coragem, uma quasi precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.

«Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapazes de todas as condições e feitios me arrancariam de mim proprio, e levariam em suas folias, ou me habituariam o espirito ás consoladoras occupações do estudo.

«Minha mãe accedeu promptamente á minha vontade.

«Fui para a universidade, muito escasso de preparatorios, e por isso me matriculei em philosophia. Logo aos primeiros dias conheci que fôra um erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moços-velhos, gente ridicula; mas d'uma ridiculez que não distrahe ninguem. Cada um parecia que trazia dous oraculos na cabeça: antes de expenderem os seus dogmas, punham-se á escuta da inspiração; e, ao abrirem a bocca, a propria Minerva das escadas latinas cuidavam elles que se apeava do sóco para escutal-os. Zanguei d'estas creaturas infestas, e fui-me inscrever na fila dos litteratos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravalhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da leitura, emfim, futuras esperanças da patria, que bem sabiam que uma diminuta sciencia, com muita ousadia, basta para attingir os pinaculos sociaes. Tinham estes rapazes um jornal. Publiquei sem assignatura uma das muitas poesias que eu tinha escripto nos arvoredos de Bellas, nos tempos em que a imagem lagrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá commigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da terra. A poesia tinha a religiosa suavidade d'um amor que se alliava aos santos enlevos do coração virgem. Os litteratos disseram que eu imitava Lamartine, e que mesmo o traduzia quasi litteralmente em algumas strophes. Ora, eu não tinha ainda lido Lamartine: fui lêl-o, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado commigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus collegas por se darem uns ares de tolice muito por ahi fóra dos limites rasoaveis. Passados tempos dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada, vertiginosa, escripta depois do meu desastre. Os meus collegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode, declarára que eu traduzira Victor Hugo. Fui lêr depois Victor Hugo, e lastimei que os soberanos do genio estivessem sujeitos ás chufas de todo o mundo, sem excepção dos litteratos meus contemporaneos da universidade.

«Enfadado d'uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os _trossistas_, iniciando-me para isso nas libações homericas da genebra e cognac do Troni. Á primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou-me minha mãe, e chorei. Não impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus socios de delirio diziam que eu, embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcastico, ironico, eloquente, e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra côr, e de haver idealisado formosas chimeras douradas por novas e esplendidas auroras d'outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acommettiam os terrores da noite infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, odio mesmo á luz que me amostrava os espectaculos da natureza, em que n'outro tempo a minha alma, toda oração, toda absorvida, se evolava em effluvios de admiração para o Altissimo.

«N'este perdimento de dignidade terminei o primeiro anno, com approvação plena, e resolvi passar as ferias em Lisboa.

--Com approvação plena!--atalhára eu Affonso de Teive.

«Por que não?--respondeu elle--As minhas noites eram quasi todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e disturbios. Se o torpor me não adormecia, a visão de Theodora sentava-se em frente da minha mesa, e dialogava commigo, ella no tom escarnicador da mulher ovante da sua deshonra, e eu no accento supplicante de quem já não tem que pedir senão piedade. A refugir d'este supplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, lia-os, e relia-os sem comprehendel-os; mas, esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar, e expôr com clareza, uma ou outra vez, as idéas dos compendios. Os meus creditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente n'uma lição.

«Pediu-me minha mãe que a visitasse em ferias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ella fosse ao Porto passar commigo a estação dos banhos de mar. Annuiu a santa senhora.

«Os meus dias corriam magoados, mas serenos em Lessa da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas mui distantes umas das outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pae me tinha desenhado sem encarecimento. Fôra a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois á verdadeira luz. Era bella, e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua innocencia. «Se eu podesse amal-a!» dizia eu a minha mãe, que se tornára para mim, n'aquelles dias menos opprimidos, uma segunda consciencia. E minha mãe, com a summa delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a fallar, que me fizesse lêr alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da _Noite do Castello ou os Ciumes do Bardo_. Comecei a lêr pelo livro; porém, á segunda pagina, dei de mão insensivelmente ao livro, e declamei de côr com tamanho enthusiasmo, e com a voz tão vibrante de lagrimas, que minha mãe rompeu em soluços, e minha prima empallideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto d'aqui, do alto dos meus tamancos, e através d'estes oculos de tres graus!

«Minha mãe impediu a continuação da leitura, e Mafalda nunca mais desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e muito menos attenciosa, minha prima, desde aquella explosão de ciumes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me tão de leve, que nem a vaidade me magoou.

«Estavamos em Setembro, e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sitios, onde as horas me tinham sido mais tranquillas, na soledade. Velejei n'um barquinho rio acima, e aproei á ribanceira, d'onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado conventinho de extinctos franciscanos. Á sombra d'um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrazado templo, meditei nos frades, no convento, no refugio dos desamparados do mundo, nas lapides profanadas que mãos impias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações, extinctos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilisação, que fechára os aditos da paz, quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexoravel; maldisse a illustração, que aluira a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angustia era ainda immensa, por que eu não podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho de melhor mundo.

«Descendo o rio, lá me ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava esperando. Detive-me a passear com ella pelo braço, e a referir-lhe as minhas idéas sobre os conventos. A virtuosa rejubilava-se ouvindo-me, e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor, e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestigios de meus religiosos avós, alguns dos quaes tinham morrido martyres da fé nas pelejas dos soldados de Christo contra os mahometanos. Ouvia eu aprazivelmente a chronica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na Africa e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do Porto, á sahida de Matosinhos, com direcção á ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavallo, ao lado d'um cavalleiro menos cuidadoso das arremettidas garbosas do seu.

«Minha mãe assestou a luneta, e murmurou:--Valha-me Nossa Senhora dos Remedios!... Se me não engano...

«Quem é?--atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavalleiros, no entanto, avisinharam-se a galope. Antes de conhecel-a, adivinhou-a o coração, que me repuxou á cabeça uma onda de sangue... Era Theodora, Theodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas chimeras do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de verem as fealdades d'esta vida... Não te espante o ardor d'esta linguagem. Eu fiz agora pé atraz vinte e quatro annos da minha vida, e senti-me reviver n'aquelle momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar fôlego, recordando minha mulher e meus filhinhos.

X

Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade com que principiára.

«Theodora reconheceu-me. A turbação do meu animo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de minha mãe, e senti-me comprimido nos braços d'ella. E a magia satanica do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz então a mão sobre o meu coração, e já lá encontrei a de minha mãe.

«Caminhamos para casa, e não trocamos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto de minha mãe, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que salvam são os da dôr immerecida, os apêllos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldiçoava, e pedia vingança.

«No dia seguinte, fui para Coimbra.

«Concentrei-me com a visão da ponte de Lessa. Não me deixou aquelle adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?--dizia eu--Se tenho de voltar á razão para encontral-a com a tenaz ardente da tortura?

«Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dôr que eu não sei se é commum de todas as organisações, dôr que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: «Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixão. D'aqui por diante ha-de rasgar-me o peito a desesperação dos reprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir-te perdão. Não me amaldiçôes tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perdôa, e Deus te dê o triumpho na bemaventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella virá salvar minha pobre alma d'este miseravel corpo.»

«Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia! Começava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha propria consciencia. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajal-a e adoral-a era então a despotica necessidade da minha cabeça allucinada.

«Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dôres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem excepção d'um só, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem á sua zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraças.

«Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os fragmentos d'outras, que eu destinára a Theodora. Abri as cartas, reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.

«Porque? porque não havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado d'ella, que maior victoria queria eu, senão a de fazer risivel o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta philosophia hedionda, com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade do meu caracter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexivel pundonor dos dezenove annos. Era uma feroz vingança que eu me infligia á conta do covarde quebranto em que me deixára a apparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.

«O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeçonhado de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.

«Escondi de minha mãe aquelle estado em quanto me não assalteou o remorso de a não chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma que me levára a destruir a minha vida por meios tão ignominosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vêr, a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade.

«Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruivães, os regatos crystallinos, orlados de verduras em que minha mãe me via creança, a colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava então estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: é que o envolucro já lhe não empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal, aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.

«Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e inhabitavel, aformoseou-m'o então o anhelo de viver. Até a côr do céo, d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Theodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essencia, captiva do amor d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo.

«Surprehendi minha mãe, sentada á sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberancia de saude, de alegria, e de uncção religiosa. Então me considerei estreado em nova existencia.