Amor de Perdição: Memorias d'uma familia
Part 9
«Simão, meu esposo. Sei tudo... Está comnosco a morte. Olha que te escrevo sem lagrimas. A minha agonia começou ha sete mezes. Deus é bom, que me poupou ao crime. Ouvi a noticia da tua proxima morte, e então soube por que estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão!.. Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade, e eu te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nossos innocentes desejos!... Porque não merecemos nós o que tanta gente tem!... Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crêl-o! A eternidade apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz, que me guiava de ti para a fé. Mas não póde findar assim o nosso destino. Vê se podes segurar o ultimo fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-hemos n'um outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu rezo, supplíco; mas desfalleço na fé, quando me lembram as ultimas agonias do teu martyrio. As minhas são suaves, quasi que as não sinto. Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranquillo. O peor é a saudade, saudade d'aquellas esperanças que tu achavas no meu coração adivinhando as tuas. Não importa, se nada ha além d'esta vida. Ao menos, morrer é esquecer. Se tu podesses viver agora, de que te serviria? Eu tambem estou condemnada, e sem remedio. Segue-me, Simão! não tenhas saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser feliz se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei á morte... E que morte, meu Deus!... Aceita-a! não te arrependas. Se houve crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angustias que tens de soffrer no carcere... e nos ultimos dias, e na presença da...»
Thereza ia escrever uma palavra, quando a penna lhe cahiu da mão, e uma convulsão lhe vibrou todo o corpo por largo espaço. Não escreveu a palavra; mas a ideia de _forca_ parou-lhe a vida. A freira entrou na cella a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Thereza, indicando-lh'a, disse:
--Leia, se quizer, e feche-a, por caridade, que eu não posso.
Nos tres dias seguintes Thereza não sahiu do leito. A cada hora, as religiosas assistentes esperavam que ella fechasse os olhos.
--Custa muito morrer!--dizia algumas vezes a enferma.
Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo.
Thereza ouvia-os, e dizia com ancia:
--Mas a esperança do ceu, sem elle!... que é o ceu, meu Deus?
E o apostolico capellão do mosteiro não sabia dizer se os bens do ceu tinham commum com os do mundo as delicias que falsamente na terra se chamam assim.
Aquellas subtilezas espirituaes, que vem com algumas especies de tisica, assim á maneira dos ultimos lampejos da vital flamma, tinha-as a enferma, quando acontecia fallarem-lhe as religiosas na bemaventurança. Ás vezes, se o capellão, convidado pela lucidez de Thereza, entrava os dominios da philosophia, tratando como problema a immortalidade da alma, a inculta senhora argumentava em breves termos, mas com razões tão claras a favor da união eterna das almas, já d'este mundo esposas, que o padre ficava em duvida se seria heretico contestar uma clausula não inscripta em algum dos quatro evangelhos.
Maravilhava-se já a medicina da pertinacia d'aquella vida. Tinha a abbadessa escripto a seu primo Thadeu, apressurando-o a ir vêr o anjo ao despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade, e por ventura de amor paternal, deliberou tirar do convento a filha na esperança de salval-a ainda. Uma forte razão accrescia áquella: era a mudança do condemnado para os carceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava á doente esta carta de Simão:
«Não me fujas ainda, Thereza. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pae protege-me, e a salvação é possivel. Prende ao coração os ultimos fios da tua vida. Prolonga a tua agonia, em quanto eu te disser que espero. Ámanhã vou para as cadêas do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou commutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda a parte ha ceu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Thereza, vive! Ha dias lembrava-me que as tuas lagrimas lavariam da minha face as nódoas do sangue do enforcado. Esse pesadêlo atroz passou. Agora, n'este inferno respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta. Já fito os olhos no ceu, e reconheço a providencia dos infelizes. Hontem vi as nossas estrellas, aquellas dos nossos segredos nas noites da ausencia. Volvi á vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não morras, filha da minha alma!»
Ia alta a noite, quando Thereza, sentada no seu leito, leu esta carta. Chamou a criada para ajudal-a a vestir. Mandou abrir a janella do seu quarto, e encostou a face ás rexas de ferro. Esta janella olhava para o mar; e o mar era n'essa noite uma immensa flamma de prata; e a lua esplendidissima eclipsava o fulgor d'umas estrellas, que Thereza procurava no ceu.
--São aquellas!--exclamou ella.
--Aquellas quê, minha senhora?--disse Constança.
--As minhas estrellas!... pallidas como eu... A vida! ai! a vida!--clamou ella, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos cadavericas--Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor!
--Ha de viver, menina! ha de viver, que Deus é piedoso!--disse a criada--mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande mal.
--Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver... Não vejo o ceu ha tanto tempo! Sinto-me resuscitar aqui, Constança! Porque não tenho eu respirado todas as noites este ar?! Eu poderei viver alguns annos? poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito á minha Virgem Santissima! Vamos orar ambas!... Vamos, que o Simão não morre... O meu Simão vive e quer que eu viva. Está no Porto amanhã; e talvez já esteja...
--Quem, minha senhora?!
--Simão, o Simão vem para o Porto.
A criada julgou que sua ama delirava; mas não a contrariou.
--Teve carta d'elle a fidalga?--tornou ella, cuidando que assim lhe alimentava aquelle instante de febril contentamento.
--Tive... queres ouvir?... eu leio...
E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu.
Agora vamos rezar, sim?... Tu não és inimiga d'elle, não? Olha, Constança, se eu casar com elle, tu vaes para a nossa companhia. Verás como és feliz. Queres ir, não queres?
--Sim, minha senhora, vou; mas elle conseguirá livrar-se da morte?
--Livra; tu verás que livra; o pae d'elle ha de livral-o... e a Virgem Santissima é que nos ha de unir. Mas se eu morro... se eu morro, meu Deus!
E com as mãos convuísamente enlaçadas sobre o seio, Thereza archejava em pranto.
--Se eu não tenho já forças!... todos dizem que eu morro, e o medico já nem me receita!... Então melhor me fôra ter acabado antes d'esta hora! Morrer com esperanças, ó mãe de Deus!...
E ajoelhou ante o retabulo devoto, que trouxera do seu quarto de Vizeu, ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os olhos das duas senhoras moribundas tinham fixado os seus ultimos raios de luz.
IV.
Annunciára-se Thadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia seguinte dos anteriores successos.
Sua prima, primeira senhora que lhe sahiu ao locutorio, vinha enxugando lagrimas de alegria.
--Não cuide que eu choro de afflicta, meu primo--disse ella--O nosso anjo, se Deus quizer, pode salvar-se. Logo de manhã a vi a passear por seu pé nos dormitorios. Que differença de semblante ella tem hoje! Isto, meu primo, é milagre de duas santas, que temos inteiras na claustra, e com as quaes algumas perfeitas creaturas d'esta casa se apegaram. Se as melhoras continuarem assim, temos Thereza; o ceu consente que esteja entre nós aquelle anjo mais alguns annos...
--Muito folgo com o que me diz, minha boa prima--atalhou o fidalgo--A minha resolução é leval-a já para Vizeu, e lá se restabelecerá com os ares patrios, que são muito mais sadios que os do Porto.
--É ainda cêdo para tão longa e custosa jornada, meu primo. Não vá o senhor cuidar que ella está capaz de se metter ao caminho. Lembre-se que ainda hontem pensamos em encontral-a hoje morta. Deixe-a estar mais alguns mezes; e depois não digo que a não leve; mas por em quanto não consinto semelhante imprudencia.
--Maior imprudencia--replicou o velho--é conserval-a no Porto, onde a estas horas deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez não saiba a prima?... Pois é verdade: o patife do corregedor sahiu a campo em defeza d'elle, e conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a appellação da sentença, passado o prazo da lei; e, não contente com isto, fez que o filho fosse removido para as cadêas do Porto. Eu agora trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero conseguil-o; mas, em quanto o assassino aqui estiver, não quero que minha filha esteja no Porto.
--O primo é pae, e eu sou apenas uma parenta---disse a abbadessa--cumpra-se a sua vontade. Quer vêr a menina, não é assim?
--Quero, se é possível.
--Pois bem, em quanto eu vou chamal-a, queira entrar na primeira grade á sua mão direita, que Thereza lá vai ter.
Avisada Thereza de que seu pae a esperava, instantaneamente a côr sadia, que alegrava as senhoras religiosas, se demudou na lividez costumada. Quiz a tia, vendo-a assim, que ella não sahisse do seu quarto, e encarregava-se de espaçar a visita do pae.
--Tem de ser--disse Thereza--Eu vou, minha tia.
O pae, ao vêl-a, estremeceu e enfiou. Esperava mudança, mas não tamanha. Pensou que a não conheceria, sem o prevenirem de que ia vêr sua filha.
--Como eu te encontro, Thereza!--exclamou elle commovido--Por que me não disseste ha mais tempo o teu estado?
Thereza sorriu-se, e disse:
--Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam.
--Terás tu forças para ir comigo para Vizeu?
--Não, meu pae; não tenho mesmo forças para lhe dizer em poucas palavras que não torno a Vizeu.
--Porque não?! Se a tua saude depender d'isso!...
--A minha saude depende do contrario. Aqui viverei ou morrerei.
--Não é tanto assim, Thereza--replicou Thadeu com simulada brandura--Se eu entender que estes ares são nocivos á tua saude, has de ir, porque é obrigação minha conduzir e corrigir a tua má sina.
--Está corrigida, meu pae. A morte emenda todos os erros da vida.
--Bem sei: mas eu quero-te viva, e portanto recobra forças para o caminho. Logo que tiveres meio dia de jornada, verás como a saude volta como por milagre.
--Não vou, meu pae.
--Não vaes?!--exclamou irritado o velho, lançando ás grades as mãos trementes de ira.
--Separam-nos esses ferros a que meu pae se encosta, e para sempre nos separam.
--E as leis? cuidas tu que eu não tenho direitos legitimos para te obrigar a sahir do convento? Não sabes que tens apenas dezoito annos?
--Sei que tenho dezoito annos; as leis não sei quaes são, nem me incommoda a minha ignorancia. Se póde ser que mão violenta venha arrancar-me d'aqui, convença-se meu pae de que essa mão ha de encontrar um cadaver. Depois o que quizerem de mim. Em quanto, porém, eu podér dizer que não vou, juro-lhe que não vou, meu pae.
--Sei o que é!--bramiu o velho--Já sabes que o assassino está no Porto?
--Sei, sim, senhor.
--Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda...
--Meu pae--interrompeu Thereza--não posso continuar a ouvil-o, porque me sinto mal. Dê-me licença... e vingue-se como podér. A minha gloria n'este longo martyrio seria uma forca levantada a par da do assassino.
Thereza sahiu da grade, deu alguns passos na direcção da sua cella, e encostou-se esvaída á parede. Correram a amparal-a sua tia e criada; mas ella, afastando-as suavemente de si, murmurou:
--Não é preciso... Estou boa... Estes golpes dão vida, minha tia.
E caminhou sósinha a passos vacillantes.
Thadeu batia á porta do mosteiro com irrisorio enfurecimento pancadas, umas após outras, com grande mêdo da porteira e outras madres, espantadas do insolito desproposito.
--Que é isso, primo?--disse a prelada com severidade.
--Quero cá fóra Thereza.
--Como fóra? Quem ha de lançal-a fóra?!
--A senhora, que não póde aqui reter uma filha contra a vontade de seu pae.
--Isso assim é; mas tenha prudencia, primo.
--Não ha prudencia, nem meia prudencia. Quero minha filha cá fóra.
--Pois ella não quer ir?
--Não, senhora.
--Então espere que por bons modos a convençamos a sahir, porque não havemos trazer-lh'a a rastos.
--Eu vou buscal-a, sendo preciso--redarguiu em crescente furia.--Abram-me estas portas, que eu a trarei!
--Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A Regra do mosteiro não póde ser quebrantada para servir uma paixão rancorosa. Tranquillise-se, senhor! Vá descançar d'esse frenesi, e venha n'outra hora combinar comigo o que fôr digno de todos nós.
--Tenho entendido!--exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do locutorio--Conspiram todas contra mim! Ora descancem, que eu lhes darei uma boa lição. Fique a senhora abbadessa sabendo que eu não quero que minha filha receba mais cartas do matador, percebeu?
--Eu creio que Thereza nunca recebeu cartas de matadores, nem supponho que as receba d'ora em diante.
--Não sei se sabe, nem senão. Eu vigiarei o convento. A criada, que está com ella, ponham-na fóra, percebeu?
--Porquê?--redarguiu a prelada com enfado.
--Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ella nada me tem contado.
--Se não tinha que lhe dizer, senhor!
--Não me conte historias, prima! A criada quero vêl-a sahir do convento, e já!
--Eu não lhe posso fazer a vontade, porque não faço injustiças. Se v. s.^a quizer que sua filha tenha outra criada, mande-lh'a; mas a que ella tem, logo que deixe de a servir, ha muitas senhoras n'esta casa que a desejam, e ella mesma deseja aqui ficar.
--Tenho entendido!---bradou elle--querem-me matar! Pois não matam; primeiro ha de o diabo dar um estoiro!
Thadeu de Albuquerque sahiu em corcovos do atrio do mosteiro. Era hedionda aquella raiva que lhe contrahia as faces incorreadas, revendo suor e sangue aos olhos acovados.
Apresentou-se ao intendente da policia, pedindo providencias para que se lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que não solicitava competentemente taes providencias. Instou para que o carcereiro da cadêa não deixasse sahir alguma carta de um assassino, vindo da comarca de Vizeu, por nome Simão Botelho. O intendente disse que não podia, sem motivos concernentes a devassas, obstar a que o prêso escrevesse a quem quer que fosse.
Reduplicada a furia, foi d'ali ao corregedor do Porto, com os mesmos requerimentos em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a velhice sem juizo era coisa tão de riso como de lastima. Esteve então a pique de perder-se a cabeça de Thadeu de Albuquerque. Andava e desandava as ruas do Porto, sem atinar com uma sahida digna da sua prosapia e vingança. No dia seguinte bateu á porta d'alguns desembargadores, e achava-os mais inclinados á clemencia, que á justiça, a respeito de Simão Botelho. Um d'elles, amigo de infancia de D. Rita Preciosa, e implorado por ella, fallou assim ao sanhudo fidalgo:
--Em pouco está o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria v. s.^a hoje feito, se alguns adversarios se oppozessem á sua cólera? Esse infeliz moço, contra quem o senhor solicita desvariadas violencias, conserva a honra na altura da sua immensa desgraça. Abandonou-o o pae, deixando-o condemnar á forca; e elle da sua extrema degradação nunca fez sahir um grito supplicante de misericordia. Um estranho lhe esmolou a subsistencia de oito mezes de carcere, e elle aceitou a esmola, que era honra para si e para quem lh'a dava. Hoje fui eu vêr esse desgraçado filho de uma senhora que conheci no paço, sentada ao lado dos reis. Achei-o vestido de baetão e panno pedrez. Perguntei-lhe se assim estava desprovido de fato. Respondeu-me que se vestira á proporção dos seus meios, e que devia á caridade d'um ferrador aquellas calças e jaqueta. Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pae para o vestir decentemente. Disse-me que não pedia nada a quem consentiu que os delictos de seu coração e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados n'um patibulo. Ha grandeza n'este homem de dezoito annos, senhor Albuquerque. Se v. s.^a tivesse consentido que sua filha amasse Simão Botelho Castello-Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se lhe atravessou com insultos e offensas corporaes de tal affronta, que deshonrado ficaria Simão se as não repellisse como homem de alma e brios. Se v. s.^a se não tivesse opposto ás honestissimas e innocentes affeições de sua filha, a justiça não teria mandado arvorar uma forca, nem a vida de seu sobrinho teria sido immolada aos seus caprichos de mau pae. E se sua filha casasse com o filho do corregedor de Vizeu, pensa acaso v. s.^a que os seus brasões soffriam desdouro? Não sei de que seculo data a nobreza do senhor Thadeu de Albuquerque; mas do brasão de D. Rita Thereza Margarida Preciosa Caldeirão Castello-Branco posso dar-lhe informações sobre as paginas das mais veridicas e illustres genealogias do reino. Por parte de seu pae, Simão Botelho tem do melhor sangue de Traz-os-Montes, e não se temerá de entrar em competencias com o dos Albuquerques de Vizeu, que não é de certo o dos _Albuquerques terriveis_ de que resa Luiz de Camões...
Offendido até ao amago pela derradeira ironia, Thadeu ergueu-se de impeto, tomou o chapéo e a enorme bengala de castão d'ouro, e fez a cortezia da despedida.
--São amargas as verdades, não é assim?--disse-lhe, sorrindo, o desembargador Mourão Mosqueira.
--V. ex.^a lá sabe o que diz, e eu cá sei no que hei de ficar--respondeu com tom ironico o fidalgo, alanceado na sua honra, e na dos seus quinze avós.
O desembargador retorquiu:
--Fique no que quizer; mas vá na certeza, se isso lhe serve d'alguma coisa, que Simão Botelho não vai á forca.
--Veremos...--resmoneou o velho.
V.
São treze dias corridos do mez de Março de 1805.
Está Simão n'um quarto de malta das cadêas da Relação. Um catre de táboas, um colchão de embarque, uma banca e cadeira de pinho, e um pequeno pacote de roupa, collocado no logar do travesseiro, são a sua mobilia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contém as cartas de Thereza, ramilhetes sêccos, os seus manuscriptos do carcere de Vizeu, e um avental de Marianna, o ultimo com que ella enxugára lagrimas, e arrancára de si no primeiro instante de demencia.
Simão relê as cartas de Thereza, abre os envoltorios de papel que encerram as flôres resequidas, contempla o avental de linho, procurando os visiveis vestigios das lagrimas. Depois encosta a face e o peito aos ferros da sua janella, e avista os horisontes boleados pelas serras de Vallongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pittorescas de Gaya, do Candal, de Oliveira, e do mosteiro da serra do Pilar. É um dia lindo. Reflectem-se do azul do ceu os mil matizes da primavera. Tem aromas o ar, e a viração, fugitiva dos jardins, derrama no ether as urnas que roubou aos canteiros. Aquella indefinida alegria, que parece reluzir nas legiões de espiritos, que se geram ao sol de Março, rejubila a natureza, que toda pompas de luz e flôres se está namorando do calor que a vai fecundando.
Dia de amor e de esperanças era aquelle que o Senhor mandava á choça encravada na garganta da serra, ao palacio esplendoroso que reverberava ao sol os seus espiraculos, ao opulento que passeava as suas molles equipagens, bafejado pelo respiro acre das çarças, e ao mendigo que desentorpecia os membros encostado ás columnas dos templos.
E Simão Botelho, fugindo a claridade da luz, e o voejar das aves, meditando, chorava e escrevia assim as suas meditações:
«O pão do trabalho de cada dia, e o teu seio para repousar uma hora a face, pura de manchas. Não pedi mais ao ceu.
Achei-me homem aos dezeseis annos. Vi a virtude á luz do teu amor. Cuidei que era santa a paixão que absorvia todas as outras, ou as depurava com o seu fogo sagrado.
Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo, que eu não possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Thereza, se os meus labios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quiz eu fazer do meu amor o teu opprobrio.
Nunca, Thereza! Nunca, ó mundo que me condemnas!
Se teu pae quizesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer, beijar-lh'os-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser feliz com outro homem, morreria, Thereza!
Mas tu eras sósinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz não devia sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insania do crime aturde a consciencia; não a minha, que se não temia das escadas da forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da suffocação.
Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratorio, e dizia comigo: Fallarei a Jesus Christo.
Sem pavor, premeditava nas setenta horas d'essa agonia moral, e antevia consolações que o crime não ousa esperar sem injuria da justiça de Deus.
Mas chorava por ti, Thereza! O travor do meu calix tinha sobre a sua amargura as mil amarguras das tuas lagrimas.
Gemias aos meus ouvidos, martyr! Vêr-me-ias sacudido nas convulsões da morte, em teus delirios. A mesma morte tem terror da suprema desgraça. Tarde morrerias. A minha imagem, em vez de te acenar com a sua palma de martyrio, te seria um fantasma levantado das táboas d'um cadafalso.
Que morte a tua, ó minha santa amiga!»
E proseguiu até ao momento em que João da Cruz, com ordem do intendente geral da policia, entrou no quarto.
--Aqui!--exclamou Simão, abraçando-o--E Marianna? deixou-a sósinha?! morta, talvez?!
--Nem sósinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atraz da porta... Marianna voltou ao seu juizo.
--Falla a verdade, senhor João?
--Podéra mentir!... Aquillo foi coisa de bruxaria em quanto a mim... Sangrias, sedenhos, agua fria na cabeça, e exorcismos do missionario, não lhe digo nada, a rapariga está escorreita, e assim que tiver um todonada de forças bota-se ao caminho.
--Bemdito seja Deus!--exclamou Simão.
--_Amen_--accrescentou o ferrador--Então que arranjo é este de casa? Que breca de tarimba é esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa em que um christão se possa sentar.
--Isto assim está excellente.
--Bem vejo... E de barriga? como vamos nós de barriga?
--Ainda tenho dinheiro, meu amigo.
--Ha de ter muito, não tem duvida: mas eu tenho mais, e v. s.^a tem ordem franca. Veja lá esse papel.
Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escripta ao ferrador, em que o authorisava a soccorrer seu filho com as necessarias despezas, promptificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas com a sua assignatura.
--É justo--disse Simão, restituindo a carta--porque eu devo ter uma legitima.
--Então já vê que não tem mais que pedir por bôca. Eu vou comprar-lhe arranjos...
--Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso--atalhou o prêso.
--Diga lá, fidalgo.
Simão pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Thereza de Albuquerque.
--O berzabum parece-me que as arma!--disse o ferrador--Venha de lá a carta. O pae d'ella está cá, já sabia?
--Não.
--Pois está; e, se o diabo o traz á minha beira, não sei se lhe darei com a cabeça n'uma esquina. Já me lembrou de o esperar no caminho, e pendural-o pelo gasnete no galho d'um sobreiro... A carta tem resposta?
--Se lh'a derem, meu bom amigo.
Chegou o ferrador a Monehique, a tempo que um official de justiça, dois medicos, e Thadeu de Albuquerque entravam no páteo do convento.
Fallou o aguazil á prelada, exigindo em nome do juiz de fóra, que dois medicos entrassem no convento a examinar a doente D. Thereza Clementina de Albuquerque, a requerimento de seu pae.
Perguntou a prelada aos medicos se elles tinham a necessaria licença ecclesiastica para entrarem em Monchique. Á resposta negativa redarguiu a abbadessa que as portas do convento não se abriam. Disseram os medicos de Thadeu de Albuquerque que era aquelle o estylo dos mosteiros, e não houve que redarguir á rigorosa prelada.