Chapter 13
«--Póde! exclamou padre Joaquim--póde, que o snr. Affonso não ha-de desobedecer á vontade de seu tio! Vamos! a fidalga ainda lhe não deu o abraço que o snr. Fernão de Teive deixou ao filho de sua santa irmã.
«Abraçou-me Mafalda. E eu apertei-a ao seio com arrebatamento, e senti a sua face nos meus labios.
«--Agora, fallo eu--disse o clerigo--O instituto das irmãs da caridade é um santo instituto, nenhuma duvida lhe ponho, pelo que tenho ouvido contar dos heroismos de caridade, que as servas de S. Vicente de Paulo praticam. Assim é; mas a conquista do céo consegue-se com a virtude, e a virtude é uma em toda a parte, e em todas as situações. As irmãs da caridade são bemquistas do Senhor; mas muitas almas elege o Senhor, sem as submetter á prova dos sacrificios e abnegação do santo instituto do servo de Deus. A snr.ª D. Eulalia, que Deus tem, era uma virtuosa, e piamente creio que santa senhora. Pois a sua vida de esposa e mãe não lhe tolheu que alcançasse o paraiso com muitas obras boas que fez, sem as andar derramando pelo mundo. A mãe da snr.ª D. Mafalda foi outra senhora casada e muito amante de seu esposo; pois, se a virtude é a prophecia infallivel da bemaventurança, as duas virtuosas senhoras lá estão com Deus. E agora lhes direi eu o que as santas pedem ao Senhor, vendo assim os seus dous filhos a ouvirem o pobre padre pregar sem encommenda do sermão. Eu lhes digo que ellas estão pedindo a Deus que os case, que os encha de bençãos, e de filhos. Vamos! eu tambem levanto as minhas mãos fazendo os mesmos rogos ao Senhor! Meu Deus! permitti que a minha voz se ajunte á das santas que vos pedem a felicidade d'estes dous filhos! Permitti que eu os veja ditosos, e que estas lagrimas de velho m'as enxuguem elles com a sua alegria!
«Quando o sacerdote, magestoso pela postura, se voltou para nós, latejava o meu coração na face de Mafalda; e eu inclinado sobre o rosto pallido da virgem, murmurava estas palavras: «Sim, sim, meu Deus, ouvi as preces de nossas mães!»
«Padre Joaquim de S. Miguel aproximou-se de nós, e disse com jovial aspeito:--Eu não quero estar em Paris muito tempo, meninos. Vamos embora, cuidar da dispensa, que leva algum tempo. Temos lá o outono do Minho á nossa espera. Diga a fidalga o que determina.
«Mafalda olhou para mim com o sorriso de santa, que um esculptor phantasiasse na contemplação e audição de anjos e harmonias do céo. O padre acudiu logo, exclamando alegremente: «O noivo é quem decide! Snr. Affonso, quando partimos d'esta barafunda de Paris, que me põe os miolos a arder?...
«--Ámanhã!--respondi eu.--Ámanhã--exclamou Mafalda--Pois sim; meu Affonso, ámanhã... Temos lá as nossas arvores... a nossa infancia...
«A nossa felicidade sem fim...--atalhei eu.
CONCLUSÃO
Entreluzia a manhã pelos resquicios e fendas das janellas do nosso quarto na estalagem da snr.ª Joanninha de Guimarães.
Affonso de Teive disse:
«É dia: vou concluir...
--Não é necessario--atalhei--o restante sei eu.
«Mas não me prives por isso de ser eu o narrador da minha bemaventurança. Aquella mulher que eu te apresentei, negligentemente vestida, e amarrotada dos abraços dos seus oito filhos, é minha prima Mafalda, a esposa de minha alma, a salvadora do meu coração, os olhos que me vêem pelos de minha mãe, a consciencia da minha consciencia, a redemptora das minhas alegrias infantis, a mãe dos meus oito anjos, que minha santa mãe me enviou do céo.
«Ha dez annos que eu vejo amanhecer os meus dias como as aves, cantando o Senhor, e adorando-o como os cenobitas.
«Minha mulher, ao abrir-me os thesouros de sua alma, revelou-me tambem os thesouros da fé, as delicias da religião, e a taça inexhaurivel dos sabores da caridade.
«Mafalda desapparece-me ás vezes com os filhos mais velhos: eu vou procural-a fóra de casa com os mais novos nos braços, e descubro a piedosa valedora no cardenho de algum jornaleiro, á cabeceira das palhas nuas do enfermo, ao qual ella foi levar a cobertura, e o alimento. Outras vezes, são os meus filhos, que levam o seu fatinho velho ás creanças, que estalejam de frio, sobre o lagedo d'uma cozinha sem lume.
«Se alguma hora fallei como marido austero a minha mulher, a dôce creatura respondeu-me com um sorriso; os meus queixumes são sempre causados pela pertinacia d'ella em entender no governo da casa com um zelo convisinho da mortificação. Mafalda é rica; mas tem uma maxima indestructivel: «poupar para os pobres.»
«Ha dez annos que vivo em Ruivães. N'este longo espaço, apenas tenho acompanhado minha mulher a observar a cultura das suas quintas, que ella teima em chamar minhas. Mafalda tem vagas idéas do que é um baile, e eu pude esquecer as idéas que tinha. Dizem que a convivencia de annos entre esposos, que muito se amam, traz comsigo de seu natural uns silencios significativos do esfriamento das almas. Eu não sei o que seja esse arrefecer. O céo e a terra estão continuamente abertos ante meus olhos: de cada vez que os contemplo, a cada alvorecer, e fim da tarde, os maravilhosos poemas dão-me sempre a lêr uma pagina nova, e Mafalda traduz mais prompta que eu os gerogliphicos da Divindade. Fallamos de Deus e dos filhos; contemplamos o boi que nos encara soberbo, a avesinha gemente que pipila; a fonte que suspira, e a catadupa do ribeiro que ruge. A natureza é a terceira voz dos nossos colloquios, umas vezes amor, outras vezes sciencia, e sempre admiração e perfumes ao Eterno, que nos encheu de delicias, e inflorou o caminho da velhice.
«Eccos do mundo nenhum chega ao nosso ermo. A mim, os homens que me viram, consideram-me morto uns, outros por ventura me lastimam embrutecido entre os meus fraguedos. Tive cartas a que não respondi; fui procurado por ociosos, a quem recebi na minha sala de visitas, com uma ceremonia que os afugentou. Affligiam-me as testemunhas do meu vilipendio, e temia que ellas proferissem um nome, que soaria como blasphemia no santuario da minha familia.
«Aspei todos os vestigios que podessem recordar Theodora. Entre os papeis do meu tio Fernão, n'uma gaveta secreta, encontrei o copiador das cartas d'ella. Minha mulher surprehendeu-me n'este descobrimento, viu e comprehendeu, sorriu-se, e disse: «Meu pae nunca me deixou vêr isto, bem que eu soubesse da existencia d'este livro. Triste sorte a d'esta senhora! Mal diria a mãe que tão virtuosamente a educou!» Unicas palavras que Mafalda proferiu com referencia a Palmyra!
«Aqui tens a minha vida, a vida dos dous homens, que na curta passagem de quarenta annos, tocaram as duas extremas do infortunio pela deshonra, e da felicidade pela virtude. Uma mulher me perdeu; outra mulher me salvou. A salvadora está alli n'aquelle ermo, glorificando a herança, que minha mãe lhe legou: o anjo desceu a tomar o lugar da santa: a um tempo se abriu o céo á padecente que subiu, e á redemptora que baixou no raio da gloria d'ella. A mulher de perdição não sei que destino teve...»
--Pois ignoras o destino de Palmyra?--interrompi eu, desconsolado como todo o romancista, que desadora invenções.
--Como queres tu que eu saiba o destino de Palmyra?!--Replicou Affonso de Teive.--Quem ha-de vir contar-me a Ruivães os desastres que lá vão no seio apodrentado da sociedade!... Mas, se te rala a curiosidade de saber em que lamaçaes a deves encontrar, lança a tua espionagem, diz, alto e bom som, que a fama te confiou a tuba pregoeira dos escandalos, e não faltará quem te illumine e esclareça. Do viver da mulher virtuosa é que baldamente procurarás noticias: dá-se a virtude n'uma obscuridade, que chega a incommodar a attenção dos que observam como cousa curiosa de vêr-se.
--Pois não me despeço--redargui--de me ir por ahi fóra no encalço de Palmyra, e mal d'ella, se a não topo, que morrerá sem lêr a sua biographia, desastre commum, mas immerecido, das mulheres da sua especie. Quantos romances, e dramas, e cantatas ahi pejam as livrarias sobre Ninon, e Marion, e Manon Lescaut? As Aspasias e Phrineas tiveram por si os historiadores e os poetas gregos. Os Catullos e Ovidios eternisaram Lesbias e Corinnas. Menos affrontadores da moral, os romancistas e poetas coevos nossos deificam as Gautiers, e fazem que as familias honestas chorem por ellas nas paginas dos livros e nas tabuas dos palcos. Palmyra ha-de ter um livro, ou eu não escrevo mais nenhum depois do teu... Dá-me agora noticias do Tranqueira. Que é feito do Tranqueira?
--Está lá em casa a esta hora com um pequeno a cavallo em cada hombro, e outro enganchado na barriga. Tranqueira não é meu criado. Lá em casa os meus filhos conhecem-no pelo _amigo velho_. Tem o seu quarto no interior dos melhores aposentos. Chama-se elle a si feitor; mas o que elle feitorisa é o seu rheumatismo, e vive a picar rolo de tabaco para cachimbar ao sol. Comprou um pinhal, e negoceia em lenha e madeiras. Quando recebe algumas libras, vai até Braga visitar uns parentes pobres, dá-lhe metade, e vem para casa carregado de frigideiras, que me estragam o estomago dos rapazes. Se algum dos meus caseiros o faz zangar nas contas, em que elle quer ser sempre ouvido, ou no grangeio das terras, de que elle não percebe nada, mas quer ser consultado sempre, costuma elle estirar os braços tremulos, e dizer: «O que tu precisas é um banho de cisterna.» Imagina o Tranqueira que a sua especial vocação é dar banhos de cisterna.
--E o padre Joaquim de S. Miguel morreu?
--Tenho a satisfação de te dizer que o meu padre Joaquim está vivo e vividouro. Não o vistes lá em casa por que foi para o Alto-Minho consoar com a familia, tributo que elle pagou sempre; mas nunca vai que não se despeça a chorar, e nunca vem que nós o não recebamos com grande alvoroço de alegria. É o mestre dos meus pequenos; mas os travessos escondem-lhe a tabaqueira e os oculos de modo que as lições cahem em pedra árida, e o padre já diz que considera perdidos dez annos de vida n'aquelle ensino. Que mais queres saber?
--Se poderei dormir duas horas em tua casa, respondi eu.
--Vamos partir.
--E os teus meninos costumam deixar dormir a gente de dia? Vingarão elles em mim a falta do padre? Previne-me.
Partimos.
A distancia de um oitavo de legua do paraiso restaurado do meu amigo, enxergamos D. Mafalda e os filhos, e o Tranqueira com dous ao collo, e outros dous pendurados das algibeiras da japona. Ao avistarem-nos, os rapazes irromperam n'uma grilharia barbara, que repercutia nas quebradas dos outeiros:
--Cá vou preparando a cabeça de progenitor e ouvidos paternaes, disse eu--Seriam excellentes anjos aquelles pequerruchos, se tivessem larynges mais accommodadas ao apparelho auditivo do genero humano!
--São os meus filhos--exclamou Affonso--É minha mulher! Alli tenho tudo, o capital, o juro, e a usura da felicidade que desbaratei. Alli me esperou minha mãe dous annos, e eu não voltei. Ainda assim, a virtuosa orou sempre. O jazigo estava fechado, o leito da santa vazio; mas o céo fôra o mais alto ponto onde ella voára para vêr de lá a minha perdição. Alli voltei salvo pelo amor. Achei ainda as flôres que eram d'ella; das primeiras adornei os cabellos de minha mulher; das que me deu a primavera seguinte engrinaldei o berço do meu primeiro filho. Parece que em cada reflorecencia, vem minha mãe coroar o novo anjo, que minha mulher lhe offerece como a intercessora com o Altissimo. Oh meu amigo! de envolta com a felicidade, a religião! Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração afflictiva!.................................................... ..........................................................................
Aproximamo-nos do formoso grupo. Apeei; fui cortejar a mulher do amor de salvação, e disse-lhe commovido, e creio mesmo que lagrimoso:
--Ao cabo de dez annos de felicidade não interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de v. exc.ª com o funesto contagio da sua má estrella! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivencia do seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Affonso de Teive cerrou olhos n'esta infinda noite de Dezembro!...
--Tambem eu não!--atalhou Affonso sorrindo--tambem eu não!
--Não importa, minha senhora--tornei eu--Seu marido velava; mas que saborosa vigilia! Contou-me suas desgraças para que eu podesse cabalmente ajuizar da felicidade perenne, que v. exc.ª, depositária dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lagrimas, e lhe está dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, n'este mundo, era uma usurpação feita ao céo!... Agora sei que ha sobre a terra um homem feliz, feliz ha dez annos, feliz para uma longa existencia. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!
Mafalda abaixou levemente a cabeça com gracioso acanhamento, e disse:
--Não sou eu sosinha a felicitar meu primo: são as orações de nossas mães, e o amor angelico dos nossos filhinhos.
FIM
End of Project Gutenberg's Amor de Salvação, by Camilo Castelo Branco