Amor de Salvação

Chapter 12

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Fernão, lida a carta, em presença de Mafalda, abriu os braços á filha, que parecia finar-se n'elles. Das ancias e lagrimas sahiu ella com uns gritos afflictissimos, pedindo ao pae que valesse a Affonso, sem demora. Fernão, carecedor de ser consolado da desgraça do sobrinho, tinha de aquietar o alvoroço da filha, promettendo e cumprindo logo tudo que fosse da vontade d'ella, que era tambem um dever d'elle a cumprir já com o parente, já com a memoria de sua irmã. Foi instantaneo o contentamento de Mafalda.

--E depois?--exclamava ella--E depois, meu pae, em se lhe acabando o dinheiro da quinta, quem lhe acudirá?

--Nós--respondeu de alegre aspeito o pae.

--Nós?--tornou ella entre alegre e amargurada--mas não vê o que elle diz?...

--Que diz elle, creança, que diz elle? Lê-me tu o que elle diz...

--Olhe, meu pae... _Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia num d'estes comoros de terra onde os sepultados não tem nome._ O pae entende isto muito bem...

--Entendo; mas não me assusto. A gente ha-de pensar: primeiro, o essencial, é mandar-lhe o dinheiro, e dizer-lhe que os tumulos de Ruivães, e as casas, e as terras são d'elle, como até aqui.

--E aceitará?--replicou Mafalda--Tomará elle a dadiva como esmola?

--Ó mulher!--retorquiu o velho--tu estás uma argumentadora dos meus peccados!... E o mais é que lembras com juizo essa especie!... O doudo é capaz de rejeitar, se eu dou dinheiro e quinta! Pois bem: diga-se-lhe que eu compro a quinta, e mande-se-lhe os quinze mil cruzados, que é o valor da cousa. Vou ámanhã ao Porto. O dinheiro está ahi. Fico sendo o proprietario de tres quintas de Affonso. Cá te ficam, menina. Tu, depois, a teimares no proposito de morrer solteira, dá-lh'as, se elle viver. Que mais quer a minha filha?

Mafalda ajoelhou a beijar-lhe as mãos. Ergueu-a o pae com muita ternura, enxugou-lhe as lagrimas no lenço em que embebia as d'elle, e disse, sofreando os soluços:

--Que esperas tu d'este rapaz, Mafalda? Quando virá Deus em auxilio d'esse tão fraco e desventurado coração? Filha... estima-o; mas não o ames assim com esse amor que te devora a mocidade! Que vinte e quatro annos os teus tão desconsolados e estranhos ás menores alegrias de tua idade!... E tu não cahes em ti, filha, não vês que Affonso está cada vez mais longe de te avaliar!?

--Sei, meu pae--respondeu Mafalda com serenidade.

--E então?... sabes, e não te vences...

--Não posso vencer-me, Deus sabe que lhe tenho pedido auxilio, e nem assim...--As lagrimas saltaram-lhe novamente, e logo os arquejos do peito, ancioso de ar.

--Pois bem, meu amor--tornou o pae, duplicando as meiguices--Eu absolvo a tua fraqueza, já que o Altissimo te não fortalece. Quem sabe, filha, quem sabe os segredos do porvir? Ha milagres mais assombrosos. Póde ser que elle ainda venha para ti com o coração purificado, e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido será então. Que te diz lá no intimo a voz do teu anjo? Serei propheta, minha filha, serei?

Mafalda sorriu-se, e murmurou:

--E não podia ser assim, meu pae?! Ás vezes, sonho-o; tenho horas em que me julgo louca, no meu contentamento sem causa, sem esperança!... Tres cartas recebi d'elle em oito mezes, e que frias expressões! Quando eu o considerava esquecido, por amor d'aquella creatura, é que elle me escrevia mais amoravel; agora, que é livre, e de mais a mais infeliz, parece que nem se quer me estima! E, ainda assim, meu pae, eu tenho presagios, em meu coração, alegres como a sua prophecia.

--Pois então pede a Deus que me dê vida para que eu os veja realisados... mas, filha, a realisação da prophecia, se vier, já me não achará vivo...

XXI

Decorridos seis mezes, Fernão de Teive, perigosamente enfermo e desenganado, dialogava assim com sua filha, ajoelhada sobre o estrado do leito, com a face inclinada aos labios requeimados d'elle:

--Bem t'o disse eu, menina. A realisação da prophecia, se vier, encontra-me sem vida.

--Não ha-de morrer, meu pae!--clamou Mafalda beijando-lhe a fronte.

--Não peças a Deus isso, que os meus padecimentos são incomportaveis... Verdade é que te deixo quasi sosinha; mas ahi estão teus tios de Barcellos que te levarão para sua companhia em quanto não poderes voltar á casa onde morre teu pae. Não chores assim que me affliges, Mafalda... Triste cousa que um moribundo não possa fallar aos seus com a presença de espirito dos que esperam viver muito... E, a final, Deus sabe quem vive e quem morre!... Póde ser que eu não vá d'esta... Pois então, menina, que tem que conversemos placidamente?!... Bem... esse ar de conformidade está bem ao rosto angelico de minha filha... Fallemos no nosso Affonso... Inventa lá tu um meio de lhe mandar recursos. Se é verdade o que soubemos por via do tio desembargador, o rapaz está mal. O jogo dos fundos arruinou-o segunda vez, ou reduziu-o a muito pouco...

--Mas as cartas ultimas--atalhou Mafalda--não fallam em negocios...

--Pois isso é o que mais me persuade da informação do tio de Lisboa. Se Affonso prosperasse, dizia-o; elle, que se cala, é que está desgraçado.

--Oh meu Deus!--exclamou a filha--diz bem, meu pae, Affonso está desgraçado... Não o confessa para que lhe não mandem alguma esmola os parentes.

--Isso mesmo; e por isso mesmo pensemos em remedial-o com todo o melindre. Não te occorre nada, filha?

--Manda-se-lhe o dinheiro, peço-lhe eu muito que o aceite... elle ha-de condoer-se das minhas palavras...

--Não gosto d'esse meio: desapprovo a invenção. Ahi vem padre Joaquim dar-nos aviso.

Padre Joaquim era um modêlo de padres, capellão da casa, havia trinta e cinco annos; padre que se me ia fugindo d'este romance por um cabellinho: o que seria novidade nos meus livros. Quando eu poder architectar uma novella sem padre, hei-de chamar-me romancista puxado de imaginação. O mestre dos escriptores floridos, Almeida Garrett, segundo disse e provou, tinha o vezo dos frades. Elle, e eu, cá muito no couce processional dos seus discipulos, havemos de fazer amar os frades, e os padres, pelo menos os padres-capellães bem procedidos e venerandos como padre Joaquim, capellão da casa de Fonte-Boa.

Explicou Mafalda ao padre o motivo a cujo respeito se lhe pedia aviso.

O clerigo tomou rapé, reflectiu, consolidou o seu raciocinio com outra pitada, e disse:

--A minha opinião é que a snr.ª D. Mafalda case com o snr. Affonso.

Fernão, fraco de peito para rir, tossiu uns frouxos de riso que desconcertaram a gravidade do reverendo. Mafalda fitou os olhos em seu pae, receando que o esforço o estivesse mortificando.

Padre Joaquim voltando-se á menina, disse no tom de quem dá satisfação:

--Dar-se-ha caso que eu dissesse algum desproposito?... Parecia-me que sendo os dous contrahentes primos em primeiro grau, obtida a devida dispensa, nada mais acertado para o fim de melhorar a situação apertada do snr. Affonso...

--Não disse desproposito nenhum, padre Joaquim--acudiu Fernão de Teive--Pelo contrario, aventou a mais moral e desejavel das sahidas n'estes apertos. Mas o que nós queriamos era soccorrel-o sem que ninguem casasse.

--Parece-me isso justo e exequivel. É mandar-lhe dinheiro por pessoa capaz--respondeu categoricamente o sacerdote.

Fernão, com prazenteiro rosto, acudiu:

--Quer o padre Joaquim ir a Paris? Não temos outra pessoa que o iguale em capacidade.

--Irei ao fim do mundo no serviço de vv. exc.as

--E se o primo Affonso--disse Mafalda--rejeitar o dinheiro?

--Se rejeitar o dinheiro, volto com elle para casa: signal é que lhe não é preciso.

--Se o rejeitar por ser de condição independente, e tomar como esmola o favor do pae?--replicou Mafalda.

--N'esse caso cito-lhe os meus authores nas materias vaidade, soberba e orgulho: e hei-de convencel-o a aceitar o dinheiro.

--Vai o padre a Paris--disse Fernão--Ámanhã parte para o Porto: lá o dirigirão. Prepara tu, Mafalda, a bagagem do snr. padre Joaquim. Tira o necessario para o meu enterro, e manda tudo mais, que encontrares, a Affonso.

--Enterro!--exclamou Mafalda, escondendo o rosto no seio do pae.

Ao escurecer recrudesceram os padecimentos de Fernão de Teive. Por volta de meia noite, com toda a luz da razão, e clareza de voz pediu os sacramentos, e conversou até ás duas horas. Ao amanhecer dormiu um somno quieto, e acordou afflicto. Pediu a extrema-uncção, e respondeu durante a ceremonia as palavras rituaes em irreprehensivel latim. Depois, chamou a filha, beijou-a, deu-lhe a beijar o crucifixo, que tinha entre mãos, reclinou-se para o hombro d'ella, dizendo:

--Sobre este hombro expirou minha irmã... Se alguma vez vires o filho da santa mulher dá-lhe um abraço... e tu, filha... adeus até ao céo.

Mafalda rompeu em altos clamores. Fez-lhe o pae um gesto de silencio com os olhos.

Foi este o derradeiro gesto d'aquelles olhos, fitos já na aurora da eternidade, e fechados para sempre sob os labios de sua filha.

XXII

Eram atrozmente verdadeiras as informações communicadas pelo desembargador Figueirôa sobre a desfortuna de Affonso de Teive em Paris.

Os quinze mil cruzados, producto supposto da quinta de Ruivães, enguliu-os a voragem do jogo de fundos, á qual o allucinado moço se atirou ás cegas, contando com a vicissitude favoravel, por ter sido infeliz nas outras.

Resolveu matar-se. Esta deliberação contrabalançou as agonias da pobreza desesperada.--Como via a morte no leve movimento d'um gatilho, deixou de encarar o futuro. Que lhe importava morrer pobre?! Encheu-se de coragem, e deu graças a Deus pela fortaleza que lhe dava. Ajuntou os objectos de ouro e pedras que reservára para aquella hora premeditada. Chamou o criado, e disse-lhe: «Vende isso que ahi está. Creio que o valor d'essas cousas bastará ao pagamento do que te devo em dinheiro e soldadas: se algum resto houver a maior, leva-o para te passares á tua terra.»

--E o fidalgo onde fica?!--perguntou o Tranqueira.

--Aqui!--disse Affonso.

--Pois tambem eu, patrão! Já agora, tenha paciencia; gastei a mocidade em sua casa; a velhice por cá a levarei n'esta endiabrada terra, como Deus fôr servido. Guarde lá o fidalgo as suas cousas, que eu não as quero, nem lhe pedi nada. Para eu viver, basta-me uma carroça e um cavallo estropiado. Arranje v. exc.ª a sua vida, que eu cá me irei arranjando.

--Cumpre as minhas ordens, Tranqueira!--replicou Affonso com fingida severidade.

--Perdoará, snr. Affonso...--volveu o criado--É a primeira vez que lhe desobedeço. Eu não recebo nada em quanto o não vir com outro arranjo de vida.

--Faz o que quizeres...--redarguiu o moço, embolsando a punhados os objectos que offerecera ao criado, na intenção de sahir para vendel-os.

Tranqueira desconfiou do intento suicida do amo. Apenas esta suspeita lhe saltou de repente ao animo, atravessou-se á porta do quarto, exclamando:

--O fidalgo não é homem, por mais que me digam! Ha Deus ou não ha Deus?! Então sua mãesinha esteve a criar um menino na lei de Christo, para v. exc.ª dar esta sahida! Pensa que eu não sei o que lá tem na cabeça? O snr. Affonso quer dar cabo de si... Pois, ande lá por onde quizer, que eu nem de dia nem de noite o largo mais... Matar-se, por falta de dinheiro, um moço de vinte e cinco annos, que sabe lêr e escrever, e em boa saude! Isso não o faz homem nenhum no seu juizo! Quem precisa trabalha; se não é n'isto é n'aquillo. E os que perdem tudo o que tem n'um fogo, ou no mar, matam-se? Ora, snr. Affonso, eu dos annos que tenho ainda não topei homem tão desanimado!... Valha-o a alminha da snr.ª D. Eulalia! Quer o fidalgo uma cousa? Eu vou vender algum d'esse ouro que ahi tem, e vamos para Portugal. Seu tio desembargador mostra que é seu amigo, e o snr. Fernão de Fonte-Boa morreu sempre por v. exc.ª Não se lhe pede dinheiro nem cousa que o valha; pede-se-lhe que o arranjem em algum emprego limpo. Trabalhar não é vergonha, é honra, fidalgo!... Que me diz? que responde ao velho Tranqueira que o trouxe ao collo, e aqui está de joelhos aos seus pés?

E abraçou-se-lhe aos joelhos, com os olhos inflados de lagrimas.

Affonso levantou-o nos braços trementes de grata commoção, e disse-lhe com transporte:

--Trabalharei, meu amigo, trabalharei... Descança, que eu não me mato... A desgraça me irá matando.

Com referencia áquellas chãs e firmes expressões do servo rustico, me disse Affonso:

«Eu tinha lido na vespera d'aquelle dia uns livros de insinuante moral, e consolação a desvalidos, pedindo-lhes crença que me esteiasse na desesperada crise de homem, sem nenhum escape na cerrada negridão de sua vida. Doutrinas e exemplos de evangelica uncção, factos tormentosissimos de angustia e admiraveis de conformidade, desde Job até ao maior homem do mundo na rocha de Santa Helena, nada me impressionára, nada me demovera do suicidio. Vi uma restea de luz instantanea reflectida do rosto de Mafalda! Pensei que era o anjo da santa melancolia a despedir-se do precito, que o repellira. Ainda o apêgo á existencia, exprimindo-se nas phrases positivas d'ella, me quiz mostrar a felicidade possivel no casamento com minha prima. Afastei com tedio de mim proprio este impudor d'alma envilecida pela desgraça. O homem rico não reconhecera a virtude de Mafalda, senão para admiral-a; o homem desvalido havia de ir depois pedir á virtuosa que o aceitasse como marido!... Tive medo que outra vez me acommettesse o pensamento vil. Dei-me então pressa em abreviar o termo da lucta! Depois d'isto, como é possivel que as rudes palavras d'um criado me abalassem desde a profundeza de minhas convicções ácerca da coragem do homem que se mata? Como logrou elle o que os livros consoladores não vingaram, nem os estimulos indecorosos a um casamento rico? Foram aquellas palavras: _quem precisa, trabalha_, ditas pelo homem que as tirára da sua consciencia, como se ellas lá descessem do céo, n'aquelle momento, para me serem ditas, não pela pagina de um livro, mas pela bocca de quem as dizia, chorando.»

Affonso de Teive, com mais coragem do que a necessaria para o suicidio, dirigiu-se a uma casa de commercio de judeus de procedencia portugueza, residentes em Paris. Conhecera Affonso um mancebo d'esta familia no concurso das pessoas bem qualificadas. Procurou-o, e contou-lhe o seu estado, offerecendo-se a trabalhar no escriptorio, segundo sua aptidão. Os commerciantes aceitaram-o como terceiro ajudante de guarda-livros com ordenado de dous mil francos.

Vendeu Affonso as suas joias, e alugou uma mansarda, que mobilou, consoante a escolha de Tranqueira, pobre e limpamente. O criado comprou um cavallo, a que elle chamava um milagre, e uma carroça, com que trabalhava de carrejão, nas horas occupadas do amo. Ás horas convencionadas, o Tranqueira ia buscar em marmitas um jantar economico para ambos, todavia aceado e abundante. Affonso passava em casa as noites, estudando a lingua ingleza para poder adiantar-se na sua carreira, até merecer os seis mil francos de primeiro adjunto ao guarda-livros.

Se era feliz assim?

Oh! não: nem tudo que é honroso se ha-de crêr que seja felicidade. A degenerada natureza do homem quadra violentamente com as mudanças assim abruptas, com as quedas de tão alto! O magnificente amante de Palmyra, o moço blandiciado nas salas do seu palacio do Campo Grande, reclinado por sobre coxins de sêda, inventando regalias com que desanojar a sua ociosa saciedade, certamente não podia escrever odes á fortuna amiga, quando sahia de escrever cifrões no escriptorio mercantil. O reportar-se tambem não é ser feliz; é, no maximo das vezes, um martyrio consecutivo de triumphos obscuros; porém, martyrio sempre!

E, depois, Affonso entrava futuro dentro, phantasiando mudanças, chimeras, paradoxos, que o volvessem a uma felicidade, que elle bem nem mal sabia definir, ou estremar do que vulgarmente se diz que ella é. D'estas vãs e ardentes consultas ao porvir, voltava o moço ao refrigerio do trabalho, e assim o tempo ia derivando, branqueando-lhe os cabellos, e quebrando-lhe os espiritos.

Em Lisboa era sabida a situação de Affonso de Teive, não que elle a contasse. Escrevia ao tio Fernão raramente, sem de leve tocar em negocios. Respondia ás cartas d'algum raro amigo, que o julgava ainda em circumstancias de lhe não pedir emprestimo para se resgatar de Clichy.

N'este tempo, recebeu elle novas de Palmyra, não solicitadas. Dava-lh'as assim um dos seus commensaes de Lisboa:

«...... A mulher surgiu aqui, vinda não sei d'onde, pompeando com tanto esplendor e mais estupidez que no teu tempo, ou melhor direi, no teu reinado.»

«Vi-a em S. Carlos, hontem, sosinha na friza. Disseram-me, porém, que lá, no reconcavo do camarote, estava um homem gordo, de tez abronzeada, e vista suina. Dizem que é brazileiro do Minho, outros diziam que era o marido envergonhado. O D. José de Noronha, desde o banho da cisterna, nunca mais se endireitou do espinhaço, e vai a tisico irremissivelmente. Não ha memoria d'uma catastrophe assim nos fastos dos Lovelaces patifes d'este nosso quintal do tio Lopes. O D. Antonio de Mascarenhas assevera-me que Palmyra nunca mais teve uma palavra de consolação para o derreado amante. O teu criado matou estes amores com tamanha ignominia, que já não ha ninguem que queira amar mulher em casa onde haja cisterna... Irei dizendo o que souber da Laiz minhota.........»

Affonso leu glacialmente a carta, e não respondeu ao noticiador.

--Que sentimento fez em ti essa nova?--perguntei eu.

Affonso encolheu os hombros, e disse:

--O sentimento da piedade. Não podia ser amor, porque não ha infamia d'alma que desça até ahi. Odio tambem não, que o odio quer vingança, e eu dava-me já por vingado da mulher a resvalar, no plano inclinado, não sei até que ordem de abysmos. Era piedade o que eu sentia, e tanta que, se me viessem dizer que Palmyra, dentro de um anno, perdera a formosura, que vendia, os bens, que herdára, e se desgraçára até á extremidade de pedir o pão de cada dia, eu faria do meu pão dous quinhões, e um mandar-lh'o-ia, sem insulto nem palavra recordadora do passado.

Esta foi a resposta de Affonso de Teive. Eu acreditei, porque tinha visto o mundo, e não ha nada que eu não acredite.

XXIII

Ao escriptorio commercial, onde o meu amigo trabalhava, chegou, ao fim da tarde, do dia 15 de Julho de 1853, um empregado da embaixada indagando a residencia do portuguez Affonso de Teive.

Sahiu com o esclarecimento em demanda d'outro portuguez, que se apresentára ao ministro, com importantes recommendações de Lisboa. A nota da residencia era _rua Vivienne, 104, 5.º andar, lado esquerdo_; quem a recebeu da mão do encarregado foi uma senhora, que a passou logo a um sujeito de cabellos brancos, trajado de sacerdote.

O leitor não se deixa surprehender mais tarde: já sabe que a senhora é Mafalda, e o sacerdote é o capellão padre Joaquim de S. Miguel.

Padre Joaquim entrou n'um _fiacre_ com o guia posto á sua ordem pelo ministro portuguez. Apearam ao portão do predio; perguntaram ao porteiro se o morador do quinto andar, lado esquerdo, estava em casa. Sahiu do interior da loja, residencia do porteiro, o criado de Affonso, o qual, reconhecendo padre Joaquim, lançou-se a elle de modo que o ia afogando ao primeiro abraço.

--Ainda vives, Tranqueira?--exclamou o clerigo--E sempre com o pequenito de Ruivães!?...

--Até á morte, snr. padre mestre!... Pois por aqui? V. s.ª por estas terras?... Que é feito do snr. Fernão? e da fidalguinha?

--Leva-me lá acima, homem, que pelos modos temos que marinhar--atalhou o padre.

--Ponha-se aqui ás minhas costas, que eu levo-o lá, snr. padre Joaquim!--disse o Tranqueira, ageitando-se para ser cavalgado.

--Estás doudo de alegria, velho! Deixa-me ir por meu pé. Vossês cá no paiz da civilisação já andam uns ás cavalleiras dos outros?... Olha lá... não avises teu amo. Quero vêr se me elle conhece ainda.

Affonso estava escrevendo a seu tio Fernão de Teive, quando o padre entrou.

--Veja se se lembra, snr. Affonso!--disse o capellão.

--Lembro!--clamou Affonso erguendo-se a abraçar o clerigo--Vem de Fonte-Boa? Que faz em Paris, padre Joaquim?

--Podemos ficar a sós?--perguntou o clerigo. O Tranqueira sahiu, e o guia, esclarecido em francez por Affonso, retirou-se.

--Eu estava a escrever a meu tio Fernão...--disse Affonso...

--No outro mundo sómente se recebem orações, e não cartas--atalhou o padre.

--Morreu meu tio!?--exclamou o moço.

--Lá se foi para Deus aquelle justo. Pouco antes de expirar, deixou-lhe um abraço ao snr. Affonso. A snr.ª D. Mafalda foi a depositaria do abraço...

Affonso escondera o rosto nas mãos a soluçar.

--Elle merecia-lhe essa saudade--continuou o padre--que era muito amigo de v. exc.ª

--Minha desgraçada prima!--exclamou Affonso--que vida vai ser a d'ella n'aquella solidão, sem pae, sem uma alma que a estremeça!...

--Sua prima não está em casa... Está em Paris.

--Como? em Paris!... onde está Mafalda?!

--Na hospedaria, esperando que vamos. Não se demore.

Affonso desceu a trancos as precipitosas escadas, sem dar tino de que o padre as descia apalpando com a bengala, muito de espaço, exclamando:

--Sempre será bom que pare lá no fundo para me apanhar, se eu fôr de rôlo, ó snr. Affonso!

A anciedade do moço confundia as perguntas acceleradas de modo que o padre, no transito do _fiacre_ ao hotel de Mafalda, nem tempo teve de deliciar mais que tres pitadas com o sorvo chromatico do seu costume.

Direitamente deve ser Affonso quem nos descreva o encontro:

«Entrei n'uma sala, a tempo que minha prima sahia d'uma camara contigua. Caminhamos um para o outro, lavados ambos em lagrimas. Ella fitou-me com um gesto de assombro, e disse:--Tens cabellos brancos, Affonso!... E és da minha idade!... Como a tua vida terá sido amarga!...

«--E tu, Mafalda, tens a formosura que te deixei; preservou-t'a a innocencia da tua santa vida!

«--Vida de muitas dôres, Affonso...--atalhou ella--Acabou-se-me tudo... Faltou-me o amparo de meu pae...--e encostou-se ao meu hombro, soluçando.

«Padre Joaquim acercou-se de nós, limpando os olhos, e disse:--É chorar de mais... eu cuidei que este encontro seria para allivio e não para maiores penas. Basta, por agora, menina... Faltou-lhe o amparo de seu pae; mas o de Deus é que a ninguem faltou... A snr.ª D. Mafalda está aqui para se entender com seu primo, sobre um passo muito do agrado do Altissimo; mas eu peço perdão a Deus em a contradizer, e continuarei sempre a oppor-me, por que...»

«Mafalda fez-lhe um signal de silencio com implorante suavidade, e voltando-se a mim com sereno aspecto, disse em termos balbuciantes que desmentiam a forçada compostura do rosto:--Meu primo, a vida para mim não promette contentamentos nenhuns. Faltou-me meu pae, e resolvi logo entrar n'um convento; mas a inactividade dos conventos póde ser que peorasse a minha tristeza. Ouvi dizer que está derramada pelo mundo uma grande familia de mulheres devotadas ao remedio dos infelizes, por amor de Deus. São as irmãs da caridade. Resolvi entrar n'este instituto; meus paes abençoarão este modesto desejo de ser util a alguem, empregando os annos de vida, que eu não sei nem posso consumir no desabrigo da casa onde nasci. Agora, meu Affonso, venho pedir-te que dirijas em Paris os meus passos para o conseguimento da minha entrada no instituto, e ao mesmo tempo rogar-te encarecidamente, e em nome de tua santa mãe, que aceites as tres quintas que vendeste, e de que teu bom tio era possuidor quando morreu. Na intenção de t'as restituir foi que elle as comprou. Eu cumpro a sua vontade, esperando que tu obedeças á vontade de meu pae. Aceita o que teu era, meu querido Affonso, meu bom irmão; aceita, que é meu pae e tua mãe que t'o pedem, e eu tambem com as mãos erguidas.

«Mafalda cessou de fallar, cortada a voz de soluços. Eu ajoelhei diante d'ella, beijando-lhe as mãos, sem poder articular palavra. E ella, abraçando-me pelo pescoço, exclamou com a meiguice infantil dos nossos affectuosos abraços dos dez annos:--Tu fazes a vontade á tua Mafalda, não fazes, Affonso? Posso agradecer a Deus a esmola de consolação, que me dás?