Amor de Perdição: Memorias d'uma familia

Part 5

Chapter 5 3,952 words Public domain Markdown

A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pae escolheria aquelle convento ou outro.

--Que importa que seja um ou outro?--disse Thereza.

--É conforme. Seu pae póde querer que a menina professe em ordem rica das bentas ou bernardas.

--Professe!--exclamou Thereza.--Eu não quero ser freira aqui, nem n'outra parte.

--A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja.

--Freira!? a isso não póde ninguem obrigar-me!--recalcitrou Thereza.

--Isso assim é--retorquiu a prioreza--mas como a menina tem de noviciado um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não ha vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma.

--Mas a nossa madre--tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe fosse habitual--já disse que a estas casas ninguem vem para se sentir bem...

--É um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificações e obrigações de côro e de serviços para que nem sempre o espirito está bem disposto. Ora vês-a-hi. Mas em comparação do que lá vai pelo mundo, o convento é um paraizo. Aqui não ha paixões nem cuidados que tirem o somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más linguas é coisa que a menina não ha de achar aqui, nem intriguistas, nem murmurações de soalheiro. Emfim, Deus fará o que fôr servido. Eu vou á cosinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que sabe dizer melhor que eu o que é a virtude n'estas santas casas.

Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista á mestra de noviças:

--Que grande impostora!

--E que estupida!--acudiu a outra.--A menina não se fie n'esta trapalhona, e veja se seu pae lhe dá outra companhia em quanto cá estiver, que a prioreza é a maior intriguista do convento. Depois que fez sessenta annos, falla das paixões do mundo como quem as conhece por dentro e por fóra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria amar e ser amada; agora, que está decrepita, anda sempre este mostrengo a fazer missões, e a curar indigestões.

Thereza, apesar de sua dôr, não pôde reprimir uma risada, lembrando-se da _vida de Deus com anjos_ que as esposas do Senhor alli viviam, no dizer da madre prioreza.

Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras.

--Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?--disse ella a Thereza.

--Pareceram-me muito bem.

A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho liquido, e regougou:

--_Hum!_... está feito, está feito!... Ainda não são das peores; mas, se fossem melhores, não se perdia nada... Ora vamos a isto, menina; aqui tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos.

--Eu não cômo nada, minha senhora--disse Thereza.

--Ora essa! não come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste. Paixões!... que as leve o porco-sujo!... As mulheres é que ficam logradas, e elles não tem que perder!... Que eu cá de mim, até ao presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que vê penar ás outras doidibanas. E para não ir mais longe, estas duas, que d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo á asneira, Deus me perdôe se pécco. A organista tem já os seus quarenta bons, e ainda vai ao locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de noviças á falta d'outra que quizesse sêl-o, se eu lhe não andasse com o olho em cima, estragava-me as raparigas...

Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã que vinha, palitando os dentes, pedir á prelada um copinho de certo vinho estomacal com que todas as noites era brindada.

--Estava eu a dizer a esta menina as peças que são a organista e a mestra--disse a prioreza.

--Oh! são para o que lhe eu prestar! Lá foram ambas para a cella da porteira. A esta hora está a menina a ser cortada por aquellas linguas, que não perdoam a ninguem.

--Vaes tu vêr se ouves alguma coisa, minha flôr?--disse a prelada.

A escrivã, contente da missão, foi imperceptivelmente ao longo dos dormitorios até parar a uma porta que não vedava o ruido estridente das risadas.

No entanto dizia a prelada a Thereza:

--Esta escrivã não é má rapariga: só tem o defeito de se tomar da pinguleta; depois não ha quem a ature. Tem uma boa tença, mas gasta tudo em vinho, e tem occasiões de entrar no côro a fazer _ss_, que é mesmo uma desgraça. Não tem outro defeito; é uma alma lavada, e amiga da sua amiga. É verdade que ás vezes... (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos dormitorios, e fechou por dentro a porta) é verdade que, ás vezes, quando anda azuratada, dá por paus e por pedras, e descobre os defeitos das suas amigas. A mim já ella me assacou um aleive, dizendo que eu, quando sahia a ares, não ia só a ares, e andava por lá a fazer o que fazem as outras. Forte pouca vergonha! Lá que outra fallasse, vá; mas ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na grade, isso lá me custa; mas, emfim, não ha ninguem perfeito!... Boa rapariga é ella... Se não fosse aquelle maldito vicio...

Como tocasse ao côro n'esta occasião, a veneranda prioreza bebeu o segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um quarto de hora, que ella ia ao côro, e pouco se demoraria. Tinha ella sahido, quando a escrivã entrou a tempo que Thereza, com as mãos abertas sobre a face, dizia em si: «Um convento, meu Deus! isto é que é um convento!»

--Está sósinha?--disse a escrivã.

--Estou, minha senhora.

--Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda sósinha? Bem se vê que é filha de funileiro!... Pois tinha tempo de ter prática do mundo, que tem andado por lá que farte... Pois eu havia de ir ao côro; mas não vou para lhe fazer companhia, menina.

--Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sósinha--disse Thereza, com a esperança de poder desafogar em lagrimas a sua afflicção.

--Não vou, não!... A menina aqui estarrecia de mêdo; mas a prelada não tarda ahi. Ella, se póde escapar-se do côro, não pára lá muito tempo. A apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim?

--Não, minha senhora, pelo contrario...

--Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não falla bem de ninguem. Para ella tudo são libertinas e bebadas.

--Nada, não, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira.

--E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho não o bebe, suga-o, é uma esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomára eu tantos mil cruzados como de amantes ella tem tido! Faz lá uma pequena ideia, menina!...

A escrivã bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou:

--Faz lá uma pequena ideia! Ella é velhissima como a sé. Quando eu professei já ella era velha como agora, com pouca differença. Ora, eu sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me creia, quer não, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos, não fallando no padre capellão, que esse ainda agora lhe fornece a garrafeira, á nossa custa, entende-se. É uma dissipadora dos rendimentos da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ella rouba. Eu tenho immensa pena de vêr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. Não se deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe mandou fallar, e a encarregou de a não deixar escrever, nem receber cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro, papel, obreias e o meu quarto, se para lá quizer ir escrever. Se tem alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu chamo-me Dionizia da Immaculada Conceição.

--Muito agradecida, minha senhora--disse Thereza, animada pelo offerecimento.--Quem me déra poder mandar um recado a uma pobre que mora no bêcco do...

--O que quizer, menina. Eu mando lá logo que fôr dia. Esteja descansada. Não se fie de alguem, senão de mim. Olhe que a mestra de noviças e a organista são duas falsas. Não lhe dê trela, que, se as admitte á sua confiança, está perdida. Ahi vem a lêsma... Fallemos n'outra coisa...

A prelada vinha entrando, e a escrivã proseguiu assim:

--Não ha, não ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa... Ai! eras tu, menina? Olha, se estivessemos a fallar mal de ti!

--Eu sei que tu nunca fallas mal de mim--disse a prelada, piscando o olho a Thereza.--Ahi está essa menina que diga o que eu lhe estive a dizer das tuas boas qualidades...

--Pois o que eu disse de ti--respondeu soror Dionizia da Immaculada Conceição--não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu estava dizendo. Oxalá que se podesse dizer o mesmo das outras que deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que é mesmo coisa de peccado.

--Então não vaes ao côro, nini?--tornou a prioreza.

--Já agora é tarde... Tu absolves-me da falta, sim?

--Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho...

--Do estomacal?

--Podéra...

Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a prelada na sua hora de oração.

Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique.

Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa. D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de fugir d'alli!

A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova separada, com cortinas de cassa.

Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se tivesse tinteiro e papel na cella.

Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo _Padre-Nosso_ cabeceava de modo que já não atinou com a primeira _Áve-Maria_. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar.

Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.

A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos d'aquelle dia. A carta rematava assim:

«Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto é triste, meu querido amigo!... Adeus.»

VIII.

Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as feiras e romarias.

--Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou o casco á navalha--disse o ferrador.--Pelo que vejo o sangue do fidalgo deu volta ao estomago da rapariga!... Estamos então bem aviados! Eu tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu doente.... És ou não és, rapariga?--disse elle á filha, quando ella abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza.

--Serei com muito gosto, se o pae quizer.

--Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida; vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa. Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de ceremonia, nem me diga a Marianna--a menina isto, a menina aquillo. É--rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as compressas--e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra, vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas.

--Se vocemecê tem uma casinha soffrivel--atalhou Simão--póde, querendo, casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira.

--Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou.

Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas sublime de poesia e naturalidade.

João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes termos:

--Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como quem é, e como se fosse teu irmão ou marido.

O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu, natural como todas, da bôca de seu pae.

A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.

--Não foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!--disse o academico--Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam....

--Que se me dá a mim d'isso!--respondeu ella, sacudindo o avental, e baixando o coz ao logar da cintura com infantil graça.

--Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse... Vá buscar a sua costura, e dê-me d'alli uma folha de papel e um lapis que está na carteira.

--Mas o pae tambem me disse que o não deixasse escrever...--replicou ella, sorrindo.

--Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.

--Veja lá o que faz...--tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis--Olhe se alguma carta se perde, e se descobre tudo...

--Tudo, o quê, Marianna? Pois sabe alguma coisa?!

--Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua amizade a uma menina fidalga da cidade?

--Disse; mas que tem isso?

--Aconteceu o que eu receava. V. s.^a está ahi ferido, e toda a gente falla n'uns homens que appareceram mortos.

--Que tenho eu com os homens que appareceram mortos?

--Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores trabalhos...

--Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que tivemos...

--E Deus queira que seja o ultimo!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que lhe dê remedio a essa paixão!... O peor futuro eu que ainda está por passar...

--Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja bom, e a menina da cidade fica em sua casa.

--Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos; mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz...

-Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido--pelo bem que me deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.

--Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu--disse ella, limpando as lagrimas.--O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca como toda a gente dizia!... Eu era ainda muito nova quando elle estava na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço, se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle, ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas como um doido... Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar, porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito funda...

--Isso são sonhos, Marianna...

--São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella, e mais ainda viveu dois mezes... A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas Deus sabe o que isto é... Ahi vem meu pae... Senhor dos Passos! não vá ser alguma má nova!...

João da Cruz entrou com uma carta que recebêra da pobre do costume. Em quanto Simão leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contracção da fronte d'elle, angustiava-se-lhe a ella o coração. Não teve mão da sua ancia, e perguntou:

--É noticia má!

--Tu és muito atrevida, rapariga!--disse João da Cruz.

--Não é, não--atalhou o estudante.--Não é má a noticia, Marianna. Senhor João, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que sabem avaliar os amigos.

--Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz.

--Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simão estava afflicto quando lia.

--E não se enganou--tornou o doente, voltando-se para o ferrador.--O pae arrastou Thereza ao convento.

--Sempre é patife d'uma vez!--disse o ferrador, fazendo com os braços instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mãos um pescoço. N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna um clarão de innocente alegria.

Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza espontaneamente lhe chegou, dizendo:

--Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver.

«É necessário arrancar-te d'ahi--dizia a carta de Simão.--Esse convento ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo esperar-te. Se não podéres fugir, essas portas hão de abrir-se diante da minha cólera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe, avisa-me, que eu irei sósinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É indispensavel que te refaças de animo para te não assustarem os arrojos da minha paixão. És minha; não sei de que me serve a vida se a não sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na vida e na morte. Não soffras com paciencia; lucta com heroismo. A submissão é uma ignominia, quando o poder paternal é uma affronta. Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminue as forças do coração.»

Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador, e recommendou-lhe que o entregasse á pobre com a carta.

Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que déra.

Mestre João foi á cosinha, e disse a Marianna:

--Desconfio d'uma coisa, rapariga.

--Que é, meu pae?

--O nosso doente está sem dinheiro.

--Porquê? o pae como sabe isso?

--É que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me cá por dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e não sei como ha de ser...

--Eu pensarei n'isso, meu pae--disse Marianna reflectindo.

--Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores ideias que eu.

--E se o pae não quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle dinheiro dos meus bezerros; são onze moedas d'ouro menos um quarto.

--Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem _remorsos_.

Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era synonimo de _escrupulos_ ou _repugnancia_.

Foi Marianna levar o caldo a Simão, que lh'o rejeitou como distrahido em profundo scismar.

--Pois não toma o caldinho?--disse ella com tristeza.

--Não posso, não tenho vontade, menina; será logo. Deixe-me sósinho algum tempo; vá, vá; não passe o seu tempo ao pé d'um doente aborrecido.

--Não me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar.

Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas.

Simão notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicação da môça; mas não lhe disse palavra alguma.