Chapter 3
Na ultima phase de sua vida, foi ella a Braga com sua filha, de proposito a encontrarem-se com o moço predestinado a esposo, já esquecido, talvez, dos primeiros annos em que se haviam conhecido creanças. O vêr com que alegria elles se reconheceram, e saudaram, como avesinhas pousadas em uma mesma fronde ao mesmo arrebol da manhã, melhorou temporariamente a enferma; porém, a muito rogada vontade do Senhor não lhe concedeu os dous annos de vida pedidos para a effectuação do casamento. Segredos do céo previdentissimo; que, a não o serem, estes rogos de mãe, em favor da virgem, que vai ficar sosinha no mundo, com os seus dous inimigos--innocencia e formosura--taes rogos baldados, e indeferidos em Deus, induziriam a argumentar contra a mediação do Creador nas miserias que creou.
Apenas fallecida sua mãe, Theodora foi recolhida ao convento das Ursulinas, por deliberação d'um tio paterno, constituido espontaneamente tutor da orphan.
Affonso, aconselhado pelo coração e por sua mãe, visitava a educanda, disfarçando as frequentes visitas com a innocente mentira de parentesco.
Theodora, com dous mezes de convento, desenvolveu-se e grangeou sciencia da vida que não alcançaria em dous annos de aldêa, da sua solitaria aldêa, onde tinha apenas aves, flôres, e estrellas a segredarem-lhe iniciações para amor. No convento, as prelecções eram menos vagas, e mais acommodadas á capacidade das educandas. É certo que as mestras não leccionavam ternuras; mas o zelo, com que ellas vedavam o pomo, dava a desconfiar que as precautas religiosas lhes tinham saboreado o travor; a não ser que o desdenhavam á mingua de dentes incisivos com que entrassem na casca d'aquelle execravel e tão convidativo fructo de Pentápolis.
Com menos de quinze annos, Theodora completou o exterior de suas graças, e o interior do seu espirito. A belleza sabia ella já quantas invejas lhe ganhava entre as condiscipulas, quantas intrigas, quantas reprehensões da mestra, á conta do muito enfeitar-se e remirar-se ao espelho. Não importava. A morgadinha da Fervença gostava de ser bella, de ser invejada, e perseguida das inimigas, com condição e resalva de ser admirada pelos galanteadores das suas perseguidoras. Em quanto ao espirito, o saber precoce de grades a dentro igualou-a, se não antes avantajou-a muito ao estudantinho de Ruivães que, contra toda a natureza e arte, em colloquio amoroso ficava muito áquem de Theodora, e sahia do locutorio admirado da esperteza palavrosa da morgadinha.
Estas delicias do palratorio, porém, foram repentinamente suspensas.
O tio e tutor de Theodora, sabedor dos amorinhos, que as religiosas, contra o seu costume, tomaram entre dentes, impoz a sua jurisdicção tutelar. A educanda reagiu sem proveito, e Affonso desafogou em lagrimas a sua saudade.
A velha fidalga de Ruivães, avisada pelo filho afflicto, foi a Braga consolal-o, e d'alli partiu a casa do tutor, a lembrar-lhe o consorcio de Affonso e Theodora, desde muito pactuado entre ella e a sua defuncta amiga. O tutor replicou, dando como nullos taes arranjos, em quanto os meninos não estivessem em idade de os ratificar.
Affonso esmorecera em dolorosa lethargia, ao passo que Theodora pensava em fugir do convento. O instincto de associação, irrecusavel em empresa tão arriscada, deu-lhe a conhecer a unica pessoa capaz de auxilial-a.
Estava nas Ursulinas uma menina de Traz-os-Montes, de familia distincta, e costumes tambem distinctos em natureza depravada. Entrára alli como em prisão; não obstante, como o anjo das trevas nunca desampara as suas dilectas, lá mesmo lhe espiritou traças de poder entender-se com quem quer que foi que a viera seguindo desde a hora em que a familia a desterrára. E que traças de infando successo, que revelação affrontadora da humanidade vai hoje eetampar-se n'esta pagina!
A menina transmontana abrindo á flôr dos labios o sorriso condolente d'um anjo de candura, assellou com um beijo no rosto da sua recente amiga o pacto de se coadjuvarem contra a tyrannia de paes e tutores.
E posta, desde logo, em discussão a materia, quiz a morgadinha da Fervença, sem mais rodeios, saber de que modo poderia fugir do convento. Libana achou arrojado o intento da fuga, e desesperado sem razão, quando se podia melhorar de sorte, sem correr o risco de ser presa e reposta no convento para nunca mais vêr sol nem lua. Contou ella, para exemplificar o perigo da fuga, a desgraça acontecida n'aquelle mesmo convento, uns trinta annos antes. Era a longa historia d'uma senhora, reclusa alli por violencia, que cuidando salvar-se pelos encanamentos subterreos dos escoadouros do mosteiro, morrera asphyxiada; e quando as freiras, a familia e as justiças a julgavam foragida no estrangeiro, um operario occupado da limpeza dos vallos, encontrou um cadaver quasi esphacelado, mas ainda reconhecivel pelos trajos. Semelhante historia, contada e ouvida n'aquella casa sempre com horror, fez sorrir a morgadinha, e tirou-lhe do peito virginal esta observação: «Tendo eu de morrer na immundicie dos canos, antes me deixaria morrer entre a immundicie das freiras. Lá em quanto aos aromas enjoativos, tanto faz estar lá em baixo como cá em cima.» A resposta foi mais estirada e espirituosa no seu genero; mas assumptos d'esta grossura só podem tratal-os curiosamente engenhos claros e eminentes como o poeta dos _Miseraveis_, que poetisa os escoadouros de Paris com o mesmo acume de estylo com que fallaria dos jardins perpetuamente olorosos do Elysio.
Resolvida a sobre-estar do plano da fugida, Theodora travou-se de mui intima amizade com Libana, e formavam a sós um partido, que se fazia respeitar pela audacia da lingua, e soberba de sua prosapia e abundancia de meios. N'este conloio entrava uma servente de fóra e uma criada de dentro, mediante as quaes Affonso de Teive recebia cartas de Theodora, e um cavalheirote imberbe de Traz-os-Montes, primo de Libana, recebia as cartas de sua prima.
N'uma tarde de Agosto, sahiram as duas meninas a tomarem a fresca na cêrca. Com o geito scismador e melancolico em que iam, dirieis que eram as duas graças a procurarem a terceira, que lhes fugira enamorada d'alguma divindade incognita. Quem as visse, áquella hora, depurativa das fezes de maus pensamentos e más palavras, havia de cuidar que o seu dialogo, todo ferventes arrobos e cantares ao empyreo, versava sobre os céos de Santa Thereza de Jesus, ou semelhantes devaneios do espirito embebecido no foco luminoso dos bem-aventurados.
Agora se recostam ellas n'um escabello de cortiça, cujo espaldar lhe formam almofadas de fofas murtas, matizadas da flôr do maracujá. Perto d'ellas trepida uma fonte; no tanque, onde a lua já principia a espelhar-se, coaxam as rans; a viração cicia nas ramas do pomar; zumbem os insectos, espanejando-se ao frescor da tardinha. As duas candidas meninas, enleadas na poesia do quadro, realçam-no e completam-o.
Ouçamos a musica d'aquelles seraphins.
Dizia Theodora:
--Se me eu pilhasse fóra d'aqui!... N'estas tardes tão bonitas, havia de ser tão bom andar eu a passear com o meu Affonso!... Queimado morra o meu tutor e mais o filho! Se não fosse aquelle bruto, não estava eu engradada! Ó Libana, tu não farás com que nos escapemos d'este inferno! Olha... lá está a madre porteira a espreitar-nos da grade do canto!...
Libana voltou desabridamente as costas á madre porteira, e acudiu n'estes termos aos anhelantes desejos da sua amiga:
--Olha, Lóló, não te zangues. A gente, a final, ha-de sahir d'aqui, muito a tempo de gozar a vida. Se não formos tolas, podemos ir gozando mais do que temos feito. Queres tu saber o que me diz o meu Alfredo? Queres vêr quanto elle me ama? que sacrificio quer fazer por amor de mim? Olha, eu não quiz dizer-te o que me elle pediu na carta de hoje, com medo que tu me aconselhasses a não ceder; mas cedo, filha, cedo que a paixão não tem leis. Pede-me para vir ser minha criada.
--Tua criada!--exclamou Theodora.
--Minha criada; pois então?--replicou Libana, abaixando o tom de voz, abafada pelo frouxo do riso--Não ha nada mais facil. O meu Alfredo tem cara de mulher, e não tem ainda barba. Diz elle que se veste á moda das raparigas da minha terra, que me procura com uma carta fingida de minha mãe a pedir-me que receba a portadora como criada; cá no convento ninguem póde impedir-me que eu a receba; a gente hade ter todo o cuidado que se não descubra o logro; e... tu... que me dizes, Lóló!
Theodora acudiu com o rosto chammejante de alegria:
--Olha lá, Lili, o meu Affonso tambem tem cara de mulher, pois não tem?!... Se elle viesse tambem para minha criada era tão bom!
--O peor é que elle é conhecido, por ter cá vindo muitas vezes--observou Libana--O meu Alfredo é que só veio aqui no principio uma vez, e ninguem o conhece... Não vamos nós botar tudo a perder, Loló!
--Que pena!--exclamou a morgadinha com os olhos no céo e a mão direita sobre o coração latejante--Que pena que o meu Affonso não venha tambem para cá!... Ó Libaninha, vê se inventas alguma cousa, se não a tua amiga morre de tristeza!...
E, dizendo, escondeu o rosto, aljofrado de quatro lagrimas, no seio da amiga.
Que lagrimas! D'onde veio ou para onde foi o anjo da innocencia, quando um peito virgem tem d'aquellas lagrimas, e uns olhos, que ainda não viram os hediondos espectaculos da farça do mundo, podem choral-as!
Fechou-se a noite. Já a sineta havia chamado as duas meninas rebeldes ao primeiro e segundo aviso. Ergueram-se, deram-se o braço, e foram, na cella de Theodora, continuar o recendente colloquio do jardim.
Theodora, a não poder ser feliz, exultava com as venturas da sua amiga. Animou-a á temeridade de receber o atrevido rapazola de Tras-os-Montes, idolatra d'um personagem de romance, unico que em sua vida lêra, o _Lovelace_, de quem se propunha imitar o entrajamento de mulher. O tolo! Ainda bem que as asneiras, copiadas dos romances, costumam ter, na vida real, umas sahidas muito desgraçadas ou irrisorias! Ainda bem, para desdouro dos livros desmoralisadores, e luzimento d'outros livros de san moral, que só fazem mal ao publicador que os não vende.
Este Alfredo, que vivia occulto nas cercanias de Braga, applaudido por Libana em seu projecto, foi á sua terra preparar os vestidos, e ensaiar-se em tregeitos mulheris.
Libana tinha uns irmãos, oriundos do mesmo tronco de pae e mãe, os quaes pelos modos, não tinham de que espantar-se do descomedimento e desatino da filha e irman; d'onde vinha o serem elles grandemente avelhacados, astustos, e espiões das tramoias de Alfredo.
A villa era pequena e de soalheiro. Correu logo por algumas boccas, até aos ouvidos dos interessados, o estar-se fazendo roupinhas e saiotes, e outros atafaes de mulher, afeiçoados ao corpo de Alfredo. Sem detença, um dos irmãos de Libana sahiu para Braga; o outro ficou d'atalaia aos movimentos do imitador de Lovelace. O que se escondera em Braga foi avisado a tempo que Alfredo vinha de jornada. Uma engenhosa combinação com as authoridades lançou a rede tão a ponto que o infeliz foi capturado na portaria das Ursulinas, vestido de camponeza transmontana, e d'alli, entre baionetas, e escoltado de rapazio, percorreu todas as estações judiciarias desde o regedor até ás caricias do carcereiro.
As religiosas, conscias do escandalo, requereram ao prelado bracharense a expulsão da reclusa que deshonrava o convento e contaminava de sua desmoralisação as outras meninas. Foi, portanto, Libana entregue a seu irmão, que a levou para casa. Esperava-se geralmente que esta donzella, agourada para estremados desastres, tivesse um fim de exemplo a mulheres desgarradas do trilho da virtude. Os prognosticos da opinião publica erraram, como se ha-de vêr n'um futuro livro.
A gente não sabe ainda bem como este mundo está feito.
VI
O escandalo, que felizmente abortou á portaria do convento, poz de sobre-rolda os paes de familia, que tinham meninas a educar nas Ursulinas, e deu ás insomnes freiras um sexto sentido de observação. Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Theodora tinha bastante capacidade para tomar criada, conforme o gorado systema de Libana. Além d'isto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de quebrar de orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e sahia com invectivas e chacotas ás freiras velhas, clamando a vozes descompostas que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A communidade offendida e esgotada de paciencia, consultado o tutor da educanda, assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monasticos, e encerrou-a no seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Theodora esmoreceu diante da força mixta das freiras e dos padres capellaens, que promettiam supprir com o pulso a inefficacia da eloquencia persuasiva.
Vagamente informado da situação da sua amada, Affonso de Teive foi á portaria do convento, no heroico proposito de ir arrancar a victima de sobre as aras da theocracia despotica. A porteira, senhora de oculos e de muita virtude, offereceu peito de martyr ás injurias impias do acriançado amante. Porém, como quer que o acaso alli encaminhasse um cabo de policia, quando Affonso gesticulava e vociferava um menos mau improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça, correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o allucinado alumno de rhetorica, estrondeava na porta valentes murros, chamando Theodora a clamorosos gritos.
Travado pelos braços pujantes das authoridades, Affonso não pôde resistir á surpreza do assalto. Escabujou e esbraveou em quanto as forças da raiva o aqueceram; a final cahiu exanime nos braços da lei, balbuciando ainda «Theodora!» Estava a instaurar-se-lhe processo, quando a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitavel presença, e auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade pueril do filho.
Affonso, levado por sua mãe, foi para casa, deliberado a deixar-se morrer. Cahiu de cama, e tresvariou em febres de mau caracter. Todavia, os cuidados maternaes, cooperados pela robusta natureza dos dezeseis annos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescença, choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda supplicios de que despertava em brados e soluços; não obstante, a cura do amor, que chora, é certa: ferida de coração, onde possa chegar o agro e adstringente de uma lagrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuraveis são os que desabafam em rancorosas explosões.
A parentela do illustre pimpolho, alvorotada pelas lastimas da fidalga, reunira-se em conselho, e alvidrára que Affonso de Teive fosse completar os estudos preparatorios em Lisboa, hospedando-se em casa d'um seu tio desembargador. O moço obedeceu ás exhortações e rogos de sua mãe, depois que a extremosa senhora lhe prometteu e asseverou que, a despeito de tudo e de todos, Theodora, no praso de um anno, seria sua esposa.
Os parentes embicaram, resmoneando que o morgadio da Fervença o era só em nome, sem vinculo, nem fôro em ascendente conhecido. Contra estas razões se insurgiu Affonso em termos que fariam a illustração democratica d'um botequineiro antes de ser cavalleiro do habito de Christo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos christãos, iguaes entre si e iguaes ante Deus, que vaidosa de aparentar-se com os Pinheiros de Barcellos, e os Corrêas e Lacerdas da Honra de Farelaens, votou com seu filho, dizendo «que na casa de Ruivães sobejava a fidalguia e faltava a felicidade.»
Foi Affonso para Lisboa com o capellão. O tio desembargador gasalhou-o nos braços, e as primas, filhas do bondoso magistrado, á mingua d'um irmão, começaram logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o não deixariam voltar mais, sem ellas, á provincia.
Pouco montam tantas caricias para o contentamento de Affonso. Ralam-no saudades, emmagrecem-no os jejuns, amarellece-o a tristeza. Nas aulas é mau estudante; no circulo dos condiscipulos é um automato que ri por comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impellem; em casa com as primas é um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem scisma sequer em adivinhar as charadas metricas, e logogriphos figurados, em que todas são eximias, e sobre modo impertinentes.
A senhora de Ruivães recebe de todos os correios instantes cartas de Affonso accelerando as diligencias para o casamento. A consternada mãe já por terceiras pessoas mandou sondar as difficuldades que importa combater. De Braga dizem-lhe que Theodora já sahiu do encerramento da cella, e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratorio e a cêrca. Ajuntam as informações que o tutor da morgada frequenta semanalmente o convento, e algumas vezes vai com elle um filho, rapaz de figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nação de pretos, e uma casaca archeologica, de cabeção tão copioso que parecia enrolar um capote.
A descripção poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hyperbole não.
Este sujeito chama-se Eleuterio Romão dos Santos, por ser filho de Eleuteria Joaquina, e de Romão dos Santos, tutor de Theodora, lavrador abastado, visinho do mosteiro de Tibães.
Eleuterio tem vinte e dous annos; quiz aprender a lêr com seu tio padre Hilario; mas a natureza oppoz-se-lhe, logo que elle, apoz um anno de canceira, entrou a soletrar palavras de tres syllabas. Vencido pela natureza, padre Hilario desistiu, visto que lhe era vedado arejar o cerebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado.
O filho unico de Romão dos Santos recebeu em upas de alegria a noticia da sua incapacidade para soletrar nomes de tres syllabas. No dia seguinte, o pae mandou-o á feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz effectuou a venda dos bois com tamanha astucia e vantagem que logo d'alli se deu a conhecer a sua vocação. Uma segunda mercancia robusteceu-lhe o credito, que outras vieram confirmando, até que Romão deu ordem illimitada de dinheiro a Eleuterio para poder negociar em bezerros e vitellas.
Estava o rapaz n'este auge de glorificação propria, e inveja dos visinhos, quando falleceu a mãe de Theodora. A orphan, apenas sua mãe cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma senhora, que lhe fallasse a linguagem polida á qual estava afeita. Em casa de Romão havia sómente a snr.ª Eleuteria Joaquina, creatura chan, que, a cada soluço da sobrinha, dizia quasi sempre:
--Não chores, pequena; que a morte é portêllo que todos temos de passar.
E, para não dizer sempre o mesmo, variava d'este theor:
--Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.
Eleuterio, porém, menos versado em lugares communs de pezames aldéãos, querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:
--Senhora prima, olhe que o chorar faz mal ás meninas dos olhos. Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remedio. Agora o mais acertado é divertir-se pelas feiras. Vem ahi a de Villa Nova de Famelicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a snr.ª prima quizer, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso á minha vigilancia, que eu, dentro d'um anno, prometto dar-lhe dinheiro de ganho com que ha-de comprar um grilhão de duzentos mil réis, e umas arrecadas de lhe chegarem aos hombros. O mais quem morreu morreu, é ditado dos velhos.
--Quem morreu é rezar-lhe por alma--atalhou com má grammatica, mas com piedosa intenção, o tio padre Hilario.
Theodora estava a rebentar de raiva, quando Eleuterio recolheu ao bucho das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.
Ahi está uma amostra de Eleuterio Romão dos Santos.
O conselho de familia deliberou o ingresso da orphan nas Ursulinas. A menina acolheu agradavelmente a noticia, por se desentalar assim da oppressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se deve permittir á bondade de uma pessoa qualquer.
Logo que a mãe de Theodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos bens, lançou contas ao futuro, e deu como realisavel um casamento, que vinha a ligar as duas casas maiores da freguezia. Custou-lhe a ceder que a pupilla se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fôra creada com mestras, e de todo estranha á vida agricola.
Entretanto, Romão predispoz o filho a cuidar seriamente no _bonito arranjo, que lhe sahia a talho de fouce_: estylo figurado e pittoresco em que são inventivos os nossos camponezes, e em que Romão primava sempre que tinha entre mãos algum _bonito arranjo_, o qual vinha a ser sempre um arranjo feio para o proximo.
Eleuterio, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque. Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortezan de Theodora. Entre os galans da estôfa de Eleuterio mulher de encher olho queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa de pulsos, com os queixos tumidos de gargalhadas estridulas, e as facecias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos beiços grossos e oleáceos. Theodora era o envez de tudo isto.
Faz pena vir aqui a ponto o descrevel-a, quando o contraste lhe fica tão de perto.
Theodora, aos dezeseis annos, era um modêlo acabado de formosura, como raras se vos deparam nas raças patricias, que o concurso de circumstancias, umas espirituaes, outras physiologicas, aprimoraram. A pallidez era n'ella o principal caracteristico das bellezas de eleição, á escolha de olhos onde parece que os nervos opticos vem da alma, e não do cerebro a tecerem a retina. A mulher pallida é a que vem cantada em poemas e estremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a dar a realesa do amar e padecer á mulher pallida, havemos de curvar-lhe o joelho, na certeza de que ella se fará amante e martyr, por amor do poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o coração d'aço. Póde ser que semelhante clausula, no decurso d'este livro, acuda á retentiva do leitor.
Relumbravam no alvor das faces de Theodora olhos negros, não vivos, antes morbidos, como se a queda das longas palpebras, iriadas de veias azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e regira os globos visuaes. Do nariz diremos que, n'esta feição, a mais rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrára ella, que bastante lhe fôra aquella perfeição para desmentir os que a taxam de desprimorosa. Em labios, não sei se me valha das figuras antigas--rosas e coraes, romans e carmim--se me avenha com esta verdade prompta e fluentissima que d'um traço copia como o pincel, e d'uma phrase exprime tudo, como em phrases de Castilho: «era um osculo perpetuo de innocencia.» Como isto sahe bem na musica da expressão; e que bello seria o mundo, se as boccas formosas estivessem sempre absorvidas no osculo perpetuo da innocencia! Ó Theodora, se tu então morresses, o teu rosto trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos labios nunca despregados do beijo d'algum anjo, resabiado ainda da voluptuosidade dos anjos mal-avindos com o candor celestial. Mas tu cresceste, e deformaste-te, ó chrysalida! A tua essencia de céo vaporou para lá no alar-se de alguma virgem, irman tua, que o Senhor chamou na ante-manhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi a formosura e a desgraça da mulher.
Mas, afóra a essencia pura do céo, que esvelta, que peregrina mulher cá se ficou a ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do altar da nossa idolatria a um roer surdo de vermes e podridão!