# Amor de Perdição: Memorias d'uma familia

## Part 4

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Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu escondrijo, sabia João da Cruz á frente do cavalleiro. Simão aperrou as pistolas, e o arreeiro uma clavina.

--Não ha novidade--disse o ferrador--mas saiba v. s.^a que já podia estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito.

O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:

--És tu, João?

--Sou eu. Vim primeiro que tu.

Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse commovido:

---Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão de urn homem honrado.

--Nas occasiões é que se conhecem os homens--redarguiu o ferrador.--Ora vamos... não ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera.

--Tenho?--disse Simão.

--Atraz da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se me dava de jurar que são criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas v. s.^a veio, e agora é andar com a cara para a frente.

--Olhe que eu não tremo, mestre João--disse o filho do corregedor.

--Bem sei que não; mas, á vista do inimigo, veremos.

Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavallo, recuou alguns passos na rua, e foi prendêl-o á argola da parede de uma estalagem.

Voltou, e disse a Simão que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de Albuquerque, não passasse do ponto d'onde os visse.

Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porém, não admittiu a réplica.

--Faça o que eu lhe digo, fidalgo--disse elle com energia.

João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede.

--Vamos sobre elles--disse o ferrador--que lá passaram para o adro da igreja; n'este entrementes, o doutor chega á porta do quintal e entra; depois voltaremos para lhe guardar a sahida.

N'este proposito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as pistolas aperradas na direcção da porta.

Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada, que se esplainava depois n'uma alamêda sombria.

Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou, recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamêda quando o academico chegava á porta do quintal.

--Agora está seguro--disse um.

--Se lá não ficar dentro....--respondeu o outro, vendo-o entrar, e fechar-se a porta.

--Mas além vem dois homens...--disse o mais assustado, olhando para a outra entrada da alamêda.

--E vem direitos a nós... aperra lá a clavina...

O melhor é retirarmos. Nós estamos á espera de outro, e não d'estes. Vamos embora d'aqui...

Este não esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os assassinos assalariados: seguiu o assustadiço, e deu-lhe razão, quando ouviu após de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes:

--Vocês a que fogem, seus poltrões?

Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.

João da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles, bradando:

--Alto ahi!

O ferrador disse ao cunhado:

--Falla-lhe tu, que eu não quero que elle me conheça.

--Quem manda fazer alto?--disse o arreeiro.

--São tres clavinas--respondeu Balthazar.

--Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia--disse João da Cruz ao ouvido do arreeiro.

--Pois nós cá estamos parados--replicou o criado de Simão.--Que nos querem vocês?

--Quero saber o que tem que fazer n'este sitio.

--E vocês que fazem por cá?

--Não admitto perguntas--disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns passos vacilantes para a frente.--Quero saber quem são.

Mestre João disse ao ouvido do cunhado:

--Diz-lhe que se dá mais um passo que o arrebentas.

O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou.

Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos dois, que não fallava, parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou, e quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse ao cunhado:

--Vem comigo, que elles conhecem-me.

Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada, como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os não seguissem; mas elles, momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo após o inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes.

Simão Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem elles fossem. João da Cruz, com ar galhofeiro, já quando os perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado o casamento, que não havia panno para mangas.

Simão entendeu o perigo, apertou convulsamente a mão de Thereza, e retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia; mas João da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga á submissão, disse ao filho do corregedor:

--Vá por onde veio, e não olhe para traz.

Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão, dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para não forçar os homens a aligeirar o passo.

--Vá como quizer--disse mestre João--que nós vamos por fóra do caminho.

E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com a estrada.

--O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo--disse o ferrador ao cunhado--hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa...

E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o pontilhão de um córrego.

--Já não vamos a tempo--disse afflicto o João da Cruz--os homens vão atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz.

E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado o outeiro, em cujo valle corria a estrada.

--Os homens vão atirar-lhe...--disse o ferrador.

--Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante.

--Já não é tempo... Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos.

Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira, quando ouviram dois tiros.

--Arriba!--exclamou João da Cruz--que não vão elles metter-se á estrada, se mataram o fidalgo.

Tinham vencido a chã, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas. Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simão iam adiante batendo os pontos azados á emboscada, ou se tinham retardado.

--Elles ahi vem!--disse o arreeiro.

--Nós cá estamos--respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um cômoro.--Senta-te também que eu não estou p'ra correr atraz d'elles.

Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos, e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes.

--Atira ao da esquerda!--disse João da Cruz.

Foram simultaneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um cadaver. Os balotes do arreeiro não estremaram o outro entre o carrascal onde se embrenhára.

A este tempo assomava Simão no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria ao ponto onde ouvira os segundos tiros.

--É v. s.^a, fidalgo?--bradou o ferrador.

--Sou.

--Não o mataram?

--Creio que não--respondeu Simão.

--Este desalmado deixou fugir o melro--tornou João da Cruz--mas o meu lá está a pernear na vinha. Sempre lhe quero vêr as trombas...

O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o cadaver, dizendo:

--Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas não ias sósinho para o inferno!

--Anda d'ahi!--disse o arreeiro--deixa lá esse diabo, que o senhor doutor está ferido n'um hombro. Vamos depressa, que está o sangue a escorrer-lhe.

--Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e cuidei que eram vocês--disse Simão, em quanto o ferrador, com a destreza de habil cirurgião, lho enfaixava o braço ferido com lenços.--Parei o cavallo, e disse: «Ólé! ha novidade?» Logo que me não responderam, saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram fogo. Quiz saltar á ribanceira, mas não pude romper o matto. Dei uma volta grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar ferido...

--Isto é uma arranhadura--disse João da Cruz--olhe que eu sei d'isto, fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas.

--Nos burros, mestre João?--disse o ferido, sorrindo.

--E nos christãos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um rei que não queria outro medico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o meu corpo que está uma rêde de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que alli está a escutar a cavallaria.

N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha saltado o companheiro do morto.

João da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou:

--Querem vocês vêr que ellas se armam!... Dar-se-ha caso que o outro ainda esteja por alli a tremer maleitas!...

O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem chilreando.

--O homem está alli!--tornou o ferrador.--Passe-me cá uma pistola, senhor Simão!

Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre as moitas de codêços e urzes.

--Elle estrinça lenha como um porco do monte!--exclamou o ferrador.--Ó cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vêr sahir o javali da moita!...

Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro.

--Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!--bradou Simão ao ferrador.

--Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo!

Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do trabalho, disse ao arreeiro:

--Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado.

O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito, quando Simão lhe reteve o braço.

--Não se bate assim n'um homem!--disse o moço--Levanta-te, rapaz!

--Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para a minha vida.

N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou:

--Pois este tratante ainda está vivo!

E correu sobre elle com o podão.

--Não mate o homem, senhor João!--disse o filho do corregedor.

--Que o não mate! essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... eim?

--Com a forca!?--atalhou Simão.

--Podéra não! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha bonito? Lá v. s.^a, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu, que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o baraço no pescoço. Não me faz geito o negocio. Deixe-me cá com o homem...

--Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha não nos póde fazer mal.

--O quê?--redarguiu o ferrador--v. s.^a saberá muito, mas de justiça não sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha para guiar a justiça na devassa. Ás duas por tres, uma testemunha de vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer os pausinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro.

--Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para Castro-d'Aire--exclamou o homem.

--Deixe-o ficar, João da Cruz... vamos embora...

--Isso!--acudiu o ferrador--chame-me João da Cruz, para este maroto ficar bem certo de que sou o João da Cruz!... Com effeito, não sei o que me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um tiro para o matar!

--Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseraveis que me não resistem.

--E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor doutor!

--Vamos embora--tornou Simão--deixemos para ahi esse miseravel.

Mestre João scismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com descontentamento:

--Vamos lá... Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre.

Tinham já sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a estrada, quando o ferrador exclamou:

--Lá me ficou a minha clavina encostada á sebe. Vão indo, que eu venho já.

O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a relva das paredes marginaes da estrada, quando Simão ouviu gritos. Conjecturou com certeza o que era.

--O João lá está a fazer justiça!--disse o arreeiro. Deixál-o lá, meu amo, que elle é homem que sabe o que faz.

João da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podão ensanguentado.

--Você é cruel, senhor João!--disse o academico.

--Não sou cruel--disse o ferrador--o fidalgo está enganado comigo; é que diz lá o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que é mais velho. Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou então o melhor é não se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha consciencia socegada.

A justiça que prove, se quizer; mas não ha de ser por que lh'o digam aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo.

Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se ter ligado com tal homem.

VII.

O ferimento de Simão Botelho era melindroso de mais para obedecer promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de alveitaria. A bala passára-lhe de revez a porção muscular do braço esquerdo; mas algum vaso importante rompêra, que não bastavam compressas a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simão Botelho.

Mais que as dôres e os receios da amputação, o mortificava a ancia de saber novas de Thereza. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda, precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de Gastro-d'Aire. Ninguem, porém, ouvira imputar o assassinio a determinadas pessoas.

Na tarde d'esse dia recebeu Simão a seguinte carta de Thereza:

«Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu não sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu não posso adivinhar. Meu pae tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim não me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; senão eu nem tinha modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. Não sei o que ella me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu não pude entender... Tua mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto...

Disse-me tua mana que os moços de meu primo tinham apparecido mortos perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi estás; mas não me deram tempo. Meu pae de hora a hora dá passeios no corredor, e solta uns ais muito altos.

Ó meu querido Simão, que será feito de ti?... Estarás tu ferido? Serei eu a causa da tua morte?

Diz-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa situação.

Tem confiança n'esta desgraçada, que é digna da tua dedicação.... Chega a pobre: não quero demoral-a mais... Perguntei-lhe se se dizia de ti alguma coisa, e ella respondeu que não. Deus o queira.»

Respondeu Simão a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu ferimento fallava tão de passagem, que dava a suppôr que nem o curativo era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o, assim que as ameaças de convento passassem a ser realisadas.

Entretanto Balthazar Coutinho, chamado ás authoridades judiciarias para esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhára de Castro-d'Aire. Accrescentou que não sabia que elles tivessem inimigos em Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpções.

Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que não podia alumiar a justiça, e vinha a ser que o mato, nas visinhanças do local, fôra chapotado. N'esta escuridade a justiça não podia dar passo algum.

Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simão Botelho. Fôra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvêl-os no mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados não mereciam a pena d'um desforço que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simão Botelho não podiam adduzil-as. Áquella hora o suppunham elles a caminho de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a esperança de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local em que o tinham assaltado.

Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta. Escreveu á prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para negociar as licenças ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o velho algum incidente no espaço de tempo que medeava até se conseguirem as licenças, resolveu não ter comsigo Thereza, e solicitou a retenção temporaria d'ella n'um convento de Vizeu.

Acabára Thereza de lêr e esconder no seio a resposta de Simão Botelho, que a pobre lhe enviára ao escurecer, pendente de uma linha, quando o pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu, tomando uma capa e um lenço.

--Vista-se como quem é: lembre-se que ainda tem os meus appellidos--disse com severidade o velho.

--Cuidei que não era preciso vestir-me melhor para sahir á noite...--disse Thereza.

--E a senhora sabe para onde vai?

--Não sei... meu pae.

--Então vista-se, e não me dê leis.

--Mas, meu pae, attenda-me um momento.

--Diga.

--Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo...

--E d'ahi?

--De certo não caso; morro, e morro contente; mas não caso.

--Nem elle a quer. A senhora é indigna de Balthazar Coutinho. Um homem do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento.

--Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes.

--Não quero reflexões. D'aqui a pouco appareça-me vestida. Suas primas esperam-a para a acompanharem.

Quando se viu sósinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever a Simão. Áquella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos que a protegesse, e désse forças a Simão para resistir ao golpe, e guardar-lhe constancia através dos trabalhos que succedessem. Depois vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o tinteiro, o papel, e o massête das cartas de Simão. Sahiu do seu quarto, relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o pae, pediu-lhe licença para levar comsigo aquella devota imagem.

--Lá irá ter--respondeu elle.--Se tivesse tanta vergonha como devoção, seria mais feliz do que ha de ser.

Uma das primas, irmãs de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe:

--Ó menina! estava ainda na tua mão dares remedio á desordem d'esta casa...

--Qual remedio?!--perguntou Thereza com artificial seriedade.

--Diz a teu pae que não duvidas casar com o mano Balthazar.

--O primo Balthazar não me quer--replicou ella, sorrindo.

--Quem te disse isso, Therezinha?

--Disse-m'o meu pae.

--Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem. Queres tu que eu lhe falle?

--Para que?

--Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós.

--Estás a brincar, prima!--redarguiu Thereza.--Eu hei de ser tua cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça.

--Então, vamos?!--disse o velho.

--Estou prompta, meu pae.

Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:

--Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo.

As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração» uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor.

--Que diz a menina?!--perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho.

--Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.

--Não diga minha senhora--atalhou a escrivã.

--Como hei de dizer?

--Diga «nossa madre prioreza.»

--Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem.

--Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir bem--tornou a nossa madre prioreza.

--Não?!--disse Thereza com sincera admiração.

--Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar lá fóra as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de noviças, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a.

Thereza não redarguiu: fez um gesto de respeito á mestra de noviças, e seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.

