Amor de Perdição: Memorias d'uma familia

Part 6

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E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho. Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha, porque me dizem que ha tudo.

Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado.

A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos:

Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?

Com que agradeceria os desvelos de Marianna?

Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos!

Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante ferrador.

As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle dia. Má situação!

Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho?

Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario para a jornada até Coimbra. Péssima situação!

Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno profundo.

E Marianna entrára pé ante pé na sala, e ouvindo-lhe a respiração alta, aventurou-se a entrar na alcova. Lançou-lhe um lenço de cassa sobre o rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu pé ante pé. Abriu a carteira, viu papeis, que não soube lêr, e n'um dos repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao seu logar, e tomou d'um cabide as calças, collête, e jaqueta á hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e não encontrou um ceitil.

Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de golpe, e conversou longo tempo com o pae. João da Cruz escutou-a, contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; até que, a final, disse:

--Farei o que dizes, Marianna. Dá-me cá o teu dinheiro, que não vou agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos mil reis. Tanto faz um como outro: teu é elle todo.

Marianna deu-se pressa em ir á arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com dinheiro em prata, e alguns cordões, anneis e arrecadas. Guardou o seu oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae.

João da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do doente.

Acordou Simão.

--Não sabe!?--exclamou ella com semblante entre alegre e assustado, perfeitamente contrafeito.

--Que é, Marianna?

--Sua mãesinha sabe que v. s.^a aqui está.

--Sabe?! isso é impossivel! quem lh'o disse?

--Não sei; o que sei é que ella mandou chamar meu pae.

--Isso espanta-me!... E não me escreveu?

--Não, senhor!... Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor aqui esteve, e cuide que já não está, e por isso lhe não escreveu... Poderá ser?

--Poderá; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar da morte dos homens.

--Póde ser que não; e ainda que desconfiem, não ha testemunhas. O pae disse que não tinha mêdo nenhum. O que fôr, soará. Não esteja agora a scismar n'isso... Vou-lhe buscar o caldinho, sim?

--Vá, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irmã.

Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta á doçura que o rosto do mancebo exprimira.

Veio com o «caldinho» diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a par da travessa com meia gallinha loira de gorda.

--Tanta coisa!--exclamou, sorrindo, Simão.

--Coma o que podér--disse ella córando.--Eu bem sei que os senhores da cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar á loja, por pensar que v. s.^a não quizera hontem comer por se atrigar da outra.

--Não, Marianna, não seja injusta, eu não comi hontem pela mesma razão que não cômo agora: não tinha, nem tenho vontade.

--Mas coma por eu lhe pedir... Perdôe o meu atrevimento... Faça de conta que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse...

--Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irmã...

--Pois ahi está...

Simão achou tão necessario á sua conservação o sacrificio, como ao contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dôce creatura. Entre si disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeição, quando não tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moça. Ninguem sente em si o pêso do amor que inspira e não comparte. Nas maximas afflicções, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não póde achar no amor diversão das penas, nem soldar o ultimo fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que fôr, no amor, que nos dão, é que nós graduamos o que valemos em nossa consciencia.

Não desprazia, portanto, o amor de Marianna ao amante apaixonado de Thereza. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se me deixam ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza, que é toda galas no ceu, no mar, e na terra, é toda incoherencias, absurdezas, e vicios no homem, rei da creação chamado!

IX.

Duas horas se detivera João da Cruz fóra de casa. Chegou quando a curiosidade do estudante era já soffrimento.

--Estará seu pae prêso?!--dissera elle a Marianna.

--Não m'o diz o coração, e o meu coração nunca me engana--respondêra ella.

E Simão replicára:

--E que lhe diz o coração a meu respeito, Marianna? Os meus trabalhos ficarão aqui?

--Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simão... mas não digo...

--Diga, que lh'o peço, porque tenho fé no bom anjo que falla em sua alma. Diga...

--Pois sim... O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no comêço...

Simão ouviu-a attentamente, e não respondeu. Assombrou-lhe o animo esta ideia torva, e affrontosa á singela rapariga:--«Pensará ella em me desviar de Thereza para se fazer amar?»

Pensava assim, quando chegou o ferrador.

--Aqui estou de volta--disse elle com semblante festivo--Sua mãe mandou-me chamar...

--Já sei... E como soube ella que eu estava aqui?

--Ella sabia que o fidalgo estivera cá; mas cuidava que v. s.^a já tinha ido para Coimbra. Quem lh'o disse não sei, nem perguntei; porque a uma pessoa de respeito não se fazem perguntas, dizia meu pae. Dizia ella que sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa; mas eu, cá como pude, accommodei-a, e não ha novidade. Perguntou-me o que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fôra para o convento. Disse-lhe que v. s.^a estava adoentado d'uma quéda que dera do cavallo abaixo. Tornou ella a perguntar se o senhor tinha dinheiro; e eu disse que não sabia. E vai ella foi dentro, e voltou d'ahi a pouco com este embrulho, para eu lhe entregar. Ahi o tem tal e qual; não sei quanto é.

--E não me escreveu?

--Disse que não podia ir á escrivaninha, porque estava lá o senhor corregedor--respondeu com firmeza mestre João--e tambem me recommendou que não lhe escrevesse v. s.^a, senão de Coimbra, porque, se seu pae soubesse que o menino cá estava, ia tudo razo lá em casa. Ora ahi está.

--E não lhe fallou nos criados de Balthazar?

--Nem um pio!.. Lá na cidade ninguem já fallava n'isso hoje.

--E que lhe disse da senhora D. Thereza?

--Nada, senão que ella fôra para o convento. Agora, deixe-me ir amantar a egua, que está a escorrer em fio. Ó rapariga, traz-me cá a manta.

Em quanto Simão contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado da estranha liberalidade, Marianna, abraçando o pae no repartimento visinho da casa, exclamava:

--Arranjou muito bem a mentira!...

--Ó rapariga, quem mentiu foste tu! Aquillo lá o arranjaste tu com essa tua cabecinha! Mas a coisa sahiu ao pintar, heim? Elle comeu-a que nem confeitos! Anda lá, que ficaste sem os bezerros; mas lá virá tempo em que elle te dê bois a troco dos bezerros.

--Eu não fiz isto por interesse, meu pae...--atalhou ella resentida.

--Olha o milagre! isso sei eu; mas, como diz lá o dictado, quem semeia colhe.

Marianna quedou pensativa, e dizendo entre si:--Ainda bem, que elle não póde pensar de mim o que meu pae pensa. Deus sabe que não tenho esperanças nenhumas interesseiras no que fiz.

Simão chamou o ferrador, e disse-lhe:

--Meu caro João, se eu não tivesse dinheiro, aceitava sem repugnancia os seus favores, e creio que vocemecê m'os faria sem esperança de ganhar com elles; mas como recebi esta quantia, ha de consentir que eu lhe dê parte d'ella para os meus alimentos. Motivos de gratidão a dividas, que se não pagam, ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si, e da sua boa filha. Tome este dinheiro.

--As contas fazem-se no fim--respondeu o ferrador, retirando a mão--e ninguem nos ha de ouvir, se Deus quizer. Precisando eu de dinheiro cá venho. Por ora, ainda está a capoeira cheia de gallinhas, e o pão coze-se todas as semanas.

--Mas aceite--instou Simão--e dê-lhe a applicação que quizer.

--Em minha casa ninguem dá leis senão eu--replicou o mestre João, com simulado enfadamento--Guarde lá o seu dinheiro, fidalgo, e não fallemos mais n'isso, se quer que o negocio vá direito até ao fim. _E victo-serio_!

Nos cinco subsequentes dias recebeu Simão regularmente cartas de Thereza, umas resignadas e confortadoras, outras escriptas na violencia exasperada da saudade. Em uma dizia:

«Meu pae deve saber que estás ahi, e em quanto ahi estiveres, de certo me não tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e deixassemos esquecer a meu pae os ultimos acontecimentos. Senão, meu querido esposo, nem elle me dá liberdade, nem eu sei como hei de fugir d'este inferno. Não fazes ideia do que é um convento! Se eu podesse fazer do meu coração sacrificio a Deus, teria de procurar uma atmosphera menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se póde orar e ser virtuosa, menos n'este convento.»

N'outra carta exprimia-se assim: «Não me desampares, Simão, não vás para Coimbra. Eu receio que meu pae me queira mudar d'este convento para outro mais rigoroso. Uma freira me disse que eu não ficava aqui; outra positivamente me affirmou que o pae diligenceia a minha ida para um convento do Porto. Sobre tudo, o que me aterra, mas não me dobra, é saber eu que o intento do pae é fazer-me professar. Por mais que imagine violencias e tyrannias, nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu não posso professar sem ser noviça um anno, e ir a perguntas tres vezes; hei de responder sempre que não. Se eu podesse fugir d'aqui!... Hontem fui á cêrca, e vi lá uma porta de carro que dá para o caminho. Soube que algumas vezes aquella porta se abre para entrarem carros de lenha; mas infelizmente não se torna a abrir até ao principio do inverno. Se não poder antes, meu Simão, fugirei n'esse tempo.»

Tiveram entretanto bom e prompto exito as diligencias de Thadeu de Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de summas virtudes, cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoção e amor a Deus, se recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa e congratulou-se com a sobrinha de tão piedosa resolução. A carta congratulatoria não a recebeu Thereza, porque viera á mão de seu pae. Continha ella reflexões tendentes a desvanecêl-a do proposito, se algum desgosto passageiro a impellia á imprudencia de procurar um refugio onde as paixões se exacerbavam mais.

Tomadas todas as precauções, Thadeu de Albuquerque fez avisar sua filha de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum tempo, e que a partida teria logar na madrugada do seguinte dia.

Thereza, quando recebeu a surprendente nova, já tinha enviado a carta d'aquelle dia a Simão. Em sua afflictiva perplexidade, resolveu fazer-se doente, e tão febril estava das commoções, que dispensava o artificio. O velho não queria transigir com a doença; mas o medico do mosteiro reagiu contra a deshumanidade do pae e da prioreza interessada na violencia. Quiz Thereza n'essa noite escrever a Simão; mas a criada da prelada, obedecendo ás suspeitas da ama, não desamparou a cabeceira do leito da enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escrivã, n'nma hora de má digestão d'aquelle vinho estomacal, que Thereza passava as noites em oração mental, e tinha correspondencia com um anjo do céu por intervenção d'uma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no páteo do convento esperando a esmola de Thereza; mas cuidaram que era aquella pobre uma devoção da menina. As palavras ironicas da escrivã foram commentadas, e a mendiga recebeu ordem de sahir da portaria. Thereza, n'um impeto de angustia, quando tal soube, correu a uma janella, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lançou-lhe ao pateo um bilhete com estas palavras: «É impossivel a nossa correspondencia. Vou ser tirada d'aqui para outro convento. Espera em Coimbra noticias minhas.» Isto foi rapidamente ao conhecimento da prioreza, e logo, ás ordens d'ella, partiu o hortelão no encalço da pobre. O hortelão seguiu-a até fóra de portas, espancou-a, tirou-lhe o bilhete, e foi do convento apresental-o a Thadeu de Albuquerque. A mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simão o acontecido.

Simão lançou-se fóra do leito, e chamou João da Cruz. N'aquelle aperto queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem, que lhe estendesse mão capaz de apertar o cabo d'um punhal. O ferrador ouviu a historia, e deu o seu voto: «esperar até vêr». Simão repelliu a prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Vizeu immediatamente.

Marianna estava alli; ouvira a confidencia, e achára acertada a opinião de seu pae. Vendo, porém, a impaciencia do hospede, pediu licença para fallar onde não era chamada, e disse:

--Se o senhor Simão quer, eu vou á cidade, e procuro no convento a Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça d'uma freira, e dou-lhe uma carta sua para entregar á fidalga.

--Isso é possivel, Marianna?!--exclamou Simão, a ponto de abraçar a moça.

--Pois então!--disse o ferrador--o que póde fazer-se, faz-se. Vai-te vestir, rapariga, que eu vou botar o albardão á égua.

Simão sentou-se a escrever. Tão embaralhadas lhe acudiam as ideias, que não atinava a formar o designio mais proveitoso á situação de ambos. Ao cabo de longa vacillação, disse a Thereza que fugisse á hora do dia, quando a porta estivesse aberta, ou violentasse a porteira a abrir-lh'a. Dizia-lhe que marcasse ella a hora do dia seguinte em que elle a devia esperar, com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, promettia assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendial-o para se abrirem as portas. Este programma era o mais parecido com o espirito do academico: em vivo fogo estava aquella pobre cabeça! Fechada a carta, começou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados impulsos. Encravava as unhas na cabeça, e arrancava os cabellos n'ellas. Marrava como cego contra as paredes, e sentava-se um momento para erguer-se de mais furioso impeto. Machinalmente aferrava das pistolas, e sacudia os braços vertiginosos. Abria a carta para relêl-a, e estava a ponto de rasgal-a, cuidando que iria tarde, ou não lhe chegaria ás mãos. N'este conflicto de contrarios projectos, entrou Marianna, e muito allucinado devia de estar Simão para lhe não dar fé das lagrimas.

O que tu soffrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse moço é gratidão ao homem que salvou a vida de teu pae, que rara virtude a tua! Se o amas, se por lhe dar allivio ás dôres, tu mesma lhe desempeces o caminho por onde te elle ha de fugir para sempre, que nome darei á tua virtude! que anjo te fadou o coração para a santidade d'um obscuro martyrio!

--Estou prompta, disse Marianna.

--Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faça muito por não vir sem resposta--disse Simão, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro.

--E o dinheiro também é para a senhora?--disse ella.

--Não, é para si, Marianna: compre um annel.

Marianna tomou a carta, e voltou rapidamente as costas, para que Simão lhe não visse o gesto de despeito, se não desprêso.

O academico não ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o quinteiro, onde o ferrador enfreava a egua.

--Não lhe chegues muito com a vara--disse João da Cruz a Marianna, que, d'um pulo, se assentou no albardão, coberto d'uma colxa escarlate.--Tu vaes amarella como cidra, moça!--exclamou elle reparando na pallidez da moça--Tu que tens?

--Nada; que hei de eu ter?! dê-me cá a vara, meu pae.

A egua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na filha e na egua, dizia em soliloquio, que Simão ouvira:

--Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Vizeu! Pela mais pintada não dava eu a minha egua; e, se cá viesse o Mira-Molim de Marrocos pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lh'a dava! Isto é que são mulheres, e o mais é uma historia!

X.

Apeou Marianna defronte do mosteiro, e foi á portaria chamar a sua amiga Brito.

--Que boa moça!--disse o padre capellão, que estava no raro lateral da porta, praticando com a prioreza, ácerca da salvação das almas, e d'umas ancoretas de vinho do Pinhão, que elle recebêra n'aquelle dia, e do qual já tinha engarrafado um almude para tonisar o estomago da prelada.

--Que boa moça!--tornou elle, com um olho n'ella e outro no raro, onde a ciumosa prioreza se estava remordendo.

--Deixe lá a moça, e diga quando ha de ir a servente buscar o vinho.

--Quando quizer, senhora prioreza; mas repare bem nos olhos, no feitio, n'aquelle todo da rapariga!

--Pois repare o senhor padre João--replicou a freira--que eu tenho mais que fazer.

E retirou-se com o coração mal-ferido, e o queixo superior escorrendo lagrimas... de simonte.

--D'onde é vocemecê?--disse brandamente o padre capellão.

--Sou da aldeia--respondeu Marianna.

--Isso vejo eu; mas de que aldeia é?

--Não me confesso agora.

--Mas não faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre.

--Bem vejo.

--Que mau genio tem!...

--É isto que vê.

--Quem procura cá no convento?

--Já disse lá para dentro quem procuro.

--Marianna! és tu?! Anda cá!

A moça fez uma cortezia de cabeça ao padre capellão, e foi ao locutorio d'onde vinha aquella voz.

--Eu queria fallar comtigo em particular, Joaquina--disse Marianna.

--Eu vou vêr se arranjo uma grade: espera ahi.

O padre tinha sahido do pateo, e Marianna, em quanto esperava, examinou, uma a uma, as janellas do mosteiro. N'uma das janellas, através das rexas de ferro, viu ella uma senhora sem habito.

--Será aquella?--perguntou Marianna ao seu coração, que palpitava--Se eu fosse amada como ella!...

--Sobe aquellas escadinhas, Marianna, e entra na primeira porta do corredor, que eu lá vou--disse Joaquina.

Marianna deu alguns passos, olhou novamente para a janella onde vira a senhora sem habito, e repetiu ainda:

--Se eu fosse amada como ella!...

Mal entrou na grade, disse á sua amiga:

--Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, alva como leite, que estava alli agora n'uma janella?

--Seria alguma noviça, que ha duas cá muito lindas.

--Mas ella não tinha vestimenta nenhuma de freira.

--Ah! já sei: é a D. Therezinha Albuquerque.

--Então não me enganei--disse Marianna, pensativa.

--Pois tu conhecel-a?

--Não; mas por amor d'ella é que eu cá vim fallar comtigo.

--Então que é?! Que tens tu com a fidalga?

--Eu, cá por mim, nada; mas conheço uma pessoa que lhe quer muito.

--O filho do corregedor?

--Esse mesmo.

--Mas esse está em Coimbra.

--Não sei se está, nem se não. Fazes-me tu um favor?

--Se eu poder...

--Pódes... Eu queria fallar com ella.

--Ó dianho! isso não sei se poderá ser, porque a trazem as freiras debaixo d'olho, e ella vai-se embora ámanhã.

--Para onde vai?

--Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os bahus já estão preparados, e ella está morta por sahir. E tu que lhe queres?

--Não t'o posso dizer, porque não sei... Queria dar-lhe um papel... Faz com que ella cá venha, que eu dou-te chita para um vestido.

--Como tu estás rica, Marianna!...--atalhou, rindo, Joaquina--Eu não quero a tua chita, rapariga. Se eu podér dizer-lhe que venha, sem que alguem me ouça, digo-lh'o. E agora é boa maré, porque tocou ao côro.... Deixa-me lá ir.

Joaquina sahiu-se bem da difficil commissão. Thereza estava sósinha, absorvida a scismar com os olhos fitos no ponto onde vira Marianna.

--A menina faz favor de vir comigo depressinha?--disse-lhe a criada.

Seguiu-a Thereza, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:

--O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se perguntarem por v. ex.^a, digo-lhe que a menina está no mirante.

A voz de Marianna tremia, quando D. Thereza lhe perguntou quem era.

--Sou uma portadora d'esta carta para v. ex.^a

--É de Simão!--exclamou Thereza.

--Sim, minha senhora.

--A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

--Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguem me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de Monchique do Porto. Que se não afflija, porque eu sou sempre a mesma. Que não venha cá, porque seria inutil, e muito perigoso. Que vá vêr-me ao Porto, que eu hei de arranjar modo de lhe fallar. Diga-lhe isto, sim?

--Sim, minha senhora.

--Não se esqueça, não? Vir cá por modo nenhum. É impossivel fugir, e vou muito acompanhada. Vai o primo Balthazar e as minhas primas, e meu pae, e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

Joaquina disse fóra da porta:

--Menina! olhe que a prioreza anda lá por dentro a procural-a.

--Adeus, adeus--disse Thereza sobresaltada.--Tome lá esta lembrança como prova da minha gratidão.

E tirou do dedo um annel de ouro, que offereceu a Marianna.

--Não aceito, minha senhora.

--Porque não aceita?

--Porque não fiz algum favor a v. ex.^a. A receber alguma paga ha de ser de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja feliz.

Sahiu Thereza, e Joaquina entrou na grade.

--Já te vaes embora, Marianna?

--Vou, que é pressa; um dia virei conversar comtigo muito. Adeus, Joaquina.