Chapter 4
Esta ultima palavra tolhe-me de continuar a descrever Theodora. Esmoreceram-me os espiritos. Cahi da minha phantasia na lagôa fétida da verdade. Achei-me como ás margens d'uma sepultura regélida do giar d'uma noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os dedos, e a penna desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos jazigos, e remexe e sacode de sobre esta pedra umas corôas humidas de orvalho, crystallizado em lagrimas; são corôas de perpetuas sagradas á formosura, que se julgou immorredoura, á sexta hora do seu breve dia. Lá vão as corôas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão e do cypreste; lá vai tudo; a memoria dos vivos lá se foge tambem d'esta sepultura: tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!
VII
Belleza absoluta, de têlhas abaixo, ha uma só, que é a da mulher formosa; e, na variada manifestação de belleza em diversidade de typos, ha uma superior formosura, que constitue o bello universal, o bello que prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona o espirito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento. Dá-se o exemplo d'esta cousa formulada em these abstrusa na embriagadora influição dos olhos de Theodora no animo selvagem de Eleuterio. A menina de quatorze annos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, appareceu-lhe aos dezeseis na grade do convento, e atordoou-o. O moço, querendo exprimir ao pae a sensação recebida n'aquella hora, disse com expansiva naturalidade:
--Quando ella me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma estava fóra do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma cousa, e a lingua grudava-se-me ao céo da bocca. Quem me dera ser rei, e que ella fosse uma pastora de cabras!
Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeismos, a concisão da idéa poderia attribuir-se a Shakspeare. A mais crystallina agua é a que rebenta de penhascos ermos: assim, de espiritos selvaticos, resaltam por vezes umas idéas limpidas, d'uma sensibilidade original, que faz pensar.
Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a Theodora. A menina, vesada á linguagem mais florida ou mais delicada de Affonso, riu interiormente dos termos rusticos do primo, e de fóra compoz o gesto para fingir que o não entendera. O tutor, porém, instinctivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas inglezes chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as palavras de Eleuterio, aproando o discurso ao ditoso remanso do casamento, que elle, na sua locução figurativa, denominava um _lindo arranjo_.
A morgadinha ouviu anciada o tio, e respondeu com um ataque de nervos, que era já o terceiro que a insultava; sympathica doença em meninas pallidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o apparelho nervoso. Theodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos dormitorios. Acudiram algumas freiras, e transferiram-na á sua cella. A prelada foi á grade averiguar do accidente, e sahiu convencida de que a orphan era uma douda, a quem Libana, de impudíca memoria, ensinára a fingir ataques nervosos. Romão dos Santos sahíra do convento no proposito de consultar um egresso do Carmo sobre os tregeitos e feitios que vira em sua sobrinha, para applicar-se-lhe a reza purgativa de demonios, se o frade entendesse que ella os tinha no corpo. O zeloso e invencivel demonifugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita energumena, mandou ás freiras que depozessem ácêrca das malfeitorias attribuidas ao espirito immundo, e retirou-se capacitado de que a morgada da Fervença estava possessa d'uma legião de travessos e intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre religiosas, não as poupando mesmo, quando ellas tomassem o expediente salvador do conhecido gallego da fabula de Almeida Garrett. Era illustrado o egresso.
No entretanto, soubera Theodora que Affonso de Teive fôra para Lisboa. Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a destemperada arremettida que elle fizera contra a porteira, e as vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquella façanha. Porém, ninguem lhe dissera que dôres o pozeram á borda da sepultura, que saudades o crucificavam em Lisboa, e que vans solicitações fazia a mãe de Affonso para assegurar á filha da sua defunta amiga a certa realisação do casamento.
Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa, sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram á sua conta salval-a. Ao despeito e ao enojo, acresceu o visital-a com mais frequencia, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleuterio. D'antes, a cabeça exterior do moço era horrida, toda escadeada da tesoura habil em tosquiar rezes, tufada de grenhas, com umas rêpas caracoladas sobre as orelhas, e aquelle todo lustroso de azeite. Depois, appareceu Eleuterio com o cabello cortado á escovinha, e os caracoes banidos. Depoz a casaca no gavetão-museu da familia, e envergou uma judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até á ponta do pé, e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de madre-perola. Além d'isto, o pae deu-lhe o relogio avoengo, que, no continente e conteudo de caixas sobrepostas, parecia a baixella d'uma familia, desde a tina do banho até á bacia do lavatorio. Os berloques d'este thesouro, que não regulava ha quarenta annos, eram placas de differentes pedras, e sinetes periformes de tal tamanho, que pareciam armas de defeza.
Theodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleuterio, afóra mãos e pés, que nenhuns outros podiam confundir-se com os d'elle, a despeito mesmo das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para dentro do coração da menina.
Li em algures, e estou convencido d'uma verdade que sôa como paradoxo: e é que o espirito de cada pessoa tem muito que vêr com o modo como ella está entrajada. A intellectualidade apouca-se e confrange-se quando o sujeito se olha em si, e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O desaire do espirito como que se identifica ao desaire do corpo. As idéas sahem coxas e esconças do cerebro; a expressão tardia e canhestra denuncia o retrahimento da alma: ha o quer que seja phenomenal que eu tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem confessado semelhantes segredos de psycologia, em que o alfaiate exercita importante alçada.
Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleuterio se sahiu no palratorio, no dia em que se mostrou desfigurado a Theodora. De vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os berloques, e ao levantal-os para sua prima já nos beiços lhe borbulhava alguma idéa bonita. Igual fortuna o bafejava, quando, acaso ou por acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canella, que se ficava algum tempo narcisando nos pés.
D'este primeiro colloquio sahiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cella da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleuterio o paralta que a visitára. Theodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se, e exclamavam:
--Que perfeito rapaz elle se fez! Ninguem havia de dizer o que sahia d'alli! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.
--Seu primo é uma figura que dá na vista!--ajuntava a mais maliciosa das freiras para não ficar em peccado com a sua consciencia.
Theodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma a ennevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria não póde já reter: era a imagem de Affonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleuterio Romão dos Santos.
Ergueu-se alegre, abriu a janella do seu cubiculo, aspirou o ar do céo que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que á menina se figuraram as delicias da liberdade.
Amava ella Eleuterio Romão?! Não amava, disse-o ella, e eu juro nas palavras de Theodora. O que ella amava era a liberdade; os anhelos de sua alma anciavam sofregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita, e não perdôa. O que ella via em Eleuterio era o homem já desfigurado da repulsão primeira; o homem aceitavel como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem, que lhe vai descancellar os adytos do mundo. Assim é que muitas mulheres tem amado aquelles que as salvam; d'este amor, assim chamado por não haver mais elastico epitheto que dar á cousa, é que surdem os irremediaveis infortunios, os odios irreconciliaveis, e as affrontas que levantam as campas, encerram algozes e victimas, e ficam ainda de pé sobre ás lousas infamadas, pregoando o opprobrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infamia de suas mães... Colho as vélas; que, n'este rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisação: cousa duas vezes importuna.
Conseguira, n'este tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta á morgada, carta de esperanças, alento, e consolações, com miudas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães, e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta promettendo á menina que, antes de cumpridos dous annos, os votos de todos se haviam de realisar diante de Deus, com tanto que Theodora con-servasse firmeza, coragem, e constancia.
--Dous annos!--disse entre si a morgada--Esperar dous annos n'este purgatorio!... Se Affonso me ama, porque não ha-de vir já roubar-me d'este carcere? Dous annos! e viveria eu aqui tanto tempo á espera de não sei que?! Eu captiva aqui dous annos, e elle em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que elle está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Affonso, n'este espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se me elle ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá occasião de envelhecermos. O que eu tenho, meu é já; ninguem m'o rouba por eu casar contra vontade do conselho de familia... Dous annos!...
E, n'aquelle dia e nos dous seguintes, Theodora, de cinco em cinco minutos, dizia: _Dous annos!_ e ficava meditativa, até de novo exclamar: _Dous annos!_
Respondeu a morgada á mãe de Affonso que a sua saude se havia perdido na oppressão e dissabores d'aquella vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ella não amasse. Queixava-se da ausencia e silencio de Affonso, e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Affonso todas as venturas d'este mundo, em quanto ella se deliberava a experimentar todas as desditas.
A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se á sua capella, e longo tempo esteve em joelhos pedindo á Virgem que defendesse Theodora dos seus funestos instinctos.
E, desde aquella hora, a mãe de Affonso, com quanta delicadeza de admoestação e brandura affectuosa pôde, desviou o filho de pensar em Theodora como futura companheira de sua vida. Affonso pedia instantemente explicações de tal mudança no espirito de sua mãe; e ella, podendo responder com o mais idoneo documento, que era a propria carta da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Theodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade, descrevia-lhe o quasi nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memoria de sua mãe; mas não mais lhe fallou de Affonso.
A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou rasoavel o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao artigo essencial de sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saude corria perigo.
Eleuterio, cada vez mais assiduo na grade, já tinha uma outra judia côr de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um collete de veludo escarlate, e um cavallo de marca, apparelhado a primor, e obediente ao freio para todo o genero de upas e galões. Theodora gostou d'isto, por que um dos anhelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim razo, trajada em amazona, com as dobras do amplo véo ondulando no phrenesi de desapoderado galope. O cavallo--faz pejo dizel-o! foi muito no determinar-se a morgada a responder categoricamente ás timidas perguntas do primo Eleuterio. Assim foi. Ageitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse que estava disposta a tomar estado, visto que a idade lh'o permittia. Eleuterio, perplexo, de ouvil-a, sem ousar suppor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito, cuidando que estava alli o coração; quando, porém, a prima lhe disse:
--Faço aquillo que meu tio Romão quizer... Caso com quem elle determinar...
Eleuterio expediu um ai de desafogo, e riu-se alvarmente, esfregando as mãos.
Por amor d'este successo vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no theatro e nos romances. Casos analogos d'aquelle tenho-os visto remedados com tregeitos e exclamações inversas da logica da natureza. No romance todos os Arthures ou Ernestos, ao saberem que são amados, empallidecem, suam, ajoelham, declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher amada. No theatro, em lances identicos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o proprio pae, se lhe atravancassem o caminho da felicidade. Rir ás cascalhadas é que eu ainda não vi amante ditoso nenhum, no instante solemne de se crêr amado. Eleuterio Romão dos Santos é o primeiro modêlo que a natureza me offerece.
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade, que endouda e transporta, o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui calcinado de coração. Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são umas pessoas aridas, frias, e falsas, que inventam a natureza, depois que desbarataram a sensibilidade, exagerando as generosas commoções que receberam d'ella.
Theodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ella o queria falsificado no molde dos romances, que a menina transmontana lhe emprestára; mas, ainda assim, aceitou com paciencia a linguagem desartificiosa d'aquella ingenua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleuterio Romão dos Santos fallou assim:
--Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser tão rico como Sansão. (O padre Hilario quizera leccional-o em sagrada escriptura: fallou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de tres syllabas, deve suppôr-se que tambem em materia de historia, preferia os individuos de duas aos de tres syllabas.)
E continuou:
--Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Theodora...
N'isto, como lhe não occorresse idéa nenhuma com que fechar a oração condicional, levou a mão á testa, e roçou a epiderme com o aro d'um robusto annel que trazia no dedo indicador. Idéa magnifica! Tirou o annel, e lançou-o ao regaço de Theodora. Tinha o annel um grosso topazio, engastado n'um circulo de perolas. Theodora examinou o objecto, e enganada pela circumferencia do aro, esteve quasi a pensar que era uma pulseira.
--Faz favor de encaixar no dedo, prima--disse Eleuterio.
--Não me serve--disse a menina.
--É que está magrinha das mãos...--replicou o moço--Pois guarde-o, e quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima ha-de engordar com os ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa, e acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.
VIII
As filhas do desembargador Figueirôa rodeavam o primo Affonso de agrados, de gozos familiares, e recreios, tendendo tudo a divertil-o de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão, pedia-lhe que se descuidasse em materia de estudos, e tomasse muito a peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ella houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda para a idade de Affonso. Bailes e theatros atediavam-no só em cuidar que havia de ir affrontar-se com centenares de mulheres entre as quaes nem sequer em sombra se lhe offerecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Theodora. O pudor dos dezesete annos, a indole nada communicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprára-lhe o tio, por ordem de sua irmã, um cavallo. Affonso recebeu a dadiva com satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade, e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limitrophes de Lisboa.
O local mais attractivo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Bellas. Desde o reinado de el-rei D. Manoel que as gigantes arvores d'aquella magestosa ancian estavam frondeando, e asylando as gerações de aves, como para alegrarem com suas musicas, e gasalharem com suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por alli as horas lhe corriam placidas, contentes nunca, bem que a tristeza d'entre arvoredos, ao murmuroso cahir d'agua em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das breves e donosas verduras da vida.
De cada vez que Affonso ia á quinta predilecta, em cada arvore nova entalhava as letras iniciaes dos dous nomes, que elle imaginava, apesar da distancia e dos revezes, atados para sempre com applauso de Deus. Este pagão d'amor e por amor, á imitação de todos os amadores visionarios, cuidava que a divindade se intromette n'estas brincadeiras da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta, e lá se atira em corpo, deixando cá fóra a alma infernada na deshonra e na execração. E querem os pobresinhos, com o peito aberto ao abutre de suas chimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!...
E Affonso, escondido nas sombras escuras de Bellas, chorava por Theodora, e, alteando o rosto ao céo, pedia ao Senhor que lhe visse as lagrimas, e houvesse piedade d'ellas.
O desembargador inquietava-se com as longas ausencias do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia á aldêa a conversar com arvores e penedos, e deixava suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. N'estes queixumes das gentis meninas, transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer d'ellas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Affonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da orphan das Ursulinas, se podesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãosinhos do incenso de Theodora, não faria menos que odial-as. Estes escrupulos são a religião, o ascetismo dos illuminados de amor, illuminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta annos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos tambem illuminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados n'este lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos vêr na superficie lamacenta e torva espelharem-se as estrellas do céo da nossa mocidade!
Affonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado ás tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quizera para si. É o que Affonso pensava do silencio da mãe, e das reflexões do velho.
Estava, uma tarde de Agosto, Affonso em Bellas. Desde o dia anterior que não voltára a Lisboa. O tio, como elle não voltasse ao segundo dia, metteu-se á sua carruagem, e foi procural-o, e entregar-lhe cartas recebidas do norte. Uma era de sua mãe, outra d'um seu tio paterno, fidalgo de Barcellos, o mais acerrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Corrêa Figueirôa, com uma mulher da Fervença, que, dizia elle, por nome não perca.
A carta da mãe dizia simplesmente:
«Não era digna de ti, meu filho, Deus bem m'o tinha dito, e o coração estalava-me em ancia de t'o dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.» E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.
A carta de Fernão de Teive era mais prolixa versando quasi toda sobre o casamento de Theodora com Eleuterio.
Parecem-me dignos de extracto uns relanços d'esta carta, que eu copiei do original. Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estylo picaresco do folhetim:
«....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as eguas de albardão e rabicho na parte equestre do prestito, que era luzido, por que os arreios brilhavam, principalmente as barbellas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirára bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara relamboria, levava ares fulos; e procurava as estrellas ao pino do meio dia, pasmada de vêr que ellas não vinham á janella admiral-a. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus, e parabens aos nossos antepassados!............................................................. ..........................................................................
«Perguntei quem eram os figurões do prestito. O meu sapateiro conhecia quatro. Varreram-se-me da memoria os nomes, e só me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum á saude da noiva. O lapuz do noivo queria montar á Marialva; mas o ginete, quando chegou á Cárcova, festejou a suciata com quatro couces que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ella ha-de levar do marido................................ ..........................................................................
«Tinhas a côrte celestial a pedir por ti, Affonso! Quando te deu na venêta ser marido de Theodora, em quanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sábia. Vai ás arcadas do Terreiro do Paço, que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Theodora por Theodora, antes a do papel de mata-borrão, que est'outra é um borrão da tua mocidade, que felizmente o tempo ha-de gastar......................... ..........................................................................
«Agora é tempo de te dizer que tens uma prima, e eu tenho uma filha. Se a queres esposar, vem quando estiveres farto da capital. Está senhora, e foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pae, Mafalda parece-me gentil e esvelta. Em palavras é discreta como se os cabellos, em vez de puro ouro, lh'os tivesse embranquecido a experiencia. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não deva honrar, e bemdizer a mãe que a educou, e o sangue illustre que lhe fórma o coração.
«Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras d'uma mocidade bem encaminhada, e recebe a benção de teu tio
_Fernão de Teive_.»
Lidas estas cartas, Affonso levou o lenço ao suor da testa e ás lagrimas, que lhe cahiram a quatro. O tio, já avisado do successo de Braga, discursou largamente de pitada no dedo, e os oculos montados na mais grave das attitudes. Affonso diz que o não ouvira longo tempo, e o abominára depois que o ouvira.