Amor de Salvação

Chapter 11

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«--Pois saia--tornei eu--mas leve comsigo o esterco com que sujou a minha casa!--e, dizendo, atirei-lhe ao rosto os macetes das cartas.

«Palmyra, como se um aspide lhe mordesse um pé, deu um salto de fera enjaulada. D. José de Noronha tremia.

«E eu continuei, voltado contra elle:--A infamia é assim: tem esses desmaios de covardia, que desarmam o odio, e levariam á piedade, se o nojo não estivesse áquem da virtude da compaixão. Snr.ª D. Palmyra, aqui tem um paladino, que a não ha-de deixar corar sem desforço diante dos seus insultadores. Siga-o. Tem uma sege ás suas ordens, se o seu pudor lhe não permitte entrar no carro do amante. Em quanto ao snr. D. José de Noronha, saia, e espere-a na rua.

Palmyra fugiu da sala em arremettidas de louca. D. José sahiu com o rosto abatido sobre o peito. E eu cahi extenuado sobre uma cadeira, cuidando morrer alli afogado de congestão de sangue no coração. D'ahi a momentos ouvi o gritar estridente de Palmyra, e um grande reboliço no pateo. Quiz debalde levantár-me. As pernas tremiam-me como se todos os nervos me estivessem golpeados.

«Abaterei agora a linguagem tragica do successo para te narrar o que se passava no pateo.

«O Tranqueira, posto de plantão, como elle dissera, não sahiu da sala de espera, ou do proximo corredor. Momentos antes da sahida de D. José, descera elle ao pateo. Quando o aturdido infame ia passando, sahiu Tranqueira do seu quarto com a lanterna do serviço das cavalhariças. Avisinhou-se de D. José, metteu-lhe a luz á cara, e disse-lhe: «O fidalgo, se me não engano, leva a sua pontinha de febre!... Acho-o muito vermelho; e não será mau refrescar-lhe a cabeça. «Disse, depoz a lanterna, sobraçou-o pela cintura, fincou-lhe a mão esquerda no gasnête, levou-o de borco sobre a cisterna do deposito d'agua para os cavallos, e baldeou-o dentro, exclamando: «Ha-de ir fresco, ha-de ir fresco, seu alfacinha!» Os outros criados ainda quizeram valer-lhe; mas Tranqueira desfizera-se do jockey de D. José, rechaçando-o com um pontapé tangido por furia, digna de melhor adversario. O desgraçado cahira de cachapuz, e lográra logo romper com a cabeça á flôr d'agua; mas do pescoço abaixo ficou empoçado, sem poder marinhar aos bordos da cisterna, á mingoa de pega onde afincar as unhas. O instincto da vida vencera o da vergonha. D. José gritava, e o Tranqueira, dando-lhe as boas noites, fôra para a cavalhariça arraçoar os cavallos. Os brados chegaram aos ouvidos de Palmyra, a tempo que o jockey se erguia do pontapé que o desintestinára, para, muito a custo, acudir ao amo. Desceu Palmyra anciada ao pateo, no momento em que o eleito de sua alma, na bocca da cisterna, sacudia as bicas d'agua, e tiritava estalejando as maxillas.

«Fulminou-a o ridiculo! Só o ridiculo podia sossobrar aquella alma de tempera, feita para reagir a todos os embates. Retrocedeu do portão para o escuro do pateo. Nem a commiseração lhe deu alentos para se aproximar do ensopado moço. Odiou-lhe talvez a covardia n'aquella hora. Odiou-se talvez a si propria. Não sei. Avisaram-me que ella estava prostrada, e sem sentidos, no lagêdo do pateo. Dei ordem ás criadas que a transportassem ao seu leito. Minutos depois, abandonei a minha casa, levando commigo o criado que me vira nascer, o unico homem diante de quem eu podia chorar.

XIX

«No dia seguinte, mandei de Cintra o criado a casa, informar-se dos successos decorridos... Quererias tu... agora penso que tu desejas saber como foi aquella minha noite... Passei-a na ida para Cintra. Quer-me parecer que parte de minhas faculdades moraes ia atrophiada. Volteavam em redor de minha intelligencia uns corpos, ora negros como o recesso dos abysmos, ora igneos como as fitas dos coriscos. Nem a memoria de minha mãe se mesclava ao revolutear das minhas concepções desconcertadas. Era a febre, a procella do sangue encapellada na cabeça. O criado teve o instincto de comprehender-me. Raras palavras me disse com resposta. Algumas vezes senti-me aferrado pelo seu braço; era quando eu ia despenhar-me do cavallo, sem dar tento da vertigem.

Contava-me elle depois que eu, a intervallos longos, expedia gritos que lhe eriçavam os cabellos, e vociferava insultos, esporeando freneticamente o cavallo.

Aqui tens a minha noite: não tenho outras memorias. Apenas me recordo que aos primeiros assomos da manhã se romperam os diques das lagrimas, e chorei por muito tempo.

O criado partiu de Cintra com ordem de colher noticias. Voltou, entregando-me um papel aberto, que o escudeiro lhe dera, escripto por Palmyra. Era uma declaração de divida indeterminada, ou que havia de fixar-se pela avaliação dos objectos de seu uso, que ella, ao sahir de minha casa, levava comsigo. Deviam ser vestidos e joias. Palmyra, por tanto, havia sahido na manhã d'aquelle dia.

Ao entardecer, quando a tristeza cahia do céo, como um lucto de almas não já desditosas, mas ainda arraiadas do iris da esperança, confrangeram-se-me em dôr ineffavel as fibras do coração, dôr de saudade voracissima, saudade de Palmyra, desejo ardente de vêl-a não sei se para cahir-lhe de joelhos aos pés, se para escarrar-lhe no rosto. Nenhum allivio pedido a todas as potencias de minha imaginação, pedido a Deus, e ao amor de minha mãe, nenhum conforto experimentei. Era a desesperação, que pensa no suicidio. Deitei-me, confiado na esperança de cahir em lethargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incendio febril. Se algum instante o sopor me desfallecia, pulava-me o coração com tamanho impeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito contra a janella, em agonias de estrangulado. O maximo horror das minhas visões era ella, nos braços d'aquelle miseravel, áquella hora. As minimas circumstancias d'um espectaculo de devassidão, as mais secretas, e lubricas minudencias se me traçavam patentes a uma claridade infernal. A oração, esse divino desabafo de enormes afflicções, nem esse bem me valia um relampago de socego á alma. Começava orando, a anciedade recrescia, a fé desamparava-me, e então sobrevinha o desprezo de Deus, a negação da Providencia, e um feroz deleite de blasphemar. Eu amava a mulher abysmada, a mulher prostituida! Eu, santo Deus, com instinctos tão nobres, educação tão religiosa, e respeitos tão profundos á dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu então os epithetos usurpados á honra!... Eu que me infatuára perante o mundo de acorrentar á minha vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma, que eu cobria de brilhantes e flôres, cuidando que a sociedade havia de respeital-a assim, e humilhar-se diante da minha affrontadora opulencia! Eu, verme esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu arbitrio, e renegal-o como ente inutil ao remedio da minha desgraça!...

«Mal me entreluziu a manhã, fiz apparelhar os cavallos, e voltei para Lisboa sem proposito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira, em quanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os olhos envidrados de lagrimas, e disse a medo: «Meu amo, vamos embora de Lisboa; vamos para a nossa terra, que Deus e a Virgem Maria dará remedio.» Não respondi; mas pensei. A quietação da minha aldêa convidava-me; porém, entrando em espirito no interior da minha casa de Ruivães, ouvia com pavor o som dos meus passos n'aquellas salas desertas: faltava-me minha mãe alli: o anjo consolador fugira antes do meu resgate. Acudia-me á lembrança a minha triste Mafalda, a irmã terna, a meiguice da virgem compadecida; porém o meu coração, a porejar o esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os balsamos d'um affecto purificador.

«O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo, attrahente da desordem da vida, quadrava mais á minha alma sedenta de não sei que filtros de lagrimas e sangue. Estava traçado o meu plano, quando cheguei a Lisboa. Qualquer resolução sacode o mais paralysado espirito. Senti-me forte para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmyra, e abri as suas gavetas despejadas de todas as cousas d'algum valor. A minha razão logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a indole de uma mulher, que, em conflicto de tamanha vergonha, tivera animo para se andar por suas proprias mãos enfardando vestidos e enfeites, no intento de vestir as galas seductoras de amantes novos. Refugi como envilecido dos aposentos de Palmyra. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas roupas. Guardei a correspondencia de minha mãe e de Mafalda. Queimei os restantes papeis, excepto as cartas de Theodora das Ursulinas. Por quê? Nem eu sei. Queria aquellas memorias da creança que então morrera...

--«Chamei os criados, e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu Tranqueira, e, n'esse mesmo dia, expedi ordens para a venda de carruagens, cavallos, e mobilia. Alguns amigos conseguiram rastrear a minha residencia obscura n'um hotel inglez em Buenos-Ayres.

«Procuraram-me, e eu não os recebi. A minha vaidade envergonhava-se d'elles. Nem a despedaçadora curiosidade de saber o destino de Palmyra pôde vencer o orgulho escarnecido.

«No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo á minha. Eil-a aqui: «Ambos te queremos do coração, Affonso. Meu pae não diz a teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando tua mãe dizia em ancias: «perdi meu filho!» o meu bom pae ajuntava sempre: «elle virá, minha irmã, que a sua indole é boa.» Mostrei-lhe a tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e elle disse-me: «escreve-lhe tu, com a benção de teu pae; diz-lhe que o amas sempre: eu dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ella o ame; é o mais que posso dar-lhe.» Estas palavras escrevo-t'as por sua ordem, e desconfio que são inuteis para a tua felicidade. Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Affonso, nos dás grande satisfação.

«Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe. Se te mortifica o pezar de não ter vindo assistir-lhe á morte, tranquillise-te a certeza de que ella te perdoou. Bem sabes que santinha e que mãe ella era. Eu fui lêr á beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levantei-me de ao pé d'ella tão desopprimida e satisfeita que tomei por instincto do céo a minha alegria. Póde ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do allivio que eu senti então.

«Bom seria, meu primo, que tu mandasses cuidar um pouco nos negocios da tua casa. Meu pae faz o que póde, e dirige o teu procurador; mas receia de não zelar os teus interesses como queria por falta de saude, e pela distancia em que vivemos de Ruivães.

«Adeus, meu querido irmão. Cuida em ser feliz, e lembra-te com amizade da tua _Mafalda_.»

«Respondi logo a esta carta, participando a minha prima que ia sahir para Pariz, no proposito de assentar alli a minha residencia. Expressões affectuosas escassamente lhe disse as vulgares, as necessarias á formalidade de relações entre primos que se estimam. É que eu via em mim o aviltado homem que estava sendo, e de Mafalda mesmo tinha eu um certo pejo, vaidade ainda, a vaidade do homem que se julga desapreciado aos olhos de uma mulher, que o vê rejeitado d'outra, embora villissima, embora repulsada da sociedade de mulheres aptas para honestamente avaliarem o merecimento do homem desprezado. Eu não queria nem podia, coberto de infamia por Palmyra, ir acolher-me ao amor de Mafalda. E depois, e sobre tudo, meu amigo, bem que eu quizesse, não poderia amal-a então como a teria amado quinze dias antes, insuspeitoso da lealdade de Palmyra. Sabem os experimentados, poderás tu sabel-o, que é uma excepção d'almas futeis a passagem rapida d'uma affeição a outra, quando nos pesa o opprobrio d'uma perfidia. O coração está lanhado, a fronte não ousa erguer-se para a mulher do amor de salvação, a dignidade geme sob um peso de vilipendio, que cuidamos lêr nos olhares affrontadores de todo o mundo, olhares que por vezes exprimem compaixão. Mas o que é em casos taes a piedade, senão injuria?!

«Escrevi ao meu procurador ordenando-lhe a venda de todas as minhas propriedades, salvando a casa e quinta de Ruivães. Na volta do correio, avisou-me elle de que havia comprador prompto; e, poucos dias depois, recebi ordens de pagamento de trinta mil cruzados. Com estas ordens, vinha carta de meu tio Fernão de Teive. Dizia assim: «Tua prima está enferma, por isso não te escreve; e eu tambem adoentado e tristonho mal posso escrever-te. Recebemos a nova da tua mudança para Paris. Vai com Deus, Affonso. Póde ser que a tua felicidade lá esteja. Folgo de te vêr ir desligado da personagem que, segundo me dizem, foi a final o que era rigoroso que fosse. Diante da mulher perdida todos os homens são iguaes. Quereres tu o privilegio que o marido não teve, seria um absurdo do teu orgulho. Theodora está em Braga promovendo o divorcio a fim de levantar-se com o seu patrimonio. O Eleuterio, por intervenção de um meu compadre, quiz que eu entrasse como ouvinte e conselheiro em suas cousas. Aceitei o convite como quem tem pouco que fazer, e passa as suas horas na cama a agasalhar a gôta. Sou o depositario do borrador das cartas que ella te escrevia, seductoras em verdade, e dignas de irem á estampa. Onde foi esta mulher aprender tanta palavra?! Estou em dizer que anda aqui muito amor de diccionario; e os successos posteriores levam-me a crêr que era ainda peor o amor da creatura. Aqui estou eu a fallar comtigo á laia de rapaz! e o caso é que a dôr do calcanhar esquerdo espalhou.

«O teu procurador avisa-me que vendeu as tuas quintas de Leiroz e Gestal. Para te não dizer cousas tristes, e evitar que torne a dôr do calcanhar, ponho aqui ponto. Mas sempre te direi, como irmão de tua mãe, e teu amigo devéras, que, exhaurido o teu patrimonio, tens a minha casa. Se eu morrer--e ainda bem!--antes d'esse dia (dia, talvez, inevitavel!) deixarei dito a Mafalda que seja sempre o que tua mãe e eu fomos para ti: o coração devotado sem condições. Adeus. Quando tiveres vagar, escreve-nos de Paris--Teu tio _F. de Teive_.»

«Alegrou-me a nova da ausencia de Palmyra de Lisboa. O dragão do ciume desencravou-me as garras do peito. Que estupida alegria! A suspensão da perfidia que importava ao desaggravo do meu orgulho? Quão lastimaveis e ridiculos somos, se uma vez perdemos o norte da legitima, da decente probidade! Nenhum liame da sã moral resiste ao cancro do coração. Até o regenerarmo-nos tem para nós um certo ar de baixeza de animo, scena de comedia que faz rir o mundo.

«E eu, ancioso de um mundo novo, fui para França. Que cuidas tu que eu ia procurar em França?

--O methodo mais facil de gastar os trinta mil cruzados--respondi eu.

--Não me lembravam os trinta mil cruzados: ia procurar uma mulher; ia procurar o amor de salvação.

--E encontraste-o em França?

--Encontrei.

--Vejamos.

XX

Ao oitavo dia de residencia em Paris, Affonso de Teive não sabia que fazer da sua pesada inercia. Fechado no quarto de um hotel, ouvia os estrondos da Babylonia, e suspirava pelos silencios da sua aldêa. Apresentára as cartas de cavalheiros de Lisboa na embaixada portugueza, recebera a visita dos compatriotas distinctos em Paris, e convivera nos primeiros dias em bailes, theatros, e jantares. Saciou-se prestes aquella contrafeita sofreguidão de vida, e logo uma subita e glacial atonia lhe ennegreceu os prazeres, almejados de longe, como iniciação para outros, que inteiramente lhe obliterassem da memoria as dôres passadas.

E, no termo de oito dias, uma consolação unica lhe restava: era o ante-gosto de voltar á casa deserta de Ruivães, e esperar alli ao lado do jazigo de seus paes o breve termo de sua irremediavel tristeza.

Affonso, porém, tinha vinte e quatro annos. A natureza contramina estas renunciações intempestivas. Uns repentes impensados sacodem a alma de sua modorra, e a sobre-excitam a desejos vagos, bem que ephemeros. A materia não é um impassivel envoltorio de corações entorpecidos. É preciso que a vida sensitiva se amorteça antes da actividade moral para que as paixões mallogradas vinguem o total quebranto do homem.

Entrou Affonso na sociedade, levado pela mão da esperança, que promettia guial-o ao pé da mulher salvadora. Mal encaminhado ia aos salões de Paris. Os conhecedores d'aquelle «mundo» contaram-lhe as historias de cada mulher, que tinha ares de poder salvar alguem: no geral eram creaturas, que procuravam quem as salvasse das incertezas do futuro pelo casamento justificado e santificado com algumas centenas de milhares de francos. Estas eram as filhas dos generaes do imperio, as filhas dos estadistas em começo de fortuna, as filhas dos gentis-homens cujos appellidos contavam sua antiguidade de Carlos Magno para além. E todas estas meninas, esperançadas em salvação, e em requesta de salvadores, quando encaravam no vulto melancolico de Affonso de Teive, imaginavam-no um galante moço que, ao contemplal-as, dizia magoadamente entre si: «Se eu fosse rico!...» E ellas, olhando-o de soslaio com discreta reserva, diziam: «Se tu fosses rico!...»

Quando Affonso tomou a peito rectificar este juizo dos seus amigos, avisinhou-se das mais aureoladas do azul-celeste da innocencia, e averiguou que as mais singelas á vista eram as que mais a ponto fallavam, em termos rigorosamente arithmeticos, de fortunas deslumbrantes, de casamentos projectados. E, se elle, com a portugueza e bemdita poesia dos nossos amores de sala, aventurava algumas phrases de idyllio sobreposse, as ligeirissimas creaturas ouviam-no distrahidas, como, no theatro, ouviriam musica de Donizetti, e encheriam de melodias a alma, em quanto assestavam o binoculo no filho do banqueiro.

Comprehendeu logo Affonso de Teive que não servia á alta sociedade parisiense. Um forasteiro, que vai a Paris com trinta mil cruzados, e deixa na patria uma quinta, que valeria menos de metade d'aquella quantia improductiva, deve contar que no caminho do hotel aos theatros e salas, aos festins e concertos, em menos de dous annos, com alguma parcimonia nas despezas, se lhe hão-de escoar as ultimas mealhas. Os haveres de Affonso, postos á disposição da filha do marechal do imperio ou do marquez decahido com os Bourbons, dariam uma dezena de _toilettes_ da esposa. Esta dura verdade calou-lhe no animo, afastando-o do concurso de mancebos, que malbaratavam cada mez fortuna sobreexcedente á d'elle. Penoso desengano ás portas do grande mundo onde elle tencionára retemperar o coração ao bafejo das primeiras mulheres da época, e da França. Tinha, por tanto, que descer ás inferiores camadas, abaixo mesmo da media. N'esta mais difficil lhe seria o escolher um rosto distincto e uma alma no estado da innocencia do anjo: trancava-lhe as portas a cobiça que lá vai dentro, imitando-as a elevarem-se até emparelharem com as invejadas mulheres da classe alta. Elle, cuja razão se alumiára á luz do facho do universo, á luz de Paris, viu-se qual era, correu-se da sua comparativa pobreza, e refugiu dos bailes, das cêas, e dos concursos em que o seu peculio se ia desnervando á custa de sangrias inevitaveis.

Madrugou, um dia, Affonso de Teive ambicioso de riqueza. N'esta hora, e pelo tempo fóra de oito mezes, fez-se em seu coração um quietismo espantoso! Descuidou-se do esmero no trajar; era-lhe já como indifferente o reparo da mulher. Vendeu o tilbury e o cavallo. Mudou para hotel menos dispendioso. Traçou plano de batalha á fortuna, e entrou no jogo de fundos, onde os felizes, a um relanço de olhos da boa fada, accumulavam enormes cabedaes, facto demonstrado por milhares de exemplos.

Foi feliz nos ensaios timidos, e em pouco. Prosperaram-lhe outros de maior risco. Cuidou-se bemfadado para emprezas maiores. Vieram as alternativas, equilibrando-se. Começou Affonso a estudar seriamente os mysterios d'aquelle jogo, com enthusiasmo e absoluto menosprezo de tudo mais. Dizia-se elle: « refaça-se a fortuna, que depois se reconstruirá o coração. Dinheiro, muito dinheiro, para comprar uma alma pura em Paris, onde a raridade tornou carissimo o genero!»

Sossobrado por um revez, perde metade do seu capital. Desanima, e esmorece em força moral. Vai a medo á barra do Potosi, e crê que está alli um abysmo a tragar-lhe o restante, e depois a elle. Que fará empobrecido no extremo? Venderá a casa, a quinta, a capella, e o tumulo de sua mãe? Lembra-lhe a mãe, e invoca a alma santa a coadjuval-o na empreza immoral. A santa infunde-lhe uma insuperavel desanimação diante do perigo. Associa-se a jogadores felizes. Balancea-lhe a fortuna entre pequenos desastres e pequenos lucros. Ao fim de oito mezes, a sociedade quebra, e Affonso de Teive tem de seu algumas libras, e cincoenta que o Tranqueira delicadamente lhe introduz na sua gaveta, os seus ordenados e economias de muitos annos.

O criado amigo, testemunha das lagrimas e das vertigens, ousa aconselhal-o que volte para Ruivães, e se restaure limitando-se ao rendimento de sua casa. Affonso enfuria-se contra o criado, exclamando: «Sabes o que é a minha casa de Ruivães? São quarenta carros de pão cada anno»--E vinte pipas de vinho, e uma de azeite--ajuntou o criado. «Que vale tudo isso?»--perguntou Affonso. O Tranqueira fez a conta pelos dedos, e respondeu:--Feitas as despezas do grangeio, vale seiscentos mil réis. «E hei-de eu viver com seiscentos mil réis por anno!--clamou Affonso--eu! habituado ao luxo, com vinte e cinco annos, com precisão de aturdir a minha existencia nos prazeres, que só a muito dinheiro se encontram em toda a parte do mundo!»

O criado encolheu os hombros, e disse entre si:--Valha-nos a alma de minha santa ama e senhora!

Medita Affonso vender o resto de seu patrimonio; e para logo lhe occorrem estas palavras da ultima carta de sua mãe moribunda: _Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus t'a der como tempo de merecer o céo. Aqui nasceu teu pae, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avós_.

Desfallece-lhe a sacrilega coragem de negar a sua mãe o derradeiro pedido. Mas a necessidade atroz abriga-o a desviar os olhos d'um tumulo para enxergar não longe a indigencia em Paris, a indigencia relativa com as galas do passado.

Estas agonias são as supremas de sua vida. Palmyra, a memoria da mulher fatal, nem por sonhos o perturba. Apparelham-se-lhe affrontamentos maiores. A vergonha do pobre mostra-se-lhe mais aviltante que a vergonha de atraiçoado. Pensa, sonha, contorce-se, alenta-se, desmaia, recobra-se, sempre a scismar na rehabilitação pelo ouro, na reparação do seu capital; porém, de que modo, sem capital nenhum?... Salvadora idéa!...

Escreve ao tio Fernão d'este theor:

«Perdi-me, perdi o que trouxe de Portugal, estou pobre. Eis-me mais castigado que o padecente dos pardieiros das Taipas. Elle refugiou-se aos quarenta annos, ainda rico do mundo. Eu tenho vinte e cinco annos, a honra perdida, a rehabilitação impossivel, aptidão para nada, o espirito derrancado no gozo de infames delicias: e, para sustentar esta vida corroida da lepra, resta-me a quinta de Ruivães. Eu sei que a fome não iria lá bater-me ás portas, sei que ainda tenho de meu o talher na sua mesa, meu tio, mas Affonso de Teive antes de estender a mão á piedade mesmo dos seus ha-de esconder a sua ignominia n'um d'estes comoros de terra, onde os sepultados não tem nome. Minha mãe pediu-me que não vendesse a casa onde está o jazigo de meus avós. Os meus avós são os de meu tio Fernão de Teive. Aqui venho eu offerecer-lhe a minha quinta. Compre-m'a, meu tio, que a vontade de minha mãe está cumprida. Lá fica Mafalda, o anjo, para ajoelhar diante d'aquellas lapides sagradas. Compre-m'a, senão eu, de mãos postas, pedirei a minha mãe que perdoe ao reprobo, que lhe vendeu os ossos, na vespera do dia da fome. Seu sobrinho _Affonso_.»