Amor de Perdição: Memorias d'uma familia
Part 8
Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer!
Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não quiz largar a victima [3].
Para que sahiste de Coimbra? a que vieste, infeliz? Agora sei que tens vivido fóra de Coimbra ha quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que dissesses a tua mãe!...»
Simão suspendeu a leitura, e disse entre si:
--Como se intende isto?! Pois minha mãe não mandou chamar João da Cruz! E não foi ella quem me mandou o dinheiro?
--Olhe que o almoço arrefece, menino!--disse o criado.
Simão continuou a ler, sem ouvir o criado:
«Deves estar sem dinheiro; e eu desgraçadamente não posso hoje enviar-te um pinto. Teu irmão Manoel, desde que fugiu para Hespanha, absorve-me todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas receio bem que teu pae saia de Vizeu, e nos leve para Villa Real, para abandonar de todo o teu julgamento á severidade das leis.
Meu pobre Simão! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo é que teu pae teve carta d'um lente, participando-lhe a tua falta nas aulas, e sahida para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te acompanhou.
Não posso mais. Teu pae já espancou a Ritinha, por ella querer ir á cadêa.
Conta com o pouco valor de tua pobre mãe ao pé d'um homem infurecido como está teu pae.»
Simão Botelho reflectiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro recebido era de João da Cruz. Quando sahiu com o espirito d'esta meditação, tinha os olhos marejados de lagrimas.
--Não chore, menino;--disse o criado--os trabalhos são para os homens, e Deus ha de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão.
--Leva o almoço--disse elle.
--Pois não quer almoçar?!
--Não. Nem voltes aqui. Eu não tenho familia. Não quero absolutamente nada da casa de meus paes. Diz a minha mãe que eu estou socegado, bem alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já.
O criado sahiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava doudo. D. Rita achou provavel a suspeita do servo e viu a evidencia da loucura nas palavras do filho.
Quando o o carcereiro voltou ao quarto de Simão, entrou acompanhado d'uma rapariga camponeza: era Marianna. A filha de João da Cruz que, até áquelle momento não apertava sequer a mão do hospede, correu a elle com os braços abertos, e o rosto banhado de lagrimas. O carcereiro retirou-se, dizendo comsigo: «Esta é bem mais bonita que a fidalga!»
--Não quero ver lagrimas, Marianna--disse Simão--Aqui, se alguem deve chorar sou eu; mas lagrimas dignas de mim, lagrimas de gratidão aos favores que tenho recebido de si e de seu pae. Acabo de saber que minha mãe nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pae aquelle dinheiro, que recebi.
Marianna escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.
--Seu pae teve algum perigo?--tornou Simão em voz só perceptivel d'ella.
--Não, senhor.
--Está em casa?
--Está; e parece furioso. Queria vir aqui; mas eu não o deixei.
--Perseguiu-o alguem?
--Não, senhor.
--Diga-lhe que não se assuste, e vá depressa socegal-o.
--Eu não posso ir sem fazer o que elle me disse. Eu vou sahir, e volto d'aqui a pouco.
--Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel--disse Simão, dando-lhe dinheiro.
--Ha de vir logo tudo; já cá podia estar; mas o pae disse-me que não comprasse nada sem saber se sua familia lhe mandava o necessario.
--Eu não tenho familia, Marianna. Tome o dinheiro.
--Não recebo dinheiro, sem licença de meu pae. Para essas compras trouxe eu de mais. E a sua ferida como estará?
--Ainda agora me lembro que tenho uma ferida!--disse Simão, sorrindo--Deve estar boa, que não me dóe.... Soube alguma coisa da D. Thereza?
--Soube que foi para o Porto. Estavam alli a contar que o pae a mandára metter sem sentidos na liteira, e está muito povo á porta do fidalgo.
--Está bom, Marianna... Não ha desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu hospede, seja o seu anjo de misericordia.
Saltaram de novo as lagrimas dos olhos da moça; e por entre soluços, estas palavras:
--Tenha paciencia. Não ha de morrer ao desamparo. Faça de conta que lhe appareceu hoje uma irmã.
E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoutos e uma garrafa de licor de canella, que depôz sobre a cadeira.
--Mau almoço é; mas não achei outra coisa prompta--disse ella, e sahiu apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratidão.
II.
O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser transportado em cavalgaduras.
Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes:
«Já lá vão cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei como é que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia. Parece-me que, há trinta annos, me não lembravam com tantas circumstancias e promenores.
Quando a mãe disse a mim e a minhas irmãs que preparassemos os nossos bahus, rompemos todas n'um chôro, que irritou a ira do pae. As manas, como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu, porém, que só uma vez e unicamente por causa de Simão, tinha sido castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae que me deixasse ir vêr o mano á cadêa antes de sahirmos de Vizeu.
Então fui castigada pela segunda vez e asperamente.
O criado, que levou o jantar á cadêa, voltou com elle e contou-nos que Simão já tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com exterior socegado. Áquella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando a finados por alma de Balthazar.
Ao pé d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia, triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava, disse Simão:--A minha família é esta.
No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Villa Real. A mãe chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a jornada na minha cavalgadura.
Logo que chegamos a Villa Real, eram tão frequentes as desordens em casa, á conta do Simão, que meu pae abandonou a familia, e foi sósinho para a quinta de Montezellos. A mãe quiz tambem abandonar-nos, e ir para os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae, que fizera uma espantosa mudança de genio, quando tal soube, ameaçou minha mãe de a obrigar judicialmente a não sahir da casa de seu marido e filhas.
Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ella que o filho não respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as cartas que ella escrevêra. Ja se vê que o pae as fazia tirar no correio.
Uma senhora de Vizeu escreveu á mãe, louvando-a pelo muito amor e caridade com que ella acudia ás necessidades de seu infeliz filho. Esta carta foi-lhe entregue por um almocreve, senão teria o destino das outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e confessou lhe que não o tinha soccorrido, porque o filho rejeitára o pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas visinhanças da cadêa, e cuidava do prêso com abundancia e limpeza, e a todos dizia que ali estava por ordem e á custa da senhora D. Rita Preciosa. Accrescentava a amiga de minha mãe, que algumas vezes mandára chamar a bella moça e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos para Simão, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simão não aceitava nada.
De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraçado irmão.
A mãe escrevia aos seus parentes da capital, implorando graça regia para o filho; mas aquellas cartas não sahiam do correio, e iam dar todas á mão de meu pae.
E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que voltaram com o abandono, se podem vêr reliquias das cêpas plantadas por elle. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia que a justiça não era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios paes condemnavam os filhos criminosos.
Teve minha mãe a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a furiosamente.
Passados sete mezes, soubemos que Simão tinha sido condemnado a morrer na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha mãe cahiu doente.
Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o seu valimento na salvação do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: «A forca não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A ignominia das familias são as más acções. A justiça não infama senão aquelle que castiga.»
Tinhamos nós um tio-avô muito velho e venerando, chamado Antonio da Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e tres annos. Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem já é vida; mas foi-o, e honrada, e sem mancha até agora, e já agora ha de assim acabar; meus olhos não hão de vêr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me mato.--E dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pae teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.
No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na Relação, e de lá para Lisboa[4].
Em principio de Março de 1805 soube minha mãe com grande prazer que Simão fôra removido para as cadêas da Relação do Porto, vencendo os grandes obstaculos que oppozera a essa mudança dos queixosos, que eram Thadeu de Albuquerque, e as irmãs do morto.
Depois......»
Suspendemos aqui o extracto da carta, para não anticiparmos a narrativa de successos, que importa, em respeito á arte, atar no fio cortado.
Simão Botelho vira imperturbavel chegar o dia do julgamento. Sentou-se no banco dos homicidas sem patrono, nem testemunhas de defeza. Ás perguntas respondeu com o mesmo animo frio d'aquellas respostas ao interrogatorio do juiz. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com toda a lealdade sem articular o nome de Thereza Clementina de Albuquerque. Quando o advogado da accusação proferiu aquelle nome, Simão Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:
--Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infamia e sangue? Que miseravel accusador está ahi, que não sabe com a confissão do réo provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputação d'uma mulher? A minha accusação está feita: eu a fiz: agora a lei que falle, e cale-se o villão que não sabe accusar sem infamar.
O juiz impôz-lhe silencio. Simão sentou-se, murmurando:
--Miseraveis todos!
Ouviu o réo a sentença de morte natural para sempre na forca arvorada no local do delicto. E ao mesmo tempo sahiram d'entre a multidão uns gritos dilacerantes. Simão voltou a face para as turbas, e disse:
--Ides ter um bello espectaculo, senhores! A forca é a unica festa do povo! Levai d'ahi essa pobre mulher que chora: essa é a creatura unica para quem o meu supplicio não será um passatempo.
Marianna foi transportada em braços á sua casinha, na visinhança da cadêa. Os robustos braços que a levaram eram os de seu pae.
Simão Botelho, quando, em toda a agilidade e força dos dezoito annos, ia do tribunal ao carcere, ouviu algumas vozes que se alternavam d'este modo:
--Quando vai elle a padecer?
--É bem feito! vai pagar pelos innocentes que o pae mandou enforcar.
--Queria apanhar a morgada á força de balas!
--Não que estes fidalgos cuidam que não é mais senão matar!...
--Matasse elle um pobre, e tu verias como elle estava em casa!
--Tambem é verdade!
--E como elle vai de cara no ar!
--Deixa ir, que não tarda quem lh'a faça cahir ao chão!...
--Dizem que o carrasco já vem pelo caminho.
--Já chegou de noite, e trazia dous cutélos n'uma coifa.
--Tu viste-o?
--Não; mas disse a minha comadre que lh'o dissera a visinha do cunhado da irmã, e que o carrasco está escondido n'uma enxovia.
--Tu has de levar os teus pequenos a vêr o padecente?
--Podéra não! Estes exemplos não se devem perder.
--Eu cá de mim já vi enforcar tres, que me lembre, todos por matadores.
--Por isso tu ha dois annos não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a casa do diabo!...
--Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me elle.
--Então de que voga o exemplo?!
--Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que préga aos paes que levem os filhos a vêrem os enforcados.
--Isso ha de ser para o não esfolarem a elle, quando elle nos esfola com os peditorios.
Tão desassombrado ia o espirito de Simão, que algumas vezes lhe esvoaçou nos labios ura sorriso, desafiado pela philosophia do povo, ácerca da forca.
Recolhido ao seu quarto, foi intimado para appellar dentro do prazo legal. Respondeu que não appellava, que estava contente da sua sorte, e de boas avenças com a justiça.
Perguntou por Marianna, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar. Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a via delirante a fallar em forca, e a pedir que a matassem primeiro. Agudissima foi então a dôr do academico ao comprehender, como se instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Marianna o amava até morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Thereza, se é possivel assim pensal-o. Vêl-a-ia por ventura como um anjo redemido em serena contemplação do seu creador; e veria Marianna como o symbolo da tortura, morrendo a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe dessem a gloria do martyrio. Uma, morrendo amada; outra, agonisando, sem ter ouvido a palavra «amor» dos labios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão.
E chorou então aquelle homem de ferro. Chorou lagrimas que valiam bem as amarguras de Marianna.
--Cuide de sua filha, senhor Cruz!--disse Simão com fervente supplica ao ferrador.--Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa creatura, que nasceu debaixo da minha má estrella. Tire-a de Vizeu: leve-a para sua casa. Salve-a, para que n'este mundo fiquem duas irmãs que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a brevidade da minha vida. D'aqui a dias mandam-me recolher ao oratorio: bom será que sua filha ignore.
De volta, João da Cruz achou a filha prostrada no pavimento, ferida no rosto, chorando e rindo, demente em summa. Levou-a amarrada para sua casa, e deixou a cargo d'outra pessoa a sustentação do condemnado.
Terribilissimas foram então as horas solitarias do infeliz. Até áquelle dia, Marianna, bem quista do carcereiro e protegida pela amiga de D. Rita Preciosa, tinha franca entrada no carcere a toda a hora do dia, e raras horas deixava sósinho o prêso. Costurava, em quanto elle escrevia, ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito doente ou prostrado, Marianna, que tivera alguns principios de escripta, sentava-se á banca, e escrevia cem vezes o nome _Simão_, que muitas vezes as lagrimas diliam. E isto assim, durante sete mezes, sem nunca proferir nem ouvir a palavra amor. Isto assim, depois das vigilias nocturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa, onde ia visitar o pae a deshoras.
Nunca mais o prêso, na perspectiva da forca, viu entrar aquella doce creatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar medido e calculado para que as honras da asphyxia as gozasse o cordel do patibulo. Nunca mais!
E, quando elle avocava a imagem de Thereza, um capricho dos olhos quebrantados lhe affigurava a visão de Marianna ao par da outra. E lagrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos espêssos ferros da janella, e pensava em partir o craneo contra as grades.
Não o sostinha a esperança na terra nem no ceu. Raio de luz divina jámais penetrou no seu ergastulo. O anjo da piedade incarnára n'aquella creatura celestial, que enlouquecêra, ou voltara para o ceu com o espirito d'ella. O que o salvava do suicidio não era, pois, esperança em Deus, nem nos homens: era este pensamento: «A final, _covarde_! Que bravura é morrer quando não ha esperança de vida!? A forca é um triumpho, quando se encontra ao cabo do caminho da honra!»
III.
E Thereza?
Perguntam a tempo, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.
Esquecido, não. Muito ha que me reluz e voeja, alada como o ideal cherubim dos santos, n'esta minha quasi escuridade[5], aquella ave do ceu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que ella deixou na terra. Mais lagrimas que sangue deixaste, ó filha da amargura! Flores são tuas lagrimas, e do ceu me diz se os perfumes d'ellas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita devota, que morre canonisada, e cujo cheiro de santidade não passa do olfacto hypocrita ou estupido dos mortaes.
Thereza Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde cabira, á liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu defronte de si uma criada, que lhe dizia banaes e frias expressões de allivio. Se alguma criada de seu pae lhe era amiga, de certo não aquella, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para a expansão em gritos restava á affligida menina.
Perguntava-se a si mesma Thereza se aquella horrorosa situação, seria um sonho! Sentia-se de novo fallecer de forças, e voltava á vida, sacudida pela consciencia da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a respirar, chorando com ella, e dizendo-lhe:
--Póde fallar, menina, que ninguem nos segue.
--Ninguem?!
--As suas primas ficaram: apenas vem os dois lacaios.
--E meu pae não?
--Não, fidalga... Póde chorar e fallar á sua vontade.
--E eu vou para o Porto?
--Vamos, sim, minha senhora.
--E tu viste tudo como foi, Constança?
--Desgraçadamente vi....
--Como foi? conta-me tudo.
--A menina bem sabe que seu primo morreu.
--Morreu?! Vi-o cahir quasi aos meus pés; mas....
--Morreu logo, e depois quizeram os criados, á voz de seu pae, prender o senhor Simão; mas elle com outra pistola....
--E fugiu?--atalhou Thereza com vehemencia e alegria.
--A final foi elle que se deu á prisão.
--Está prêso?!
E suffocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras confortadoras de Constança.
Serenado algum tanto o violento accesso de gemidos e choro, Thereza suggeriu á criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem onde pousassem, para ella ir a Vizeu dar o ultimo adeus a Simão.
A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos perigos que ia accumular á desgraça do seu amante, e animando-a com a esperança de livrar-se Simão do crime, com a influencia do pae, apesar da perseguição do fidalgo.
Calaram lentamente estas razões no espirito de Thereza, apesar dos estorvos do coração.
Chorosa, doente, a revezes desfallecida, foi Thereza vencendo a distancia que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de jornada.
A prelada já estava sabedora dos successos, por emissarios que se adiantaram ao moroso caminhar da liteira.
Foi Thereza recebida com brandura por sua tia, posto que as recommendações de Thadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa, e absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.
Ouviu a prelada da bôca de sua sobrinha a fiel historia dos acontecimentos, e mostrou-lhe uma a uma as cartas de Simão Botelho. Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lagrimas de mulher ao fogo da austeridade religiosa, fallou e aconselhou como freira, e freira que ciliciava o corpo com as rozetas, e o coração com as privações tormentosas de quarenta annos.
Thereza carecia de forças para a rebellião. Deixou a sua tia a santa vaidade de exorcismar o demonio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da morte, que, de permeio ao seu amor e á esperança, lhe interpunha a aza negra, que tão de luz refulgente rebrilha ás vezes em corações infelizes.
Quiz Thereza escrever.
--A quem, minha filha?--perguntou a prelada.
Não respondeu Thereza.
--Escrever-lhe para que?--tornou a religiosa--Cuidas tu, menina, que as tuas cartas lhe chegam á mão? Que vaes tu fazer senão redobrar a ira de teu pae contra ti e contra o infeliz prêso! Se o amas, como creio, apesar de tudo, cuida em salval-o. Se não ouves a minha razão, finge-te esquecida. Se pódes violentar a tua dôr, dissimula, faz muito por que a teu pae chegue a noticia de que lhe serás obediente em tudo, se elle tiver piedade do teu pobre amigo.
Não recalcitrou Thereza. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe que a envolvesse a ella, e ao seu amor, e á sua esperança, de todo, na negrura de suas azas.
De mez a mez recebia a abbadessa de Monchique uma carta de seu primo. Eram estas cartas um respiradouro da vingança. Em todas dizia o velho que o assassino iria ao patibulo irremediavelmente. A sobrinha não via as cartas; mas reparava nas lagrimas da compassiva freira.
A debil compleição de Thereza deprecia acceleradamente. A sciencia condemnou-a a morte breve. D'isto foi informado Thadeu de Albuquerque, e respondeu: «Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria mais tranquillo, e com a sua honra sem mancha.» Era assim immaculada a honra do fidalgo de Vizeu!... a HONRA, que dizem proceder em linha recta da virtude de Socrates, da virtude de Jesus Christo, e da virtude de milhões de martyres, que se deram ás garras das feras, quando predicavam a caridade e o perdão aos homens!
Quantas caricias inventou a sympathia e a piedade, todos, por ministerio das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o ardor, que consumia rapidamente a reclusa. Inutil tudo. Thereza reconhecia com lagrimas a compaixão, e ao mesmo tempo alegrava-se, tirando das caricias a certeza de que os médicos a julgavam incuravel.
Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento dos Remedios de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido condemnado á morte.
Thereza estremeceu e murmurou, sem forças já para a exclamação:
--E eu vivo ainda!
Depois orou, e chorou; mas os habitos da sua vida em paroxismos continuaram inalteraveis.
Perguntou á senhora, que lhe dera a noticia, se a sua amiga do convento dos Remedios lhe faria a esmola de fazer chegar ás mãos de Simão uma carta. Promptificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada. Entendeu esta religiosa que o derradeiro colloquio entre dous moribundos não podia damnifical-os na vida temporal nem na vida eterna.
Esta é a carta, que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento: