Chapter 10
«Bem sabes tu, meu filho, que eu, cheia de terror do teu peccado, voltei para Deus a minha afflicção, e nenhuma palavra de censura te escrevi. O que eu podia fazer para livrar-te estava inutilmente feito. Era tardio tudo que fizesse depois. A infeliz creatura estava já comtigo. Ninguem sem ordem do céo poderia remil-a de sua perdição. Á minha presença veio o desgraçado marido de Theodora pedir-me que te movesse a influir no animo de sua mulher o recolher-se n'um mosteiro. Consultei primeiro a vontade divina, e depois a razão humana. As minhas orações, se podessem com Deus alguma cousa, lá iriam ter á tua alma em abalo de consciencia. O Senhor não quiz. As pessoas a quem pedi voto sobre escrever-te, segundo o pedido do homem de Theodora, todas me disseram que eu ia abaixar a minha dignidade n'um requerimento vão e desconforme á natureza da tua desgraça. Abaixar a minha dignidade não me custava nem humilhava; mas, sem esperança de te mover com as minhas pobres razões, antes quiz orar, e orar sempre a quem tudo podia.
«Bem sabes, meu filho, que eu, nem mesmo ao remetter-te n'um anno o rendimento de quatro, afóra o producto da quinta vendida, nada te disse respeito á causa dos teus desperdicios, promettedora de tua inevitavel pobreza.
«Conheci que eu, em tua vida, já nem sequer valia para amiga, muito menos devia esperar respeitos e amor á minha authoridade de mãe. Disse commigo que era irremediavel a tua desgraça, e esmoreci de todo em todo.
«Mandou o Senhor para o meu lado tua virtuosa prima. Choramos ambas; mas o anjinho, mesmo em prantos, consolava a pobre que lhe via a alma em grandissimas mortificações.
«Agora, meu filho sempre querido, é tempo de te abençoar, de te perdoar as dôres que me déste, e rogar-te que me vejas aos pés do Altissimo, se a sua misericordia me descontar as agonias nas muitas culpas de minha vida. Não te mortifique o pezar de me haver deixado morrer, sem que a tua vida se lavasse, pelo arrependimento, do deshonroso crime que a disforma. A todo o tempo, se sentires o voluntario brado da consciencia, escuta-o, remedea-te, e foge de ti mesmo para te encontrares na justiça benigna do perdoador de crimes iguaes. Eu serei então em espirito comtigo para te ajudar a reformar o teu animo, e alentar em teus desfallecimentos.
«Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste, e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus t'a der, como tempo de merecer o céo. Aqui nasceu teu pae, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens n'ella a sepultura de teus paes e avós.
«Se alguma vez voltares aqui, e tua prima fôr viva, estima-a, em paga dos carinhos que lhe fico devendo, e do beijo de filha, que ella me ha-de dar, quando eu expirar em seu seio. Aqui te lança sua derradeira benção a tua boa mãe, _Eulalia_.»
XVII
Encerrou-se Affonso por espaço de oito dias, inconsolavel aos afagos de Palmyra. Os amigos, seus socios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernaes logrativos das dissipações, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se á vista d'elles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em lucto de oito dias, que um homem de razão clara tinha obrigação de ser superior a soffrimentos communs e naturalissimos, taes como a morte de uma mãe. Palmyra ia ao salão receber os pezames, e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusillanimidade de Affonso. «Eu soffro muito--dizia ella a D. José de Noronha alquebrando o rosto em desconfortada pena--ao vêr que a minha solicitude consoladora nada póde com Affonso. O coração da mulher, que renunciou á satisfação do dever, e se immolou aos caprichos transitorios d'um homem, deve tambem renunciar o poderio de desviar d'uma sepultura os olhos d'elle. Assim se é castigada, quando se é culpada como eu.» A taes razões, proferidas com os olhos no tecto, respondia D. José de Noronha:--Eu hei-de acreditar que Affonso deixou de amar apaixonadamente v. exc.ª, quando elle se confessar um monstro, e a honra fôr banida d'este mundo. Eu só comprehendo o esquecimento da honra, quando é preciso sacrifical-a a uma senhora como v. exc.ª Ainda bem que ha uma só, para se não abjurarem os deveres sociaes.--Ora, o estylo de Affonso--digamol-o de corrida--era muito mais lhano e correntio.
O filho de Eulalia, passado o primeiro mez de lucto, disse com suaves maneiras a Palmyra que o seu animo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo;--que resolvia diminuir as suas relações e as suas superfluidades;--que tencionava occupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmyra o acompanharia, revivendo a sua esquecida affeição aos livros;--que aceitava como inspiração de sua santa mãe o desapegar-se de regalos vãos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem: finalmente, concluiu Affonso: «Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos.»
Palmyra sorriu, e disse:
--Bem sei... bem sei, Affonso.
--Que sabes tu? perguntou brandamente o moço--Diz o que sabes, minha amiga.
--Comprehendo a mola occulta do teu novo programma de vida... É o cansaço... Já me chamas _tua amiga_. A mulher, que ama, quando lhe dão tal nome, sabe que é cousa de pouca monta para quem lh'o dá. Falla-me claro: sentes o entojo de impressões novas? As cartas de tua prima é que levantaram em teu espirito essas poeiras de tardia virtude? Nada de refólhos, Affonso. A minha opinião é que nenhum de nós se constranja. As pêas, impostas mesmo pelo dever, são um infortunio muito meu conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Affonso?
--Não amo minha prima--respondeu serena e pacientemente o moço--Se amasse Mafalda, de certo não estaria ao lado de Palmyra. Estimo-a como irmão; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o ultimo alento de minha mãe o recebeu ella nos labios... Porém, que tens tu com minha prima? Que injustas referencias são essas que continuamente lhe estás apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrerá sem outro prazer senão o da sua virtude mal remunerada n'este mundo?...
--Virtude!...--interrompeu Palmyra franzindo os labios no sorriso da ironia injuriosa--Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vicios!... Pouquissima generosidade é a tua Affonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua bocca o libello e a condemnação das minhas culpas?! Póde ser, póde ser, e eu, envelhecida pela experiencia de poucas semanas, não terei de que espantar-me.
--Offendem-me as tuas injustiças--redarguiu Affonso soffreando a impaciencia--Que direito te dou para tanto?
--Direito? queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?!
--Essa pergunta é aviltante, Palmyra!... Onde está a tua intelligencia, a tua critica, e propriamente a tua vaidade?--redarguiu Affonso de Teive--Desconheço-te, estás a descer sem impulso estranho...
--A descer da tua consideração?--acudiu ella resabiada.
--Quem o duvída? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Affonso de Teive. Queria eu dizer que não te dava direito, ou causa a offender-me.
--Bem!--tornou ella amaciada a voz com falso accordo--Aceito a explicação. Perdôemo-nos reciprocamente, e sejamos... sejamos... _amigos_, sim?
--Como tu feriste ironicamente a palavra _amigos_!...
--É que me não tôa bem nos ouvidos do coração--replicou Palmyra risonha, chegando a face aos labios do moço, que a beijaram friamente.
--Em quanto ao teu novo traçado de vida--volveu ella--queres que se cumpra, em rigor, como está ordenado, sim?
--_Ordenado_, não é o termo proprio--Consulto-te, expuz em breve as minhas razões; mas se te despraz...
--Apraz-me tudo que te contenta, meu Affonso. De hoje em diante reformam-se os nossos costumes. Vendem-se os trens? trespassa-se o camarote? vamos habitar uma casa modesta... Queres, Affonso? Tambem eu.
Não escapou a Affonso o tom ironico de taes perguntas. Cahiu em si de repente, e viu-se em começos de castigo. Apagaram-se muitas luzes do altar em que elle tinha o bello barro idolatrado. Fugiram-lhe para sobre o tumulo de sua mãe os olhos d'alma, e viram Mafalda de joelhos na lagem da capella com a face apoiada no marmore do jazigo. As luzes restantes do altar ficaram para lhe amostrar o odioso da mulher de Eleuterio.
Ás perguntas retrincadas não respondeu Affonso... Ergueu-se, e sahiu do seu quarto. Refugiou-se no mais recondito do palacio, para chorar a salvo do opprobrioso sorriso de Palmyra. Depois, voltou ao seu escriptorio, e escreveu a Mafalda esta carta, significativa de mudança temporaria, senão fundamental, em seu espirito:
«Prima Mafalda. Vai ao pé do tumulo de minha mãe, e repete-lhe as palavras d'esta carta. A justiça de Deus esmaga-me. Sou eu que vergo debaixo do fardo de affronta que levantei da lama com minhas proprias mãos. O arrependimento dos desvarios da mocidade não costuma atalhar tão cedo a carreira dos grandes desgraçados. Fere-me Deus tão cedo! é por que me quer desatar d'este jugo de infamia. Auxiliem-me as orações de minha mãe, que eu sou fraco. Venham golpes de desengano, bem pungentes, para que se faça o dia da razão em minha vida. A aurora d'este dia já aponta; mas o meu coração ainda está envolvido em trevas, e cheio de amargura. Santas devem ser as tuas orações, Mafalda. Eu dobro o joelho ante a memoria de nossa mãe, ouso invocar a sua intercessão no céo; sei que a alma bemaventurada não repelle o mau filho que a crucificou nos ultimos annos, quando me ella pedia seio onde encostar as suas cans. Mafalda, anjo solitario, que vês com os olhos puros as estrellas da nossa infancia, ora por mim, dá-me a tua piedade, que nenhuma outra me dá este mundo. Escreve-me, diz ao teu veneravel pae que me escreva. Lembra-lhe os pardieiros das Taipas... Diz-lhe que o neto de Christovão de Teive sente já no coração o corroer das ulceras que carcomeram a pelle do emparedado. Amai-me ambos, defendei-me de mim proprio, que o esteio da religião não póde com o peso de meus desatinos. Teu primo, _Affonso_.»
Mandou Affonso lançar a carta na caixa postal. Um quarto de hora depois, entrava Palmyra, fremente de raiva, com a carta aberta, exclamando:
--Isto é uma grande miseria, e uma grande infamia, snr. Affonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta affrontosa carta seja reformada.
Affonso lançou mão da carta, e recuou horrorisado da villania de Palmyra. Seccou-se-lhe a garganta e labios ao queimar d'um halito de colera que lhe calcinava o peito. Não pôde fallar. Sahiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. Já não era criado de Affonso o miseravel que vendera o sigillo de seu amo pelo ouro d'elle mesmo: fugira bem remunerado. No entanto Palmyra esbravejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Affonso, congestionadas as fontes de sangue, e o coração em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para não ouvir os clamores da mulher cuja furia recrescia á proporção do desprezo com que os proprios criados lh'a escutavam.
Affonso de Teive sahiu aforrado como quem foge; foi lançar a carta por sua mão; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Ahi sentiu orvalhos do céo esfriar-lhe o afôgo da febre. Olhou ao céo com mãos erguidas, e disse: «oh minha mãe!» Ao cahir da noite, voltou a casa, e viu no pateo o _gig_ de D. José de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua mãe, acercou-se cautelosamente d'elle, e disse-lhe:
--Fidalgo, não se afflija... Tenha animo, fidalgo, e não deixe fazer o ninho atraz da orelha.
O chulo da phrase offendeu-o, e a intenção mysteriosa ainda mais.
--Que queres dizer, animal?--perguntou Affonso.
O criado coçou-se fechando os olhos, e respondeu:
--Lá em cima está o snr. D. José de Noronha.
--Que tem isso? não o tens aqui visto tantas vezes? Responde.
--Tenho, tenho, e Deus sabe se cá por dentro me não tem dado guinadas de lhe partir na cabeça o _gig_.
--Por que? Vem cá... Entra n'esta loja commigo... Falla claro!--dizia Affonso com suffocativa vehemencia--Que desconfias tu de D. José?
--Desconfio, fidalgo, que a snr.ª D. Palmyra não é fiel a v. exc.ª
--Mentes! mentes!--bradou Affonso--Prova-m'o, senão mato-te.
--Não ha-de matar, se Deus quizer, senhor morgado--volveu tranquillamente o Tranqueira, nome que merece lembrado.--Faz favor de tomar ar, e ouvir com socego. Estes negocios não vão assim de afogadilho. Dê tempo ao tempo.
--Não é tempo ao tempo, é já, já, immediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabeça.
--Fidalgo, ahi vai o que sei. O criado que fugiu esta manhã, sem que eu lhe podesse pôr os dez mandamentos, foi cá mettido pelo lacaio da senhora, e era lá muito collaço d'ella. Uns dias por outros, pisgava-se do serviço o rapaz, e andava por lá quatro horas. Antes de hontem, tirei-me dos meus cuidados, e fui-lhe na pista muito á socapa. Levei-o d'olho até á rua de Santa Barbora, e lá esgueirou-se-me. Querem vossês vêr que o diabo as arranja? disse eu cá c'os meus botões. Estará elle mettido em casa do D. José de Noronha? Meu dito meu feito! D'ahi a menos de tres credos sahia o malandro de casa do tal supplicante, e vinha anda que anda por alli fóra. Sahi-lhe eu d'uma travessa, e disse: «Tu d'onde vens, Antonio?» O patife engasgou-se, e nem p'ra traz nem p'ra diante. Tate! disse eu, aqui ha tratantada. Se elle fosse a cousa boa dizia-o. Puz-me a considerar no que havia de fazer. Eu se lhe digo que o vi sahir de casa de D. José, espanto a caça, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer? Embucho o que sei; tomo á minha conta espreitar a ama...--a ama! que a leve o diabo, que quem me paga é o fidalgo!--espreito e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negocio, e meu amo dá cabo d'este ladrão que o veio deshonrar a sua casa.
Affonso, além da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do craneo, como se lá se contorcesse e mordesse o cerebro um enxame de vespas.
O criado continuou:
--Antes de hontem á noite appareceu aqui o D. José. Fui em palmilhas atraz d'elle. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi v. exc.ª entrar tambem com a senhora. Desde então não tornou cá senão agora; mas como lá está com elle outro amigo, acho que não tem duvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui está o que eu sei, meu amo. Bote lá as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha ao tal menino, se fôr preciso.
Affonso poz a mão direita sobre o hombro do Tranqueira, e disse:
--Obrigado, teu amo agradece-te os cuidados que tens com a sua honra. Recommendo-te que não digas uma palavra a tal respeito. Ouves, Tranqueira?
--Então isto fica em agua de bacalhau?--perguntou o criado, abrindo e fechando as mãos.
--Já disse: nem uma palavra. Os teus cuidados agora passam para mim.
--Bem me fio eu n'isso!--murmurou o lacaio na ausencia do amo.
Affonso entrou no seu quarto; viu-se a um espelho: esperou que o rubor da excitação se descorasse, compoz o semblante, e passou á sala onde estavam Palmyra, D. José de Noronha, e um particular amigo d'este.
Palmyra, no sophá, tinha os braços em cruz sobre o seio, e a face inclinada sobre elles. D. José de Noronha folheava sobre a jardineira as _Mulheres de Walter-Scott_. O amigo estava sentado na poltrona contigua ao sophá. Cortejou Affonso os dous cavalheiros, depois de estender a mão a Palmyra, com tão demasiada ceremonia, que lhe não roçou as pontas dos dedos. Esta acção, depois da lucta da manhã, pareceu naturalissima á esposa de Eleuterio. Depois, achegou-se serenamente de D. José, observou a _Flora Mac-Ivor_ do romancista escocez, concordou com D. José na primazia da gentileza d'esta heroina, disse poucas mais palavras, e pediu licença para recolher-se, obrigado por uma fortissima enxaqueca. Tudo isto com um natural irreprehensivel.
Entrou Affonso no gabinete de Palmyra. Havia alli uma secretária de mogno, com espelhos, cravejada de gavetinhas moldadas pelo feitio dos antigos contadores. Tiradas as gavetas da primeira serie, encontravam-se uns _falsos_ de segredo, conhecido d'elle, que fôra o primeiro possuidor da engenhosa alfaia. Instigado pela suspeita, tirou Affonso pelos botões da gaveta central: estava fechada, e as duas lateraes abertas. Concluiu que a do meio segredava uma revelação. Procurou um ferro geitoso com que fazer saltar a fechadura: serviu-lhe a ponta d'um punhal. Cedeu a fragil lingueta, estalando. Tirou Affonso a gaveta, que continha joias: levou o dedo ao imperceptivel botão que abria o _falso,_ e tirou dous macetes de cartas, e uma solta. Abriu esta, e leu as primeiras linhas. Uma sombra de duvida seria estupidez maxima. Dizia: _É preciso cuidado com o lacaio de A. Encarou-me hontem de certa maneira... Emprega o nosso Antonio na espionagem d'alguma suspeita. Amanhã vai commigo o D. A. M. se fôr propicia a occasião elle sahirá a tempo. &c_.
Passou Affonso ao seu quarto para deliberar meditando. Que lance para meditações! D'ahi a pouco ouviu o rugir das sêdas de Palmyra. Lançou-se apressado sobre o leito, com a fronte entre as mãos.
--Estás melhor?--disse ella maviosamente.
--Não.
--Cuidei que estarias deitado. Que has-de tomar, meu filho?--Volveu ella, inclinando-se ao rosto de Affonso--Que tomas de ceia?
--Nada.
--Estás ainda muito irado contra mim?--replicou ameigando-o.
--Deixa-me, que me custa fallar. Vai á sala, se está lá gente.
--Irei, se de nada te sirvo aqui, e de mais a mais te importuno. Ainda lá estão aquelles maçadores... Logo voltarei a saber de ti.
XVIII
Voltou Palmyra á sala, e, momentos depois, reappareceu no quarto d'Affonso, perguntando se D. José de Noronha e D. Antonio Mascarenhas podiam, não incommodando, visital-o. Affonso respondeu, sem alteração, que lhes agradecia o cuidado; mas, confiado na amiga familiaridade com que o tratavam e eram recebidos, esperava que o deixassem estar em silencio, a vêr se assim a dôr de cabeça se mitigava. Palmyra entrou bem assombrada na sala, e disse a D. José: «Não ha que desconfiar. São saudades de Mafalda, rebuçadas nas saudades da mãe.»
Entretanto, Affonso, lançando-se do leito, examinava os fulminantes das pistolas... Seja elle o narrador d'este indescriptivel trance:
«Ao tempo em que eu revocava toda a minha reflexão para bem definir os actos sequentes ao homicidio, senti no coração uma rija pancada, e, para assim dizer, quasi apalpei ante meus olhos desvairados o vulto de minha mãe. Depuz as pistolas, e ajuntei as mãos. Ainda agora me maravilha a passagem rapida da vertigem, em que a minha honra me impunha matar o infame, para a tranquilla consideração sobre a inefficacia do homicidio como vingança da perfidia. Attribuo esta mudança inverosimil, segundo a logica das paixões, a mais forte poder que o da alma humana. N'esta suspensão, pedi ao espirito de minha mãe que me acudisse com o conselho salvador. Não ouvi resposta alguma, nem o meu entendimento concebeu algum designio. O que vi foi a imagem de Eleuterio, na sala da estalagem de Barcellinhos, no momento em que, lavado em lagrimas, dizia á mulher: «Castigada te veja eu, e Deus me vingue!»
«Eis aqui a resposta da alma bemaventurada; eis aqui as indirectas respostas da Providencia.
«Entendi que soára para mim a hora da expiação, annunciada pela visão do marido, cortado de angustias, superiores á minha. Faziam-se acceleradas transformações em meu animo; todas, porém, estranhas ao primeiro intento de matar. Lembrou-me fugir a occultas de minha casa, e esconder da infame e do mundo a explicação da minha fuga. Acudia-me logo outra idéa argumentando contra a miseria d'aquella. Lembrou-me propor a Theodora a separação, reservando a razão da proposta. Não sei quantos projectos disparatados ou irrisorios se atropellaram na minha pobre cabeça. «Serei eu um covarde?» perguntava eu logo á minha consciencia. Vinha então outra vez Eleuterio postar-se ante mim, e dizer á mulher que o fitava com desprezo: «Castigada te veja eu, e Deus me vingue.»
«Desligado da menor premeditação, assalteou-me de repente uma idéa, cujo alcance e desfecho eu não curei prever. Tirei dos bolsos as cartas de Palmyra, encontradas no segredo da secretária, e dirigi-me á sala. Ao sahir da porta do meu quarto vi um vulto a sumir-se na extrema do corredor. Estuguei o passo, e o vulto parou. Era o meu criado Tranqueira. Perguntei-lhe o que fazia alli. «Estou de plantão» respondeu elle. Ainda agora, ou agora verdadeiramente, é que eu posso rir da resposta e admirar o homem que a deu. Inclinou-se ao meu ouvido, e continuou: «Como dei fé que o patrão se deitou, não quiz deixar o negocio ao Deus dará: é o que foi.»
«Entrei na sala a passo mesurado, e quasi a subitas. Estava D. José ao lado de Palmyra na mesma othomana. D. Antonio folheava as _Mulheres de Walter-Scott_. Palmyra estremeceu, ao vêr-me assomar debaixo do reposteiro. D. José, embrutecido pela surpreza, não se moveu da posição denunciante da extrema familiaridade. Em minha presença, nunca elle se assentára a par de Palmyra no mesmo estôfo. Voltando a si da estupefacção de momentos, ia levantar-se, quando eu lhe disse:
«--Não se incommode, snr. D. José de Noronha. Está bem. Os meus amigos em minha casa são os donos d'ella.
--Essas maneiras exquisitas, Affonso...--tartamudeou D. José, em quanto Palmyra, perplexa ainda, manifestava sua duvida no abrimento da bocca e esgazeado das faces.
«Não respondi á banal reflexão de Noronha. Voltei-me para D. Antonio, e disse-lhe:--O snr. Mascarenhas é de mais aqui. _Se fôr propicia a occasião, elle sahirá a tempo_--diz a carta do nosso amigo D. José. V. exc.ª devêra já ter sahido.
«Relanceei de revez um olhar a Palmyra. Vi-a sobresaltada e livida, agitando-se em convulsos movimentos, sem todavia se erguer do sophá. D. José erguera-se, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira. D. Antonio encarava-me com ares de pavor. Eu continuei:--A figura do snr. Mascarenhas n'este quadro é de mais. Queira sahir.
--Eu vou com D. Antonio--disse o Noronha.
«--Elle que o espere na rua--respondi, voltando levemente a cabeça sem o encarar.
«D. Antonio tomou o chapéo com presteza, abaixou a cabeça a Palmyra, e sahiu, cortejando-me.
«A mulher da estalagem de Barcellinhos voltou ao corpo de Theodora. Eil-a em pé, com a serpente da soberba a enfuriar-lhe os gestos.
--Que significa isto?--exclamou ella--Acabemos esta situação sem grandes scenas! Que vem dizer-me o snr. Affonso?
«Confessarei que me senti pequeno diante d'este cynico interrogatorio! Que havia eu de responder á mulher, que rebatera com escarneo e arrogancia as moderadas aggressões do marido? Com que direitos ia eu alli, deshonrado, pedir contas de sua e minha honra, a ella que estava perdida? E, se a infamia era commum de ambos, por que ambos eramos criminosos, que falsos brios tinha eu por mim a inspirar-me uma resposta digna d'aquellas perguntas? Sómente assim posso agora dar-me contas de minha mudez de então.
«E ella, acorçoada pelo meu espantado silencio, proseguiu:--Abjurei dos deveres da honra, perdi-me, atirei-me cegamente aos seus braços, snr. Affonso de Teive. Satisfiz os seus caprichos, favoreci-lhe o orgulho de ter uma odalisca no seu palacio, prestei-me a enfeitar de falsos risos o meu semblante, mostrei-me ao mundo com o ar alegre da escrava que idolatrava a sua servidão, em quanto o snr. Affonso, enlevado nos ideaes amores d'uma prima...
«--Infame!--atalhei eu--Se tem de citar nomes de mulheres no seu arrazoado, procure-as, se as conhece, nas derradeiras paragens do vicio!... Não suje o nome de mulher alguma; toda a mulher, não cahida na ultima abjecção, impõe respeito á amante de D. José de Noronha, hospedada em casa de Affonso de Teive.
--Bem!--exclamou ella--a amante de D. José de Noronha agradece a hospedagem, promette mesmo pagal-a da altura da sua independencia, e vai sahir, impondo silencio ao insultador.